quinta-feira, 14 de maio de 2026

MEMÓRIAS DE UM ESTU(DANTE)

 

Muito poderia exaltar do DANTE, colégio que me educou com disciplina espartana - ‘pero sin perder la ternura jamás’ – por 14 ininterruptos anos, do pré-primário até a conclusão do ciclo secundário. Cuja qualidade de ensino me possibilitou ingressar com louvor em duas faculdades de renome da USP, Economia (FEA) e Direito no Largo São Francisco (esta última optei por abandonar por falta de vocação). Assim como adentrar para o serviço público, na carreira de Auditor Fiscal, através de concurso em que desbanquei mais de 100 gabaritados concorrentes pela vaga que ocupei por quase 20 anos até me aposentar. E que me inspiraram a exercer com gosto a atividade de magistério em duas faculdades.

Motivos para louvar a excelência do padrão “dantesco” não faltam. Contei com educadores de primeira linha que supervisionaram meus tempos de colegial (à ocasião, Científico). Como a exigente Albanese de Matemática, o bonachão Pastore de Química, o galanteador Milton de Física, o irrepreensível Renan de Geografia, o austero Orestes Rosolias de História (em cujo livro autoral, pinçado num empoeirado sebo, estudei), a talentosa Germana de Desenho, o maestro Salvatore Callia. Aquele que musicou os versos ufanistas: “Do Dante Alighieri sairão os mais valorosos pioneiros que pela taba espalharão como galhardos vanguardeiros”. E que potencializou a vocação musical que desenvolvi com a loja de LPs raros que, por 26 anos, sustentei.

E, em especial, o saudoso professor Alceu Tafari de Português que plantou em mim o desejo de escrever, que até hoje me atiça. E que me honrou com uma lisonjeira nota dez de redação, até então inatingível em nossa turma. Texto que iniciou com as seguintes palavras: “O homem em seu ser, sem ser só seu...”, compondo um triângulo isóceles de vocábulos em cujo cume aparecia O HOMEM e na base, em letras garrafais, DEUS. Um ambicioso ensaio metafísico, hehe.

Mas minha memória afetiva do Dante se estende muito além desses aspectos, digamos, pedagógicos. Revela-se em pequenos detalhes extracurriculares. No pátio enorme onde, desafiando as rígidas regras de comportamento, improvisávamos um futebol com bola de pano. Na cantina, onde uma mini garrafa de guaraná Antarctica acompanhava os sanduíches de mortadela (ou de azeitona com maionese que minha mãe preparava para o recreio). Na profusão de ‘pererecas’ pretas que pululavam alucinadas por todos os cantos desafiando os atordoados vigilantes. Nas figurinhas do Pato Donald e de atletas de futebol que trocávamos ou usávamos para ‘bater bafo’ pelas escadarias. No parque-santuário Trianon, fragmento esquecido de selva na ‘selvagem’ e árida urbe, cujas centenárias árvores, que guardavam até um bicho preguiça, afrontavam a perene solidez daquela histórica instituição de ensino.

Revela-se também nas feminíssimas colegas pelas quais nutríamos amores platônicos ou nas inatingíveis mestras que nos seduziam e provocavam fantasias eróticas só com seu olhar professoral - figuras que pareciam brotar das reminiscências de Fellini no autobiográfico Amarcord.

No ônibus escolar em que, durante o primário, cobiçávamos usufruir emoções de carrossel por ocupar um assento estrategicamente posicionado ao lado do motorista, raramente disponível. Na caricata bruxa dentuça que o Eduardo Zocchi me ensinou a desenhar, minha marca registrada por muitos anos.

No ritual do sino replicando o mesmo número de badaladas com uma pontualidade que antevia a precisão dos relógios digitais, executadas pelo Seu Marino que, por décadas, jamais faltou à sua função: “será que o homem não tira férias?”.

Grato período que consumiu 13 anos da nata da minha infância/adolescência, esticado em um ano por uma infeliz repetência em Matemática com 2 bimestres de nota zero por WO, motivada por uma hepatite que me deixou 3 meses de cama. Fábio D’Ávila foi o único colega que prestigiou esse ausente enfermo, honrando-me com uma visita domiciliar. Mas, cuja desventura reproduzida em 2 outros colegas que partilharam a mesma condição, possibilitou com eles estreitar preciosas relações de companheirismo. Seus nomes: Daud (Zuni) e Volpe, cujos laços de amizade perduraram anos a fio. Complementados com a tardia chegada do Grego (Chrysanthos) – figura ímpar que agora se escafedeu para a terra helênica dos seus ancestrais. Formamos o Quarteto Fantástico que por décadas permaneceu imbatível, frequentando regularmente as mais diversas pizzarias de São Paulo. Afora uma viagem de 30 dias por Cabo Frio que entrou para os anais, com meu fusca amarelo, versão paulista do Manuel Audaz.

Mais do que boletins, cadernetas e lousas, são esses pormenores ‘pormaiores’ do Dante e circundantes, que permanecerão eternamente ‘como dantes no quartel de Abrantes’ embalando divertidamente minhas lembranças naquilo que resta de minha jornada pós-escolar. Gostaria de deixá-los consignados para assim fazer constar minha presença nesse momento de confraternização.

  

sábado, 2 de maio de 2026

CARAS E COROAS

 

“Esse cara sou eu” (Roberto Carlos)

Esse texto vai para aqueles que, como eu, já foram caras e, sem aviso prévio, foram remanejados para a turma dos coroas. Devo ter faltado à assembleia deliberativa que cravou essa arbitrária realocação, à revelia dos afetados.

Acho que criaram as regras desse jogo para me infligir essa fatalidade metafísica em que o resultado do arremesso da moeda do destino estabelece ‘cara’ para a fase ascendente da existência e ‘coroa’ para seu ocaso.

Apesar disso, tento me conservar em formol no modo ‘cara’, contrariando a certidão, a lombar e o espelho. Sou um cara duro na queda. Se me chamam de vovô, mando um: “vovô é o cacete, seu fedelho!”

Não nego certa dificuldade em encarar os caras de hoje, aqueles que são caras de fato, com as características pertinentes. Ser cara no mundo de hoje é bem diferente de ser cara quando eu era cara. Vivem tais seres numa rotação diferente da época em que não havia celular nem internet nem pix nem Netflix. Mas tinha Asterix e Obelix.

Mas, caramba, não sou saudosista. Ser cara é um estado de espírito e diante das objeções dou um reset e me coloco na parte legal de ser cara: disposição de mudar, fome em aprender, esperança, curiosidade, inconformismo, rebeldia.

Às vezes me sinto pregando no deserto. Um velho lobo, desgarrado da matilha, cujo uivo rouco ainda ecoa por aí. E incomoda os rebanhos de ovelhas.

O que me deprime é ver a transformação dos meus companheiros de estrada. Caras que nasceram na mesma época que eu, atravessaram os mesmos anos, encararam as mesmas revoluções, rebeliões, repressões. Fomos cúmplices nesses momentos de resistência. Para, no fim das contas, chegar à conclusão, com cara de tacho, de que, como dizia o Belchior, continuamos vivendo “como nossos pais”. O fato é que muitos caras - pessoas que nos foram caras - por divergências políticas, nos viraram a cara. Que tristeza, cara! Babacas que glorificam as chineladas enquadradoras de que foram vítimas. Descarados.

Tornaram-se eminentes gagás. Não pelo detalhe da pele franzida, mas pelas rugas de desumanidade que se calcificaram por dentro, imunes a aplicações de botox. As mesmas que nos acomodaram na poltrona da resignação, assistindo a vida escoar pela TV. Lendo Caras.

Pior são os caras que, na maior cara dura, deixaram-se virar caretas. Gente com corpo jovial que a vida desafia a transgredir, com cabeça de matusalém, exaltando o conformismo e barrando avanços civilizatórios. São aqueles boyzinhos sarados e tatuados, cheios de pose que, na flor da idade, enaltecem patriotismo, militarismo, machismo, racismo. Têm ideias e preconceitos mais arraigados do que os de seus avós. São caras de duas caras. E, desculpe, nenhum caráter.

Para quando dermos de cara com o dia final, estirados e cercados por coroas a coroar falsamente nossa impoluta figura – com direito a coroa de flores e tudo – chegarmos à constatação de não haverá mágica - por mais cara que seja – capaz de nos fazer voltar a ser caras de novo.

 

 

segunda-feira, 27 de abril de 2026

SERTANEJO UNIVERSITÁRIO

“Ô saudade que eu tava da vida de cachorrada, da vida de putaria” (Gusttavo Lima)

Quando ouvi pela primeira falar em ‘sertanejo universitário’, a ideia que me passou pela cabeça é que se tratava de uma versão mais elaborada do sertanejo ‘mainstream’ que dominava o mercado, também conhecido como ‘sertanejo romântico’, de duplas como Chitãozinho & Xororó, Leandro & Leonardo e Zezé di Camargo & Luciano. O adjetivo ‘universitário’ sugeria, um refinamento estético, algo que teve precedentes com outros estilos musicais populares - como o antigo ‘brega’ e a ‘jovem guarda’ – que, ao dialogarem com públicos mais exigentes e escolarizados, sofreram releituras. Exemplos: Caetano interpretando Peninha e Adriana Calcanhotto reinventando Leno & Lílian.

Fiz uma associação (que se mostrou indevida) com o chamado “forró universitário” dos anos 90, uma derivação do forró ‘pé de serra’ de nomes lendários como os de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, conferindo ao ritmo um toque mais pop e urbano, porém sem causar uma ruptura em sua base rítmica, centrada no trio sanfona/zabumba/triângulo e sem romper com seu contexto simbólico, ligado ao cotidiano nordestino.

Para entender melhor esse processo, é preciso recuar um pouco. O sertanejo original (rebatizado de ‘sertanejo raiz’) estava ligado à figura do homem simples do interior (estigmatizado na figura do Jeca Tatu) e à sonoridade da viola caipira. Duplas como Cascatinha & Inhana, Tião Carreiro & Pardinho e Pena Branca & Xavantinho são frutos dessa linhagem que manteve os traços da cultura pura do campo.

A partir dos anos 80/90, o gênero passou por uma transmutação significativa, incorporando a guitarra elétrica, sofrendo influência do pop internacional e adotando padrões inspirados no country norte-americano como o uso de chapéu e figurino de cowboy A ênfase a temas românticos, propiciou-lhe grande sucesso de vendas. Canções como “É o Amor” (Zezé & Luciano) e “Evidências” (Ch & X) marcaram essa fase.

Foi nos anos 2000 que desponta o tal sertanejo universitário que, diferentemente do forró universitário, renegou a essência do ritmo que lhe deu à luz. Nada tem a ver com o estereótipo do homem do interior, sua religiosidade, seus valores simplórios, sua aparência humilde. Em seu lugar, surge o machão individualista, endinheirado, trajado com roupas de grife, jaquetas de couro e penteados estilosos. Visava atingir um público mais ‘descolado’, conectado em novos padrões de comportamento. Para tanto, lançou mão de teclados, sintetizadores e estruturas rítmicas mais dançáveis para seduzir frequentadores de baladas.

O termo ‘universitário’ revela-se ambíguo. Ao contrário do que poderia sugerir, não indica um salto de sofisticação estética, apenas uma estratégia de marketing, um rótulo para fascinar um público mais jovem, urbano e ambicioso em ascender socialmente, inclusive através de formação acadêmica. A explosão do número de faculdades, sobretudo privadas, gerou uma enxurrada de formandos, orientados mais pela lógica de mercado do que pelo rigor acadêmico. Essa mudança de perfil ocasionou um reducionismo de repertório e um menor senso crítico. Esse crescente contingente ‘universitário’ foi capturado pelos neosertanejos que lhes ofereciam produtos de fácil assimilação, compatíveis com suas demandas.

Os representantes do estilo gostam de embalar sua trajetória exitosa na retórica da meritocracia, atribuindo a ‘bênção’ do sucesso a seu pretenso talento. Com isso, constroem a imagem de quem ‘venceu na vida’, desfilando envaidecidos nos palcos como nova elite econômica do entretenimento. Amparados por uma presença digital massiva, convertem a popularidade em negócio, diversificando as receitas com marcas próprias e publicidade, incluindo apostas esportivas (bets), sem contar os cachês milionários.

Em termos artísticos, o sertanejo universitário, apesar do título pretensioso, deu um passo atrás em relação ao sertanejo romântico. As melodias tornaram-se ainda mais previsíveis e sem inspiração, as letras frívolas tratam de relações afetivas descartáveis, exaltação à farra e à bebedeira, reservando à mulher o papel de objeto sexual.

Apesar de exibir invejáveis números no streaming, o subgênero não adquiriu relevância. Os críticos torcem o nariz para ele. São canções banais, sem criatividade, com prazo curto de validade, que não permanecem na memória afetiva. Para aqueles que concebem música como manifestação artística, o sertanejo universitário representa uma completa decepção para um país que possui diversidade rítmica e riqueza melódica que se tornou referência internacional.

Sua expansão, ao contrário do que se imagina, não brotou espontaneamente do gosto popular, mas de uma portentosa engrenagem de impulsionamento financiada pelo agronegócio que ganhou peso com a crescente importância dessa atividade da economia do país. Isso explica a hegemonia do ritmo na programação das emissoras de rádio, sobretudo do interior. Shows, feiras agropecuárias e rodeios bancados por pequenas prefeituras, controladas por políticos vinculados ao agro, ajudaram a bombar o gênero.

A forte ligação com o agro traduz-se na esfera política a alinhamento a valores conservadores. Diferentemente de outros segmentos artísticos, parte expressiva do sertanejo está fortemente vinculada ao bolsonarismo, não raro manifestado em suas preferências políticas. Embora acusem astros como Anitta, Pabllo Vittar, Caetano e Gil por pretensamente usarem recursos da Lei Rouanet, levantamentos demonstram que os 10 maiores beneficiários de recursos públicos provêm todos do mundo sertanejo, liderados por Gusttavo Lima, e Bruno & Marrone.

Dominante no cenário nacional, o gênero encontra resistências como em capitais do Norte/Nordeste como Recife e Belém, onde prevalecem ritmos regionais, e sobretudo no Rio de Janeiro, território livre do sertanejo, onde o ritmo ocupa um modesto 6º lugar na escala de preferência, atrás de MPB, samba/pagode, gospel, rock e funk. Também no exterior, mesmo em países vizinhos, o estilo não pegou. Os gringos que se renderam à bossa nova e ao samba, não se deixaram encantar pelo lenga-lenga sertanejo e sua parafernália tecnológica.

É comum também a comparação com o funk carioca. Ambos são populares, comerciais e criticados pelo teor sexual presente em suas letras. Mas há diferenças marcantes. O sertanejo, por trás de uma postura aparentemente pudica, promove condutas amorais e obscenas, enquanto o funk é premeditadamente chulo e insolente, refletindo o comportamento transgressor das periferias, ambiente de desigualdade e exclusão, tornando-se forma de expressão e pertencimento nesses territórios. Ademais, o funk não tem o suporte financeiro institucional de que dispõe o sertanejo. Sua ascensão nas plataformas de streaming incomoda o sertanejo que usa diversos expedientes para barrá-lo e desacreditá-lo. Apesar de o funk se sobressair nos rankings digitais, foi bloqueado nas emissoras de rádio por pressões econômicas (jabás). Os sertanejos ficaram mordidos com o crescimento do funk, com seu apelo sensorial que conquistou boa parte da juventude pela batida e pela dança.

No fim das contas, o ‘universitário’ do sertanejo diz menos sobre universidade e mais sobre mercado. Representa, na prática, um flagrante empobrecimento artístico, levando os críticos, preocupados com a pauperização musical, a se perguntar até onde vai o fundo do poço.