terça-feira, 29 de setembro de 2026

O BANQUETE DO FIM DO MUNDO

 

Um encontro histórico em Washington colocou frente a frente os mandatários das duas maiores potências mundiais, EUA e China. Toda a pompa em torno dessa reunião de titãs sugeria que o evento seria um divisor de águas para a humanidade, abrindo caminho para a esperança de um futuro de entendimento e harmonia.

A refinada decoração do ambiente que abrigava os dois homens mais poderosos do planeta combinava louças de prata com arranjos florais predominantemente vermelhos, tom que identifica tanto a tradição cultural milenar da China e seu Partido Comunista, como a identidade do Partido Republicano americano.

Lado a lado, os líderes aguardavam ansiosos os quitutes escolhidos a dedo para satisfazer o apetite do seleto grupo que incluía alguns dos maiores nomes da tecnologia e da inteligência artificial como Elon Musk (Tesla/SpaceX), Tim Cook (Apple), Jensen Huang (Nvidia) e Lisa Su (AMD).

Percebe-se pela composição da equipe que o assunto a ser tratado entre a ingestão de uma porção de velouté de abóbora com cogumelos e uma garfada de robalo grelhado com gergelim não era tratar de questões mundanas como a paz mundial ou a melhora de condições sociais dos excluídos. O encontro gastronômico na East Room da Casa Branca com os oligarcas do Vale do Silício e de Shenzhen não iria perder tempo tratando de mudanças climáticas, ameaças pandêmicas ou crises migratórias que afligem os oito bilhões de terráqueos não convidados para a festa. Essas questões não foram ventiladas sequer durante a sobremesa, um crémeux de baunilha com cereja ou o derradeiro café cultivado nas encostas vulcânicas do Havaí (no caso do líder chinês, um chá verde, originário da região de Longjing).

Discutiram-se assuntos de suma importância para a realidade dos africanos subnutridos tais como comércio de chips, segurança na cadeia de suprimentos, minerais críticos e a expansão da tecnologia, aquela que, nos prometeram, seria usada para nos libertar do trabalho degradante e democratizar o conhecimento e que agora nos torna um bando de escravos digitais alienados. A mesma que concentra um poder cada vez maior nas mãos de cada vez menos indivíduos, beneficiários dos lucros trilionários enquanto as massas definham.

A agenda do retumbante encontro, despida de qualquer pudor ou maquiagem filantrópica, operou sob o pragmatismo mais gélido. Para que perder tempo salvando o planeta quando estão em jogo questões cruciais como a soberania sobre a indústria de semicondutores de Taiwan e a ameaça à liberdade das Big Techs de instrumentalizar os usuários e difundir ideias extremistas?

O encontro entre os líderes e os ricaços da tecnologia não é um debate sobre o futuro; é o inventário de um planeta onde o ser humano perdeu o valor e a barbárie foi digitalizada.

Enquanto o restrito grupo esbaldava-se no faustoso jantar regado a Schramsberg Blanc de Noirs, não muito distante dali, em Nova York, reuniam-se a pão e água numa assembleia piegas, os participantes da desprestigiada ONU. Lá estavam os porta-vozes do mundo que sobrou, ou seja, das outras 191 nações - número que não inclui o Estado da Palestina, eternamente barrado pelo veto americano, a mando de Israel.

Pobre ONU, projeto nascido ironicamente por iniciativa dos próprios EUA para se buscar um consenso internacional e reduzir as tensões, mas que agora a considera uma organização inútil que não atende as necessidades do ‘America First’. Criada em 1945, à sombra do fim da II Guerra Mundial, o louvável projeto americano parecia ter como objetivo elaborar o desenho de uma nova era de cooperação global. Essa herança foi jogada às traças. Ao adotar desprezo pelas instituições internacionais, os EUA renunciaram à responsabilidade global. O isolacionismo de Trump é uma postura de abandono do resto do mundo à própria sorte, enquanto sabota ativamente a cooperação internacional para garantir que as corporações americanas mantenham sua hegemonia colonialista sobre os mercados estrangeiros.

O país que outrora se autoproclamava "farol da liberdade" despiu-se de qualquer verniz de liderança ética. A terra de Jefferson e Lincoln foi sequestrada pela aliança espúria entre o chauvinismo econômico e o cartel dos magnatas do Vale do Silício. A busca pelo bem-estar e pelos direitos inalienáveis dos cidadãos de todo o mundo deu lugar à desregulamentação predatória, à exploração irrestrita de dados e à invasão da privacidade. O ser humano passou a ser apenas um perfil anônimo a ser monetizado por monopólios tecnológicos que operam acima de qualquer norma regulatória. Na planilha de custos deles, a humanidade tornou-se um ativo obsoleto.

Eu me pergunto onde foi parar aquela sociedade ideal fundada no humanismo e na solidariedade. Morreu nos sonhos hippies da década de 1960. Ironicamente, desfez-se nas mesmas cabeças de cabeludos convertidos em profetas da internet, rede de computadores concebida originalmente como ferramenta de democratização do conhecimento e de formação de um mundo melhor. Agora os ideais juvenis desaguaram na ganância e no alinhamento a um autocrata cruel que massacra imigrantes e financia genocídios.

Enquanto os EUA expõem sua arrogância imperial, prometendo aniquilar a civilização milenar persa que não conseguiram dobrar, a China contemporânea robotiza sua sociedade em nome da estabilidade estatal, assistindo seu líder absoluto receber do anfitrião Trump, pretenso arqui-inimigo, a bajulação de estender-lhe um tapete vermelho.

O dragão tecnológico chinês personifica a maior traição cultural e filosófica da história do Oriente, tendo devorado seus próprios alicerces para assumir a vanguarda da Inteligência Artificial. Pequim amputou a própria alma, sepultando milênios de sabedoria sob o asfalto de suas megacidades e a infraestrutura de seus data centers. O país que outrora valorizou o despojamento material, o respeito à natureza e a retidão social, preconizados por Confúcio e Lao Tsé, transformou-se em um colosso plastificado e artificial, onde o ser humano foi reduzido a um pixel no painel de controle do Estado. O ritmo orgânico da existência foi substituído pelo compasso implacável dos algoritmos de reconhecimento facial, pela vigilância ubíqua e pela modificação artificial do comportamento humano, cenário em que a virtude deixou de ser uma escolha moral do indivíduo, para se tornar uma pontuação automatizada por uma IA que manipula cidadãos como ratos de laboratório.

O ideal socialista foi oficialmente rifado em favor de um capitalismo de Estado hipertecnológico. Marx foi armazenado no mesmo arquivo morto dos pensadores dinásticos. A utopia de uma sociedade igualitária deu lugar a uma distopia de bilionários da tecnologia alinhados ao todo poderoso Partido, que fizeram fortuna à custa de jornadas de trabalho acachapantes. O país tornou-se o desdobramento dos modelos corrompidos do Ocidente que ele tanto finge combater: uma engrenagem fria, artificial e desprovida de humanismo.

Unificados pela mesma ganância, o capitalismo predatório americano e a tecnocracia artificial chinesa esvaziaram os valores milenares da humanidade em prol de uma corrida cega pela primazia da Inteligência Artificial.

Curiosamente, na mesa que reúne a maior autoridade do Ocidente com o líder da potência máxima do Oriente deixou de haver oposição entre dois mundos diferentes que propalavam sua superioridade: um fundamentado em um sistema econômico aglutinador de massas a defender a democracia e a liberdade; o outro fundamentado na sabedoria milenar que priorizava a prevalência de valores espirituais. Ambos se renderam à mesma premissa utilitarista barata. Em vez de princípios éticos, passaram a ser guiados por valores algorítmicos. O materialismo substituiu os deuses da religião por um deus ‘ex machina’ computacional sob a falsa promessa de resgatar a humanidade da miséria e da desigualdade.

Encerrada a comilança, entre o inebriante aroma do café havaiano e o último gole morno de chá verde special reserve, os senhores do mundo levantam-se saciados. O banquete termina, a conta é repassada para os oito bilhões de ausentes, domesticados por telas e algoritmos, que seguem marchando em direção ao abismo.

 


quinta-feira, 24 de setembro de 2026

HAPPY END

 
Filmes com finais felizes, além de nos inundar a alma com uma sensação boa, fazem-nos acreditar que existe uma lógica subjacente à ordem das coisas, na qual a bondade sempre prevalece e os ruins serão punidos. Tais enredos, salpicados de tragédias transitórias, sofrem invariavelmente reviravoltas, até que o glorioso desfecho traga paz a nosso coração. Depois de duas horas de angústia cinematográfica, o alívio compensa a amargura. Podemos, então, dormir o sono dos justos e dos vingados, acreditando que a marcha do destino obedeça a essa lógica regeneradora.

No entanto, quando nos voltamos para a realidade cruel que nos cerca, constatamos que o roteiro da vida foi escrito por alguém com pouco senso de humor e as coisas não caminham para a catarse desejada. Quem tripudia sobre os outros é que alcança o triunfo; quem explora os necessitados é que usufrui da opulência.

E o justo? Qual o papel desse escultor ingênuo da utopia que se esmera em moldar o ser humano? Acumula decepções, esperando em vão que o destino dê uma guinada e faça com que a lógica hollywoodiana possa enfim vingar. Até que uma dúvida advém: e se o canalha com sua falta de escrúpulos, for aquele que goza da preferência dos deuses?

As crenças religiosas oferecem a promessa de que algum dia os bons serão recompensados e os maus castigados pelas entidades etéreas que, no conforto de seus assentos celestiais, assistem as desventuras da vida se desenrolarem.

Cadê o paraíso que premia os venturosos? Qual é mesmo o endereço do inferno, destino dos maus? Onde está o deus que assiste impassível a tantas maldades? Talvez não seja bem aquele que imaginamos e esteja se divertindo daqueles que se equivocaram sobre sua índole benevolente. Talvez seja ele um ser perverso que não se preocupa com o destino incerto que aguarda seu rebanho desamparado.

E, pior: e se não houver deus nenhum? Seja ele apenas uma criação fantasiosa dos homens para atender seu desejo íntimo de que, num outro plano, se aplique a justiça. Porque, se não existe uma justiça escondida atrás da cortina do mundo, então somos nós, apenas nós, os atores desse espetáculo macabro em que improvisamos a trama. Onde não há um roteirista nem um diretor cósmico. Não haverá um tribunal no fim dos tempos para devolver ao injustiçado aquilo que lhe foi tomado. Apenas esta vida finita e cruel.

O homem que tentou ser decente e correto olha para trás e vê pouco além de perdas e danos. Fez o que acreditava certo e, em troca, recebeu ingratidão. Agora, está cansado de não ter reconhecimento. Talvez essa seja a forma mais perversa de revolta: não bradar contra os céus, mas simplesmente deixar de acreditar que os céus se importam.

Apesar de todos os reveses que lhe são colocados, o legítimo justo não se abate. Mesmo depois de tudo, quando alguém cai na rua, ele estende a mão. Quando alguém chora, ele pergunta o motivo. Quando alguém é injustiçado, sua indignação aflora.

Ele não se conforma em ser desse jeito, mas tal sentimento nele está impregnado, não consegue evitar. Não se sente superior, pois não há escala a avaliar a qualidade de suas ações. Ele é apenas assim. Uma ovelha branca em meio a ovelhas negras.

Contra as mensagens que lhe são passadas, ele ainda acredita. É como uma pequena brasa que resiste, mantendo seu brilho sob toneladas de cinza. Uma centelha que ilumina tenuemente a esperança dos tolos. O mundo lhe mostra que a bondade é inútil, mas ele teima em ignorar essa evidência. Não porque lhe tenham prometido recompensas, nem porque acredita que o tal deus o observa, ou porque espere um lugar melhor após a morte. Sequer sabe se haverá esse ‘depois’. Continua porque, se abandonar também isso, talvez descubra que a pior injustiça não é sofrer num mundo sem justiça. É tornar-se semelhante àquilo que o fez sofrer.

Percebe que o ‘happy end’ não é ver as coisas terminarem bem como o céu cor de rosa das telas de cinema, mas saber que o final feliz vem daqueles que, mesmo com tanta coisa ruim rolando por aí, não desistem. E essa seja a sina mais cruel: continuar esperando por um mundo melhor quando os indícios são de que ele jamais virá.

E ele segue, vivendo a cada passo uma nova desilusão. Mais um patife vencerá. Mais um inocente sucumbirá. E os crédulos continuarão perguntando: “Onde estás, meu Deus?” enquanto do outro lado, haverá apenas o silêncio. Talvez seja esse o verdadeiro happy end: não esperar que seja feita a justiça, mas impedir que a injustiça nos transforme naquilo que não queremos ser.


sábado, 12 de setembro de 2026

O DIA EM QUE AS TATUAGENS SAÍRAM DE MODA

 

Foi numa sexta-feira nublada de setembro que o mundo estremeceu. Nada de tornados, terremotos ou tsunamis. Tampouco o lançamento massivo de mísseis balísticos ou ameaças de guerra nuclear iminente. Algo mais bombástico: uma postagem de um influencer de moda decretou as seguintes palavras a seus milhões de fiéis seguidores: “A tendência para a próxima estação será exibir a pele nua e crua em seu esplendor natural. Tatuagem? Sai fora dessa brega intervenção artificial, aberração invasiva utilizada pelas gerações anteriores para difundir seus ultrapassados valores.”

Foi a senha para disparar o quiproquó. Em questão de horas, o mundo civilizado entrou em colapso estético. Na segunda-feira, as clínicas de remoção a laser exibiam filas que dobravam quarteirões e faziam dobrar os atendentes. Na terça, faltou horário. Na quarta, faltou equipamento. Na quinta, faltou esperança. E sobrou desespero.

A queixa generalizada nos consultórios de psicologia passou a ser: “Doutor, como conviver com o trauma de ter profanado minha cútis num momento de fraqueza?”

Criou-se até uma literatura crítica revisionista com conceitos pejorativos como ‘pele psíquica’, explicando que o que não pode ser elaborado por meio da palavra, acaba sendo externalizado no corpo. A tatuagem foi reduzida a uma tentativa de dominar por meio da agulha o complexo emocional de um passado sufocante. As figuras funcionariam como uma armadura, uma epiderme secundária, o território do ego em que o indivíduo expressa seu narcisismo e a imagem que nutre de si mesmo.

De repente, os prosaicos véus que cobrem o corpo (e as tatuagens) ganharam status fashion com força total. As burcas das mulheres islâmicas, antes execradas, passaram a ganhar respeito e devoção, sugerindo até a possibilidade de conversão religiosa e uma mudança comportamental frente à materialidade existencial do Ocidente.   

Assim nasceu o dilema daqueles que fizeram um pacto eterno de fidelidade com as agulhas segundo o qual o corpo foi vilipendiado e cedido aos arroubos de um impulso juvenil.

As cabeças carecas, antes transformadas em tela foram substituídas por implantes capilares. Pior foi a amargura dos entusiastas que levaram o procedimento para zonas inimagináveis como a tatuagem no globo ocular (eyeball tattoo), interior da boca, língua, genitais. Ou daqueles que não preservaram o rosto e demais partes expostas pelas vestes casuais. O que fazer agora com esse trambolho estilístico?

A discreta borboletinha no tornozelo, na qualidade de singelo adorno, foi poupada, passando incólume ao turbilhão higienista dos novos tempos, não chegando a comprometer seu usuário. Já os imensos dragões orientais e as frases motivacionais em sânscrito tornaram-se um estorvo megalítico a seus portadores.

Diante da nova tendência, os mais suscetíveis que haviam cravado um detalhado mosaico da cultura pop nos exíguos espaços disponíveis do corpo ficaram sem saber como agir. Enquanto não decidiam, passaram a vestir grossos sobretudos para ocultar seus exóticos rabiscos.

Lembrei-me do filme “A Outra História Americana”, em que o protagonista interpretado por Edward Norton, ao revisar seus valores ideológicos, já não se reconhecia no espelho, confrontado pela enorme suástica que carregava no peito. ‘O que faço com ela?’

A tatuagem parte do pressuposto de que somos seres imutáveis e as decisões tomadas são definitivas. Aqueles que a ela se submeteram acham que suas mentes jamais se modificarão e transferem o peso dessa imutabilidade para a própria pele. O problema surge quando a cabeça se submete a uma lavagem cerebral mas o resto da massa corpórea não é capaz de acompanhar a mudança.

O sábio Raul Seixas já havia antevisto o dilema ao manifestar preferência em ser uma metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião estampada sobre tudo.

Os usuários acreditavam, em sua santa ingenuidade, que a moda duraria até o fim de suas vidas úteis. O curioso é que a tatuagem costuma ser apresentada como uma afirmação de individualidade. "Quero ser único", diz alguém... enquanto entra numa fila de outros cinquenta querendo exatamente o mesmo ornamento polinésio, a mesma rosa cor -de-rosa, o mesmo astrolábio, o mesmo leão de olhar filosófico e a inevitável frase em celta cujo significado permanece indecifrável.

As tatuagens pareciam ter desvendado o segredo da imortalidade. Afinal, não bastava vestir a moda; era preciso costurá-la na própria pele. É um compromisso que nem casamento exige.

Há também a criatividade inesgotável dos apaixonados. Juram amor eterno, tatuam o nome da pessoa amada e, seis meses depois, descobrem que o amor era eterno até o próximo fim de semana. A pele, nossa fiel companheira de jornada, infelizmente, parece não acompanhar as desventuras fugazes do coração.

Naturalmente, a indústria de cosméticos aproveitou-se da situação para faturar alto, criando os ‘corretivos de pele’, uma base tão grossa que parecia massa corrida. Logo apareceram os alarmistas alertando sobre os perigos que tais métodos provocam ao sufocar o tecido cutâneo e provocar tumores malignos. E as fake news ajudaram a propagar pelas redes o pânico geral.

E, quando as tatuagens previsivelmente saíram de moda — porque tudo, absolutamente tudo, um dia sai — aconteceu o inimaginável: a ousadia passou a ser desfilar com a pele completamente lisa, como quando veio ao mundo.

Enquanto a mudança de paradigma ainda não se efetivara, eu observava curioso o hábito da humanidade de transformar o próprio corpo numa espécie de caderno de anotações. Uns escreviam poemas, outros desenhavam tigres, alguns registravam datas memoráveis. A pele virou agenda, álbum de lembranças e mural de recados.

Instalada a nova ordem, os conformistas se resignaram, alimentando a esperança de que, como sempre acontece, os ciclos façam que na próxima geração ou talvez daqui a 50 anos, quem sabe, a tatuagem volte à moda.