sexta-feira, 19 de junho de 2026

 

Em maio de 2018, escrevi uma matéria exaltando a Copa do Mundo que estava prestes a se iniciar, naquela oportunidade, na Rússia. Nela, enaltecia o espírito esportivo que se sobrepunha às divergências entre as nações. Todos se rendiam àquela saudável competição em que as delegações de cada país se submetiam às normas estabelecidas para ganharem o direito de colocar seus 11 melhores em campo.

A Copa, segundo o texto, era uma rara oportunidade que possibilitava o congraçamento universal. As diferenças eram deixadas de lado em nome da disputa esportiva. Países com regimes de governo tão distintos participavam em igualdade de condições e a FIFA, que a todos congrega, incumbia-se de fazer valer requisitos equânimes para os participantes cumprirem.

Transcrevo a seguir trechos da referida matéria:

“Parece surreal que nações com culturas e sistemas de governo tão díspares, com divergências aparentemente irreconciliáveis, (...), disponham-se, respeitosas, a participar de um evento coletivo, obedecendo obsequiosamente a suas estritas regras.”

“O país-sede empenha-se em receber de braços abertos os visitantes. Nenhum anfitrião nessa hora quer dar vexame e passar por troglodita intolerante. A adequada recepção de convidados garante uma boa imagem perante bilhões de espectadores grudados na telinha”.

Aos meus olhos crédulos, a Copa era um oásis de civilidade e convivência num deserto de intolerância e crueldade.

Decorridos meros 8 anos, o cenário mudou tão radicalmente que esse cândido artigo perdeu totalmente a validade, atropelado por inimagináveis circunstâncias.

Hoje, ao revisá-lo, não senti vergonha de tê-lo escrito. Senti saudade. Saudade de um tempo em que ainda se podia acreditar que um torneio de futebol era capaz de reunir diferenças sob um conjunto comum de regras. Talvez o mundo nunca tenha sido da maneira que idealmente concebi. Talvez eu fosse bocó ou apenas tenha envelhecido o suficiente para permitir que caísse a ficha da infame realidade.

Ao assistir ao que vem acontecendo no mundo nesses últimos tempos, verificamos que as mudanças da Copa de 2026 para a Copa de 2018 fazem parte de um pacote maior de perversidades que impactou as relações internacionais, muito além do futebol.

Um acontecimento em particular parece estar no centro desse tornado devastador: a ascensão ao poder em uma das nações-sede de um governante pouco afeito a patrocinar um ambiente de confraternização universal e pouco receptivo a receber visitantes indesejados. Seu lema: “America First”.

A primeira a se vergar a esse turbilhão de insensatez foi a FIFA, organização cuja seriedade e idoneidade antes pareciam um anteparo a interferências não provindas da arena esportiva. Aceitou calada as arbitrariedades, preocupada mais nos resultados financeiros do que na lisura dos procedimentos.

Ao sediar a Copa de 2026 (ao lado do México e do Canadá), os EUA, deixaram claro que os rituais previstos deveriam se submeter às novas diretrizes governamentais. Pipocaram episódios lamentáveis como as dificuldades impostas à entrada e ao trânsito de estrangeiros, não apenas torcedores, mas também árbitros, atletas e integrantes das equipes técnicas participantes do torneio, especialmente daqueles provenientes da África, da América Latina e do Oriente Médio, tratados como escória.

O mínimo a esperar para um país que se oferece como sede é proporcionar condições aceitáveis para o pleno exercício da atividade esportiva, bem como oferecer hospitalidade para os torcedores que se dispuseram a viajar de sua terra natal para incentivar sua equipe. Esse princípio básico de cortesia foi desconsiderado pelos negligentes anfitriões. Com anuência da FIFA.

Contraditoriamente, a mesma Copa que abriga um número recorde de seleções deverá passar para a história como a mais segregacionista de todas.

Nem mesmo em eventos esportivos equivalentes ocorridos em regimes autoritários como na Itália em 1934 (Copa do Mundo, sob Mussolini) ou na Alemanha em 1936 (Olimpíadas, sob Hitler), as delegações visitantes e os torcedores receberam tratamento tão humilhante e discriminatório. Ao contrário, os ditadores citados procuravam vender ao mundo a prevalência de uma atmosfera de tolerância e equidade para dar credibilidade ao evento sediado.

Para não perder o foco, voltemos nossa atenção ao velho esporte bretão. À Copa sem brilho, à Copa Opaca, a mesma que Mr. Trump e Mr. Infantino (presidente da FIFA) estão se empenhando em conspurcar.

O fato é que aos trancos e barrancos, o evento esportivo prossegue, cumprindo sua agenda de jogos. Os embates em campo continuam ocorrendo, afunilando o número de candidatos rumo à decisiva batalha final. As arquibancadas continuam a vibrar e os estádios permanecem cheios, apesar dos preços proibitivos dos ingressos, destinados a afastar os menos aquinhoados. Os mesmos que, nos campos de várzea, ajudaram a fazer do futebol o esporte mais popular do planeta e, com sua espontaneidade, geraram artistas em lidar com a pelota, como Pelé e Garrincha.

Não sei ainda quem vai ganhar essa Copa. O certo é que, ao final, a taça será erguida, haverá comemoração e uma bela festa de encerramento que procurará encobrir os podres do percurso.

Mas entre mortos, feridos, lesionados e barrados no baile, a verdade é que, seja quem for o campeão, sairemos todos um pouco derrotados.

 

 

sexta-feira, 12 de junho de 2026

O AMOR DE CRISTO

São Paulo, cidade agraciada com o nome do mais célebre apóstolo do cristianismo, serviu de palco neste mês de junho a dois eventos de naturezas aparentemente irreconciliáveis que, no entanto, guardavam algo em comum: a capacidade de aglutinar multidões. De um lado, a Marcha para Jesus e, de outro, a Parada LGBT+.

Ao presenciar essas duas manifestações aparentemente tão díspares, uma dúvida me veio à mente: em qual delas Jesus caminharia?

A pergunta pode soar provocativa, até insolente. Afinal, de um lado, temos uma manifestação de caráter declaradamente religioso dedicada à enfatizar a fé em Jesus. De outro, um evento aparentemente pagão e depravado, com pessoas em trajes provocativos que representam o oposto do que a tradicional religiosidade cristã professa. Corpos seminus entregues ao hedonismo, música alta e danças sensuais que ferem o sagrado decoro litúrgico.

Mas se perscrutarmos além das aparências e de pré-julgamentos, a resposta não seria assim tão óbvia.

A Marcha para Jesus, embalada com música gospel e refrões de louvor ao Senhor, reuniu legiões de fiéis disciplinados, com vestes discretas e cabelos alinhados.  O que me leva a imaginar que Jesus com suas sandálias de tiras, suas vestes rústicas, barbudo e cabeludo (mais próximas à estética hippie) causaria certo desconforto.

Em contraste, na Parada LGBT+, ao som de batidas eletrizantes, cada um se apresenta como melhor lhe convém. Paetês, plumas, glitter, leques e vestimentas cintilantes esparramam-se espalhafatosamente pela avenida numa explosão de cores. Reivindicam, a seu modo, reconhecimento e respeito, glorificando a diversidade e celebrando a Vida. Partindo da ideia de que Deus é Vida, não deixa de ser instigante pensar que essa manifestação pode ser lida como uma espécie de experiência espiritual psicodélica.

Apesar de Marcha para Jesus, em tese, aceitar qualquer indivíduo que queira participar, na prática, os discursos prevalecentes são as conhecidas ladainhas pentecostais. Nesse meio, não são recebidos com entusiasmo aqueles que professam outros credos, como os que idolatram imagens (católicos) ou os que acreditam em reencarnação (espíritas). São especialmente mal vistos (talvez com uma dose disfarçada de racismo) os que praticam religiões de origem africana (umbanda, candomblé) cujos deuses e mentores espirituais (orixás etc.) são comparados a demônios.

Também são segregados os que têm condutas sexuais condenáveis, como gays e travestis que, reprimidos e enquadrados, deveriam se submeter a ‘curas gay’ para se comportar como um ‘temente a Deus’.

Verdade seja dita, esse comportamento não é generalizado, havendo comunidades evangélicas ‘progressistas’ que acolhem pessoas necessitadas independentemente de sua conduta pretérita e sua orientação sexual. Mas o pensamento mainstream estimula uma atitude persecutória contra homossexuais, feministas e aquelas que praticaram aborto, ainda que sejam meninas vítimas de estupro, todos sujeitos a arder eternamente no fogo do inferno.

Já a Parada Gay aceita de bom grado todos os que queiram participar, sem exigir profissão de fé ou filiação religiosa. Nela convivem católicos, evangélicos, espíritas, umbandistas, budistas, judeus, muçulmanos e ateus. São também bem recebidas pessoas de diversas orientações sexuais: homossexuais, heterossexuais, bissexuais e transexuais. Onde alguns enxergam promiscuidade, a primeira palavra que me ocorre é inclusão.

Lendo os Evangelhos, encontramos um Jesus que se aproxima justamente daqueles que a sociedade preferia manter à margem. Devemos nos reportar às ações do Mestre que acolhia indistintamente prostitutas, leprosos, deficientes, mulheres (vistas à época como categorias inferiores), gentios que professavam outras religiões e samaritanos vindos de outras paragens. O amor divino não se destina apenas aos integrantes de um círculo fechado, reservado aos moralmente impecáveis. Como um coração de mãe, no colo de Deus Pai havia lugar a todos os que praticassem o bem.

Na marcha que se diz cristã, outra coisa que me chamou a atenção, a profusão de bandeiras de Israel. Nada de errado em celebrar os vínculos entre duas tradições com raízes históricas próximas. O que me intriga é a idealização quase religiosa de um Estado que, como qualquer outro, está sujeito a críticas. Pergunto-me por que uma manifestação dedicada a um líder espiritual que pregava a paz precisa demonstrar identificação com um país envolvido em constantes conflitos territoriais com vizinhos.

 Enquanto a guerra produz milhares de vítimas civis inocentes em Gaza e gera denúncias de graves violações de direitos humanos, muitos líderes religiosos parecem demonstrar solidariedade incondicional a um dos lados do conflito, sem a mesma empatia pelas sofridas populações palestinas atingidas. Tenho dificuldade em conceber Jesus alinhado à lógica de um apoio seletivo. Consigo imaginá-lo, isso sim, ao lado das vítimas, dos refugiados, dos que perderam familiares e seus lares e não têm para onde fugir.

Fixados numa visão literal do Antigo Testamento, essa vertente evangélica encara que os hebreus têm direito bíblico à Terra de Abraão, ainda que isso implique em impor sofrimento aos ‘infiéis’ que ali residiam.

Discriminam eles os filhos de Alá, assim como os de Exu, os de Tupã. Trata-se de uma lógica perversa que hierarquiza crenças e elimina a complexidade de diferentes expressões espirituais, que a seu modo, buscam o bem, a ética e o desenvolvimento pessoal.

Também não consigo evitar uma certa estranheza diante da prosperidade dos pastores midiáticos. Jesus perambulava pelas estradas da Galileia sem patrimônio e sem qualquer sinal de ostentação além da força da sua palavra. Passados dois mil anos, vemos impérios milionários de comunicação, jatinhos particulares, e pregadores que parecem mais próximos de grandes empresários do que de humildes pescadores. Isso sem falar da insistente associação entre fé e prosperidade financeira e da recomendação para recolhimento do dízimo, transformado em requisito para contrapartida da graça divina. O que diria Jesus ao encontrar a fé transformada em produto, o púlpito convertido em plataforma de influência e a contribuição dos fiéis apresentada como caminho para bênçãos divinas?

Os ensinamentos de Jesus ressaltavam claramente a preferência pelos pobres e necessitados em versículos como “é mais difícil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus” (Mateus, 19:24). Essa profissão de amor pelos despossuídos não parece se sintonizar com os mandamentos dos pastores que ostentam vidas de luxo. Tampouco a centralidade conferida à contribuição financeira induzida dos fiéis que parece mais se afinar com o comportamento mercantilista dos vendilhões que assaltavam os templos e provocando a ira de Jesus.

Retomando a palavra do apóstolo que emprestou seu nome à metrópole que abriga tribos tão diferentes, e dizia “aceitem-se uns aos outros da mesma forma que Cristo os aceitou, a fim de que vocês glorifiquem a Deus” (Romanos 15:7), volto a indagar: qual seria a escolha de Cristo?

 

 


quinta-feira, 4 de junho de 2026

O GORDINHO DO STF

 

Quando Flávio Dino tomou posse como ministro do STF, o que nele se sobressaiu não foi o currículo, a trajetória política ou as ideias jurídicas. Foi o tamanho.

Julgar os indivíduos pela primeira impressão é um defeito do ser humano, especialmente do brasileiro, que, com sua índole zombeteira, adora rotular os indivíduos por alguma característica que lhe chama a atenção - careca, dentuço, narigudo, balofo, baixinho, gago, crioulo, japa, baiano, gay, geninho, coroa. O apelido vem antes da pessoa e não raro em tom desabonador. Quem se atreve a criticar essa postura corre o risco de ser tachado de ‘woke’, patrulheiro dos costumes, censor do humor alheio.

Pessoas com sobrepeso carregam um fardo que vai além da massa corporal: afora preocupações com a saúde e limitações práticas, convivem com preconceitos que lhes são impostos antes mesmo de serem devidamente conhecidos.

Quando foi indicado por Lula para uma cadeira no STF, Dino despertou desconfiança entre os adversários. Além da hostilidade da balança, pesava contra o fato de ser egresso do antigo PCdoB, partido tido como radical. Além de gordo, comunista!

Confesso que quando o vi chegar ao STF, carregava certa prevenção contra ele (e não pelos quilos a mais). Não esperava grande coisa do homem. Seria mais um político a usurpar uma das suntuosas cadeiras da Corte. Alguém cercado de ‘aspones’ e vantagens remuneratórias, onerando a nós, contribuintes, que não entendemos bem qual utilidade nos proporciona para justificar as 'gordas' mordomias que usufrui.

Apesar disso, havia algo nele que me inspirava simpatia. Talvez porque homens ‘corpulentos’ transmitam frequentemente um sentimento de afabilidade, alguns até chamados carinhosamente de ‘fofos’. Lembrava-me ele o Stay Puft Marshmallow Man, o gigantesco boneco de marshmallow evocado pelos Caça-Fantasmas. Um personagem improvável de aparência inofensiva e bonachona capaz de provocar tumultos monumentais em Nova York.

Dino (não vou mais citar sua condição corporal para não estigmatizar o coitado), tendo ocupado o posto de governador do Maranhão, notabilizou-se por uma gestão bem avaliada. Seu jeito professoral de se expressar ajudou. Em vez de mais um integrante do Supremo a se expressar com excesso de rebuscados malabarismos léxicos, tínhamos alguém que fala a língua que os analfabetos em ‘juridiquês’, como eu, entendem. O fato de ter sido um bem sucedido político (foi também senador e deputado), facilitou, uma vez que, para ser eleito, teve de aprender a arte de se comunicar com o cidadão comum.

O fato é que Dino tem se saído (muito) melhor do que a encomenda. Quanto a minhas objeções, fui obrigado a admitir que estava (com perdão da expressão) ‘redondamente’ enganado. Até mesmo os mais extremados opositores tiveram que se render a suas evidentes qualidades.

Dino não hesitou em mexer em vespeiros nem desafiar dogmas firmemente estabelecidos. Orçamento secreto, penduricalhos, supersalários e aposentadoria compulsória a magistrados (vista como prêmio a condutas desviadas) são alguns espinhosos temas que o homem encarou, batendo de frente com poderosos interesses corporativos. Digno Dino voltou sua atenção não apenas a malfeitores de organizações criminosas, mas aos que estão encastelados nas diversas esferas do poder, mamando nas tetas do Estado.

Protegido pela estabilidade do cargo, poderia simplesmente acomodar-se com as benesses que a função lhe assegura, cumprindo diariamente o ritual de despachar, analisar processos e proferir longos e sonolentos votos. Preferiu, no entanto, usar de suas prerrogativas para sair da mesmice e moralizar o serviço público.

Se na silhueta carrega algo de Sancho Pança, é de Don Quixote que herdou o espírito guerreiro, enfrentando os moinhos da burocracia, dos privilégios e da inércia estatal.

Lamento apenas que muitas dessas iniciativas não tenham tido a devida repercussão no polarizado debate público, incapaz de enxergar, para além de ideologias, o valor das ações em benefício da coletividade.

Por tudo isso, penitencio-me por ter começado essa crônica preso às características físicas de Dino. Perdi um tempão falando do peso do sujeito quando o que deveria importar é o peso de suas ações.