quarta-feira, 8 de julho de 2026

REVELADA CONVERSA SECRETA ENTRE TRUMP E PRESIDENTE DA FIFA

 


TRUMP: - Good night, Mr. Infantino. How are you?

INFANTINO: - Buonasera, my boss, em que posso servi-lo dessa vez? Um Nobel de Literatura para variar?

TRUMP: - Como vai a American Cup?

INFANTINO:- De vento em popa, sir. Como o sr. orientou, excluímos o Irã da competição antes que eles provocassem na Copa um estrago maior do que o fechamento do Estreito de Ormuz. Sem precisar prender os atletas, cancelar visto nem nada. Sua sugestão de oferecer a vaga do Irã para a Itália não deu muito certo. Não tinha como barrar os muçulmanos, eles se classificaram em primeiro nas eliminatórias asiáticas.  

TRUMP: - Forget Italy. Não quero nenhum favor para a Meloni, aquela ingrata.

INFANTINO:- Solucionamos o problema de outro jeito, sir. Bastou hospedarmos os súditos dos aiatolás no México num hotel de segunda, sem ar-condicionado nem breakfast. Contratamos um conjunto local para tocar mariachi a noite inteira na janela deles. Eles chegavam esgotados no estádio. Aproveitamos também para colocar um sonífero na água deles na hora do hydration break para deixá-los meio grogues.

TRUMP: - Good job, my friend.

INFANTINO:- Pois é, mas não foi fácil, os caras são mais complicados do que dobrar a Guarda Revolucionária Islâmica. Os desgraçados não perderam nenhum jogo na 1ª fase. Mas resolvemos de vez o assunto no mata-mata, instruindo o árbitro e o VAR a anular o gol que daria a classificação deles, inventando um impedimento. 

TRUMP: - What is ‘impedimento’? Impeachment?

INFANTINO:- Mais ou menos, boss. Deixa pra lá, qualquer hora eu explico

TRUMP: - Estava pensando que ao invés de tocar hinos estrangeiros no início dos jogos, deveriam tocar God Bless America.  

INFANTINO:- My boss, tocar os hinos nacionais é tradição, não sei se conseguimos mudar isso de uma hora pra outra.

TRUMP: - Então pelo menos deveriam abrir os jogos com uma prece ou a leitura de um texto da Bíblia para agradar nossos eleitores batistas e pentecostais.  

INFANTINO:- Mas nem todos os países professam o cristianismo, boss. Temos federações árabes, asiáticas, africanas...

TRUMP: - OK! Never mind. Vamos ao que interessa. Fiquei sabendo de algo que me deixou bem irritado. Nosso melhor player, esse tal de Balogun, não vai poder jogar contra a Bélgica. O sujeito é filho de imigrante e negro, meio constrangedor para meus apoiadores do MAGA, mas parece que ele é bom de bola. O que aconteceu? Também sofreu impeachment?

INFANTINO:- Não, o problema aí é outro. É que ele recebeu cartão vermelho no jogo contra a Bósnia e pelas regras não vai poder jogar na próxima partida.

TRUMP: - Vermelho? Só podia ser coisa de esquerdista. Quem foi o idiota que inventou esse cartão?

INFANTINO:- Foi um juiz brasileiro, Claus não-sei-o-quê.

TRUMP: - Juiz brasileiro? Só pode ser amigo do cabeça de ovo do STF. Ops, careca como você, nada pessoal. Foi mal. Será que ele é daquela organização comunista de que tanto falam, o PCC?

INFANTINO:- Não sei dizer, boss. Mas dizem no comitê que ele é competente.

TRUMP: - Pra mim é desonesto. Me dá o nome dele que eu vou mandar aplicar a Lei Magnitsky contra o canalha. Vamos congelar as contas dele. Quero ver ele fazer compras em Miami com o cartão vermelho dele.

INFANTINO:- O problema, Boss, é que a regra não permite que esse imigrante jogue contra a Bélgica, pois tem que cumprir um jogo de suspensão automática. Mas não se preocupe. Com base no princípio da ‘dúvida razoável’, nossos advogados desencavaram uma cláusula obscura do código disciplinar da FIFA combinada com o Bill of Rights do século XVIII alegando que o cartão feriu os direitos civis dos americanos, Conseguimos que ele cumpra pena só na Copa de 2046.

TRUMP: - Fantastic, my friend! Vá se preparando. Vou liberar seu Trump Gold Card de US$ 1 milhão e um mês de estadia gratuita para sua família no “Tren de Aragua Trump Resort” que estamos construindo na Venezuela.

 

 


segunda-feira, 6 de julho de 2026

ERA SÓ UMA BRINCADEIRA

Cara, na moral, foi só uma zoação. Olha o tamanho da confusão que armaram pra cima da gente, mano! Não dá pra entender esse povo fazendo essa zoeira toda. Dá um tempo! Parece que nunca tiveram 14 anos.

Era só para tirar um sarro da tia na sala de aula, meu. Essa chata que vive querendo enfiar um monte de caretice na cabeça da gente, uns papos de cidadania, respeito, sociedade, essas coisas. Uns troços nada a ver, que não dão futuro, não rolam grana, não dão engajamento nas redes.

A ideia bizarra surgiu do nada no recreio. Alguém lançou o desafio maneiro pra ver quem encarava botar os vidrinhos na garrafa de água da tia. O mais doidão assumiu a missão. Bora dar umas risadas.

A gente puxou o celular pra filmar e botar no Tik Tok. O vídeo ia bombar: sangue, gritaria, esse tipo de coisa sempre viraliza. Mais seguidores, mais visualizações, mais compartilhamentos. Os algoritmos iam pirar, kkkkk.

Pena que alguns deram pra trás e falaram pra ela que era melhor não beber da água abençoada. Arregaram bonito os traíras. A verdade é que ninguém tava nem aí no que ia dar pro lado da tia. Quando muito ela podia engasgar, sei lá, sangrava um pouco, nenhum drama. Tomava um belo susto pra ficar esperta e parar de encher o saco.

Podia dar coisa pior? Podia. Vai que a coroa empacotasse de vez. Azar dela. Fazer o quê? A gente não é coveiro.

Com o piti que a bruxa armou ao descobrir o lance, deixei cair o iPhone. Ainda bem que não detonou a filmagem. Quem ia pagar o preju, isso ninguém fala.

E ainda puseram a infeliz pra choramingar na internet, dizendo que não queria mais lecionar, ia precisar de tratamento, viajou na maionese. Esse lenga-lenga de vitimismo que a gente já tá por aqui. Vê se te enxerga, mulher! Vai cuidar de teu homem e para de bancar a coitada.

De qualquer jeito, não ia dar em nada. No máximo, um sermão sacal do diretor, uma suspensãozinha de uns dias, legal pra gente tirar uma folga em casa. E ficava por isso mesmo. No Brasil, ninguém fica na cadeia. Pra nós, menores então, a lei protege de qualquer punição.

Os otários falam como se a gente fosse bandido. Menos, né. E outra: o professor não é esse santo que vocês pintam. O cara que se mete a dar aula é um fracassado que não conseguiu trampo que dá grana, vive estressado, ganha um salário de merda e passa a sua vidinha miserável em cima de livros, achando que vai mudar o mundo. É um frustrado que só enche a gente de tarefa chata, manda guardar celular e ainda quer se meter em dar lição de moral.

O que não dá pra engolir é esse monte de trouxa fazendo discurso e caindo em cima. Do nada apareceu polícia, imprensa, quiseram envolver até nossos pais que não tão nem aí. Não tem a menor graça, meu. A gente ia lá saber que vidro cortava garganta e podia matar? Vamos dar um fim nessa tragédia, gente. Chega de mimimi!

E ainda tiraram do ar o vídeo antes de viralizar. Sacanagem...

Cadê a liberdade de expressão?

 

 

quarta-feira, 1 de julho de 2026

QUANDO JESUS ENCONTROU OS ORIXÁS

 

Certas manhãs nascem diferentes. Não porque o sol brilhe mais intenso, mas porque o mundo resolve cochichar histórias para quem tem ouvidos para escutar.

Numa dessas manhãs, Jesus caminhava descalço, sozinho, por uma estrada de terra vermelha. O chão ainda guardava o frescor do orvalho, e a poeira fina subia entre seus dedos a cada passo. Carregava ele um manto simples, um sorriso sereno e o hábito de saudar árvores e animais.

Ao chegar a uma velha encruzilhada, sob a poeira suspensa, o ar pareceu subitamente mais denso. Ali sentado sobre uma pedra pontiaguda, encontrou um homem vestindo vermelho e preto e um chapéu desabado que sombreava os olhos vivos. Girava uma bengala entre os dedos e exibia um sorriso enigmático. O silêncio que os cercava era quase palpável, como se o tempo hesitasse diante do cruzamento.

 Olá, viajante. O dia amanheceu largo para quem anda sozinho — disse o homem, voz rouca, cortando o silêncio com a precisão de uma lâmina afiada.

— A paz esteja convosco — respondeu Jesus.

O homem inclinou a cabeça, o sorriso expandindo-se em desafio.

— Paz é coisa que se procura no fim. Aqui no meio, o que manda é a escolha. E toda escolha cobra seu pedágio.

Era Exu. Não o das histórias mal contadas, personagem sombrio dos malfeitos que o preconceito inventou. Era o senhor das passagens, das escolhas, da palavra que abre caminhos e revela tropeços.

— Vai para onde? — perguntou Exu, tocando levemente a bengala ao solo, testando a firmeza do andarilho.

— Para onde houver alguém precisando de uma palavra de esperança, replicou Jesus sem recuar.

— Isso é o que não falta nesse mundinho.

Ambos sorriram. A tensão desfez-se no ar

Jesus e Exu continuaram caminhando juntos.

De repente, a calmaria foi interrompida. O vento começou a dançar de um jeito diferente, soprando em rápidas lufadas que ergueram a poeira e fizeram as folhas girar como se estivessem executando uma coreografia antiga. Envolta por tecidos claros que pareciam feitos do próprio ar, surgiu uma vistosa mulher, com os olhos faiscando como relâmpagos contidos.

— Bons ventos os trazem, forasteiros — disse ela, a voz vibrando como um trovão distante.

Era Iansã.

— As pessoas temem as tormentas, mas ignoram que é o vento quem limpa o céu. E leva embora o que insiste em ficar.

Jesus, segurando firme seus longos cabelos esvoaçantes e seu manto que se rebelava no corpo, respondeu:

— Às vezes, é preciso perder o que nos prende para encontrar o que nos chama.

Iansã sorriu satisfeita e o vento amainou, transformando-se numa brisa suave.

Enquanto Exu retornava à sua morada na encruzilhada, Jesus seguia em frente.

O calor do dia começou a apertar e surgiu o rumor de água corrente.

À margem de um riacho cristalino, onde o aroma de lírios e água fresca acalmavam os sentidos, emerge a silhueta cativante de Oxum. O reflexo do sol na água criava faíscas douradas ao redor de suas mãos. Observava ela os peixes bailarem entre as pedras.

Ao ver o andarilho exausto, ela prontamente lhe ofereceu água em uma cuia reluzente.

— Toda sede merece respeito.

Jesus, sentindo-se acolhido, aceitou de bom grado e agradeceu.

O contraste entre a urgência do mundo e a calmaria daquele córrego era profundo. Oxum olhou nos olhos dele e perguntou:

— Reconheço em você um sábio. Então, me esclareça, por favor, essa questão que me tortura: por que tanta gente acredita que a força necessita de barulho?

— Porque não lhes foi ensinado escutar o silêncio.

Ela sorriu com a mesma felicidade que invade um curso da água quando os raios do sol da manhã acariciam sua superfície.

Jesus continuou sua jornada de destino incerto, deixando o vale e subindo a serra. onde o vento uivava e a gravidade parecia confrontar a pequenez e a fragilidade humanas, quando avistou Xangô.

Recolhido em seu trono de pedra bruta, observava o horizonte como quem pesa as coisas do mundo numa balança invisível.

— Justiça... — balbuciou, a voz grave reverberando no paredão de pedra, como querendo concluir um pensamento inacabado. — Todos imploram por ela.

Ele olhou para Jesus, medindo a estatura espiritual daquele homem franzino. Fez uma pausa e completou:

— Mas o que os homens desejam é apenas vencer.

Jesus assentiu, sentindo o peso daquela verdade esmagadora.

— Amar a justiça exige coragem. Amar a vitória nem tanto.

Os dois trocaram um olhar de cumplicidade. abençoando o veredicto silencioso que compartilhavam.

Jesus prosseguiu. Ao descer a montanha, a vegetação fechou-se em uma mata densa. O ar tornou-se úmido, com cheiro de musgo, resina e folhas pisadas.

Na beira da mata, um homem de porte firme e olhar certeiro observava as copas das árvores, perfeitamente camuflado na proteção das sombras. Um pequeno pássaro pousou-lhe no ombro, sem medo.

Era Oxóssi. A imensidão da floresta parecia intimidar o intruso, mas Jesus avançou com reverência e sem temor. O caçador apresentou-se com as seguintes palavras:

— A floresta nunca fala alto — disse — Mesmo assim, nada do que acontece lhe escapa.

Jesus acercou-se com mais um passo e passou a mão sobre o tronco rugoso de uma árvore centenária, sentido a vida pulsar sob a casca grossa.

— Meu Pai também costuma ensinar usando sementes.

Oxóssi abriu um sorriso cordial, transformando a tensão da mata em hospitalidade.

— Sei disso. Ele é um excelente jardineiro. Formaríamos uma ótima dupla.

Jesus deixou-o, em direção a uma praia isolada, onde as ondas vinham e iam como se o mar, através delas, respirasse. O sal grudava-lhe na pele e o som rítmico do oceano quebrava na areia branca.

Ali avistou Iemanjá.

Vestida com as cores da espuma, ela observava o oceano com a serenidade de quem reconhece todas as lágrimas que nele desaguam. O horizonte infinito trazia uma melancolia profunda, quase dolorosa.

— Os seres humanos choram muito.

Jesus aproximou-se, parando onde a água borbulhante alcançava seus pés. Respondeu:

— Porque amam muito.

Ela concordou, com o olhar medindo a ida e a vinda das marés.

— E continuam amando, mesmo depois de sofrer.

— Talvez seja essa sua maior coragem.

Por um instante, ninguém disse nada. Nem precisava. As ondas falaram por ambos, engolindo a dor do mundo no balanço das águas.

Quando o sol começou a se esconder, tingindo o céu de tons de brasa e púrpura, Exu reapareceu, na margem da estrada.

— Engraçado..., comentou, surgindo da penumbra.

— O quê? — perguntou Jesus, sentando-se a seu lado.

— Estava aqui meditando: cada povo inventa um jeito diferente de procurar o sagrado.

Jesus, com olhar perdido no horizonte, retrucou:

— Verdade. E, quase sempre, se desentendem, achando que estão do lado da razão. Como se a razão tivesse um lado.

Exu deu uma sonora gargalhada que ecoou ao longe, afugentando os últimos pássaros do dia.

— Sendo que o caminho permanece lá. Indiferente às batalhas que se fazem em seu nome.

Como velhos amigos, os dois sentaram-se na mesma encruzilhada onde tudo havia começado, ensaiando um final para o encontro.

Alguns passantes estranharam a cena. Uns viram apenas dois homens comuns conversando. Outros juravam ter presenciado uma roda de luz que os cercava. Houve quem dissesse que eram conhecidos de longa data. Também apareceu quem garantisse que a cena não passava de miragem.

O certo é que ninguém escutou o que falavam. Talvez porque certas conversas não tenham sido feitas para ser reveladas.

Quando a noite caiu de vez, cobrindo a paisagem com um manto de estrelas, cada um retomou a direção que lhe cabia.

Antes de partir, Exu, ajeitando o chapéu, perguntou com respeito:

— Então, Mestre (permita-me chamá-lo assim?). Quando nos veremos de novo?

Jesus respondeu:

— Todo encontro sincero deixa uma porta aberta.

Exu bateu a ponta da bengala no chão e um estalo seco ecoou bem longe.

— Que os caminhos então permaneçam abertos.

—Os corações também.

Se tal encontro aconteceu de verdade, ninguém sabe com certeza. Mas quem relata costuma terminar sempre do mesmo jeito: dizendo que, naquela encruzilhada, ninguém saiu com a última palavra.

 


sexta-feira, 19 de junho de 2026

OPACA COPA

 

Em maio de 2018, escrevi uma matéria exaltando a Copa do Mundo que estava prestes a se iniciar, naquela oportunidade, na Rússia. Nela, enaltecia o espírito esportivo que se sobrepunha às divergências entre as nações. Todos se rendiam àquela saudável competição em que as delegações de cada país se submetiam às normas estabelecidas para ganharem o direito de colocar seus 11 melhores em campo.

A Copa, segundo o texto, era uma rara oportunidade que possibilitava o congraçamento universal. As diferenças eram deixadas de lado em nome da disputa esportiva. Países com regimes de governo tão distintos participavam em igualdade de condições e a FIFA, que a todos congrega, incumbia-se de fazer valer requisitos equânimes para os participantes cumprirem.

Transcrevo a seguir trechos da referida matéria:

“Parece surreal que nações com culturas e sistemas de governo tão díspares, com divergências aparentemente irreconciliáveis, (...), disponham-se, respeitosas, a participar de um evento coletivo, obedecendo obsequiosamente a suas estritas regras.”

“O país-sede empenha-se em receber de braços abertos os visitantes. Nenhum anfitrião nessa hora quer dar vexame e passar por troglodita intolerante. A adequada recepção de convidados garante uma boa imagem perante bilhões de espectadores grudados na telinha”.

Aos meus olhos crédulos, a Copa era um oásis de civilidade e convivência num deserto de intolerância e crueldade.

Decorridos meros 8 anos, o cenário mudou tão radicalmente que esse cândido artigo perdeu totalmente a validade, atropelado por inimagináveis circunstâncias.

Hoje, ao revisá-lo, não senti vergonha de tê-lo escrito. Senti saudade. Saudade de um tempo em que ainda se podia acreditar que um torneio de futebol era capaz de reunir diferenças sob um conjunto comum de regras. Talvez o mundo nunca tenha sido da maneira que idealmente concebi. Talvez eu fosse bocó ou apenas tenha envelhecido o suficiente para permitir que caísse a ficha da infame realidade.

Ao assistir ao que vem acontecendo no mundo nesses últimos tempos, verificamos que as mudanças da Copa de 2026 para a Copa de 2018 fazem parte de um pacote maior de perversidades que impactou as relações internacionais, muito além do futebol.

Um acontecimento em particular parece estar no centro desse tornado devastador: a ascensão ao poder em uma das nações-sede de um governante pouco afeito a patrocinar um ambiente de confraternização universal e pouco receptivo a receber visitantes indesejados. Seu lema: “America First”.

A primeira a se vergar a esse turbilhão de insensatez foi a FIFA, organização cuja seriedade e idoneidade antes pareciam um anteparo a interferências não provindas da arena esportiva. Aceitou calada as arbitrariedades, preocupada mais nos resultados financeiros do que na lisura dos procedimentos.

Ao sediar a Copa de 2026 (ao lado do México e do Canadá), os EUA, deixaram claro que os rituais previstos deveriam se submeter às novas diretrizes governamentais. Pipocaram episódios lamentáveis como as dificuldades impostas à entrada e ao trânsito de estrangeiros, não apenas torcedores, mas também árbitros, atletas e integrantes das equipes técnicas participantes do torneio, especialmente daqueles provenientes da África, da América Latina e do Oriente Médio, tratados como escória.

O mínimo a esperar para um país que se oferece como sede é proporcionar condições aceitáveis para o pleno exercício da atividade esportiva, bem como oferecer hospitalidade para os torcedores que se dispuseram a viajar de sua terra natal para incentivar sua equipe. Esse princípio básico de cortesia foi desconsiderado pelos negligentes anfitriões. Com anuência da FIFA.

Contraditoriamente, a mesma Copa que abriga um número recorde de seleções deverá passar para a história como a mais segregacionista de todas.

Nem mesmo em eventos esportivos equivalentes ocorridos em regimes autoritários como na Itália em 1934 (Copa do Mundo, sob Mussolini) ou na Alemanha em 1936 (Olimpíadas, sob Hitler), as delegações visitantes e os torcedores receberam tratamento tão humilhante e discriminatório. Ao contrário, os ditadores citados procuravam vender ao mundo a prevalência de uma atmosfera de tolerância e equidade para dar credibilidade ao evento sediado.

Para não perder o foco, voltemos nossa atenção ao velho esporte bretão. À Copa sem brilho, à Copa Opaca, a mesma que Mr. Trump e Mr. Infantino (presidente da FIFA) estão se empenhando em conspurcar.

O fato é que aos trancos e barrancos, o evento esportivo prossegue, cumprindo sua agenda de jogos. Os embates em campo continuam ocorrendo, afunilando o número de candidatos rumo à decisiva batalha final. As arquibancadas continuam a vibrar e os estádios permanecem cheios, apesar dos preços proibitivos dos ingressos, destinados a afastar os menos aquinhoados. Os mesmos que, nos campos de várzea, ajudaram a fazer do futebol o esporte mais popular do planeta e, com sua espontaneidade, geraram artistas em lidar com a pelota, como Pelé e Garrincha.

Não sei ainda quem vai ganhar essa Copa. O certo é que, ao final, a taça será erguida, haverá comemoração e uma bela festa de encerramento que procurará encobrir os podres do percurso.

Mas entre mortos, feridos, lesionados e barrados no baile, a verdade é que, seja quem for o campeão, sairemos todos um pouco derrotados.

 

 

sexta-feira, 12 de junho de 2026

O AMOR DE CRISTO

São Paulo, cidade agraciada com o nome do mais célebre apóstolo do cristianismo, serviu de palco neste mês de junho a dois eventos de naturezas aparentemente irreconciliáveis que, no entanto, guardavam algo em comum: a capacidade de aglutinar multidões. De um lado, a Marcha para Jesus e, de outro, a Parada LGBT+.

Ao presenciar essas duas manifestações aparentemente tão díspares, uma dúvida me veio à mente: em qual delas Jesus caminharia?

A pergunta pode soar provocativa, até insolente. Afinal, de um lado, temos uma manifestação de caráter declaradamente religioso dedicada à enfatizar a fé em Jesus. De outro, um evento aparentemente pagão e depravado, com pessoas em trajes provocativos que representam o oposto do que a tradicional religiosidade cristã professa. Corpos seminus entregues ao hedonismo, música alta e danças sensuais que ferem o sagrado decoro litúrgico.

Mas se perscrutarmos além das aparências e de pré-julgamentos, a resposta não seria assim tão óbvia.

A Marcha para Jesus, embalada com música gospel e refrões de louvor ao Senhor, reuniu legiões de fiéis disciplinados, com vestes discretas e cabelos alinhados.  O que me leva a imaginar que Jesus com suas sandálias de tiras, suas vestes rústicas, barbudo e cabeludo (mais próximas à estética hippie) causaria certo desconforto.

Em contraste, na Parada LGBT+, ao som de batidas eletrizantes, cada um se apresenta como melhor lhe convém. Paetês, plumas, glitter, leques e vestimentas cintilantes esparramam-se espalhafatosamente pela avenida numa explosão de cores. Reivindicam, a seu modo, reconhecimento e respeito, glorificando a diversidade e celebrando a Vida. Partindo da ideia de que Deus é Vida, não deixa de ser instigante pensar que essa manifestação pode ser lida como uma espécie de experiência espiritual psicodélica.

Apesar de Marcha para Jesus, em tese, aceitar qualquer indivíduo que queira participar, na prática, os discursos prevalecentes são as conhecidas ladainhas pentecostais. Nesse meio, não são recebidos com entusiasmo aqueles que professam outros credos, como os que idolatram imagens (católicos) ou os que acreditam em reencarnação (espíritas). São especialmente mal vistos (talvez com uma dose disfarçada de racismo) os que praticam religiões de origem africana (umbanda, candomblé) cujos deuses e mentores espirituais (orixás etc.) são comparados a demônios.

Também são segregados os que têm condutas sexuais condenáveis, como gays e travestis que, reprimidos e enquadrados, deveriam se submeter a ‘curas gay’ para se comportar como um ‘temente a Deus’.

Verdade seja dita, esse comportamento não é generalizado, havendo comunidades evangélicas ‘progressistas’ que acolhem pessoas necessitadas independentemente de sua conduta pretérita e sua orientação sexual. Mas o pensamento mainstream estimula uma atitude persecutória contra homossexuais, feministas e aquelas que praticaram aborto, ainda que sejam meninas vítimas de estupro, todos sujeitos a arder eternamente no fogo do inferno.

Já a Parada Gay aceita de bom grado todos os que queiram participar, sem exigir profissão de fé ou filiação religiosa. Nela convivem católicos, evangélicos, espíritas, umbandistas, budistas, judeus, muçulmanos e ateus. São também bem recebidas pessoas de diversas orientações sexuais: homossexuais, heterossexuais, bissexuais e transexuais. Onde alguns enxergam promiscuidade, a primeira palavra que me ocorre é inclusão.

Lendo os Evangelhos, encontramos um Jesus que se aproxima justamente daqueles que a sociedade preferia manter à margem. Devemos nos reportar às ações do Mestre que acolhia indistintamente prostitutas, leprosos, deficientes, mulheres (vistas à época como categorias inferiores), gentios que professavam outras religiões e samaritanos vindos de outras paragens. O amor divino não se destina apenas aos integrantes de um círculo fechado, reservado aos moralmente impecáveis. Como um coração de mãe, no colo de Deus Pai havia lugar a todos os que praticassem o bem.

Na marcha que se diz cristã, outra coisa que me chamou a atenção, a profusão de bandeiras de Israel. Nada de errado em celebrar os vínculos entre duas tradições com raízes históricas próximas. O que me intriga é a idealização quase religiosa de um Estado que, como qualquer outro, está sujeito a críticas. Pergunto-me por que uma manifestação dedicada a um líder espiritual que pregava a paz precisa demonstrar identificação com um país envolvido em constantes conflitos territoriais com vizinhos.

 Enquanto a guerra produz milhares de vítimas civis inocentes em Gaza e gera denúncias de graves violações de direitos humanos, muitos líderes religiosos parecem demonstrar solidariedade incondicional a um dos lados do conflito, sem a mesma empatia pelas sofridas populações palestinas atingidas. Tenho dificuldade em conceber Jesus alinhado à lógica de um apoio seletivo. Consigo imaginá-lo, isso sim, ao lado das vítimas, dos refugiados, dos que perderam familiares e seus lares e não têm para onde fugir.

Fixados numa visão literal do Antigo Testamento, essa vertente evangélica encara que os hebreus têm direito bíblico à Terra de Abraão, ainda que isso implique em impor sofrimento aos ‘infiéis’ que ali residiam.

Discriminam eles os filhos de Alá, assim como os de Exu, os de Tupã. Trata-se de uma lógica perversa que hierarquiza crenças e elimina a complexidade de diferentes expressões espirituais, que a seu modo, buscam o bem, a ética e o desenvolvimento pessoal.

Também não consigo evitar uma certa estranheza diante da prosperidade dos pastores midiáticos. Jesus perambulava pelas estradas da Galileia sem patrimônio e sem qualquer sinal de ostentação além da força da sua palavra. Passados dois mil anos, vemos impérios milionários de comunicação, jatinhos particulares, e pregadores que parecem mais próximos de grandes empresários do que de humildes pescadores. Isso sem falar da insistente associação entre fé e prosperidade financeira e da recomendação para recolhimento do dízimo, transformado em requisito para contrapartida da graça divina. O que diria Jesus ao encontrar a fé transformada em produto, o púlpito convertido em plataforma de influência e a contribuição dos fiéis apresentada como caminho para bênçãos divinas?

Os ensinamentos de Jesus ressaltavam claramente a preferência pelos pobres e necessitados em versículos como “é mais difícil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus” (Mateus, 19:24). Essa profissão de amor pelos despossuídos não parece se sintonizar com os mandamentos dos pastores que ostentam vidas de luxo. Tampouco a centralidade conferida à contribuição financeira induzida dos fiéis que parece mais se afinar com o comportamento mercantilista dos vendilhões que assaltavam os templos e provocando a ira de Jesus.

Retomando a palavra do apóstolo que emprestou seu nome à metrópole que abriga tribos tão diferentes, e dizia “aceitem-se uns aos outros da mesma forma que Cristo os aceitou, a fim de que vocês glorifiquem a Deus” (Romanos 15:7), volto a indagar: qual seria a escolha de Cristo?

 

 


quinta-feira, 4 de junho de 2026

O GORDINHO DO STF

 

Quando Flávio Dino tomou posse como ministro do STF, o que nele se sobressaiu não foi o currículo, a trajetória política ou as ideias jurídicas. Foi o tamanho.

Julgar os indivíduos pela primeira impressão é um defeito do ser humano, especialmente do brasileiro, que, com sua índole zombeteira, adora rotular os indivíduos por alguma característica que lhe chama a atenção - careca, dentuço, narigudo, balofo, baixinho, gago, crioulo, japa, baiano, gay, geninho, coroa. O apelido vem antes da pessoa e não raro em tom desabonador. Quem se atreve a criticar essa postura corre o risco de ser tachado de ‘woke’, patrulheiro dos costumes, censor do humor alheio.

Pessoas com sobrepeso carregam um fardo que vai além da massa corporal: afora preocupações com a saúde e limitações práticas, convivem com preconceitos que lhes são impostos antes mesmo de serem devidamente conhecidos.

Quando foi indicado por Lula para uma cadeira no STF, Dino despertou desconfiança entre os adversários. Além da hostilidade da balança, pesava contra o fato de ser egresso do antigo PCdoB, partido tido como radical. Além de gordo, comunista!

Confesso que quando o vi chegar ao STF, carregava certa prevenção contra ele (e não pelos quilos a mais). Não esperava grande coisa do homem. Seria mais um político a usurpar uma das suntuosas cadeiras da Corte. Alguém cercado de ‘aspones’ e vantagens remuneratórias, onerando a nós, contribuintes, que não entendemos bem qual utilidade nos proporciona para justificar as 'gordas' mordomias que usufrui.

Apesar disso, havia algo nele que me inspirava simpatia. Talvez porque homens ‘corpulentos’ transmitam frequentemente um sentimento de afabilidade, alguns até chamados carinhosamente de ‘fofos’. Lembrava-me ele o Stay Puft Marshmallow Man, o gigantesco boneco de marshmallow evocado pelos Caça-Fantasmas. Um personagem improvável de aparência inofensiva e bonachona capaz de provocar tumultos monumentais em Nova York.

Dino (não vou mais citar sua condição corporal para não estigmatizar o coitado), tendo ocupado o posto de governador do Maranhão, notabilizou-se por uma gestão bem avaliada. Seu jeito professoral de se expressar ajudou. Em vez de mais um integrante do Supremo a se expressar com excesso de rebuscados malabarismos léxicos, tínhamos alguém que fala a língua que os analfabetos em ‘juridiquês’, como eu, entendem. O fato de ter sido um bem sucedido político (foi também senador e deputado), facilitou, uma vez que, para ser eleito, teve de aprender a arte de se comunicar com o cidadão comum.

O fato é que Dino tem se saído (muito) melhor do que a encomenda. Quanto a minhas objeções, fui obrigado a admitir que estava (com perdão da expressão) ‘redondamente’ enganado. Até mesmo os mais extremados opositores tiveram que se render a suas evidentes qualidades.

Dino não hesitou em mexer em vespeiros nem desafiar dogmas firmemente estabelecidos. Orçamento secreto, penduricalhos, supersalários e aposentadoria compulsória a magistrados (vista como prêmio a condutas desviadas) são alguns espinhosos temas que o homem encarou, batendo de frente com poderosos interesses corporativos. Digno Dino voltou sua atenção não apenas a malfeitores de organizações criminosas, mas aos que estão encastelados nas diversas esferas do poder, mamando nas tetas do Estado.

Protegido pela estabilidade do cargo, poderia simplesmente acomodar-se com as benesses que a função lhe assegura, cumprindo diariamente o ritual de despachar, analisar processos e proferir longos e sonolentos votos. Preferiu, no entanto, usar de suas prerrogativas para sair da mesmice e moralizar o serviço público.

Se na silhueta carrega algo de Sancho Pança, é de Don Quixote que herdou o espírito guerreiro, enfrentando os moinhos da burocracia, dos privilégios e da inércia estatal.

Lamento apenas que muitas dessas iniciativas não tenham tido a devida repercussão no polarizado debate público, incapaz de enxergar, para além de ideologias, o valor das ações em benefício da coletividade.

Por tudo isso, penitencio-me por ter começado essa crônica preso às características físicas de Dino. Perdi um tempão falando do peso do sujeito quando o que deveria importar é o peso de suas ações.

 

quarta-feira, 27 de maio de 2026

O OCASO DO MACHO

 
A onda de feminicídios e a misoginia escancarada nas redes sociais costumam ser atribuídas à ação de influenciadores da machosfera e aos algoritmos raivosos da extrema direita. A explicação procede, mas pode ser ampliada.

Numa abordagem, digamos, ‘psicossocial’, diria que se trata de uma reação de desespero do macho da espécie diante de um mundo que já não gira exclusivamente ao seu redor. Um último suspiro do velho sistema patriarcal que vem derretendo frente à crescente participação feminina na vida política e social.

Freud explica: o comportamento hostil ante o sexo oposto decorre da ferida narcísica que vitimou o rapagão magoado, que exercia o papel de provedor, centro da casa, autoridade inquestionável. Com o ego machucado pela perda dessas prerrogativas, sente-se como um reizinho destronado e se volta com agressividade contra as ex-vassalas.

Jung também daria seu pitaco: a cultura patriarcal superestimou valores associados ao masculino, como dureza e racionalidade, enquanto escondia sob o tapete dimensões ligadas à ‘anima’: intuição, sensibilidade, acolhimento. Sem saber lidar com a ‘porção feminina’ presente em si mesmo, o brutamontes partiu pra porrada.

Psicologismos à parte, o fato é que o Clube do Bolinha entrou em estado de insolvência.

As mudanças vêm em ritmo de tartaruga. Considere-se, por exemplo, o Congresso brasileiro: as mulheres ali reunidas não teriam quórum sequer para conter as bancadas da Bala, do Boi e da Bíblia (redutos amplamente masculinos). Luta desigual: Barbie x Conan o Bárbaro.

No STF, a pobre Carmen Lúcia segura as pontas do ‘bloco do eu sozinha’, no julgamento das pautas de interesse da parcela de 51% da população brasileira. Até o presidente ‘progressista’, ao tirar uma carta da manga para a nova vaga aberta na Corte, descarta a dama de copas e prefere o evangélico de confiança.

Ainda assim, já houve progresso. Afinal, não há muito tempo, a discussão girava em torno de decidir se quem veste saia e soutien poderia ter direito a voto.

Com o tempo, elas timidamente começaram a ocupar algumas cadeiras nas universidades. Depois chegaram aos escritórios, aos postos de chefia e aos concursos públicos. Quando se deram conta, estavam assinando contratos, coordenando equipes e ornamentando com plantas e objetos decorativos o ambiente cinza de trabalho.

Se o fanfarrão tem a força, a dama tem a resiliência. Suporta em silêncio a dor do parto para cumprir o indispensável desígnio de gerar a vida que biologicamente lhe cabe. Já o bebezão beberrão choraminga por parir um novo mundo, no qual tem de partilhar decisões com a parceira, antes ignorada. Reclama, tadinho, do orgulho ferido. Mas minimiza a situação opressiva de quem dá à luz sem sequer poder abortar pois seu corpo é tratado como propriedade do Estado religioso varonil.

Mas não adianta espernear, Zé Mané. Seu reino está sucumbindo em meio às garrafas de cerveja que você vira nas madrugadas de bar, falando de futebol e putaria, enquanto a patroa, sem receber um puto, rala pra não deixar desestruturar o lar e não desencaminhar os filhos que você botou no mundo ao dar vazão a seu instinto carnal.

A força bruta já teve seus dias de glória quando era necessário colocar um sujeito parrudo portando um tacape na entrada da caverna para impedir o assalto de inimigos ou de feras que espreitavam ao redor.

Mas não dá para reproduzir esse padrão paleolítico depois da invenção da vacina, da internet e do vaso sanitário. O que pode sustentar a estabilidade da sociedade do futuro não é a largura do bíceps nem o comprimento do pênis, mas a colaboração, a solidariedade, a preservação ambiental. E nesses quesitos o bicho-homem já mostrou historicamente sua inabilidade.

Não seria justo generalizar: nem todos os varões sufocaram em si os aspectos sensíveis da personalidade. Não me refiro apenas aos gays, mas aos emotivos, os suscetíveis ao martírio dos necessitados que se mobilizam para melhorar o mundo, preferencialmente sem recorrer à violência.

Na outra ponta, também há mulheres com posturas mão-de-ferro. Margaret Thatcher é o exemplo mais citado. Uma machona que tratou demandas sociais com cacetete. Modelo de mulher, segundo o manual dos homens.

Há também aquelas acomodadas que obtêm benesses por sua apropriada condição de submissão. São as que só votam em homens pois os julgam mais capacitados para tomar decisões.

Mas de uma maneira geral, recortes eleitorais comprovam diferenças de comportamento político entre os gêneros, com maior sensibilidade feminina a pautas sociais e humanitárias, enquanto o eleitorado masculino tende a se inclinar a discursos de ordem e segurança.

Computando apenas votos femininos, teríamos nos livrado do estorvo trumpista, e os EUA teriam pela primeira vez uma presidente mulher (algo que teria um impacto mais disruptivo do que a eleição de um presidente negro, trauma já superado com Obama). De fato, a sociedade americana, mais do que o racismo, escancarou seu machismo.

Escolha seu time. De um lado, os vilões que envergonham a raça humana: Nero, Calígula, Átila, Gengis Khan, Pizarro, Robespierre, Hitler, Mussolini, Stalin, Pol Pot, Mao Tsé-Tung, Franco, Salazar, Idi Amin, Pinochet, Garrastazu Médici, Kim Jong-Un, Bin Laden, Bashar Al Assad, Netanyahu, Putin. Só marmanjo.

Do outro lado: Joana d’Arc, Teresa de Calcutá, Simone de Beauvoir, Hannah Arendt, Angela Merkel, Greta Thunberg, Malala, Claudia Sheinbaum, Julia Gillard, Michelle Bachelet, Mãe Stella de Oxóssi, Sônia Guajajara, Marina Silva, Djamila Ribeiro. Aquelas que, a partir de trajetórias distintas, ajudaram a construir um mundo mais justo, equitativo... e feminino. Para homens e mulheres.

 

quinta-feira, 14 de maio de 2026

MEMÓRIAS DE UM ESTU(DANTE)

 

Muito poderia exaltar do DANTE, colégio que me educou com disciplina espartana - ‘pero sin perder la ternura jamás’ – por 14 ininterruptos anos, do pré-primário até a conclusão do ciclo secundário. Cuja qualidade de ensino me possibilitou ingressar com louvor em duas faculdades de renome da USP, Economia (FEA) e Direito no Largo São Francisco (esta última optei por abandonar por falta de vocação). Assim como adentrar para o serviço público, na carreira de Auditor Fiscal, através de concurso em que desbanquei mais de 100 gabaritados concorrentes pela vaga que ocupei por quase 20 anos até me aposentar. E que me inspiraram a exercer com gosto a atividade de magistério em duas faculdades.

Motivos para louvar a excelência do padrão “dantesco” não faltam. Contei com educadores de primeira linha que supervisionaram meus tempos de colegial (à ocasião, Científico). Como a exigente Albanese de Matemática, o bonachão Pastore de Química, o galanteador Milton de Física, o irrepreensível Renan de Geografia, o austero Orestes Rosolias de História (em cujo livro autoral, pinçado num empoeirado sebo, estudei), a talentosa Germana de Desenho, o maestro Salvatore Callia. Aquele que musicou os versos ufanistas: “Do Dante Alighieri sairão os mais valorosos pioneiros que pela taba espalharão como galhardos vanguardeiros”. E que potencializou a vocação musical que desenvolvi com a loja de LPs raros que, por 26 anos, sustentei.

E, em especial, o saudoso professor Alceu Tafari de Português que plantou em mim o desejo de escrever, que até hoje me atiça. E que me honrou com uma lisonjeira nota dez de redação, até então inatingível em nossa turma. Texto que iniciou com as seguintes palavras: “O homem em seu ser, sem ser só seu...”, compondo um triângulo isóceles de vocábulos em cujo cume aparecia O HOMEM e na base, em letras garrafais, DEUS. Um ambicioso ensaio metafísico, hehe.

Mas minha memória afetiva do Dante se estende muito além desses aspectos, digamos, pedagógicos. Revela-se em pequenos detalhes extracurriculares. No pátio enorme onde, desafiando as rígidas regras de comportamento, improvisávamos um futebol com bola de pano. Na cantina, onde uma mini garrafa de guaraná Antarctica acompanhava os sanduíches de mortadela (ou de azeitona com maionese que minha mãe preparava para o recreio). Na profusão de ‘pererecas’ pretas que pululavam alucinadas por todos os cantos desafiando os atordoados vigilantes. Nas figurinhas do Pato Donald e de atletas de futebol que trocávamos ou usávamos para ‘bater bafo’ pelas escadarias. No parque-santuário Trianon, fragmento esquecido de selva na ‘selvagem’ e árida urbe, cujas centenárias árvores, que guardavam até um bicho preguiça, afrontavam a perene solidez daquela histórica instituição de ensino.

Revela-se também nas feminíssimas colegas pelas quais nutríamos amores platônicos ou nas inatingíveis mestras que nos seduziam e provocavam fantasias eróticas só com seu olhar professoral - figuras que pareciam brotar das reminiscências de Fellini no autobiográfico Amarcord.

No ônibus escolar em que, durante o primário, cobiçávamos usufruir emoções de carrossel por ocupar um assento estrategicamente posicionado ao lado do motorista, raramente disponível. Na caricata bruxa dentuça que o Eduardo Zocchi me ensinou a desenhar, minha marca registrada por muitos anos.

No ritual do sino replicando o mesmo número de badaladas com uma pontualidade que antevia a precisão dos relógios digitais, executadas pelo Seu Marino que, por décadas, jamais faltou à sua função: “será que o homem não tira férias?”.

Grato período que consumiu 13 anos da nata da minha infância/adolescência, esticado em um ano por uma infeliz repetência em Matemática com 2 bimestres de nota zero por WO, motivada por uma hepatite que me deixou 3 meses de cama. Fábio D’Ávila foi o único colega que prestigiou esse ausente enfermo, honrando-me com uma visita domiciliar. Mas, cuja desventura reproduzida em 2 outros colegas que partilharam a mesma condição, possibilitou com eles estreitar preciosas relações de companheirismo. Seus nomes: Daud (Zuni) e Volpe, cujos laços de amizade perduraram anos a fio. Complementados com a tardia chegada do Grego (Chrysanthos) – figura ímpar que agora se escafedeu para a terra helênica dos seus ancestrais. Formamos o Quarteto Fantástico que por décadas permaneceu imbatível, frequentando regularmente as mais diversas pizzarias de São Paulo. Afora uma viagem de 30 dias por Cabo Frio que entrou para os anais, com meu fusca amarelo, versão paulista do Manuel Audaz.

Mais do que boletins, cadernetas e lousas, são esses pormenores ‘pormaiores’ do Dante e circundantes, que permanecerão eternamente ‘como dantes no quartel de Abrantes’ embalando divertidamente minhas lembranças naquilo que resta de minha jornada pós-escolar. Gostaria de deixá-los consignados para assim fazer constar minha presença nesse momento de confraternização.