Eles dizem que tudo vai às mil
maravilhas, que nunca estivemos tão bem e que a tecnologia chegou para melhorar
nossas vidas. “O que seria de nós - perguntam eles - sem a internet”? Nem dá
para imaginar... Como poderíamos nos munir de fake news e organizar o cotidiano
sem a enxurrada de opiniões alheias? E a saúde, como cuidar dela sem recorrer ao
Dr. Google, especialista em diagnósticos instantâneos e automedicação virtual?
Enfim, caminhamos para um futuro onde tudo será entregue pronto e mastigado. Nosso
papel na formação de nossa própria vida será o de um mero espectador, um
acessório de segunda.
E as operações bancárias então? Antes,
carregávamos dinheiro vivo em bolsos e bolsas vulneráveis, espreitados por
gatunos. Agora que migramos para cartões e aplicativos, os gatunos migraram
para o ciberespaço. Podemos nos fartar em gastos por 29 dias, antes que a chegada
da fatura no 30º acabe com a festa. Tudo a um módico custo anual, diluído em doze
parcelas e juros ligeiramente escorchantes.
Games, tem para todos os gostos, para
nos entreter (e nos viciar) nas brechas de tempo, destinadas a reflexão ou contemplação
de árvores, mesmo que elas (as brechas e as árvores) não existam mais. Passatempos
sobre pornografia, violência e ódio que nos engajam e dão sentido a nossa vida carente
de emoção e transgressão, tornam-nos monstros cruéis, tarados, abusadores. Porém
exímios em informática.
E as compras? Como viver sem o opulento
cardápio de inutilidades da Amazon? Tudo pelo prazer de nos autopresentear com quinquilharias
primorosamente embaladas, sem precisar levantar do trono de onde governamos nossa
vida, espremida nas polegadas de uma tela.
Quanto ao saber, “que progresso!” Já
não precisamos de faculdades e mestres para nos entulhar com seu inútil conhecimento
acadêmico que no fim só nos rendem inteligência, um diploma e nenhum bitcoin. “Certificando-nos
como sábios pobretões”, argumentam eles.
E quanto às fotos que disparamos
freneticamente feito metralhadoras giratórias para descartar 99 de cada 100,
sem nos preocupar com a liturgia dos negativos e revelações da Kodak? Tanta
foto que registra lugares de que mal lembramos, cuja beleza inerente permanecerá
guardada em sua essência intangível. Paisagens e semblantes que atravessaram fugazmente
nossa existência sem deixar vestígios. Mas as fotos estão lá! Redundantes, tediosas,
iguais, testemunhas silenciosas de aventuras nunca experimentadas. Dissolvidas
nos infinitos gigabytes, que deixaremos de herança para que nossos filhos nunca
acessem.
As músicas que apreciamos entulhamos
em playlists para descartar como resíduos digitais, após uma semana, quando delas
não mais nos recordarmos. Um rolo compressor de bytes, catalogados por ordem de
insignificância. E pensar que houve um tempo em que músicos e artistas se dedicavam
a criar arte em discos com capas, encartes, fichas técnicas, destinados a enriquecer
as prateleiras de nossas salas? “Pra quê tudo isso”, perguntam eles? O que
importa nessa efêmera existência é criar seleções no Spotify com os hits reciclados
do momento. A própria plataforma, que parece nos conhecer melhor do que nós
mesmos, decide o que gostamos, sem nos consultar.
E os filmes que a Netflix renova a
cada semana? Um dilúvio de blockbusters sem inspiração em que nos afogamos, sem
saber com qual deles desperdiçaremos nosso balde de pipocas. O essencial,
claro, ali não está. Os clássicos, os cults que passaram na Mostra. Aqueles que
deixaram marcas profundas e armazenamos em nossa memória RAM afetiva. “Nem tudo é perfeito”, apressam-se em nos
lembrar.
Podemos apreciar nossa comidinha
impessoal, pedida pelo iFood há 10 minutos. Basta um toque na tela e o objeto
de nosso desejo se materializa à porta. Às vezes bate uma saudade (“saudosismo”,
contrapõem eles) do prazer de preparar quitutes com o toque caseiro que a avó
nos ensinou, aquele temperinho especial, saído quentinho do forno. “Mas a vida
corrida de hoje não comporta essas pueris extravagâncias afetivas. Não podemos
nos dar ao luxo de desperdiçar tais minutos em sentimentalismo culinário.” É o
que eles dizem.
Se quisermos quebrar a rotina e ir a
um restaurante ou ao teatro, uma chamadinha e o UBER providencia, num passe de
mágica, um motorista robotizado com sorriso ensaiado para nos conduzir a nosso
destino, teletransportados pelos mapas do GPS, onde não figuram parques, ipês, monumentos,
casarões, pássaros, cães e crianças brincando... Sem preocupação com taxímetro,
combustível e sem recorrer ao tumultuado transporte de massas.
Podemos ainda usar e abusar das
mensagens disparadas pela conta gratuita que o Gmail nos disponibilizou, condicionada,
claro, aos ininteligíveis termos de uso que lhes permitem, com nossa anuência, manipular
nossa vida, dela espremendo o que lhes interessa. Sem precisar recorrer ao velho
Correio (lembra-se dele?) com aquele cerimonial de redigir, dobrar, selar,
enviar e aguardar o recebimento incerto. “Atraso de vida”, proclamam eles.
Tampouco precisamos memorizar os
aniversários de amigos e familiares; o Facebook se incumbe dessa chatice. Podemos
enviar felicitações via whatsapp por mensagem de texto (ou de áudio para mostrar
que nos restou a voz humana). Nada de telefonemas, tendo que rebuscar palavras enfadonhas
que traduzem emoções há muito esquecidas. O único esforço é encontrar o emoji
adequado e... pronto, missão cumprida! Sem o calor de um abraço ou as sutilezas
que o tempo estampa na expressão. Sem bolo, sem velas, sem beijinhos, essas cerimônias
que o pessoal das antigas valorizava. E, convenhamos, quem precisa de amigos de
carne e osso quando no Face temos milhares, com retratos, perfis, stories, a
ficha completa. Se incluíssemos os crimes, teríamos um dossiê policial.
Sim, a tecnologia nos abarrotou com
trivialidades para transformar uma vida insossa numa insossa vida. Mas não há
motivo para desespero. Chegou a Inteligência Artificial, prometendo solucionar
os problemas com seus algoritmos infalíveis. “Fique frio que tudo ficará bem”.
É o que eles dizem.


