Quando eu era criança, deixava-me
levar pela fantasia de ser um super herói que tudo podia. Mas, ao contrário do
Batman, não agia apenas no combate aos folclóricos criminosos de Gotham City.
Minha área de atuação era mais abrangente. Ocupava o cargo de presidente, ou
talvez imperador, do Brasil. Não, do mundo!
Pois as fronteiras nacionais não seriam suficientes para barrar meu
desejo infinito de servir a cada um dos habitantes, até os das regiões mais
remotas e inóspitas do planeta. E não havia nada nem ninguém que pudesse
limitar meu poder absoluto nem minha disposição de cumprir esse desígnio.
Mas, isso não me fazia um ditador
autocrático. Governava em sintonia com o que pensava a maioria das pessoas ou,
pelo menos, aquelas 'de bem', as que, como eu, ansiavam por um mundo melhor
para se viver.
Um compromisso firmado entre mim,
minha imaginação e o resto da humanidade estabelecera que jamais faria uso de
minha condição de liderança para punir quem discordasse de minhas iniciativas
nem cogitaria em calar meus críticos, sobretudo os bem intencionados,
merecedores de todo o respeito.
Capitanearia eu uma legião de
subordinados (ou melhor, colaboradores) que cuidariam de manter a paz e a harmonia
social, sem precisar ferir ninguém, nem usar armas letais. Sua função seria apenas a de colocar em
prática determinações cujo propósito era tornar todos mais felizes.
Eu firmara um contrato juramentado em
que constava uma declaração de que eu jamais valeria de minha posição de
liderança para me locupletar ou obter benesses, já que não seria movido por
ambições pessoais. Meu objetivo era apenas o de consertar o que estava errado
para bem da coletividade.
A compensação que me bastava para
esse árduo trabalho voluntário era a de ser amado pelo povo por tornar nosso
mundinho comum um lugar mais agradável de se habitar, para mim e todos os
demais seres humanos, a quem, indistintamente considerava entes queridos. Não
esquecendo dos demais seres viventes, animais e plantas.
No meu mundo, o sofrimento, ao menos
aquele causado por outros seres humanos, seria banido da face da Terra e todos
levariam uma vida digna sem privações.
Os super ricos, movidos por
inaceitáveis impulsos de ambição, seriam contidos em seu furor cumulativo por
regras que impedissem abusos, para que os demais tivessem direito a seu
quinhão.
Os policiais deveriam ser corretos e
prestativos, sem deixar de combater o crime com rigor. Os homens maus iriam
para a cadeia e cumpririam a sentença integralmente. Os reincidentes
teriam severas sanções. Nada de
condescendência com os mal intencionados.
Os delegados e juízes corruptos ou
que saíssem da linha, seriam sumariamente afastados, sem quaisquer honorários.
Tais cargos seriam ocupados por homens e mulheres íntegros com salários dignos,
mas modestos, sem penduricalhos. A justiça seria rápida e eficaz, regida por um
enxuto conjunto de leis que todos entendessem.
Cessariam também os benefícios
concedidos a políticos, cujos vencimentos seriam compatíveis com os da
população em geral, sem mordomias e auxílios indiretos. Quem escolhesse a vida
pública, o faria por vocação sem possibilidade de usufruir materialmente de sua
posição.
A melhor remuneração seria a do
professor, a função mais nobre da comunidade, a de formar através da educação
de qualidade, cidadãos éticos, responsáveis social e ambientalmente.
No plano internacional, um simples
decreto mundial poria fim em todas guerras e conflitos. As divergências seriam
resolvidas civilizadamente, em torno de uma mesa de negociação. As demandas e
divergências seriam apreciadas por equipes competentes e imparciais com poder
decisório.
A miséria e a fome, como num passe de
mágica, seriam extintos. Alcançar isso é muito mais fácil do que parece. Bastaria redirecionar os recursos
orçamentários antes desperdiçados em inúteis armamentos, destinando-os a melhorar
a saúde, a educação e promover a melhoria na qualidade de vida.
Enfim, tudo o que o senso comum
reconhece como desejável, seria implementado com a força de minha varinha de
condão, aliás, minha caneta justiceira.
Essa carta de intenções, submetida às
pessoas de todas as nacionalidades, raças e religiões, certamente seria
aprovada com louvor pois atenderia ao clamor universal.
No fundo, o que eu propunha era o que
todo mundo queria. "É tudo tão simples. Por que os adultos complicam
tanto?" pensava eu. Se me colocassem lá em cima e me dessem condições, eu
me comprometeria a realizar tudo isso... e muito mais.
Na minha inocente onipotência, não
compreendia por que ações tão óbvias, aparentemente consensuais, enfrentam
tanta resistência.
À medida que fui galgando na idade e
no conhecimento de como as coisas funcionam, tomei um choque de realidade,
passei a devanear cada vez menos e tomei consciência de minha insignificância
ante a tarefa hercúlea a que me propusera e da incapacidade de mudar mesmo as
coisas mais banais e próximas.
Hoje, quando vejo tantas
inexplicáveis brutalidades sendo cometidas ao meu redor, invoco com saudade o
super herói aposentado que, empoderado pelos sonhos de uma criança, acreditou
que podia transformar um mundo dominado por um bando de adultos sem graça.
