quinta-feira, 19 de março de 2026

A IRA E O IRÃ

 

O esporte sempre manteve a tradição e a virtude de se posicionar acima das picuinhas políticas. Nas arenas, as únicas regras que valem são as estabelecidas pelas federações esportivas.

Do mesmo modo, quando um país sedia uma grande competição tipo Olimpíadas, Copa de Futebol, Fórmula 1, deve demonstrar que possui disposição e infraestrutura que garantam que o certame transcorra com lisura e imparcialidade, sem intercorrências que comprometam seu êxito.

 A iniciativa de sediar um evento esportivo de grande magnitude serve também para exibir internacionalmente as qualidades do anfitrião no atendimento aos requisitos de organização e logística.

Mesmo em tempos de Guerra Fria ou situações de conflitos, as competições esportivas transcorreram com normalidade, como campo não contaminado, onde se pode exercer com civilidade a prática desportiva, a mesma que desde a Grécia antiga cumpre relevante papel em termos de desenvolvimento pessoal, promoção da saúde, socialização e integração.

Alguns casos vêm à memória como as Olimpíadas de 1936 na Alemanha sob o nazismo. Nesse período de alguns meses, Hitler afrouxou seu autoritarismo, interrompeu a perseguição a judeus, negros e opositores e adotou providências para garantir condições para que visitantes de todas as pátrias pudessem se sentir à vontade em terras germânicas, apreciando a excelência que o regime queria demonstrar.

Outro exemplo é o do campeonato mundial de futebol realizado na Argentina em 1978, sob uma feroz ditadura, quando o clima nos estádios não se deixou contaminar pela repressão das ruas. O técnico portenho à ocasião, César Luís Menotti, que levou sua seleção ao título, tinha inclinações socialistas e nem por isso foi coagido em seu trabalho.

Caso semelhante ocorreu por aqui durante os anos de chumbo do governo Médici, quando João Saldanha, simpático ao ‘Partidão’, comandou a seleção canarinho que classificou o Brasil nas eliminatórias para a Copa de 1970, da qual sairia tricampeã. Em resposta ao general ditador, que fizera pressão para a convocação de um atleta, o ‘João Sem Medo’ (como era conhecido) retrucou com ombridade: “o presidente escala o ministério, eu escalo a seleção”.

De fato, o esporte pode se orgulhar de ter atravessado muitas décadas sendo ‘território livre’, imune a ingerências, um espaço de congraçamento, onde todos se respeitam,  o jogo sujo é chutado para escanteio e a trambicagem recebe cartão vermelho.

Essa virtude infelizmente vem sendo dilapidada nesses tempos em que a intolerância passou a reger as relações interpessoais.

A seleção futebolística do Irã teve um desempenho brilhante nas eliminatórias e se classificou com louvor para disputar a copa na América do Norte de 2026. No entanto, a ofensiva de forças americanas ao país persa resultou na incerteza de o time participar da competição com jogos programados  para o território do país que perpetrou o ataque.

Em relação à nação dos aiatolás, por mais que não a apreciemos, essa hesitação é justificável, partindo de quem foi vítima de ataque. O que é inaceitável é a posição oficial do governo americano que, nas palavras de seu mandatário mor, afirmou que não podia garantir a segurança dos atletas do país islâmico de modo que não seria ‘apropriada’ a vinda da delegação. Ora, isso significa que os EUA não estão qualificados a sediar o evento já que se declararam incapacitados de garantir a segurança dos jogadores de uma das seleções habilitadas a participar.

É ainda mais absurdo o fato de gabando-se de ser a nação mais poderosa e pujante do planeta, os ianques declararem não ter condições de assegurar que suas exímias forças de segurança ofereçam proteção a atletas, de que nacionalidade forem, que compareceriam não para soltar mísseis, mas para jogar bola. Tal evasiva parece tratar-se de mais uma ‘trumpice’.

Esse comportamento antidesportivo não é exclusividade dos EUA de Trump. A arquirrival Rússia é governada há 27 anos por um ex-membro da KGB, reconhecido por adotar atitudes pouco ortodoxas como a de injetar substâncias químicas proibidas nos competidores para aumentar a chance de conduzi-los ao pódio, levando as autoridades esportivas a banir os comandados de Putin de competições esportivas. Tal prática combina com outra, habitual do mandatário cossaco, a de envenenar bebidas de desafetos políticos.

Atitudes como essas partindo de 2 dos maiores líderes mundiais que deveriam ser pessoas impolutas, além de colocar em xeque o esplendor do esporte, demonstram a degeneração moral daqueles que, por sua posição de destaque deveriam baluartes de integridade.

Estamos voltando aos tempos da barbárie, em que uma tribo mantém em relação à outra, uma atitude hostil, pondo abaixo séculos de avanço civilizatório e de aprimoramento das relações diplomáticas. Que mundo estamos deixando para nossos filhos em que os grandes líderes comportam-se como trogloditas?

A atitude de Trump é parte de seu perfil arrogante. O presidente republicano já havia rompido outro hábito secular, ao se recusar a cumprimentar o vencedor das eleições de 2020, ato de grandeza que reforçaria os primados do regime democrático que pressupõe aceitar o resultado eleitoral e quem perde reconhece a derrota e parte para a próxima.

No Brasil, essa conduta deplorável foi copiada em 2022 quando o perdedor nas urnas, discípulo de Trump, recusou-se a cumprimentar o candidato eleito legitimamente. Preferiu fugir para Orlando para não demonstrar cordialidade nem se ‘rebaixar’ de sua condição de ‘mito’, apertando a mão de 4 dedos do adversário político, gesto que ajudaria a pacificar o país e desarmar os espíritos. Birrento, manteve sua base raivosa preparada para o enfrentamento.

A prática de cumprimentar o oponente (diferente do ‘inimigo’) tem origem no espírito esportivo, em que, ao fim da contenda, vencedor e perdedor dão-se as mãos civilizadamente, mostrando que o embate que ocorreu na arena foi encerrado com o apito final, voltando os competidores a ser apenas indivíduos normais, merecedores de respeito e consideração.

Essas atitudes de confronto permanente são produtos do radicalismo que tem formado a índole das pessoas que naturalizam o ódio e as tornam incapazes de enxergar o outro como um ser humano que, mesmo pensando diferente, é digno de gentileza. São frutos de uma época de deterioração social, onde a internet substituiu a comunicação tête-à-tête, olho no olho, na qual as pessoas tinham maior chance de se entender e havia maior empatia. Mas isso é assunto para uma outra crônica.

 

quinta-feira, 12 de março de 2026

LARANJA MECÂNICA

Podemos dormir tranquilos, pois Big Daddy ‘is watching you’, direto da Casa Branca. Investido de ilimitados poderes imperiais, o supremo cowboy zela 24 horas por nossa integridade ideológica. Mr. Orange, autointitulado ‘xerife do mundo’, mentor do far west style, onde quer que as forças esquerdistas corrompedoras da moral e dos bons costumes impeçam a implantação da doutrina MAGA.

Mr. Orange é um escudo inabalável contra a ação maléfica de negros, mestiços, latinos, islâmicos, abortistas, feministas, LGBT’s, ONGs e ambientalistas que ameaça a ascendência dos valores ocidentais, machistas, caucasianos e anglo-saxões que faz da América um exemplo de civilização bem sucedida, a ser alastrada pelas regiões selvagens onde a palavra de Cristo não chegou.

Nos redutos tropicais brasílicos, escancarar-se-ão as portas dos casebres e barracos para que os ares insalubres do atraso sejam varridos pelo frescor dos ventos boreais do Vale do Silício. Serão abandonadas as banais referências tupiniquins, tais como o forró, o berimbau, o açaí, o afoxé e o ziriguidum para possibilitar a entrada triunfal de startups e legiões de nerds, geeks, hackers, techies e afins.

Mr. Orange assegurará plena guarida aos leais bajuladores, Mileis, Bukeles e Delcys. que se mostrem convenientemente servis às instruções neoliberais e aos preceitos da propriedade privada, guiado em sua cruzada pela palavra da Bíblia, pelo mapa dos poços de petróleo e pela cotação das terras raras na bolsa Nasdaq.

A abertura da Caixa de Pandora dos arquivos Epstein revelou uma indesejável faceta pecaminosa, convertida rapidamente pelos devotos em abençoada libidinagem, regada a água benta. Mr. Orange, travestido de representante pedófilo santificado da família tradicional protestante pôde então estender seus tentáculos implacáveis para nos salvar de nós mesmos em nossos próprios quintais. Enviando seus drones kamikaze, mísseis hipersônicos, caças de quinta geração e sistemas cibernéticos integrados em nosso socorro para impor aos ímpios, ateus e seres pensantes a moral pregada pelos neopentecostais do Alabama. Ainda que, nesse processo, escolas de meninas tivessem que ser explodidas.

De onde quer que venha o perigo, democratas, jornalistas, estudantes, sociólogos, comunistas, imigrantes, aiatolás, e todos os que insistirem em se opor à expansão da microsoft, do big mac cheddar e do combustível fóssil, depuradores da raça humana, degenerada por teorias globalistas.

Seja na Venezuela, no Irã, em Cuba, na Groenlândia, no Canadá, no Líbano, no México, na California, na faixa de Gaza, no estreito de Ormuz e onde mais for, cuida ele da segurança dos investimentos ianques em todo o planeta Terra. E no espaço sideral! Projetos espaciais financiados por Sir Musk e Sir Bezzos são direcionados a fincar a bandeira confederada neonazista e providenciar acesso ilimitado de wifi em todas as unidades do sistema solar, antes que desaforados asiáticos o façam com o Huawei 5G, a rede Tik Tok e o detestável dístico “made in china”.

O ‘laranja mecânica’ não para. Diariamente inventa um inimigo imaginário num país aleatório para mobilizar sua indústria bélica e sua base de haters, ansiosa por inundar as redes sociais com fake news repugnantes referentes aos desafetos da vez. Façam suas apostas e deixem girar a roleta. Qual será o próximo alvo dos caprichos intervencionistas do Gengis Khan do século XXI?  Burundi? Liechtenstein? Bélgica? Turcomenistão? Uruguai? Quixeramobim? Rocinha? Em todos os cantos dessa Terra plana que Deus-Pai abençoou com o sistema capitalista e o dízimo sagrado.  

Não tentem os detratores se ocultar nos ambientes furtivos de embaixadas, mesquitas, universidades ou aldeias yanomamis, pois poderosos algoritmos rastrearão as vozes dissonantes em todos os rincões onde houver uma tela de celular e uma torre provedora de internet.

Autorizado pela prerrogativa de apertar o privativo botão vermelho do Juízo Final que o voto texano lhe conferiu, Mr. Orange busca pela força de seu arsenal nuclear e pelo vazio de suas ideias tirar leite das pedras, conquistar a liberdade das tiranias e a paz dos cemitérios.

 

  

terça-feira, 3 de março de 2026

AGORA EU ERA HERÓI

 

Quando eu era criança, deixava-me levar pela fantasia de ser um super herói que tudo podia. Mas, ao contrário do Batman, não agia apenas no combate aos folclóricos criminosos de Gotham City. Minha área de atuação era mais abrangente. Ocupava o cargo de presidente, ou talvez imperador, do Brasil. Não, do mundo!  Pois as fronteiras nacionais não seriam suficientes para barrar meu desejo infinito de servir a cada um dos habitantes, até os das regiões mais remotas e inóspitas do planeta. E não havia nada nem ninguém que pudesse limitar meu poder absoluto nem minha disposição de cumprir esse desígnio.

Mas, isso não me fazia um ditador autocrático. Governava em sintonia com o que pensava a maioria das pessoas ou, pelo menos, aquelas 'de bem', as que, como eu, ansiavam por um mundo melhor para se viver.

Um compromisso firmado entre mim, minha imaginação e o resto da humanidade estabelecera que jamais faria uso de minha condição de liderança para punir quem discordasse de minhas iniciativas nem cogitaria em calar meus críticos, sobretudo os bem intencionados, merecedores de todo o respeito.

Capitanearia eu uma legião de subordinados (ou melhor, colaboradores) que cuidariam de manter a paz e a harmonia social, sem precisar ferir ninguém, nem usar armas letais.  Sua função seria apenas a de colocar em prática determinações cujo propósito era tornar todos mais felizes.

Eu firmara um contrato juramentado em que constava uma declaração de que eu jamais valeria de minha posição de liderança para me locupletar ou obter benesses, já que não seria movido por ambições pessoais. Meu objetivo era apenas o de consertar o que estava errado para bem da coletividade.

A compensação que me bastava para esse árduo trabalho voluntário era a de ser amado pelo povo por tornar nosso mundinho comum um lugar mais agradável de se habitar, para mim e todos os demais seres humanos, a quem, indistintamente considerava entes queridos. Não esquecendo dos demais seres viventes, animais e plantas.

No meu mundo, o sofrimento, ao menos aquele causado por outros seres humanos, seria banido da face da Terra e todos levariam uma vida digna sem privações.

Os super ricos, movidos por inaceitáveis impulsos de ambição, seriam contidos em seu furor cumulativo por regras que impedissem abusos, para que os demais tivessem direito a seu quinhão.

Os policiais deveriam ser corretos e prestativos, sem deixar de combater o crime com rigor. Os homens maus iriam para a cadeia e cumpririam a sentença integralmente. Os reincidentes teriam  severas sanções. Nada de condescendência com os mal intencionados.

Os delegados e juízes corruptos ou que saíssem da linha, seriam sumariamente afastados, sem quaisquer honorários. Tais cargos seriam ocupados por homens e mulheres íntegros com salários dignos, mas modestos, sem penduricalhos. A justiça seria rápida e eficaz, regida por um enxuto conjunto de leis que todos entendessem.

Cessariam também os benefícios concedidos a políticos, cujos vencimentos seriam compatíveis com os da população em geral, sem mordomias e auxílios indiretos. Quem escolhesse a vida pública, o faria por vocação sem possibilidade de usufruir materialmente de sua posição.

A melhor remuneração seria a do professor, a função mais nobre da comunidade, a de formar através da educação de qualidade, cidadãos éticos, responsáveis social e ambientalmente.

No plano internacional, um simples decreto mundial poria fim em todas guerras e conflitos. As divergências seriam resolvidas civilizadamente, em torno de uma mesa de negociação. As demandas e divergências seriam apreciadas por equipes competentes e imparciais com poder decisório.

A miséria e a fome, como num passe de mágica, seriam extintos. Alcançar isso é muito mais fácil do que parece.  Bastaria redirecionar os recursos orçamentários antes desperdiçados em inúteis armamentos, destinando-os a melhorar a saúde, a educação e promover a melhoria na qualidade de vida.

Enfim, tudo o que o senso comum reconhece como desejável, seria implementado com a força de minha varinha de condão, aliás, minha caneta justiceira.

Essa carta de intenções, submetida às pessoas de todas as nacionalidades, raças e religiões, certamente seria aprovada com louvor pois atenderia ao clamor universal.

No fundo, o que eu propunha era o que todo mundo queria. "É tudo tão simples. Por que os adultos complicam tanto?" pensava eu. Se me colocassem lá em cima e me dessem condições, eu me comprometeria a realizar tudo isso... e muito mais.

Na minha inocente onipotência, não compreendia por que ações tão óbvias, aparentemente consensuais, enfrentam tanta resistência.

À medida que fui galgando na idade e no conhecimento de como as coisas funcionam, tomei um choque de realidade, passei a devanear cada vez menos e tomei consciência de minha insignificância ante a tarefa hercúlea a que me propusera e da incapacidade de mudar mesmo as coisas mais banais e próximas.

Hoje, quando vejo tantas inexplicáveis brutalidades sendo cometidas ao meu redor, invoco com saudade o super herói aposentado que, empoderado pelos sonhos de uma criança, acreditou que podia transformar um mundo dominado por um bando de adultos sem graça.