quinta-feira, 12 de março de 2026

LARANJA MECÂNICA

Podemos dormir tranquilos, pois Big Daddy ‘is watching you’, direto da Casa Branca. Investido de ilimitados poderes imperiais, o supremo cowboy zela 24 horas por nossa integridade ideológica. Mr. Orange, autointitulado ‘xerife do mundo’, mentor do far west style, onde quer que as forças esquerdistas corrompedoras da moral e dos bons costumes impeçam a implantação da doutrina MAGA.

Mr. Orange é um escudo inabalável contra a ação maléfica de negros, mestiços, latinos, islâmicos, abortistas, feministas, LGBT’s, ONGs e ambientalistas que ameaça a ascendência dos valores ocidentais, machistas, caucasianos e anglo-saxões que faz da América um exemplo de civilização bem sucedida, a ser alastrada pelas regiões selvagens onde a palavra de Cristo não chegou.

Nos redutos tropicais brasílicos, escancarar-se-ão as portas dos casebres e barracos para que os ares insalubres do atraso sejam varridos pelo frescor dos ventos boreais do Vale do Silício. Serão abandonadas as banais referências tupiniquins, tais como o forró, o berimbau, o açaí, o afoxé e o ziriguidum para possibilitar a entrada triunfal de startups e legiões de nerds, geeks, hackers, techies e afins.

Mr. Orange assegurará plena guarida aos leais bajuladores, Mileis, Bukeles e Delcys. que se mostrem convenientemente servis às instruções neoliberais e aos preceitos da propriedade privada, guiado em sua cruzada pela palavra da Bíblia, pelo mapa dos poços de petróleo e pela cotação das terras raras na bolsa Nasdaq.

A abertura da Caixa de Pandora dos arquivos Epstein revelou uma indesejável faceta pecaminosa, convertida rapidamente pelos devotos em abençoada libidinagem, regada a água benta. Mr. Orange, travestido de representante pedófilo santificado da família tradicional protestante pôde então estender seus tentáculos implacáveis para nos salvar de nós mesmos em nossos próprios quintais. Enviando seus drones kamikaze, mísseis hipersônicos, caças de quinta geração e sistemas cibernéticos integrados em nosso socorro para impor aos ímpios, ateus e seres pensantes a moral pregada pelos neopentecostais do Alabama. Ainda que, nesse processo, escolas de meninas tivessem que ser explodidas.

De onde quer que venha o perigo, democratas, jornalistas, estudantes, sociólogos, comunistas, imigrantes, aiatolás, e todos os que insistirem em se opor à expansão da microsoft, do big mac cheddar e do combustível fóssil, depuradores da raça humana, degenerada por teorias globalistas.

Seja na Venezuela, no Irã, em Cuba, na Groenlândia, no Canadá, no Líbano, no México, na California, na faixa de Gaza, no estreito de Ormuz e onde mais for, cuida ele da segurança dos investimentos ianques em todo o planeta Terra. E no espaço sideral! Projetos espaciais financiados por Sir Musk e Sir Bezzos são direcionados a fincar a bandeira confederada neonazista e providenciar acesso ilimitado de wifi em todas as unidades do sistema solar, antes que desaforados asiáticos o façam com o Huawei 5G, a rede Tik Tok e o detestável dístico “made in china”.

O ‘laranja mecânica’ não para. Diariamente inventa um inimigo imaginário num país aleatório para mobilizar sua indústria bélica e sua base de haters, ansiosa por inundar as redes sociais com fake news repugnantes referentes aos desafetos da vez. Façam suas apostas e deixem girar a roleta. Qual será o próximo alvo dos caprichos intervencionistas do Gengis Khan do século XXI?  Burundi? Liechtenstein? Bélgica? Turcomenistão? Uruguai? Quixeramobim? Rocinha? Em todos os cantos dessa Terra plana que Deus-Pai abençoou com o sistema capitalista e o dízimo sagrado.  

Não tentem os detratores se ocultar nos ambientes furtivos de embaixadas, mesquitas, universidades ou aldeias yanomamis, pois poderosos algoritmos rastrearão as vozes dissonantes em todos os rincões onde houver uma tela de celular e uma torre provedora de internet.

Autorizado pela prerrogativa de apertar o privativo botão vermelho do Juízo Final que o voto texano lhe conferiu, Mr. Orange busca pela força de seu arsenal nuclear e pelo vazio de suas ideias tirar leite das pedras, conquistar a liberdade das tiranias e a paz dos cemitérios.

 

  

terça-feira, 3 de março de 2026

AGORA EU ERA HERÓI

 

Quando eu era criança, deixava-me levar pela fantasia de ser um super herói que tudo podia. Mas, ao contrário do Batman, não agia apenas no combate aos folclóricos criminosos de Gotham City. Minha área de atuação era mais abrangente. Ocupava o cargo de presidente, ou talvez imperador, do Brasil. Não, do mundo!  Pois as fronteiras nacionais não seriam suficientes para barrar meu desejo infinito de servir a cada um dos habitantes, até os das regiões mais remotas e inóspitas do planeta. E não havia nada nem ninguém que pudesse limitar meu poder absoluto nem minha disposição de cumprir esse desígnio.

Mas, isso não me fazia um ditador autocrático. Governava em sintonia com o que pensava a maioria das pessoas ou, pelo menos, aquelas 'de bem', as que, como eu, ansiavam por um mundo melhor para se viver.

Um compromisso firmado entre mim, minha imaginação e o resto da humanidade estabelecera que jamais faria uso de minha condição de liderança para punir quem discordasse de minhas iniciativas nem cogitaria em calar meus críticos, sobretudo os bem intencionados, merecedores de todo o respeito.

Capitanearia eu uma legião de subordinados (ou melhor, colaboradores) que cuidariam de manter a paz e a harmonia social, sem precisar ferir ninguém, nem usar armas letais.  Sua função seria apenas a de colocar em prática determinações cujo propósito era tornar todos mais felizes.

Eu firmara um contrato juramentado em que constava uma declaração de que eu jamais valeria de minha posição de liderança para me locupletar ou obter benesses, já que não seria movido por ambições pessoais. Meu objetivo era apenas o de consertar o que estava errado para bem da coletividade.

A compensação que me bastava para esse árduo trabalho voluntário era a de ser amado pelo povo por tornar nosso mundinho comum um lugar mais agradável de se habitar, para mim e todos os demais seres humanos, a quem, indistintamente considerava entes queridos. Não esquecendo dos demais seres viventes, animais e plantas.

No meu mundo, o sofrimento, ao menos aquele causado por outros seres humanos, seria banido da face da Terra e todos levariam uma vida digna sem privações.

Os super ricos, movidos por inaceitáveis impulsos de ambição, seriam contidos em seu furor cumulativo por regras que impedissem abusos, para que os demais tivessem direito a seu quinhão.

Os policiais deveriam ser corretos e prestativos, sem deixar de combater o crime com rigor. Os homens maus iriam para a cadeia e cumpririam a sentença integralmente. Os reincidentes teriam  severas sanções. Nada de condescendência com os mal intencionados.

Os delegados e juízes corruptos ou que saíssem da linha, seriam sumariamente afastados, sem quaisquer honorários. Tais cargos seriam ocupados por homens e mulheres íntegros com salários dignos, mas modestos, sem penduricalhos. A justiça seria rápida e eficaz, regida por um enxuto conjunto de leis que todos entendessem.

Cessariam também os benefícios concedidos a políticos, cujos vencimentos seriam compatíveis com os da população em geral, sem mordomias e auxílios indiretos. Quem escolhesse a vida pública, o faria por vocação sem possibilidade de usufruir materialmente de sua posição.

A melhor remuneração seria a do professor, a função mais nobre da comunidade, a de formar através da educação de qualidade, cidadãos éticos, responsáveis social e ambientalmente.

No plano internacional, um simples decreto mundial poria fim em todas guerras e conflitos. As divergências seriam resolvidas civilizadamente, em torno de uma mesa de negociação. As demandas e divergências seriam apreciadas por equipes competentes e imparciais com poder decisório.

A miséria e a fome, como num passe de mágica, seriam extintos. Alcançar isso é muito mais fácil do que parece.  Bastaria redirecionar os recursos orçamentários antes desperdiçados em inúteis armamentos, destinando-os a melhorar a saúde, a educação e promover a melhoria na qualidade de vida.

Enfim, tudo o que o senso comum reconhece como desejável, seria implementado com a força de minha varinha de condão, aliás, minha caneta justiceira.

Essa carta de intenções, submetida às pessoas de todas as nacionalidades, raças e religiões, certamente seria aprovada com louvor pois atenderia ao clamor universal.

No fundo, o que eu propunha era o que todo mundo queria. "É tudo tão simples. Por que os adultos complicam tanto?" pensava eu. Se me colocassem lá em cima e me dessem condições, eu me comprometeria a realizar tudo isso... e muito mais.

Na minha inocente onipotência, não compreendia por que ações tão óbvias, aparentemente consensuais, enfrentam tanta resistência.

À medida que fui galgando na idade e no conhecimento de como as coisas funcionam, tomei um choque de realidade, passei a devanear cada vez menos e tomei consciência de minha insignificância ante a tarefa hercúlea a que me propusera e da incapacidade de mudar mesmo as coisas mais banais e próximas.

Hoje, quando vejo tantas inexplicáveis brutalidades sendo cometidas ao meu redor, invoco com saudade o super herói aposentado que, empoderado pelos sonhos de uma criança, acreditou que podia transformar um mundo dominado por um bando de adultos sem graça.

 

 


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

ONDE FOI QUE ERRAMOS?

 

Um grupo de renomados cientistas das mais variadas áreas uniu-se para criar o ‘relógio do juízo final’ (‘doomsday clock’), um instrumento que estima o tempo restante para o fim do mundo, a ocorrer à meia-noite em ponto. Como num conto de Edgar Allan Poe, o soturno soar das 12 badaladas anuncia a chegada da morte.

O escalar das horas, ao contrário dos relógios convencionais, não ocorre em função do decorrer regular e inexorável do tempo, mas do processo de deterioração das condições que mantêm o organismo vivo. 

Em 2026, os ponteiros desse cronômetro macabro foram ajustados para o horário de 23:58:35, ou seja, míseros 85 segundos aquém do horário fatídico em que daremos adeus ao planeta azul que nos abrigou por tantos milênios. A marcação que vinha oscilando para cima e para baixo, nunca chegara tão perto do apocalipse final como agora. E nada indica que vá reverter sua marcha funesta rumo ao precipício.

A maioria das pessoas é persuadida pelos negacionistas que essa ameaça, mesmo que fundamentada em estudos gabaritados de especialistas, não é para ser levada a sério. Esse relógio fictício não passaria de obra fantasiosa de cientistas catastrofistas com intenções malévolas. Podemos continuar agindo com irresponsabilidade, egoísmo e negligência que nada de ruim vai acontecer. Nossa civilização, fundada na lógica otimizadora do mercado, sempre ‘dará um jeito’ de manter tudo funcionando, não devemos nos preocupar.

Será? Um idôneo check-up revelaria que a nossa idosa e judiada Terra apresenta um quadro clínico de degeneração grave, prestes a ser levada à UTI. O diagnóstico é que infelizmente está vivenciando os últimos suspiros de senilidade, açoitada pela corrida armamentista, guerras sem fim, mudanças climáticas, pandemias, descontrole da tecnologia etc.

Um fator determinante que fez disparar o temporizador fatal foi a ascensão ao poder de governantes de qualidade deplorável que romperam os já frágeis acordos internacionais e deram as costas para a destruição ambiental. Trump e Putin, os mais poderosos estadistas em capacidade bélica da atualidade, lideram essa safra de maçãs podres, a mando de Tânatos ou Lúcifer.

Os seres desprezíveis que estão conduzindo nossa existência à derrocada ainda se dizem religiosos e representam eleitores tementes a Deus que deturpam os ensinamentos dos grandes mestres espirituais do passado. Para usar a parábola bíblica, transformaram a água límpida do amor no vinho azedo do ódio.

Jesus que difundiu o perdão e o amor ao próximo teria vergonha dos pastores evangélicos mercenários e de pregadores racistas e supremacistas que se dizem seus adeptos. Maomé que propagou a caridade e a justiça social deu cria a células jihadistas sanguinárias, tipo Estado Islâmico. Moisés ensinou aos hebreus leis morais e sociais que redundaram no sionismo e em genocidas como Netanyahu. Os preceitos de Buda, voltados à não-violência e à compaixão, foram sucedidos no Extremo Oriente pelas tiranias de Pol Pot e Kim Jong-un.

Nossa civilização tem produzido cada vez menos pessoas de valor como Aristóteles, Confúcio, Lao Tsé, São Francisco de Assis, Dalai Lama, Gandhi, Chico Xavier, Bezerra de Menezes, Mãe Menininha de Gantois, Irmã Dulce, Madre Teresa de Calcutá, Rabino Sobel e Dom Paulo Evaristo Arns.

Personalidades com visões diferentes, mas que têm em comum o anseio por um mundo mais igualitário e maior solidariedade entre seus habitantes, independente de suas crenças. Se pudessem ser reunidas numa sala, esses seres abençoados deixariam suas divergências de lado, dariam as mãos e subscreveriam um manifesto ecumênico pelo bem da Humanidade.

Cada vez mais escasseiam cidadãos da estirpe de Nelson Mandela, Martin Luther King, Malcolm X, Albert Einstein, José Mujica, Papa Francisco, Ailton Krenak, Cacique Raoni, Malala e Greta Thunberg.

Como fazem falta brasileiros de caráter como Ruy Barbosa, Joaquim Nabuco, Ulysses Guimarães, Teotônio Vilela, Sobral Pinto, Hélio Bicudo, Oswaldo Cruz, Paulo Freyre, José Lutzenberger, Roberto Burle Marx, Cândido Rondon, Dorothy Stang, Chico Mendes, Betinho, Abdias do Nascimento!

Sem contar artistas e escritores que lutaram ou continuam lutando pelo bem comum como: Charlie Chaplin, Hannah Arendt, George Orwell , Ken Loach, John Lennon, Bob Marley, Bob Dylan, Bono, Peter Gabriel, Nina Simone, Joan Baez, Villa Lobos, Portinari, Machado de Assis, Carlos Drummond,  Carolina de Jesus, Guarnieri, Vinícius de Moraes, Renato Russo, Cazuza e tantas outras mentes iluminadas que fizeram da arte instrumento para transformar o mundo.

Tanta gente que poderia fazer diferença sucumbiu ante dirigentes abjetos que conduzem nossa civilização para a desgraça, líderes que deveriam nos envergonhar, mas que continuam nos guiando com nossa humilhante anuência.

Nossa civilização que foi capaz de promover avanços inimagináveis na ciência e na qualidade de vida, falhou miseravelmente na simples tarefa de conservar a Terra habitável.

Foram os povos primitivos, chamados de atrasados, que mantiveram uma relação verdadeiramente sagrada com o planeta. Nela, o tempo subordina-se aos ciclos naturais que fazem com que o relógio do juízo final seja apenas uma inútil quinquilharia. Entre eles, a vida pode seguir seu curso e ser gozada em sua plenitude.