A Copa, segundo o texto, era uma rara
oportunidade que possibilitava o congraçamento universal. As diferenças eram deixadas
de lado em nome da disputa esportiva. Países com regimes de governo tão distintos
participavam em igualdade de condições e a FIFA, que a todos congrega, incumbia-se
de fazer valer requisitos equânimes para os participantes cumprirem.
Transcrevo a seguir trechos da
referida matéria:
“Parece surreal que nações com
culturas e sistemas de governo tão díspares, com divergências aparentemente
irreconciliáveis, (...), disponham-se, respeitosas, a participar de um evento
coletivo, obedecendo obsequiosamente a suas estritas regras.”
“O país-sede empenha-se em receber de
braços abertos os visitantes. Nenhum anfitrião nessa hora quer dar vexame e
passar por troglodita intolerante. A adequada recepção de convidados garante
uma boa imagem perante bilhões de espectadores grudados na telinha”.
Aos meus olhos crédulos, a Copa era
um oásis de civilidade e convivência num deserto de intolerância e crueldade.
Decorridos meros 8 anos, o cenário mudou
tão radicalmente que esse cândido artigo perdeu totalmente a validade, atropelado
por inimagináveis circunstâncias.
Hoje, ao revisá-lo, não senti
vergonha de tê-lo escrito. Senti saudade. Saudade de um tempo em que ainda se
podia acreditar que um torneio de futebol era capaz de reunir diferenças sob um
conjunto comum de regras. Talvez o mundo nunca tenha sido da maneira que
idealmente concebi. Talvez eu fosse bocó ou apenas tenha envelhecido o
suficiente para permitir que caísse a ficha da infame realidade.
Ao assistir ao que vem acontecendo no
mundo nesses últimos tempos, verificamos que as mudanças da Copa de 2026 para a
Copa de 2018 fazem parte de um pacote maior de perversidades que impactou as
relações internacionais, muito além do futebol.
Um acontecimento em particular parece
estar no centro desse tornado devastador: a ascensão ao poder em uma das nações-sede
de um governante pouco afeito a patrocinar um ambiente de confraternização
universal e pouco receptivo a receber visitantes indesejados. Seu lema: “America
First”.
A primeira a se vergar a esse
turbilhão de insensatez foi a FIFA, organização cuja seriedade e idoneidade antes
pareciam um anteparo a interferências não provindas da arena esportiva. Aceitou
calada as arbitrariedades, preocupada mais nos resultados financeiros do que na
lisura dos procedimentos.
Ao sediar a Copa de 2026 (ao lado do
México e do Canadá), os EUA, deixaram claro que os rituais previstos deveriam
se submeter às novas diretrizes governamentais. Pipocaram episódios lamentáveis
como as dificuldades impostas à entrada e ao trânsito de estrangeiros, não
apenas torcedores, mas também árbitros, atletas e integrantes das equipes
técnicas participantes do torneio, especialmente daqueles provenientes da
África, da América Latina e do Oriente Médio, tratados como escória.
O mínimo a esperar para um país que
se oferece como sede é proporcionar condições aceitáveis para o pleno exercício
da atividade esportiva, bem como oferecer hospitalidade para os torcedores que
se dispuseram a viajar de sua terra natal para incentivar sua equipe. Esse
princípio básico de cortesia foi desconsiderado pelos negligentes anfitriões.
Com anuência da FIFA.
Contraditoriamente, a mesma Copa que abriga
um número recorde de seleções deverá passar para a história como a mais
segregacionista de todas.
Nem mesmo em eventos esportivos equivalentes
ocorridos em regimes autoritários como na Itália em 1934 (Copa do Mundo, sob
Mussolini) ou na Alemanha em 1936 (Olimpíadas, sob Hitler), as delegações
visitantes e os torcedores receberam tratamento tão humilhante e
discriminatório. Ao contrário, os ditadores citados procuravam vender ao mundo
a prevalência de uma atmosfera de tolerância e equidade para dar credibilidade
ao evento sediado.
Para não perder o foco, voltemos
nossa atenção ao velho esporte bretão. À Copa sem brilho, à Copa Opaca, a mesma
que Mr. Trump e Mr. Infantino (presidente da FIFA) estão se empenhando em conspurcar.
O fato é que aos trancos e barrancos,
o evento esportivo prossegue, cumprindo sua agenda de jogos. Os embates em
campo continuam ocorrendo, afunilando o número de candidatos rumo à decisiva
batalha final. As arquibancadas continuam a vibrar e os estádios permanecem cheios,
apesar dos preços proibitivos dos ingressos, destinados a afastar os menos
aquinhoados. Os mesmos que, nos campos de várzea, ajudaram a fazer do futebol o
esporte mais popular do planeta e, com sua espontaneidade, geraram artistas em
lidar com a pelota, como Pelé e Garrincha.
Não sei ainda quem vai ganhar essa
Copa. O certo é que, ao final, a taça será erguida, haverá comemoração e uma
bela festa de encerramento que procurará encobrir os podres do percurso.
Mas entre mortos, feridos, lesionados
e barrados no baile, a verdade é que, seja quem for o campeão, sairemos todos
um pouco derrotados.

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