sábado, 7 de fevereiro de 2026

SUPER POBRES

 

Muito se fala dos super ricos, grupinho reduzido de privilegiados que amealham fortunas tão descomunais que fazem o Tio Patinhas parecer um pobretão.

Erguem mansões em localidades diversas com dezenas de cômodos em mármore maciço e um séquito enorme de serviçais, bunkers antinucleares, coleções de carros blindados, iates, jatinhos, joias e objetos de luxo. Possuem zoológicos particulares com animais exóticos (em extinção). Constroem banheiras de ouro e privadas cravejada de brilhantes para dar um tratamento vip até à saída de seu cocô.

Investem em terras, fazendas, gado, ilhas paradisíacas, fundos exclusivos, startups, e outros ativos cujos rendimentos e valorização lhes permitem fazer o seu patrimônio crescer indefinidamente. Tal qual seu ego. E sua ambição. Sonegando impostos para perpetuar a riqueza em sua integralidade.

Não sabendo o que fazer com tanta grana acumulada, promovem festanças nababescas em hotéis 6 estrelas com shows de artistas super stars (super ricos também) e organizam turismo espacial de lazer para outros super ricos gastarem seu tempo em frivolidades inacessíveis aos demais mortais.

Não bastasse, fazem lobby sobre os governantes para direcionar os rumos das políticas para atender a seus propósitos particulares de maneira que os destinos da humanidade a eles se subjuguem.

Não se importam também em rapinar os recursos da Terra em benefício próprio, ameaçando a existência de todos os seres vivos, inclusive deles próprios. Colocam os bens materiais acima de tudo inclusive da vida.

Na outra ponta, na base da pirâmide social, uma imensa maioria de indivíduos padece de fome e sede e luta pelas migalhas que os permitam sobreviver: são os super pobres.

Para um visitante do espaço que descesse à Terra, tamanha desigualdade seria inconcebível. Qual a lógica em os terráqueos aceitar passivamente uma sociedade em que muito poucos têm bilhões enquanto bilhões têm muito pouco?

A chave para a compreensão desse quadro bizarro é que os super ricos contam paradoxalmente com a condescendência dos super pobres para manter o status quo.

Os super pobres não se revoltam, nem se organizam para pressionar por mudanças que melhorem sua situação relativa. Aceitam humildemente a superexploração a que são submetidos. São também super pobres de espírito.

Opostamente ao que imaginara Marx em sua ‘luta de classes’, esses falsos ‘coitadinhos’ enxergam como seus reais inimigos não os abastados donos do capital, mas os demais pobres a que consideram fracassados e os imaginam como concorrentes na batalha para a ascensão social. Se não obtiveram sucesso nessa empreitada utópica para ‘subir na vida’ é por não terem se esforçado suficientemente. E passam a trabalhar dobrado, tornando-se além de super pobres, super esgotados.

Acatam a ideia de que aqueles que se encontram em situação aflitiva foi por desígnios de um Deus que premia materialmente apenas quem é bem sucedido como empreendedor.

Admiram os bem aquinhoados que, graças a seus esforços, teriam alcançado a bem aventurança traduzida por uma vida de luxúria, ao gosto do Cristo corporativo que dirige a humanidade não de um trono celestial, mas acomodado numa cadeira ergonômica de couro num smart office com ar condicionado. Que está mais para CEO do que para o céu.

São os super pobres que abastecem com seu dízimo os pastores charlatões. São eles que elegem com seu voto os políticos corruptos e que enriquecem com sua atenção influencers picaretas. São eles que seguem os mandamentos dos impostores midiáticos que os convencem sem questionamento de lorotas persuasivas.

Os super pobres menosprezam a educação que poderia fazê-los compreender a exploração e ignoram a palavra daqueles que os exortam a entender a dura realidade.  Preferem viver na ilusão e se apegar à religião que lhes ensina o conformismo e a submissão.

Sim, os super ricos podem continuar a se esbaldar à vontade. Contarão sempre com a benevolência dos super pobres.

 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

BBB

Aconchegue-se no sofá e prepare a pipoca. Esqueça preocupações do trabalho, problemas domésticos, aluguel, guerras, corrupção, mudanças climáticas, contas atrasadas, taxa de colesterol e todas as coisas chatas sobre as quais, quando questionado a respeito, você responde “e eu com isso?”, empenhado que está em direcionar sua atenção para assuntos mais aprazíveis como futricar na vida alheia.

Vai ter início o BBB. A partir de agora, você será transportado para um maravilhoso mundo de fantasia, tão arrebatador quanto um papo casual com o vizinho no elevador, ou sobre o comportamento do poodle da moça da fila do supermercado. Nesse contexto, não há relatos edificantes, dramas épicos ou sátiras de costumes. Nem mesmo um enredo ou um roteiro. Apenas uma sequência de vai-e-vens dos personagens da sala para a cozinha e da cama para a privada, entremeada por diálogos niilistas sobre as virtudes da apatia e do ócio.

Embora voltado para indivíduos com reduzida capacidade cognitiva e mentalidade psicossocial infanto-juvenil, não se confunde com contos de fada ou de aventuras. Nele não há príncipes, donzelas, castelos, dragões, criaturas mágicas e super-heróis. Apenas adultos ‘comuns’ e insossos tipo os que habitam diuturnamente o Facebook e o Tik Tok. Tão estúpidos quanto seus espectadores.

São barrados pelos experts em audiência da Globo intelectuais, pessoas reflexivas, questionadoras e artistas (exceto os ‘popularescos’). Os participantes são selecionados pelo grau de babaquice, em sintonia com o sentimento de identificação dos telespectadores.

São priorizados aqueles que gostam de fazer intrigas, injunções fúteis e tenham capacidade de partilhar sua estreita visão de mundo com gente de sabedoria construída em grupos de whatsapps. Assuntos que, não servindo para qualquer matéria jornalística de relevo (afora revistas Caras e Contigo), são suficientes para provocar acaloradas discussões dos ‘especialistas’ em coisa nenhuma que frequentam os programas diurnos de Ana Maria Braga, Sonia Abrão e Nelson Rubens.  Que conseguem a proeza de superar em chatice as bizantinas mesas redondas de futebol que debatem o duvidoso pênalti do zagueiro flamenguista com a eloquência retórica de Cícero defendendo a República Romana.

Gente que, se não estivesse 24 horas na Globoplay exibindo sua frivolidade, estaria junto a você, do outro lado da tela, tornando o reality show campeão de audiência e corroborando as palavras de Nelson Rodrigues: “os idiotas vão tomar conta do mundo, não pela sua capacidade, mas pela quantidade; eles são muitos”.

Tais pessoas, invisíveis na turba ante sua insignificância, ganham visibilidade na TV, fazendo do ofício do Big Brother orwelliano um mar de tédio. Os detalhes do seu comportamento são prescrutadas por centenas de câmeras e microfones estrategicamente posicionados na casa/estúdio para acompanhar minuciosamente os movimentos e reações dos participantes. Captam desde uma coçada de saco e peidos acidentais até opiniões preconceituosas acompanhadas de risadas de cumplicidade.

Nesse circo, você poderá exercer sua vocação cívica elegendo o infeliz que vai para o paredão com a seletividade que lhe faltou na escolha do deputado do Centrão que seu voto colocou no parlamento, cujo nome certamente lhe fugiu da memória, sobre cujas maracutaias você reitera com desdém: “e eu com isso?”

 


terça-feira, 20 de janeiro de 2026

DEBAIXO DOS CARACÓIS DOS SEUS CABELOS

 

“Debaixo dos caracóis dos seus cabelos, uma história pra contar de um mundo tão distante” (Roberto e Erasmo Carlos)

Os saudosos anos 60, além de propiciar nova consciência, clamor pacifista e efervescência artística, colocaram nos moços longas cabeleiras. Encaracoladas, cacheadas, naturais, lisas, afro, black power, rebeldes, mas invariavelmente compridas.

Depositários inconformados de valores de uma sociedade decrépita que exaltava a grana e a guerra, os jovens cabeludos ansiavam por uma nova ordem onde floresceria o amor e a solidariedade universal.

Os profetas da Nova Era atribuíam o movimento à irrupção da Era de Aquário. “Quando a lua está na sétima casa e Júpiter alinha-se com Marte”, dizia a canção-símbolo do musical “HAIR” (cabelo).

As mesmas cabeças que, turbinadas por alucinógenos, hospedavam interiormente loucos devaneios de libertação, faziam brotar exteriormente caracóis psicodélicos e fios emaranhados rebeldes.

Cabelos longos significavam também transgressão à virilidade e à classificação dos gêneros segundo a tradição moralista cristã que dividia o ser humano em 2 categorias absolutas: o homem e a mulher, definidas respectivamente pelas cores azul e rosa.

As mulheres que tinham nos abundantes cabelos a marca registrada da feminilidade como protótipo de beleza, agora enfrentavam a concorrência masculina, numa época em que os limites que separavam as duas tipologias biológicas tornaram-se mais fluidos.

Os militares machões que promoviam a guerra e a repressão sempre tiveram aversão por cabelos compridos, enfileirando-os em pelotões capilares uniformes através de cortes tipo reco.

O sistema opressor para impor os valores burgueses exigia do indivíduo apresentação visual condizente. As vestes e o penteado deveriam retratar disciplina e ordem. Cabelos e roupas desalinhados eram sinal de desleixo, desrespeito, rebeldia.

A marcha inexorável do tempo sepultou os anos 60 e com eles a quimera por um mundo melhor. “O sonho acabou”, proclamou o cabeludo John Lennon.

Com o passar dos anos, os cabelos tornaram-se grisalhos, cresceram tanto que ficaram frágeis, começaram a cair como folhas no outono.

Cabelos compridos saíram de moda. Também saiu de moda o empenho em acabar com as guerras e salvar o planeta.

Adveio uma nova leva de jovens individualistas com aspirações de ascensão social e fortuna material. Essa espécie em expansão era representada por um figurino asseado, bem trajado, de cabelos aparados.

A nova safra de jovens das gerações X, Y e Z, ao invés de colares, fitas, pulseiras artesanais com a insígnia de paz e amor, portava roupas e acessórios de grife. Os hippies de outrora tornaram-se capitalistas de terno e gravata e investidores do mercado de ações e em criptomoedas.

Alguns mais extremados ostentavam, orgulhosos, símbolos neonazistas, muitos deles... carecas. O radicalismo execrava radicalmente a presença de fios subversivos.

Carregavam metralhadora numa mão e Bíblia noutra. Respaldavam seu ódio nas palavras do mesmo Cristo que, triste ironia, pregava amor e usava vestes simples, sandálias, barba e... cabelos compridos.

Talvez eu seja apenas um saudosista que me apegue a um passado cabeludo que não volta mais.

Mas no alto das minhas décadas de vida, reluto em ir ao barbeiro cortar periodicamente os cabelos. A eles me apego, como uma ingênua esperança de voltar a sonhar por um mundo melhor.