quinta-feira, 24 de setembro de 2026

HAPPY END

 
Filmes com finais felizes, além de nos inundar a alma com uma sensação boa, fazem-nos acreditar que existe uma lógica subjacente à ordem das coisas, na qual a bondade sempre prevalece e os ruins serão punidos. Tais enredos, salpicados de tragédias transitórias, sofrem invariavelmente reviravoltas, até que o glorioso desfecho traga paz a nosso coração. Depois de duas horas de angústia cinematográfica, o alívio compensa a amargura. Podemos, então, dormir o sono dos justos e dos vingados, acreditando que a marcha do destino obedeça a essa lógica regeneradora.

No entanto, quando nos voltamos para a realidade cruel que nos cerca, constatamos que o roteiro da vida foi escrito por alguém com pouco senso de humor e as coisas não caminham para a catarse desejada. Quem tripudia sobre os outros é que alcança o triunfo; quem explora os necessitados é que usufrui da opulência.

E o justo? Qual o papel desse escultor ingênuo da utopia que se esmera em moldar o ser humano? Acumula decepções, esperando em vão que o destino dê uma guinada e faça com que a lógica hollywoodiana possa enfim vingar. Até que uma dúvida advém: e se o canalha com sua falta de escrúpulos, for aquele que goza da preferência dos deuses?

As crenças religiosas oferecem a promessa de que algum dia os bons serão recompensados e os maus castigados pelas entidades etéreas que, no conforto de seus assentos celestiais, assistem as desventuras da vida se desenrolarem.

Cadê o paraíso que premia os venturosos? Qual é mesmo o endereço do inferno, destino dos maus? Onde está o deus que assiste impassível a tantas maldades? Talvez não seja bem aquele que imaginamos e esteja se divertindo daqueles que se equivocaram sobre sua índole benevolente. Talvez seja ele um ser perverso que não se preocupa com o destino incerto que aguarda seu rebanho desamparado.

E, pior: e se não houver deus nenhum? Seja ele apenas uma criação fantasiosa dos homens para atender seu desejo íntimo de que, num outro plano, se aplique a justiça. Porque, se não existe uma justiça escondida atrás da cortina do mundo, então somos nós, apenas nós, os atores desse espetáculo macabro em que improvisamos a trama. Onde não há um roteirista nem um diretor cósmico. Não haverá um tribunal no fim dos tempos para devolver ao injustiçado aquilo que lhe foi tomado. Apenas esta vida finita e cruel.

O homem que tentou ser decente e correto olha para trás e vê pouco além de perdas e danos. Fez o que acreditava certo e, em troca, recebeu ingratidão. Agora, está cansado de não ter reconhecimento. Talvez essa seja a forma mais perversa de revolta: não bradar contra os céus, mas simplesmente deixar de acreditar que os céus se importam.

Apesar de todos os reveses que lhe são colocados, o legítimo justo não se abate. Mesmo depois de tudo, quando alguém cai na rua, ele estende a mão. Quando alguém chora, ele pergunta o motivo. Quando alguém é injustiçado, sua indignação aflora.

Ele não se conforma em ser desse jeito, mas tal sentimento nele está impregnado, não consegue evitar. Não se sente superior, pois não há escala a avaliar a qualidade de suas ações. Ele é apenas assim. Uma ovelha branca em meio a ovelhas negras.

Contra as mensagens que lhe são passadas, ele ainda acredita. É como uma pequena brasa que resiste, mantendo seu brilho sob toneladas de cinza. Uma centelha que ilumina tenuemente a esperança dos tolos. O mundo lhe mostra que a bondade é inútil, mas ele teima em ignorar essa evidência. Não porque lhe tenham prometido recompensas, nem porque acredita que o tal deus o observa, ou porque espere um lugar melhor após a morte. Sequer sabe se haverá esse ‘depois’. Continua porque, se abandonar também isso, talvez descubra que a pior injustiça não é sofrer num mundo sem justiça. É tornar-se semelhante àquilo que o fez sofrer.

Percebe que o ‘happy end’ não é ver as coisas terminarem bem como o céu cor de rosa das telas de cinema, mas saber que o final feliz vem daqueles que, mesmo com tanta coisa ruim rolando por aí, não desistem. E essa seja a sina mais cruel: continuar esperando por um mundo melhor quando os indícios são de que ele jamais virá.

E ele segue, vivendo a cada passo uma nova desilusão. Mais um patife vencerá. Mais um inocente sucumbirá. E os crédulos continuarão perguntando: “Onde estás, meu Deus?” enquanto do outro lado, haverá apenas o silêncio. Talvez seja esse o verdadeiro happy end: não esperar que seja feita a justiça, mas impedir que a injustiça nos transforme naquilo que não queremos ser.


sábado, 12 de setembro de 2026

O DIA EM QUE AS TATUAGENS SAÍRAM DE MODA

 

Foi numa sexta-feira nublada de setembro que o mundo estremeceu. Nada de tornados, terremotos ou tsunamis. Tampouco o lançamento massivo de mísseis balísticos ou ameaças de guerra nuclear iminente. Algo mais bombástico: uma postagem de um influencer de moda decretou as seguintes palavras a seus milhões de fiéis seguidores: “A tendência para a próxima estação será exibir a pele nua e crua em seu esplendor natural. Tatuagem? Sai fora dessa brega intervenção artificial, aberração invasiva utilizada pelas gerações anteriores para difundir seus ultrapassados valores.”

Foi a senha para disparar o quiproquó. Em questão de horas, o mundo civilizado entrou em colapso estético. Na segunda-feira, as clínicas de remoção a laser exibiam filas que dobravam quarteirões e faziam dobrar os atendentes. Na terça, faltou horário. Na quarta, faltou equipamento. Na quinta, faltou esperança. E sobrou desespero.

A queixa generalizada nos consultórios de psicologia passou a ser: “Doutor, como conviver com o trauma de ter profanado minha cútis num momento de fraqueza?”

Criou-se até uma literatura crítica revisionista com conceitos pejorativos como ‘pele psíquica’, explicando que o que não pode ser elaborado por meio da palavra, acaba sendo externalizado no corpo. A tatuagem foi reduzida a uma tentativa de dominar por meio da agulha o complexo emocional de um passado sufocante. As figuras funcionariam como uma armadura, uma epiderme secundária, o território do ego em que o indivíduo expressa seu narcisismo e a imagem que nutre de si mesmo.

De repente, os prosaicos véus que cobrem o corpo (e as tatuagens) ganharam status fashion com força total. As burcas das mulheres islâmicas, antes execradas, passaram a ganhar respeito e devoção, sugerindo até a possibilidade de conversão religiosa e uma mudança comportamental frente à materialidade existencial do Ocidente.   

Assim nasceu o dilema daqueles que fizeram um pacto eterno de fidelidade com as agulhas segundo o qual o corpo foi vilipendiado e cedido aos arroubos de um impulso juvenil.

As cabeças carecas, antes transformadas em tela foram substituídas por implantes capilares. Pior foi a amargura dos entusiastas que levaram o procedimento para zonas inimagináveis como a tatuagem no globo ocular (eyeball tattoo), interior da boca, língua, genitais. Ou daqueles que não preservaram o rosto e demais partes expostas pelas vestes casuais. O que fazer agora com esse trambolho estilístico?

A discreta borboletinha no tornozelo, na qualidade de singelo adorno, foi poupada, passando incólume ao turbilhão higienista dos novos tempos, não chegando a comprometer seu usuário. Já os imensos dragões orientais e as frases motivacionais em sânscrito tornaram-se um estorvo megalítico a seus portadores.

Diante da nova tendência, os mais suscetíveis que haviam cravado um detalhado mosaico da cultura pop nos exíguos espaços disponíveis do corpo ficaram sem saber como agir. Enquanto não decidiam, passaram a vestir grossos sobretudos para ocultar seus exóticos rabiscos.

Lembrei-me do filme “A Outra História Americana”, em que o protagonista interpretado por Edward Norton, ao revisar seus valores ideológicos, já não se reconhecia no espelho, confrontado pela enorme suástica que carregava no peito. ‘O que faço com ela?’

A tatuagem parte do pressuposto de que somos seres imutáveis e as decisões tomadas são definitivas. Aqueles que a ela se submeteram acham que suas mentes jamais se modificarão e transferem o peso dessa imutabilidade para a própria pele. O problema surge quando a cabeça se submete a uma lavagem cerebral mas o resto da massa corpórea não é capaz de acompanhar a mudança.

O sábio Raul Seixas já havia antevisto o dilema ao manifestar preferência em ser uma metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião estampada sobre tudo.

Os usuários acreditavam, em sua santa ingenuidade, que a moda duraria até o fim de suas vidas úteis. O curioso é que a tatuagem costuma ser apresentada como uma afirmação de individualidade. "Quero ser único", diz alguém... enquanto entra numa fila de outros cinquenta querendo exatamente o mesmo ornamento polinésio, a mesma rosa cor -de-rosa, o mesmo astrolábio, o mesmo leão de olhar filosófico e a inevitável frase em celta cujo significado permanece indecifrável.

As tatuagens pareciam ter desvendado o segredo da imortalidade. Afinal, não bastava vestir a moda; era preciso costurá-la na própria pele. É um compromisso que nem casamento exige.

Há também a criatividade inesgotável dos apaixonados. Juram amor eterno, tatuam o nome da pessoa amada e, seis meses depois, descobrem que o amor era eterno até o próximo fim de semana. A pele, nossa fiel companheira de jornada, infelizmente, parece não acompanhar as desventuras fugazes do coração.

Naturalmente, a indústria de cosméticos aproveitou-se da situação para faturar alto, criando os ‘corretivos de pele’, uma base tão grossa que parecia massa corrida. Logo apareceram os alarmistas alertando sobre os perigos que tais métodos provocam ao sufocar o tecido cutâneo e provocar tumores malignos. E as fake news ajudaram a propagar pelas redes o pânico geral.

E, quando as tatuagens previsivelmente saíram de moda — porque tudo, absolutamente tudo, um dia sai — aconteceu o inimaginável: a ousadia passou a ser desfilar com a pele completamente lisa, como quando veio ao mundo.

Enquanto a mudança de paradigma ainda não se efetivara, eu observava curioso o hábito da humanidade de transformar o próprio corpo numa espécie de caderno de anotações. Uns escreviam poemas, outros desenhavam tigres, alguns registravam datas memoráveis. A pele virou agenda, álbum de lembranças e mural de recados.

Instalada a nova ordem, os conformistas se resignaram, alimentando a esperança de que, como sempre acontece, os ciclos façam que na próxima geração ou talvez daqui a 50 anos, quem sabe, a tatuagem volte à moda.

 

quarta-feira, 22 de julho de 2026

O CORAÇÃO NEGRO DO FUTEBOL

 

Àqueles que acompanharam a Copa do Mundo não deve ter passado despercebida a presença maciça de jogadores negros nas partidas. Não me refiro obviamente às equipes da África Subsaariana (Cabo Verde, Costa do Marfim, Congo...) que, por sinal, a cada edição vêm melhorando seu desempenho, enfrentando de igual para igual seleções consagradas do Primeiro Mundo. E sim às poderosas esquadras europeias, que, apesar do sobe/desce dos últimos anos, permanecem na linha de frente do futebol.

Em outro extremo, chama a atenção uma notável exceção: a Argentina, em cuja seleção não há sequer um único jogador negro. Resultado de uma política de ‘embranquecimento’ levada a cabo durante o século XIX, derivada do projeto colonialista praticado. O Estado portenho incentivou fortemente a imigração europeia e executou um recrutamento discricionário de negros para as frentes de batalha. Sem falar da incidência de epidemias que atingiu severamente os segmentos mais pobres. Tais fatores contribuíram em encolher drasticamente a presença da etnia no país. Esses movimentos fizeram com que a população negra fosse reduzida ao longo da história, ao que se estima, de 30% para menos de 1%, nível que se mantém até hoje. O resultado desse processo de exclusão racial é percebido dentro e fora dos estádios e ajuda a compreender as lamentáveis cenas de racismo expressas pela torcida celeste e... branca.

A situação de nosso vizinho sul-americano é intrigante. Separados apenas por uma fronteira de 1200 km, partilhamos com nossos hermanos um passado colonial marcado pela escravidão e muitos pontos em comum em nossas culturas, incluindo uma paixão quase religiosa pelo futebol. No entanto, enquanto o Brasil construiu uma sociedade miscigenada (ainda que marcada por desigualdades e racismo estrutural), no país ao lado os negros foram praticamente banidos da vida política e social.   

A Europa percorreu caminho inverso. Nas últimas décadas, o continente recebeu grandes levas de imigrantes africanos que se tornaram cidadãos franceses, ingleses, holandeses, belgas, alemães. Muitos deles, claro, tornaram-se craques de bola.

Antes da virada do século, o padrão dos jogadores europeus era bem diferente: atletas brancos leitosos, quase róseos, robustos, bem nutridos, disciplinados e impecavelmente preparados que praticavam um jogo quadradinho, previsível e altamente técnico, frio como os Alpes austríacos, preciso como os relógios suíços. Conservando esses atributos, o futebol europeu acumulou admiráveis conquistas.

Até que sua hegemonia foi quebrada em 1958 por um grupo de garotos morenos franzinos, bons em driblar e improvisar, provindos de um país tropical do Hemisfério Sul. Entre eles, um ‘negrinho’ camisa 10 que aos 17 anos cativou o mundo com seu toque genial, sendo entronado ‘rei do futebol’.

A partir daí, para manter sua relevância, o futebol europeu resolveu mudar de tonalidade. Essa transformação ficou particularmente evidenciada na seleção francesa 70% black de 2026, cuja formação escancarou ao mundo um país de cidadãos com características físicas diferentes daquela que o mundo se acostumara a assistir. Alguns conferiam a esse fenômeno um tom de deboche, insinuando, numa expressão escamoteada de racismo, que a seleção da França não era integrada por autênticos franceses, como se um dos critérios necessários para definir a nacionalidade fosse a cor da pele.

Não se tratava, é bom que se ressalte, de jogadores estrangeiros naturalizados e sim, em sua maioria, filhos ou netos de imigrantes nascidos ou criados na mesma terra de Charles De Gaulle, Edith Piaf, Monet e Simone de Beauvoir. Pessoas que participaram da construção da sociedade gaulesa contemporânea, mais plural e heterogênea. Que entoavam ‘A Marselhesa’ com o mesmo fervor dos demais e que ali estavam para dar seu sangue (igualmente vermelho) pela nação que os acolheu e exaltou com pioneirismo os ideais de Liberdade, Fraternidade e Igualdade.

Nobres valores que parecem vir sendo deixados de lado nesses tempos em que os fantasmas do racismo e da xenofobia têm aflorado, ameaçando até os campos presumivelmente neutros do esporte, ambiente em que o princípio da equanimidade de condições deveria prevalecer. Derivados da mesma lógica que inspirou o mito da superioridade ariana, desmontado quando Jesse Owens cruzou a linha de chegada bem à frente dos atletas que Hitler colocou na raia para se tornarem imbatíveis.

Hoje, a presença marcante de negros no ‘rude esporte bretão’ já não causa estranheza. Se o futebol é branco de nascimento, carrega em sua face nova coloração. Parodiando Vinícius de Moraes, se hoje ele é branco na estratégia, é negro demais no coração.

E essa metamorfose foi além do futebol. Basta ver a Corrida de São Silvestre, em que a reiterada superioridade dos filhos da Mama África tornou a competição desinteressante. Não é diferente no boxe, no basquete, no atletismo e em outras categorias olímpicas em que os negros têm monopolizado as grandes conquistas. Ao contrário do que ocorre em modalidades elitistas como tênis, golfe e fórmula 1, em que o domínio de branquelos bem formados permanece. 

Fenômeno semelhante acontece na música popular. Do jazz ao blues, do rock’n’roll ao soul, do mambo ao reggae, do samba ao maracatu, é difícil imaginar a trilha sonora do mundo sem a contribuição decisiva de artistas como Chuck Berry, Jimi Hendrix, Miles Davis, Duke Ellington, Louis Armstrong, Billie Holiday, Bob Marley, Stevie Wonder, Aretha Franklin, Michael Jackson, Ray Charles, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Cartola, Pixinguinha e tantos outros.

Não se trata de talento natural, inato, como se poderia erroneamente deduzir. Mas da capacidade humana que demonstraram de transmutar aflição em criação, exclusão em expressão, resistência em excelência.

A situação no campo das ciências merece reflexão. A predominância de cientistas e pensadores brancos não pode ser dissociada das condições que favoreceram acesso à educação, instituições de pesquisa e financiamento. A menor participação de negros nesses espaços está relacionada a barreiras econômicas, sociais e políticas, jamais à limitação de capacidade.

O mesmo ocorre em manifestações artísticas tradicionalmente associadas às elites. A música clássica, o balé, as artes plásticas e mesmo certos circuitos literários, continuam refletindo um padrão menos diverso. Essas expressões dependem de um capital cultural difícil de acumular: aulas precoces, instrumentos caros, escolas especializadas e acesso a instituições pouco permeáveis à segregada população negra.

Durante séculos, os padrões de valorização cultural privilegiaram referências europeias, enquanto as contribuições africanas e afrodescendentes foram sistematicamente marginalizadas. O reconhecimento de sua importância na música, no esporte e em outras manifestações culturais representa, antes de tudo, a reparação por uma injustiça histórica.

Assim, a mesma força que molda o coração negro do futebol e dita o ritmo das pistas de dança e dos palcos reluzentes precisa romper as barreiras intransponíveis das universidades e dos centros inacessíveis de poder. O talento e a resiliência que transformaram o esporte nascido inglês em espetáculo mundial de pluralidade são os mesmos que têm potencial para revolucionar a ciência e o pensamento global. Desde que as condições de largada sejam as mesmas. A história mostra que o protagonismo negro já não pede licença. Ele se impõe pelo mérito, provando que, se a tática do mundo insiste em ser monocromática, em seu peito pulsa um coração multicor.