Nem mesmo o meio milhão de verbetes
(além de gírias, regionalismos, neologismos e termos técnicos não catalogados)
do Aurélio ou do Houaiss parecem ser suficientes para impedir que nosso falastrão
povo recorra a novos termos para exercer sua voracidade verborrágica-papagatória.
Tudo bem, termos coloquiais são
bem-vindos, enriquecem e arejam nossa língua, adaptando-a aos novos tempos e
costumes.
Mas um em especial me soa
particularmente irritante e não o consigo digerir: BORA. “Bora criar uma palavrinha
nova?” “Bora lá!” Grrrr!
E assim nasceu o chulo e varzeano 'bora',
termo originário de papo furado de bebuns que se espalhou como erva daninha nas
rodas de desocupados e hoje é usado ad nauseam nos mais variados
contextos, sobretudo por aqueles chegados a uma iconoclastia fonética.
Criei uma aversão insanável por essa
palavrinha insossa. Quando alguém me vem
com 'bora fazer tal coisa', tenho um impulso irresistível de rebater:
"bora pqp!"
O 'bora' é uma contração espúria das
palavras 'vamos’ + ‘embora '. Mas como utilizar 2 palavras ao invés de uma é exigir
demais dos neurônios do brasileiro, 'bora usar bora'. Como desgraça pouca é bobagem,
alguns recorreram a um encurtamento mais radical, substituindo o quilométrico
‘bora’ por ‘bó’.
A expressão 'vamos embora"
significa sair, partir, dar o fora, escafeder-se, picar a mula, cair fora, puxar
o carro, bater asas, sumir do mapa, tirar o time de campo. Mas quando dizemos
'bora pra casa’ não queremos dizer 'vamos embora pra casa', mas apenas 'vamos pra
casa'.
Ou seja, o 'bora' (abreviatura de
'embora') na verdade não substituiu o 'vamos embora’, mas apenas o 'vamos'.
Então carece perguntar: qual é o
problema de, ao invés do redundante 'bora', usar-se, como sempre fizemos, o consagrado
"VAMOS", que por décadas cumpriu bravamente sua função semiótica?
Não, os gostosões transgressores tinham de desenterrar o mequetrefe 'bora'.
Não bastasse tantas objeções, o
advento do 'bora' criou uma dor de cabeça para os linguistas. Quando
candidamente dizíamos ''vamos ao cinema", o 'vamos' representava na frase
a conjugação do verbo ‘ir’ na 1a pessoa do plural no tempo presente, denotando
ação. Gramaticamente perfeito! Quando dizemos "bora no cinema", o
'bora' é sintaticamente inclassificável, uma excrescência linguística que
dispensa o indispensável verbo da oração, já que não existe verbo 'borar'.
Por essas e outras, no lugar do
chinfrim 'bora', recomendo enfaticamente expressões mais amigáveis como 'vamos
nessa', 'vamo lá', 'vamo que vamo', 'toca pra frente', 'fechou', 'manda ver’.
Ou simplesmente o simpático 'simbora'.
Bora expurgar o 'bora' e bora sermos
felizes.

Antes deste texto, eu nunca havia pensado em "bora" como uma palavra transgressora do nosso idioma. Observando sua explicação, não tenho como discordar. Bora como tradução de vamos é descabido. Mas confesso que já incorporei o "bora", que no Ceará usamos também como vambora. Esse intruso da nossa língua foi se chegando, ganhando espaço e hoje não consigo expulsá-lo dos meus diálogos, acho até bonitinho. Bora relaxar e perdoar esse mau uso.
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