terça-feira, 21 de abril de 2026

É DIFÍCIO

 

“Da força da grana que ergue e destrói coisas belas” (Caetano Veloso, Sampa)

Quem tem, como eu, a desventura de residir em São Paulo, já se deu conta, angustiado, da incontrolável proliferação de novos prédios que vêm pipocando pela metrópole, em especial nos bairros mais valorizados (e cobiçados). São torres que abrigam escritórios e apartamentos para todos os tamanhos e gostos que brotam como ervas daninhas por todos os cantos, à revelia de qualquer projeto de ordenação urbana. Atendem menos às carências da cidade do que à voracidade da especulação imobiliária e dos interesses imediatistas das incorporadoras, sem que o poder público imponha restrições com base nos impactos sobre a malha viária e a já combalida infraestrutura (saneamento, abastecimento de água, energia elétrica, transporte, etc.).

Nessa toada, diariamente, somos abordados nas ruas por vendedores bem trajados que tentam nos passar a lábia para investir nossas parcas economias em empreendimentos imobiliários que sequer saíram do papel. Prometem-nos um novo conceito de habitação para nossos filhos e bichinhos, um futuro dourado com sustentabilidade, proximidade à natureza, mobilidade e bem estar, o mesmo que seu projeto está no caminho de inviabilizar. Tentam nos convencer a nos encaixotar em estúdios de luxo cercados por muros e dispositivos de segurança que nos abriguem do assédio de assaltantes e pedintes sem-teto, marginalizados pelo mesmo processo que este modelo de habitação ajuda a perpetuar.

São milhares de edifícios em construção, que nos dão a sensação de que vivemos sob um eterno e inacabado canteiro de obras e nos infernizam dia e noite com ruídos incessantes de guindastes, bate-estacas, britadeiras e caminhões.

Cada edifício que se ergue em uma zona excessivamente adensada promete despejar pelas vias estreitas do entorno dezenas (talvez centenas) de novos veículos motorizados que já não se locomovem, apenas existem, fazendo do hábito de transitar um exercício de paciência e resignação.

Esse desvairado furor construtivo abarrota os cofres das incorporadoras e abastece as propinas de agentes públicos omissos. O único propósito que não cumpre é o de atender à necessidade de moradias, voltado que está a nichos específicos e lucrativos, distantes das reais necessidades da maioria da população que continua habitando casebres insalubres, ocupando margens de represas e engordando favelas.

Segue a cartilha do neoliberalismo extremo que obedece exclusivamente aos ditames do mercado, enriquece uns poucos empresários e investidores, empobrece a população e a urbe em sua vocação de núcleo de integração das atividades de moradia, trabalho e lazer dos cidadãos.

A capital paulista, um dos maiores polos econômicos e culturais da América Latina, não teve seu crescimento acompanhado por gestões compatíveis com sua pujança. Seus habitantes, apesar de afetados por essas mazelas, não elegeram governantes capazes de lhes proporcionar benefícios duradouros, já que prezam apenas iniciativas com prazo de validade inferior a seu mandato de quatro anos.

Esse processo perverso originou-se com o prefeito Faria Lima, que conferiu prioridade a grandes obras viárias que, além de consumirem grande parte do orçamento municipal, possibilitaram malversação das verbas. Isso ocorreu durante a gestão Maluf que torrou os escassos recursos drenados da arrecadação de impostos em túneis e viadutos, incluindo o monstrengo Minhocão, um monumento ao mau gosto que ajudou a degradar o centro da cidade e tornou-se um elefante branco encravado entre tradicionais e históricas vias existentes, hoje sucateadas. Essas obras faraônicas de necessidade questionável ajudaram também a legitimar a cultura do ‘rouba mas faz’ encampada pelos eleitores que não se importam em ver parte do dinheiro público apropriado por políticos desonestos, desde que sejam realizadas obras de visibilidade.

O resultado dessas escolhas equivocadas está no que a cidade hoje se transformou: excesso de concreto, escassez de áreas verdes, parques e espaços de socialização e convivência. Consagrou-se a prevalência da cultura do automóvel poluidor e consumidor de combustível fóssil. Ficaram relegados a segundo plano calçadas, pedestres, ciclistas e transporte coletivo. Isso tornou a metrópole paulistana que já não prima pela beleza, ainda mais hostil para seus moradores.

A desgraça da vez é a excessiva permissividade atual para o erguimento de prédios, sem qualquer controle. Nosso atual prefeito e seu desvirtuado Plano Diretor foram em grande parte responsáveis por permitir essa verticalização desenfreada. Mas, verdade seja dita, contou com a preciosa colaboração de uma das piores câmaras municipais da história, composta em sua maioria por vereadores mais preocupados com pautas de costumes ou ideológicas do que com o planejamento urbano, dando as costas para a melhoria de vida da população que deveriam representar.

Nossa tão maltratada Sampa, já vitimada por infortúnios como violência, assaltos, barulho, falta de escolas, postos de saúde e, paradoxalmente, falta de habitação, vai assim aos poucos se degradando, com a perspectiva de tornar-se inabitável em algumas décadas. O erguimento desordenado de edifícios é o mais novo ingrediente para compor esse cenário distópico.

E pensar que os imponentes edifícios já foram um símbolo de progresso que tanto nos orgulhava...

 

 

 

quinta-feira, 16 de abril de 2026

UMA IMAGEM OU MIL PALAVRAS?

 

Sou de uma época em que se acreditava que uma imagem era a mais perfeita expressão da realidade. Aquilo, cuja existência era testemunhada por esses olhos que a terra há de comer, estava lá de verdade. A tarefa de descrever retoricamente tal imagem era uma vã tentativa de convertê-la, através de símbolos (denominados palavras) em algo compreensível, para os que não a presenciavam. Por mais habilidoso que fosse o narrador no manejo dos vocábulos, jamais alcançaria o grau de fidelidade proporcionado pela imagem propriamente dita. No máximo, poderia revestir o discurso com ornamentos poéticos, conferindo-lhe uma versão mais formosa. Seria como esmiuçar com a fala (ou o braile) a plenitude da cena a alguém privado da visão. Porém, era consenso de que nada contribui melhor para a compreensão de algo do que a experiência direta proporcionada pela imagem. Não por acaso, dizia-se que “uma imagem vale mais do que mil palavras”.

Com o advento da Inteligência Artificial, essa relação entre sujeito observador e objeto observado que parecia ser inquestionável, desfez-se como um castelo de cartas. Pelo menos no que diz respeito àquilo cuja visualização é mediada por telas - computador, celular, televisão, cinema etc. Os milhões de pixels perfilados eletronicamente talvez possibilitem uma resolução impressionante de seus contornos, mas não garantem que o objeto que se nos apresenta naquele espaço luminoso, plano e retangular seja de fato o que julgamos enxergar.

Uma maçã, recém-caída do pé, que se oferece ao vivo e em cores ao tato, ao olfato, ao gosto e ao olhar, em toda sua exuberância rubra, quando capturada pela lente de celulares – mesmo os de última geração -, perde sua essência original, reduzindo-se a um simulacro de maçã, não mais uma fruta em si, mas uma versão espúria, ‘virtual’ que, a rigor, não poderia ser classificada como fruto pomáceo, mas uma reles representação alegórica do espécime vegetal. Vale ela menos que uma maçã podre ou mesmo que um suco Del Valle de maçã.

O avanço dos recursos computacionais permitiu que fossem geradas imagens com um grau de nitidez e realismo capaz de desafiar o discernimento humano. O espetáculo que assistimos deslumbrados através do display nos impressiona pela sofisticação técnica e estética, porém não inspira a mesma confiança. Falta-lhe a essência, a ‘alma’. É como se fosse uma quimera sedutora, etérea, provinda do inconsciente.  A verdade evaporou-se, deixando em seu rastro os vestígios da incerteza, fragmentados no monitor. O objeto de uma imagem visto através de um celular equivale a um Monet estampado numa camiseta de poliéster.

A Inteligência Artificial proporciona uma profusão de visões que vão de cachorros que cozinham como chefs a mandalas animadas com efeitos lisérgicos. De cidades engolfadas por tsunamis devastadores a pinturas que abandonam sua placidez centenária, libertas das molduras onde foram enquadradas. Figuras extasiantes que tornam enfadonha e maçante nossa mundana realidade concreta de boletos e louça empilhada sobre a pia.

Mas se as imagens, frutos de adulteração, não valem meia pataca, tampouco as palavras ganharam pontos no mercado, onde as Big Techs e seus algoritmos tenebrosos determinam o comportamento das pessoas. Mas esse assunto vasto é matéria para outra ocasião.

Seja como for, entre imagens que não garantem a realidade e palavras que não asseguram a verdade, resta um território incerto, onde ver não é conhecer e dizer não significa compreender.

No ambiente tecnológico ao qual nossa existência está se restringindo, o verdadeiro valor deixa de estar na imagem e na palavra e passa a pousar na desconfiança e na dúvida. Pois se uma imagem já não vale mil palavras e mil palavras não sustentam a verdade, o que resta é o silêncio entre ambas, onde deixamos de consumir as aparências e começamos enfim a perceber, contestar e deixar de ser massa de manobra para monetização de influencers, pastores midiáticos, coaches da prosperidade, pilantras digitais e ciber-picaretas. A humanidade que tanto avançou no progresso técnico, em termos éticos, permanece na idade da pedra lascada.

Chegamos a um ponto em que a tecnologia, de aliada na busca pelo conhecimento e na construção de um mundo melhor, passou à condição de inimiga do pensamento, algoz da verdade, coveira da democracia.

Some-se a isso a vulnerabilidade das pessoas crédulas que não desenvolveram discernimento suficiente ou muniram-se de análise crítica, o que as torna presas fáceis para discursos sedutores. E teremos o prato feito para a distopia desoladora que se avizinha, onde nosso papel será o de observadores passivos de nossa própria degeneração.

Ao ampliar suas potencialidades - e reduzir as nossas -, a informática tende a nos tornar mais idiotas do que já somos.

 

 

sexta-feira, 10 de abril de 2026

LÍBANO LIBRE

 

Sou descendente de libaneses. Com muito orgulho! Todos os meus quatro avós provieram daquele exótico e restrito pedaço de terra, cujo tamanho não chega à metade do menor estado brasileiro, Sergipe.

Mesmo sendo um país tão pequetito, enviou para o Brasil, ao longo do século XX, tanta gente que hoje há mais descendentes libaneses no Brasil do que no próprio Líbano! Um em cada 20 brasileiros. São por volta de 10 milhões de ‘turcos’, como erroneamente costumavam ser chamados no tempo em que eu era criança. Certamente, a maior comunidade libanesa do mundo.

A oportunidade de desenvolver seus pequenos negócios foi um atrativo para os libaneses se aventurarem para essas distantes terras tropicais. E, diferentemente dos italianos, portugueses e japoneses, espalharam-se demográfica e democraticamente por todos os estados de Norte a Sul. E deram-se muito bem em todos. Começaram cuidando de “lojínias” e se expandiram para outras áreas de atuação.

No campo da política, os ‘patrícios’ tiveram uma participação notável. Encontramos exemplares em todos campos do espectro ideológico, da direita à extrema esquerda. Nomes de relevo como: Paulo Maluf, Paulo Skaf, Anthony Garotinho, Espiridião Amin, ACM Neto, Gabriel Chalita, Adib Jatene, Guilherme Afif, Michel Temer, Gilberto Kassab, Tasso Jeraissati, Beto Richa, Pedro Simon, Omar Aziz, Geraldo Alckmin, Simone Tebet, Patrus Ananias, Fernando Haddad, Guilherme Boulos, Jandira Feghali.

Musicalmente, os ‘brimos’ se destacaram, especialmente na MPB e no pop nacional: Ivon Cury, Tito Madi, Pedrinho Mattar, João Bosco, Fagner, Almir Sater, Egberto Gismonti, Duo Assad, Badi Assad, Mariana Aydar, Bruna Karam, Nonato Buzar, Tunai, André Abujamra, Evandro Mesquita, Frejat, Chorão, Fauzi Beydoum, Wanderléa, Alok e por aí vai. Parece que só não entraram na seara do sertanejo, do gospel e do pagode romântico. Ainda bem!

Em outras áreas da cultura, corre o sangue libanês em gente como Beto Carrero, Luciana Gimenez, Sabrina Sato, Sônia Abrão, Leda Nagle, William Bonner, Roberto Duailibi, Antônio Abujamra, Amyr Klink, Juca Kfouri, Jamil Chade, Davi Nasser, Ibraim Sued, Ivaldo Bertazzo, Fauzi Arap, Betty Milan, José Simão, Janete Clair, Malu Mader, Maurício Mattar, Armando Bogus, Felipe Carone, Arnaldo Jabor, Walter Hugo Khouri, Fernando Gabeira, Andréia Sadi, Guga Chacra, Júlia Duailibi, Marina Person, Emerson Kapaz, Luís Nassif, Tárik de Souza, Almir Chediak, Aziz Ab’Saber, Emir Sader, Edmar Bacha, Pérsio Arida, Antônio Houaiss, Mário Chamie, Milton Hatoum dentre tantos.

A culinária é capítulo à parte. Provindos de um país onde alimentar-se é parte de um respeitoso cerimonial de cordialidade e compartilhamento, os caprichados quitutes árabes caíram no gosto do brasileiro: esfiha, kibe, homus...

Embora tenha-me convertido ao vegetarianismo, abro exceções para ingresso em meu restritivo cardápio verde do quibe cru, do charutinho de uva e da kousa (abobrinha), recheados com carne bovina, concessão que faço em nome da relevância afetivo-cultural. Mas o tabule, compatível com meus recentes hábitos alimentares, ainda reina como manjar dos deuses. Não o bastardo, empapado com trigo como servido em restaurantes de quilo, mas o autêntico com pouco trigo, bastante salsinha, hortelã e um leve toque de pimenta síria. Hummm!

Antigo lar dos fenícios (desenvolvida civilização que, dentre outros legados, criou um sistema de sinais que deu origem ao nosso alfabeto), o Líbano é um país singularíssimo. Embora faça parte do mundo árabe, distingue-se por gozar de uma situação única, onde muçulmanos xiitas e sunitas, cristãos maronitas, melquitas, armênios, ortodoxos, drusos etc. convivem pacificamente.

É o único país do mundo, que eu saiba, administrado por um arranjo institucional com participação das principais religiões, garantindo tolerância no exercício dos diferentes credos. Bem diferente de outros da região.

A capital Beirute, a “Paris do Oriente Médio”, é uma metrópole com vida cultural pulsante, com relevantes traços arquitetônicos e históricos, onde o moderno coexiste com a tradição.

Estrategicamente localizado, às margens do Mediterrâneo, ladeado pelo gigantismo da Síria e pelo expansionismo de Israel, o espremido Líbano acabou tendo o setor Sul de seu território ocupado pelas milícias do Hezbollah, que lá se instalaram como resistência à ocupação israelense de 1982 e se tornaram mais poderosas que o próprio exército oficial.

Com o pretexto de combatê-las, as forças de Israel têm promovido ataques impiedosos e indiscriminados, massacrando a população civil de índole pacata, que apenas deseja continuar tocando seu inofensivo dia a dia dedicado ao comércio familiar de rua, barracas com especiarias, cafés, restaurantes típicos, vendedores ambulantes de shawarma, falafel, manakish (pão com zaatar), kafta e doces artesanais e atividades ligadas ao turismo que há poucos anos florescia.

Hospitais, colégios, universidades e bairros estritamente residenciais têm sido devastados pelos bombardeios perpetrados por caças de última geração fornecidos pelos EUA ao Estado sionista que estão inviabilizando a existência do Líbano como nação independente. O país está pagando pesado e injusto preço por manter uma postura de não investir em atividades bélicas, como seus vizinhos.

Como consequência, esse pacífico país, exemplo para o mundo de convivência entre diversas culturas e religiões vem sendo dizimado, sob o olhar conivente do mundo, inclusive da numerosa, mas alienada colônia libanesa no Brasil, que de tal modo se acomodou por aqui que parece ter-se de desconectado de suas origens.

Minha maior frustação é não ter podido conhecer pessoalmente, em seus áureos tempos, a sagrada terra dos meus antepassados, usufruindo in loco a célebre hospitalidade de seu povo e ter ouvido da boca dos meus conterrâneos um afetuoso “ahlan wa sahlan” (seja bem-vindo!)