sexta-feira, 10 de abril de 2026

LÍBANO LIBRE

 

Sou descendente de libaneses. Com muito orgulho! Todos os meus quatro avós provieram daquele exótico e restrito pedaço de terra, cujo tamanho não chega à metade do menor estado brasileiro, Sergipe.

Mesmo sendo um país tão pequetito, enviou para o Brasil, ao longo do século XX, tanta gente que hoje há mais descendentes libaneses no Brasil do que no próprio Líbano! Um em cada 20 brasileiros. São por volta de 10 milhões de ‘turcos’, como erroneamente costumavam ser chamados no tempo em que eu era criança. Certamente, a maior comunidade libanesa do mundo.

A oportunidade de desenvolver seus pequenos negócios foi um atrativo para os libaneses se aventurarem para essas distantes terras tropicais. E, diferentemente dos italianos, portugueses e japoneses, espalharam-se demográfica e democraticamente por todos os estados de Norte a Sul. E deram-se muito bem em todos. Começaram cuidando de “lojínias” e se expandiram para outras áreas de atuação.

No campo da política, os ‘patrícios’ tiveram uma participação notável. Encontramos exemplares em todos campos do espectro ideológico, da direita à extrema esquerda. Nomes de relevo como: Paulo Maluf, Paulo Skaf, Anthony Garotinho, Espiridião Amin, ACM Neto, Gabriel Chalita, Adib Jatene, Guilherme Afif, Michel Temer, Gilberto Kassab, Tasso Jeraissati, Beto Richa, Pedro Simon, Omar Aziz, Geraldo Alckmin, Simone Tebet, Patrus Ananias, Fernando Haddad, Guilherme Boulos, Jandira Feghali.

Musicalmente, os ‘brimos’ se destacaram, especialmente na MPB e no pop nacional: Ivon Cury, Tito Madi, Pedrinho Mattar, João Bosco, Fagner, Almir Sater, Egberto Gismonti, Duo Assad, Badi Assad, Mariana Aydar, Bruna Karam, Nonato Buzar, Tunai, André Abujamra, Evandro Mesquita, Frejat, Chorão, Fauzi Beydoum, Wanderléa, Alok e por aí vai. Parece que só não entraram na seara do sertanejo, do gospel e do pagode romântico. Ainda bem!

Em outras áreas da cultura, corre o sangue libanês em gente como Beto Carrero, Luciana Gimenez, Sabrina Sato, Sônia Abrão, Leda Nagle, William Bonner, Roberto Duailibi, Antônio Abujamra, Monark,  Amyr Klink, Juca Kfouri, Jamil Chade, Davi Nasser, Ibraim Sued, Ivaldo Bertazzo, Fauzi Arap, Betty Milan, José Simão, Janete Clair, Malu Mader, Maurício Mattar, Armando Bogus, Felipe Carone, Arnaldo Jabor, Walter Hugo Khouri, Fernando Gabeira, Andréia Sadi, Guga Chacra, Júlia Duailibi, Marina Person, Emerson Kapaz, Luís Nassif, Tárik de Souza, Almir Chediak, Aziz Ab’Saber, Emir Sader, Edmar Bacha, Pérsio Arida, Antônio Houaiss, Mário Chamie, Milton Hatoum dentre tantos.

A culinária é capítulo à parte. Provindos de um país onde alimentar-se é parte de um respeitoso cerimonial de cordialidade e compartilhamento, os caprichados quitutes árabes caíram no gosto do brasileiro: esfiha, kibe, homus...

Embora tenha-me convertido ao vegetarianismo, abro exceções para ingresso em meu restritivo cardápio verde do quibe cru, do charutinho de uva e da kousa (abobrinha), recheados com carne bovina, concessão que faço em nome da relevância afetivo-cultural. Mas o tabule, compatível com meus recentes hábitos alimentares, ainda reina como manjar dos deuses. Não o bastardo, empapado com trigo como servido em restaurantes de quilo, mas o autêntico com pouco trigo, bastante salsinha, hortelã e um leve toque de pimenta síria. Hummm!

Antigo lar dos fenícios (desenvolvida civilização que, dentre outros legados, criou um sistema de sinais que deu origem ao nosso alfabeto), o Líbano é um país singularíssimo. Embora faça parte do mundo árabe, distingue-se por gozar de uma situação única, onde muçulmanos xiitas e sunitas, cristãos maronitas, melquitas, armênios, ortodoxos, drusos etc. convivem pacificamente.

É o único país do mundo, que eu saiba, administrado por um arranjo institucional com participação das principais religiões, garantindo tolerância no exercício dos diferentes credos. Bem diferente de outros da região.

A capital Beirute, a “Paris do Oriente Médio”, é uma metrópole com vida cultural pulsante, com relevantes traços arquitetônicos e históricos, onde o moderno coexiste com a tradição.

Estrategicamente localizado, às margens do Mediterrâneo, ladeado pelo gigantismo da Síria e pelo expansionismo de Israel, o espremido Líbano acabou tendo o setor Sul de seu território ocupado pelas milícias do Hezbollah, que lá se instalaram como resistência à ocupação israelense de 1982 e se tornaram mais poderosas que o próprio exército oficial.

Com o pretexto de combatê-las, as forças de Israel têm promovido ataques impiedosos e indiscriminados, massacrando a população civil de índole pacata, que apenas deseja continuar tocando seu inofensivo dia a dia dedicado ao comércio familiar de rua, barracas com especiarias, cafés, restaurantes típicos, vendedores ambulantes de shawarma, falafel, manakish (pão com zaatar), kafta e doces artesanais e atividades ligadas ao turismo que há poucos anos florescia.

Hospitais, colégios, universidades e bairros estritamente residenciais têm sido devastados pelos bombardeios perpetrados por caças de última geração fornecidos pelos EUA ao Estado sionista que estão inviabilizando a existência do Líbano como nação independente. O país está pagando pesado e injusto preço por manter uma postura de não investir em atividades bélicas, como seus vizinhos.

Como consequência, esse pacífico país, exemplo para o mundo de convivência entre diversas culturas e religiões vem sendo dizimado, sob o olhar conivente do mundo, inclusive da numerosa, mas alienada colônia libanesa no Brasil, que de tal modo se acomodou por aqui que parece ter-se de desconectado de suas origens.

Minha maior frustação é não ter podido conhecer pessoalmente, em seus áureos tempos, a sagrada terra dos meus antepassados, usufruindo in loco a célebre hospitalidade de seu povo e ter ouvido da boca dos meus conterrâneos um afetuoso “ahlan wa sahlan” (seja bem-vindo!)

 

sábado, 4 de abril de 2026

DIGNÍSSIMO CANALHA (VERSÃO 2026)

 
Pelo presente instrumento, venho desrespeitosamente dirigir-me a vossa excelência, em minúsculas, na dimensão da pequenez moral que encarnas. Refiro-me a ti, nobre calhorda, investido que estás da augusta prerrogativa, intransferível e vitalícia, de decidir o destino dos que habitam o mundo dos vivos, já que o dos mortos foge à tua jurisdição, embora almejes equiparar-te ao Ser Supremo que, inobstante os acórdãos do teu STF, exerce deliberações irrevogáveis no reino celestial.

A ti, que acolhes a reverência do povo que, passivo, aguarda tuas soberanas e irretocáveis decisões peremptórias. A ti, que te vales das prerrogativas que te distingue dos simples mortais, relegados à sua insignificância, quando de tua boca ouvem o famigerado “sabe com quem estás falando?”. A ti, ente indigno que, indignado, bradas por direitos inalienáveis enquanto vives na intimidade inescrutável da tua vida privada de práticas inconfessáveis. A ti, que por exercer o ofício de julgar os outros, julgas-te acima dos outros.

Venho oficiar-te, honorável patife, que encontro maior retidão e honra na palavra sincera que brota do coração de um pobre inculto do que nos alfarrábios que sustêm tuas áridas sentenças intermináveis. As mesmas que ambicionas inscrever nos anais da imortalidade, onde ostentas para as gerações futuras tua soberba grandiloquência farisaica e tua rocambolesca sapiência estéril.

Os recursos do erário que faltam no amparo aos desprovidos, amealhas sem cerimônia ou parcimônia para manter intacto esse intrincado e indecifrável sistema, tão inócuo quanto iníquo, que cinicamente intitulas como ‘Justiça’. Revestes com aura de magnificência e infalibilidade essa espetaculosa pantomima patética e embusteira sob a qual se vergam as vidas dos que se submetem ao jugo do teu julgar.

Esgueiras-te por esse emaranhado de leis, decretos, normas, códigos, regimentos, resoluções, regulamentos que se presta como barreira ao acesso dos leigos, vedando-lhe o acesso ao teu território demarcado. Atribuis a ti mesmo o monopólio do saber e das práticas legitimadas ‘por lei’. Para que, na mesma medida em que expandes a doutrina do DIREITO, reduzes o primado da JUSTIÇA.

A chave de tua inoperância tem nome: PRAZO. Permites que os julgamentos se arrastem indefinidamente, sob a cínica presunção de que a justiça necessita de décadas para abarcar os infinitos meandros legais. E assim vais multiplicando as instâncias para alargar tanto os períodos de apreciação quanto o tamanho do teu patrimônio pessoal.

 Adias, protelas, procrastinas, prorrogas, retardas, demoras, diferes, pospões, alongas, espichas, espacejas, alastras, dilatas, encompridas, acresces, expandes, empurras com a barriga até ver coroada a prescrição do crime. Conside­raste, eminente pulha, que, após décadas de espera, a sentença já foi proferida, independentemente do trânsito em julgado? Devo informar-te, distinto safardana, que quem aguarda por anos, seja amargando a privação de um direito ou usufruindo do gáudio de uma pena descumprida, já é repositório do veredito, seja o que venha constar no papel. Todo esse ritual inesgotável serve apenas para tornar a justiça uma peça utópica, inatingível para os dela sedentos.  

Sai da tocaia, egrégio velhaco. Desce do palácio de capítulos, parágrafos, alíneas, incisos, caputs e cláusulas em que te enclausuras. Cumpre salientar, excelentíssimo pústula, que as ruas, distantes dos terraços dos palácios erguidos para te apartares da realidade de fato (e de direito), já não pertencem àqueles que nelas deveriam transitar, dominadas pelos malfeitores que libertaste das masmorras por artifícios legais e expedientes processuais, devolvidos à liberdade para continuar delinquindo, convictos de que os braços da lei jamais os alcançarão. Facínoras de toda espécie a quem remiste de pena, zombam daqueles que se pautam por princípios e honradez, sem armas, armações ou respaldo advocatício.

Pessoas corretas vivem ao arrepio das formalidades legais que utilizas para agrilhoar os cidadãos, emparelhados pelo mesmo nível de calhordice que estabeleces tendo por referência teu espúrio padrão de valores. Com o intuito de que venham necessitar de tua mediação remunerada segundo a tabela do OAB.

Sob o manto de teu propalado ‘estado de direito’, corruptos e ladrões escapam ilesos de suas falcatruas. Contam não apenas com tua plácida condescendência, mas com tua cruel cumplicidade. São para esses que aplicas a máxima leniência, amparando-os com a força irrefutável das brechas da lei, concedendo-lhes draconiana indulgência. Cobrindo com o verniz legalista da imunidade a impunidade. “Por falta de provas”, provas.

Quando se erguem vozes contra tua ineficácia, a estratégia de defesa já está traçada: eximir-te de responsabilidade. Culpas os legisladores, a polícia, a escassez de juízes, seus salários insuficientes e o excesso de carga horária, a inexistência de vagas no sistema prisional, a carência de investimentos, os problemas sociais, a ausência de políticas públicas, a colonização portuguesa. Assim, absolves-te ‘in totum’.

Todo teu empenho converge para um único objetivo: não punir. Inocentes ou culpados, pouco importa, prevalece sempre o princípio ‘in dubio pro reo’. Desde que teus honorários sejam quitados com precisão, integralidade e... justiça.

Quando um crime hediondo mobiliza a opinião pública, tens à mão um arsenal para abrandar o rigor da pena: tornozeleira eletrônica, prisão domiciliar, bom comportamento, atenuantes, progressão do regime, indulto, ‘saidinha’ de Natal, superlotação carcerária, penas alternativas, remissão, sursis, audiências de custódia. Tudo preparado para abrandar ou extinguir a punição. E criar novas possibilidades de utilizar teus serviços e criar vagas para a leva de recém-formados pelas faculdades de direito que abrem em cada esquina.

Por todos os pretextos, vais libertando das grades os poderosos e seu séquito de advogados, reservando os horrores dos calabouços aos despossuídos das posses que bancariam teus emolumentos. Os que não colaboram com o pecúlio que sustenta a devassidão moral que apadrinhas e consagra esse país como o paraíso da impunidade.

Deixa de hipocrisia. A quem pretendes enganar ao afirmar que personificas a Justiça? Teu ofício é apenas advogar em prol de vermes, retribuindo-lhes com pérfidos serviços o dinheiro que garante o suntuoso padrão de vida que ostentas. Incluindo os penduricalhos incorporados a teu holerite, como ‘direito adquirido’.

Quem te sustenta, respeitável biltre, são os safados. Crápulas que, desprovidos de considerações éticas, estudam teus intrincados preceitos e se formam doutores para assimilar os meios legais, penais, constitucionais e amorais de permanecer impunes, qualificando-se a ingressar em tuas ro­dinhas infames. Partilharem do cafezinho do fórum, onde, por trás de indevassáveis paredes, ro­lam torpezas inimagináveis. Tornam-se teus colegas e cupinchas, uma associação fechada de rábulas parasitas.

A verdadeira Justiça é o oposto de ti. Consiste em tornar o mundo digno, prescindindo de teus sórdidos préstimos. Os princípios de retidão e civilidade, carregamo-los em nós. Num mundo de justos, tua ‘justiça’ não se ajusta. Que papel teriam juristas numa sociedade sem delitos? Os íntegros coexistem com harmonia, dispensando tua protocolar intermediação. Quem carece de lei são aqueles que dela vivem à margem.

Data vênia, ilustríssimo, vai à p* que te pariu.

 

 

(Adaptação de texto originalmente publicado em 2013)

 

 

quinta-feira, 26 de março de 2026

O QUE ELES DIZEM

 

Eles dizem que tudo vai às mil maravilhas, que nunca estivemos tão bem e que a tecnologia chegou para melhorar nossas vidas. “O que seria de nós - perguntam eles - sem a internet”? Nem dá para imaginar... Como poderíamos nos munir de fake news e organizar o cotidiano sem a enxurrada de opiniões alheias? E a saúde, como cuidar dela sem recorrer ao Dr. Google, especialista em diagnósticos instantâneos e automedicação virtual? Enfim, caminhamos para um futuro onde tudo será entregue pronto e mastigado. Nosso papel na formação de nossa própria vida será o de um mero espectador, um acessório de segunda.

E as operações bancárias então? Antes, carregávamos dinheiro vivo em bolsos e bolsas vulneráveis, espreitados por gatunos. Agora que migramos para cartões e aplicativos, os gatunos migraram para o ciberespaço. Podemos nos fartar em gastos por 29 dias, antes que a chegada da fatura no 30º acabe com a festa. Tudo a um módico custo anual, diluído em doze parcelas e juros ligeiramente escorchantes.

Games, tem para todos os gostos, para nos entreter (e nos viciar) nas brechas de tempo, destinadas a reflexão ou contemplação de árvores, mesmo que elas (as brechas e as árvores) não existam mais. Passatempos sobre pornografia, violência e ódio que nos engajam e dão sentido a nossa vida carente de emoção e transgressão, tornam-nos monstros cruéis, tarados, abusadores. Porém exímios em informática.

E as compras? Como viver sem o opulento cardápio de inutilidades da Amazon? Tudo pelo prazer de nos autopresentear com quinquilharias primorosamente embaladas, sem precisar levantar do trono de onde governamos nossa vida, espremida nas polegadas de uma tela.

Quanto ao saber, “que progresso!” Já não precisamos de faculdades e mestres para nos entulhar com seu inútil conhecimento acadêmico que no fim só nos rendem inteligência, um diploma e nenhum bitcoin. “Certificando-nos como sábios pobretões”, argumentam eles.

E quanto às fotos que disparamos freneticamente feito metralhadoras giratórias para descartar 99 de cada 100, sem nos preocupar com a liturgia dos negativos e revelações da Kodak? Tanta foto que registra lugares de que mal lembramos, cuja beleza inerente permanecerá guardada em sua essência intangível. Paisagens e semblantes que atravessaram fugazmente nossa existência sem deixar vestígios. Mas as fotos estão lá! Redundantes, tediosas, iguais, testemunhas silenciosas de aventuras nunca experimentadas. Dissolvidas nos infinitos gigabytes, que deixaremos de herança para que nossos filhos nunca acessem.

As músicas que apreciamos entulhamos em playlists para descartar como resíduos digitais, após uma semana, quando delas não mais nos recordarmos. Um rolo compressor de bytes, catalogados por ordem de insignificância. E pensar que houve um tempo em que músicos e artistas se dedicavam a criar arte em discos com capas, encartes, fichas técnicas, destinados a enriquecer as prateleiras de nossas salas? “Pra quê tudo isso”, perguntam eles? O que importa nessa efêmera existência é criar seleções no Spotify com os hits reciclados do momento. A própria plataforma, que parece nos conhecer melhor do que nós mesmos, decide o que gostamos, sem nos consultar.

E os filmes que a Netflix renova a cada semana? Um dilúvio de blockbusters sem inspiração em que nos afogamos, sem saber com qual deles desperdiçaremos nosso balde de pipocas. O essencial, claro, ali não está. Os clássicos, os cults que passaram na Mostra. Aqueles que deixaram marcas profundas e armazenamos em nossa memória RAM afetiva.  “Nem tudo é perfeito”, apressam-se em nos lembrar.

Podemos apreciar nossa comidinha impessoal, pedida pelo iFood há 10 minutos. Basta um toque na tela e o objeto de nosso desejo se materializa à porta. Às vezes bate uma saudade (“saudosismo”, contrapõem eles) do prazer de preparar quitutes com o toque caseiro que a avó nos ensinou, aquele temperinho especial, saído quentinho do forno. “Mas a vida corrida de hoje não comporta essas pueris extravagâncias afetivas. Não podemos nos dar ao luxo de desperdiçar tais minutos em sentimentalismo culinário.” É o que eles dizem.

Se quisermos quebrar a rotina e ir a um restaurante ou ao teatro, uma chamadinha e o UBER providencia, num passe de mágica, um motorista robotizado com sorriso ensaiado para nos conduzir a nosso destino, teletransportados pelos mapas do GPS, onde não figuram parques, ipês, monumentos, casarões, pássaros, cães e crianças brincando... Sem preocupação com taxímetro, combustível e sem recorrer ao tumultuado transporte de massas.

Podemos ainda usar e abusar das mensagens disparadas pela conta gratuita que o Gmail nos disponibilizou, condicionada, claro, aos ininteligíveis termos de uso que lhes permitem, com nossa anuência, manipular nossa vida, dela espremendo o que lhes interessa. Sem precisar recorrer ao velho Correio (lembra-se dele?) com aquele cerimonial de redigir, dobrar, selar, enviar e aguardar o recebimento incerto. “Atraso de vida”, proclamam eles.

Tampouco precisamos memorizar os aniversários de amigos e familiares; o Facebook se incumbe dessa chatice. Podemos enviar felicitações via whatsapp por mensagem de texto (ou de áudio para mostrar que nos restou a voz humana). Nada de telefonemas, tendo que rebuscar palavras enfadonhas que traduzem emoções há muito esquecidas. O único esforço é encontrar o emoji adequado e... pronto, missão cumprida! Sem o calor de um abraço ou as sutilezas que o tempo estampa na expressão. Sem bolo, sem velas, sem beijinhos, essas cerimônias que o pessoal das antigas valorizava. E, convenhamos, quem precisa de amigos de carne e osso quando no Face temos milhares, com retratos, perfis, stories, a ficha completa. Se incluíssemos os crimes, teríamos um dossiê policial.

Sim, a tecnologia nos abarrotou com trivialidades para transformar uma vida insossa numa insossa vida. Mas não há motivo para desespero. Chegou a Inteligência Artificial, prometendo solucionar os problemas com seus algoritmos infalíveis. “Fique frio que tudo ficará bem”. É o que eles dizem.