O esporte sempre manteve a tradição e
a virtude de se posicionar acima das picuinhas políticas. Nas arenas, as únicas
regras que valem são as estabelecidas pelas federações esportivas.
Do mesmo modo, quando um país sedia
uma grande competição tipo Olimpíadas, Copa de Futebol, Fórmula 1, deve demonstrar
que possui disposição e infraestrutura que garantam que o certame transcorra
com lisura e imparcialidade, sem intercorrências que comprometam seu êxito.
A iniciativa de sediar um evento esportivo de
grande magnitude serve também para exibir internacionalmente as qualidades do
anfitrião no atendimento aos requisitos de organização e logística.
Mesmo em tempos de Guerra Fria ou
situações de conflitos, as competições esportivas transcorreram com normalidade,
como campo não contaminado, onde se pode exercer com civilidade a prática desportiva,
a mesma que desde a Grécia antiga cumpre relevante papel em termos de
desenvolvimento pessoal, promoção da saúde, socialização e integração.
Alguns casos vêm à memória como as
Olimpíadas de 1936 na Alemanha sob o nazismo. Nesse período de alguns meses, Hitler
afrouxou seu autoritarismo, interrompeu a perseguição a judeus, negros e
opositores e adotou providências para garantir condições para que visitantes de
todas as pátrias pudessem se sentir à vontade em terras germânicas, apreciando a
excelência que o regime queria demonstrar.
Outro exemplo é o do campeonato
mundial de futebol realizado na Argentina em 1978, sob uma feroz ditadura,
quando o clima nos estádios não se deixou contaminar pela repressão das ruas. O
técnico portenho à ocasião, César Luís Menotti, que levou sua seleção ao
título, tinha inclinações socialistas e nem por isso foi coagido em seu
trabalho.
Caso semelhante ocorreu por aqui durante
os anos de chumbo do governo Médici, quando João Saldanha, simpático ao ‘Partidão’,
comandou a seleção canarinho que classificou o Brasil nas eliminatórias para a
Copa de 1970, da qual sairia tricampeã. Em resposta ao general ditador, que fizera
pressão para a convocação de um atleta, o ‘João Sem Medo’ (como era conhecido) retrucou
com ombridade: “o presidente escala o ministério, eu escalo a seleção”.
De fato, o esporte pode se orgulhar
de ter atravessado muitas décadas sendo ‘território livre’, imune a ingerências,
um espaço de congraçamento, onde todos se respeitam, o jogo sujo é chutado para escanteio e a
trambicagem recebe cartão vermelho.
Essa virtude infelizmente vem sendo dilapidada
nesses tempos em que a intolerância passou a reger as relações interpessoais.
A seleção futebolística do Irã teve
um desempenho brilhante nas eliminatórias e se classificou com louvor para
disputar a copa na América do Norte de 2026. No entanto, a ofensiva de forças
americanas ao país persa resultou na incerteza de o time participar da
competição com jogos programados para o território
do país que perpetrou o ataque.
Em relação à nação dos aiatolás, por
mais que não a apreciemos, essa hesitação é justificável, partindo de quem foi vítima
de ataque. O que é inaceitável é a posição oficial do governo americano que,
nas palavras de seu mandatário mor, afirmou que não podia garantir a segurança
dos atletas do país islâmico de modo que não seria ‘apropriada’ a vinda da
delegação. Ora, isso significa que os EUA não estão qualificados a sediar o
evento já que se declararam incapacitados de garantir a segurança dos jogadores
de uma das seleções habilitadas a participar.
É ainda mais absurdo o fato de gabando-se
de ser a nação mais poderosa e pujante do planeta, os ianques declararem não ter
condições de assegurar que suas exímias forças de segurança ofereçam proteção a
atletas, de que nacionalidade forem, que compareceriam não para soltar mísseis,
mas para jogar bola. Tal evasiva parece tratar-se de mais uma ‘trumpice’.
Esse comportamento antidesportivo não
é exclusividade dos EUA de Trump. A arquirrival Rússia é governada há 27 anos
por um ex-membro da KGB, reconhecido por adotar atitudes pouco ortodoxas como a
de injetar substâncias químicas proibidas nos competidores para aumentar a
chance de conduzi-los ao pódio, levando as autoridades esportivas a banir os
comandados de Putin de competições esportivas. Tal prática combina com outra, habitual
do mandatário cossaco, a de envenenar bebidas de desafetos políticos.
Atitudes como essas partindo de 2 dos
maiores líderes mundiais que deveriam ser pessoas impolutas, além de colocar em
xeque o esplendor do esporte, demonstram a degeneração moral daqueles que, por
sua posição de destaque deveriam baluartes de integridade.
Estamos voltando aos tempos da
barbárie, em que uma tribo mantém em relação à outra, uma atitude hostil, pondo
abaixo séculos de avanço civilizatório e de aprimoramento das relações
diplomáticas. Que mundo estamos deixando para nossos filhos em que os grandes
líderes comportam-se como trogloditas?
A atitude de Trump é parte de seu
perfil arrogante. O presidente republicano já havia rompido outro hábito
secular, ao se recusar a cumprimentar o vencedor das eleições de 2020, ato de
grandeza que reforçaria os primados do regime democrático que pressupõe aceitar
o resultado eleitoral e quem perde reconhece a derrota e parte para a próxima.
No Brasil, essa conduta deplorável
foi copiada em 2022 quando o perdedor nas urnas, discípulo de Trump, recusou-se
a cumprimentar o candidato eleito legitimamente. Preferiu fugir para Orlando
para não demonstrar cordialidade nem se ‘rebaixar’ de sua condição de ‘mito’, apertando
a mão de 4 dedos do adversário político, gesto que ajudaria a pacificar o país e
desarmar os espíritos. Birrento, manteve sua base raivosa preparada para o enfrentamento.
A prática de cumprimentar o oponente
(diferente do ‘inimigo’) tem origem no espírito esportivo, em que, ao fim da
contenda, vencedor e perdedor dão-se as mãos civilizadamente, mostrando que o embate
que ocorreu na arena foi encerrado com o apito final, voltando os competidores
a ser apenas indivíduos normais, merecedores de respeito e consideração.
Essas atitudes de confronto permanente
são produtos do radicalismo que tem formado a índole das pessoas que
naturalizam o ódio e as tornam incapazes de enxergar o outro como um ser humano
que, mesmo pensando diferente, é digno de gentileza. São frutos de uma época de
deterioração social, onde a internet substituiu a comunicação tête-à-tête, olho
no olho, na qual as pessoas tinham maior chance de se entender e havia maior
empatia. Mas isso é assunto para uma outra crônica.


