quarta-feira, 1 de julho de 2026

QUANDO JESUS ENCONTROU OS ORIXÁS

 

Certas manhãs nascem diferentes. Não porque o sol brilhe mais intenso, mas porque o mundo resolve cochichar histórias para quem tem ouvidos para escutar.

Numa dessas manhãs, Jesus caminhava descalço, sozinho, por uma estrada de terra vermelha. O chão ainda guardava o frescor do orvalho, e a poeira fina subia entre seus dedos a cada passo. Carregava ele um manto simples, um sorriso sereno e o hábito de saudar árvores e animais.

Ao chegar a uma velha encruzilhada, sob a poeira suspensa, o ar pareceu subitamente mais denso. Ali sentado sobre uma pedra pontiaguda, encontrou um homem vestindo vermelho e preto e um chapéu desabado que sombreava os olhos vivos. Girava uma bengala entre os dedos e exibia um sorriso enigmático. O silêncio que os cercava era quase palpável, como se o tempo hesitasse diante do cruzamento.

 Olá, viajante. O dia amanheceu largo para quem anda sozinho — disse o homem, voz rouca, cortando o silêncio com a precisão de uma lâmina afiada.

— A paz esteja convosco — respondeu Jesus.

O homem inclinou a cabeça, o sorriso expandindo-se em desafio.

— Paz é coisa que se procura no fim. Aqui no meio, o que manda é a escolha. E toda escolha cobra seu pedágio.

Era Exu. Não o das histórias mal contadas, personagem sombrio dos malfeitos que o preconceito inventou. Era o senhor das passagens, das escolhas, da palavra que abre caminhos e revela tropeços.

— Vai para onde? — perguntou Exu, tocando levemente a bengala ao solo, testando a firmeza do andarilho.

— Para onde houver alguém precisando de uma palavra de esperança, replicou Jesus sem recuar.

— Isso é o que não falta nesse mundinho.

Ambos sorriram. A tensão desfez-se no ar

Jesus e Exu continuaram caminhando juntos.

De repente, a calmaria foi interrompida. O vento começou a dançar de um jeito diferente, soprando em rápidas lufadas que ergueram a poeira e fizeram as folhas girar como se estivessem executando uma coreografia antiga. Envolta por tecidos claros que pareciam feitos do próprio ar, surgiu uma vistosa mulher, com os olhos faiscando como relâmpagos contidos.

— Bons ventos os trazem, forasteiros — disse ela, a voz vibrando como um trovão distante.

Era Iansã.

— As pessoas temem as tormentas, mas ignoram que é o vento quem limpa o céu. E leva embora o que insiste em ficar.

Jesus, segurando firme seus longos cabelos esvoaçantes e seu manto que se rebelava no corpo, respondeu:

— Às vezes, é preciso perder o que nos prende para encontrar o que nos chama.

Iansã sorriu satisfeita e o vento amainou, transformando-se numa brisa suave.

Enquanto Exu retornava à sua morada na encruzilhada, Jesus seguia em frente.

O calor do dia começou a apertar e surgiu o rumor de água corrente.

À margem de um riacho cristalino, onde o aroma de lírios e água fresca acalmavam os sentidos, emerge a silhueta cativante de Oxum. O reflexo do sol na água criava faíscas douradas ao redor de suas mãos. Observava ela os peixes bailarem entre as pedras.

Ao ver o andarilho exausto, ela prontamente lhe ofereceu água em uma cuia reluzente.

— Toda sede merece respeito.

Jesus, sentindo-se acolhido, aceitou de bom grado e agradeceu.

O contraste entre a urgência do mundo e a calmaria daquele córrego era profundo. Oxum olhou nos olhos dele e perguntou:

— Reconheço em você um sábio. Então, me esclareça, por favor, essa questão que me tortura: por que tanta gente acredita que a força necessita de barulho?

— Porque não lhes foi ensinado escutar o silêncio.

Ela sorriu com a mesma felicidade que invade um curso da água quando os raios do sol da manhã acariciam sua superfície.

Jesus continuou sua jornada de destino incerto, deixando o vale e subindo a serra. onde o vento uivava e a gravidade parecia confrontar a pequenez e a fragilidade humanas, quando avistou Xangô.

Recolhido em seu trono de pedra bruta, observava o horizonte como quem pesa as coisas do mundo numa balança invisível.

— Justiça... — balbuciou, a voz grave reverberando no paredão de pedra, como querendo concluir um pensamento inacabado. — Todos imploram por ela.

Ele olhou para Jesus, medindo a estatura espiritual daquele homem franzino. Fez uma pausa e completou:

— Mas o que os homens desejam é apenas vencer.

Jesus assentiu, sentindo o peso daquela verdade esmagadora.

— Amar a justiça exige coragem. Amar a vitória nem tanto.

Os dois trocaram um olhar de cumplicidade. abençoando o veredicto silencioso que compartilhavam.

Jesus prosseguiu. Ao descer a montanha, a vegetação fechou-se em uma mata densa. O ar tornou-se úmido, com cheiro de musgo, resina e folhas pisadas.

Na beira da mata, um homem de porte firme e olhar certeiro observava as copas das árvores, perfeitamente camuflado na proteção das sombras. Um pequeno pássaro pousou-lhe no ombro, sem medo.

Era Oxóssi. A imensidão da floresta parecia intimidar o intruso, mas Jesus avançou com reverência e sem temor. O caçador apresentou-se com as seguintes palavras:

— A floresta nunca fala alto — disse — Mesmo assim, nada do que acontece lhe escapa.

Jesus acercou-se com mais um passo e passou a mão sobre o tronco rugoso de uma árvore centenária, sentido a vida pulsar sob a casca grossa.

— Meu Pai também costuma ensinar usando sementes.

Oxóssi abriu um sorriso cordial, transformando a tensão da mata em hospitalidade.

— Sei disso. Ele é um excelente jardineiro. Formaríamos uma ótima dupla.

Jesus deixou-o, em direção a uma praia isolada, onde as ondas vinham e iam como se o mar, através delas, respirasse. O sal grudava-lhe na pele e o som rítmico do oceano quebrava na areia branca.

Ali avistou Iemanjá.

Vestida com as cores da espuma, ela observava o oceano com a serenidade de quem reconhece todas as lágrimas que nele desaguam. O horizonte infinito trazia uma melancolia profunda, quase dolorosa.

— Os seres humanos choram muito.

Jesus aproximou-se, parando onde a água borbulhante alcançava seus pés. Respondeu:

— Porque amam muito.

Ela concordou, com o olhar medindo a ida e a vinda das marés.

— E continuam amando, mesmo depois de sofrer.

— Talvez seja essa sua maior coragem.

Por um instante, ninguém disse nada. Nem precisava. As ondas falaram por ambos, engolindo a dor do mundo no balanço das águas.

Quando o sol começou a se esconder, tingindo o céu de tons de brasa e púrpura, Exu reapareceu, na margem da estrada.

— Engraçado..., comentou, surgindo da penumbra.

— O quê? — perguntou Jesus, sentando-se a seu lado.

— Estava aqui meditando: cada povo inventa um jeito diferente de procurar o sagrado.

Jesus, com olhar perdido no horizonte, retrucou:

— Verdade. E, quase sempre, se desentendem, achando que estão do lado da razão. Como se a razão tivesse um lado.

Exu deu uma sonora gargalhada que ecoou ao longe, afugentando os últimos pássaros do dia.

— Sendo que o caminho permanece lá. Indiferente às batalhas que se fazem em seu nome.

Como velhos amigos, os dois sentaram-se na mesma encruzilhada onde tudo havia começado, ensaiando um final para o encontro.

Alguns passantes estranharam a cena. Uns viram apenas dois homens comuns conversando. Outros juravam ter presenciado uma roda de luz que os cercava. Houve quem dissesse que eram conhecidos de longa data. Também apareceu quem garantisse que a cena não passava de miragem.

O certo é que ninguém escutou o que falavam. Talvez porque certas conversas não tenham sido feitas para ser reveladas.

Quando a noite caiu de vez, cobrindo a paisagem com um manto de estrelas, cada um retomou a direção que lhe cabia.

Antes de partir, Exu, ajeitando o chapéu, perguntou com respeito:

— Então, Mestre (permita-me chamá-lo assim?). Quando nos veremos de novo?

Jesus respondeu:

— Todo encontro sincero deixa uma porta aberta.

Exu bateu a ponta da bengala no chão e um estalo seco ecoou bem longe.

— Que os caminhos então permaneçam abertos.

—Os corações também.

Se tal encontro aconteceu de verdade, ninguém sabe com certeza. Mas quem relata costuma terminar sempre do mesmo jeito: dizendo que, naquela encruzilhada, ninguém saiu com a última palavra.

 


sexta-feira, 19 de junho de 2026

OPACA COPA

 

Em maio de 2018, escrevi uma matéria exaltando a Copa do Mundo que estava prestes a se iniciar, naquela oportunidade, na Rússia. Nela, enaltecia o espírito esportivo que se sobrepunha às divergências entre as nações. Todos se rendiam àquela saudável competição em que as delegações de cada país se submetiam às normas estabelecidas para ganharem o direito de colocar seus 11 melhores em campo.

A Copa, segundo o texto, era uma rara oportunidade que possibilitava o congraçamento universal. As diferenças eram deixadas de lado em nome da disputa esportiva. Países com regimes de governo tão distintos participavam em igualdade de condições e a FIFA, que a todos congrega, incumbia-se de fazer valer requisitos equânimes para os participantes cumprirem.

Transcrevo a seguir trechos da referida matéria:

“Parece surreal que nações com culturas e sistemas de governo tão díspares, com divergências aparentemente irreconciliáveis, (...), disponham-se, respeitosas, a participar de um evento coletivo, obedecendo obsequiosamente a suas estritas regras.”

“O país-sede empenha-se em receber de braços abertos os visitantes. Nenhum anfitrião nessa hora quer dar vexame e passar por troglodita intolerante. A adequada recepção de convidados garante uma boa imagem perante bilhões de espectadores grudados na telinha”.

Aos meus olhos crédulos, a Copa era um oásis de civilidade e convivência num deserto de intolerância e crueldade.

Decorridos meros 8 anos, o cenário mudou tão radicalmente que esse cândido artigo perdeu totalmente a validade, atropelado por inimagináveis circunstâncias.

Hoje, ao revisá-lo, não senti vergonha de tê-lo escrito. Senti saudade. Saudade de um tempo em que ainda se podia acreditar que um torneio de futebol era capaz de reunir diferenças sob um conjunto comum de regras. Talvez o mundo nunca tenha sido da maneira que idealmente concebi. Talvez eu fosse bocó ou apenas tenha envelhecido o suficiente para permitir que caísse a ficha da infame realidade.

Ao assistir ao que vem acontecendo no mundo nesses últimos tempos, verificamos que as mudanças da Copa de 2026 para a Copa de 2018 fazem parte de um pacote maior de perversidades que impactou as relações internacionais, muito além do futebol.

Um acontecimento em particular parece estar no centro desse tornado devastador: a ascensão ao poder em uma das nações-sede de um governante pouco afeito a patrocinar um ambiente de confraternização universal e pouco receptivo a receber visitantes indesejados. Seu lema: “America First”.

A primeira a se vergar a esse turbilhão de insensatez foi a FIFA, organização cuja seriedade e idoneidade antes pareciam um anteparo a interferências não provindas da arena esportiva. Aceitou calada as arbitrariedades, preocupada mais nos resultados financeiros do que na lisura dos procedimentos.

Ao sediar a Copa de 2026 (ao lado do México e do Canadá), os EUA, deixaram claro que os rituais previstos deveriam se submeter às novas diretrizes governamentais. Pipocaram episódios lamentáveis como as dificuldades impostas à entrada e ao trânsito de estrangeiros, não apenas torcedores, mas também árbitros, atletas e integrantes das equipes técnicas participantes do torneio, especialmente daqueles provenientes da África, da América Latina e do Oriente Médio, tratados como escória.

O mínimo a esperar para um país que se oferece como sede é proporcionar condições aceitáveis para o pleno exercício da atividade esportiva, bem como oferecer hospitalidade para os torcedores que se dispuseram a viajar de sua terra natal para incentivar sua equipe. Esse princípio básico de cortesia foi desconsiderado pelos negligentes anfitriões. Com anuência da FIFA.

Contraditoriamente, a mesma Copa que abriga um número recorde de seleções deverá passar para a história como a mais segregacionista de todas.

Nem mesmo em eventos esportivos equivalentes ocorridos em regimes autoritários como na Itália em 1934 (Copa do Mundo, sob Mussolini) ou na Alemanha em 1936 (Olimpíadas, sob Hitler), as delegações visitantes e os torcedores receberam tratamento tão humilhante e discriminatório. Ao contrário, os ditadores citados procuravam vender ao mundo a prevalência de uma atmosfera de tolerância e equidade para dar credibilidade ao evento sediado.

Para não perder o foco, voltemos nossa atenção ao velho esporte bretão. À Copa sem brilho, à Copa Opaca, a mesma que Mr. Trump e Mr. Infantino (presidente da FIFA) estão se empenhando em conspurcar.

O fato é que aos trancos e barrancos, o evento esportivo prossegue, cumprindo sua agenda de jogos. Os embates em campo continuam ocorrendo, afunilando o número de candidatos rumo à decisiva batalha final. As arquibancadas continuam a vibrar e os estádios permanecem cheios, apesar dos preços proibitivos dos ingressos, destinados a afastar os menos aquinhoados. Os mesmos que, nos campos de várzea, ajudaram a fazer do futebol o esporte mais popular do planeta e, com sua espontaneidade, geraram artistas em lidar com a pelota, como Pelé e Garrincha.

Não sei ainda quem vai ganhar essa Copa. O certo é que, ao final, a taça será erguida, haverá comemoração e uma bela festa de encerramento que procurará encobrir os podres do percurso.

Mas entre mortos, feridos, lesionados e barrados no baile, a verdade é que, seja quem for o campeão, sairemos todos um pouco derrotados.

 

 

sexta-feira, 12 de junho de 2026

O AMOR DE CRISTO

São Paulo, cidade agraciada com o nome do mais célebre apóstolo do cristianismo, serviu de palco neste mês de junho a dois eventos de naturezas aparentemente irreconciliáveis que, no entanto, guardavam algo em comum: a capacidade de aglutinar multidões. De um lado, a Marcha para Jesus e, de outro, a Parada LGBT+.

Ao presenciar essas duas manifestações aparentemente tão díspares, uma dúvida me veio à mente: em qual delas Jesus caminharia?

A pergunta pode soar provocativa, até insolente. Afinal, de um lado, temos uma manifestação de caráter declaradamente religioso dedicada à enfatizar a fé em Jesus. De outro, um evento aparentemente pagão e depravado, com pessoas em trajes provocativos que representam o oposto do que a tradicional religiosidade cristã professa. Corpos seminus entregues ao hedonismo, música alta e danças sensuais que ferem o sagrado decoro litúrgico.

Mas se perscrutarmos além das aparências e de pré-julgamentos, a resposta não seria assim tão óbvia.

A Marcha para Jesus, embalada com música gospel e refrões de louvor ao Senhor, reuniu legiões de fiéis disciplinados, com vestes discretas e cabelos alinhados.  O que me leva a imaginar que Jesus com suas sandálias de tiras, suas vestes rústicas, barbudo e cabeludo (mais próximas à estética hippie) causaria certo desconforto.

Em contraste, na Parada LGBT+, ao som de batidas eletrizantes, cada um se apresenta como melhor lhe convém. Paetês, plumas, glitter, leques e vestimentas cintilantes esparramam-se espalhafatosamente pela avenida numa explosão de cores. Reivindicam, a seu modo, reconhecimento e respeito, glorificando a diversidade e celebrando a Vida. Partindo da ideia de que Deus é Vida, não deixa de ser instigante pensar que essa manifestação pode ser lida como uma espécie de experiência espiritual psicodélica.

Apesar de Marcha para Jesus, em tese, aceitar qualquer indivíduo que queira participar, na prática, os discursos prevalecentes são as conhecidas ladainhas pentecostais. Nesse meio, não são recebidos com entusiasmo aqueles que professam outros credos, como os que idolatram imagens (católicos) ou os que acreditam em reencarnação (espíritas). São especialmente mal vistos (talvez com uma dose disfarçada de racismo) os que praticam religiões de origem africana (umbanda, candomblé) cujos deuses e mentores espirituais (orixás etc.) são comparados a demônios.

Também são segregados os que têm condutas sexuais condenáveis, como gays e travestis que, reprimidos e enquadrados, deveriam se submeter a ‘curas gay’ para se comportar como um ‘temente a Deus’.

Verdade seja dita, esse comportamento não é generalizado, havendo comunidades evangélicas ‘progressistas’ que acolhem pessoas necessitadas independentemente de sua conduta pretérita e sua orientação sexual. Mas o pensamento mainstream estimula uma atitude persecutória contra homossexuais, feministas e aquelas que praticaram aborto, ainda que sejam meninas vítimas de estupro, todos sujeitos a arder eternamente no fogo do inferno.

Já a Parada Gay aceita de bom grado todos os que queiram participar, sem exigir profissão de fé ou filiação religiosa. Nela convivem católicos, evangélicos, espíritas, umbandistas, budistas, judeus, muçulmanos e ateus. São também bem recebidas pessoas de diversas orientações sexuais: homossexuais, heterossexuais, bissexuais e transexuais. Onde alguns enxergam promiscuidade, a primeira palavra que me ocorre é inclusão.

Lendo os Evangelhos, encontramos um Jesus que se aproxima justamente daqueles que a sociedade preferia manter à margem. Devemos nos reportar às ações do Mestre que acolhia indistintamente prostitutas, leprosos, deficientes, mulheres (vistas à época como categorias inferiores), gentios que professavam outras religiões e samaritanos vindos de outras paragens. O amor divino não se destina apenas aos integrantes de um círculo fechado, reservado aos moralmente impecáveis. Como um coração de mãe, no colo de Deus Pai havia lugar a todos os que praticassem o bem.

Na marcha que se diz cristã, outra coisa que me chamou a atenção, a profusão de bandeiras de Israel. Nada de errado em celebrar os vínculos entre duas tradições com raízes históricas próximas. O que me intriga é a idealização quase religiosa de um Estado que, como qualquer outro, está sujeito a críticas. Pergunto-me por que uma manifestação dedicada a um líder espiritual que pregava a paz precisa demonstrar identificação com um país envolvido em constantes conflitos territoriais com vizinhos.

 Enquanto a guerra produz milhares de vítimas civis inocentes em Gaza e gera denúncias de graves violações de direitos humanos, muitos líderes religiosos parecem demonstrar solidariedade incondicional a um dos lados do conflito, sem a mesma empatia pelas sofridas populações palestinas atingidas. Tenho dificuldade em conceber Jesus alinhado à lógica de um apoio seletivo. Consigo imaginá-lo, isso sim, ao lado das vítimas, dos refugiados, dos que perderam familiares e seus lares e não têm para onde fugir.

Fixados numa visão literal do Antigo Testamento, essa vertente evangélica encara que os hebreus têm direito bíblico à Terra de Abraão, ainda que isso implique em impor sofrimento aos ‘infiéis’ que ali residiam.

Discriminam eles os filhos de Alá, assim como os de Exu, os de Tupã. Trata-se de uma lógica perversa que hierarquiza crenças e elimina a complexidade de diferentes expressões espirituais, que a seu modo, buscam o bem, a ética e o desenvolvimento pessoal.

Também não consigo evitar uma certa estranheza diante da prosperidade dos pastores midiáticos. Jesus perambulava pelas estradas da Galileia sem patrimônio e sem qualquer sinal de ostentação além da força da sua palavra. Passados dois mil anos, vemos impérios milionários de comunicação, jatinhos particulares, e pregadores que parecem mais próximos de grandes empresários do que de humildes pescadores. Isso sem falar da insistente associação entre fé e prosperidade financeira e da recomendação para recolhimento do dízimo, transformado em requisito para contrapartida da graça divina. O que diria Jesus ao encontrar a fé transformada em produto, o púlpito convertido em plataforma de influência e a contribuição dos fiéis apresentada como caminho para bênçãos divinas?

Os ensinamentos de Jesus ressaltavam claramente a preferência pelos pobres e necessitados em versículos como “é mais difícil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus” (Mateus, 19:24). Essa profissão de amor pelos despossuídos não parece se sintonizar com os mandamentos dos pastores que ostentam vidas de luxo. Tampouco a centralidade conferida à contribuição financeira induzida dos fiéis que parece mais se afinar com o comportamento mercantilista dos vendilhões que assaltavam os templos e provocando a ira de Jesus.

Retomando a palavra do apóstolo que emprestou seu nome à metrópole que abriga tribos tão diferentes, e dizia “aceitem-se uns aos outros da mesma forma que Cristo os aceitou, a fim de que vocês glorifiquem a Deus” (Romanos 15:7), volto a indagar: qual seria a escolha de Cristo?