sexta-feira, 12 de junho de 2026

O AMOR DE CRISTO

São Paulo, cidade agraciada com o nome do mais célebre apóstolo do cristianismo, serviu de palco neste mês de junho a dois eventos de naturezas aparentemente irreconciliáveis que, no entanto, guardavam algo em comum: a capacidade de aglutinar multidões. De um lado, a Marcha para Jesus e, de outro, a Parada LGBT+.

Ao presenciar essas duas manifestações aparentemente tão díspares, uma dúvida me veio à mente: em qual delas Jesus caminharia?

A pergunta pode soar provocativa, até insolente. Afinal, de um lado, temos uma manifestação de caráter declaradamente religioso dedicada à enfatizar a fé em Jesus. De outro, um evento aparentemente pagão e depravado, com pessoas em trajes provocativos que representam o oposto do que a tradicional religiosidade cristã professa. Corpos seminus entregues ao hedonismo, música alta e danças sensuais que ferem o sagrado decoro litúrgico.

Mas se perscrutarmos além das aparências e de pré-julgamentos, a resposta não seria assim tão óbvia.

A Marcha para Jesus, embalada com música gospel e refrões de louvor ao Senhor, reuniu legiões de fiéis disciplinados, com vestes discretas e cabelos alinhados.  O que me leva a imaginar que Jesus com suas sandálias de tiras, suas vestes rústicas, barbudo e cabeludo (mais próximas à estética hippie) causaria certo desconforto.

Em contraste, na Parada LGBT+, ao som de batidas eletrizantes, cada um se apresenta como melhor lhe convém. Paetês, plumas, glitter, leques e vestimentas cintilantes esparramam-se espalhafatosamente pela avenida numa explosão de cores. Reivindicam, a seu modo, reconhecimento e respeito, glorificando a diversidade e celebrando a Vida. Partindo da ideia de que Deus é Vida, não deixa de ser instigante pensar que essa manifestação pode ser lida como uma espécie de experiência espiritual psicodélica.

Apesar de Marcha para Jesus, em tese, aceitar qualquer indivíduo que queira participar, na prática, os discursos prevalecentes são as conhecidas ladainhas pentecostais. Nesse meio, não são recebidos com entusiasmo aqueles que professam outros credos, como os que idolatram imagens (católicos) ou os que acreditam em reencarnação (espíritas). São especialmente mal vistos (talvez com uma dose disfarçada de racismo) os que praticam religiões de origem africana (umbanda, candomblé) cujos deuses e mentores espirituais (orixás etc.) são comparados a demônios.

Também são segregados os que têm condutas sexuais condenáveis, como gays e travestis que, reprimidos e enquadrados, deveriam se submeter a ‘curas gay’ para se comportar como um ‘temente a Deus’.

Verdade seja dita, esse comportamento não é generalizado, havendo comunidades evangélicas ‘progressistas’ que acolhem pessoas necessitadas independentemente de sua conduta pretérita e sua orientação sexual. Mas o pensamento mainstream estimula uma atitude persecutória contra homossexuais, feministas e aquelas que praticaram aborto, ainda que sejam meninas vítimas de estupro, todos sujeitos a arder eternamente no fogo do inferno.

Já a Parada Gay aceita de bom grado todos os que queiram participar, sem exigir profissão de fé ou filiação religiosa. Nela convivem católicos, evangélicos, espíritas, umbandistas, budistas, judeus, muçulmanos e ateus. São também bem recebidas pessoas de diversas orientações sexuais: homossexuais, heterossexuais, bissexuais e transexuais. Onde alguns enxergam promiscuidade, a primeira palavra que me ocorre é inclusão.

Lendo os Evangelhos, encontramos um Jesus que se aproxima justamente daqueles que a sociedade preferia manter à margem. Devemos nos reportar às ações do Mestre que acolhia indistintamente prostitutas, leprosos, deficientes, mulheres (vistas à época como categorias inferiores), gentios que professavam outras religiões e samaritanos vindos de outras paragens. O amor divino não se destina apenas aos integrantes de um círculo fechado, reservado aos moralmente impecáveis. Como um coração de mãe, no colo de Deus Pai havia lugar a todos os que praticassem o bem.

Na marcha que se diz cristã, outra coisa que me chamou a atenção, a profusão de bandeiras de Israel. Nada de errado em celebrar os vínculos entre duas tradições com raízes históricas próximas. O que me intriga é a idealização quase religiosa de um Estado que, como qualquer outro, está sujeito a críticas. Pergunto-me por que uma manifestação dedicada a um líder espiritual que pregava a paz precisa demonstrar identificação com um país envolvido em constantes conflitos territoriais com vizinhos.

 Enquanto a guerra produz milhares de vítimas civis inocentes em Gaza e gera denúncias de graves violações de direitos humanos, muitos líderes religiosos parecem demonstrar solidariedade incondicional a um dos lados do conflito, sem a mesma empatia pelas sofridas populações palestinas atingidas. Tenho dificuldade em conceber Jesus alinhado à lógica de um apoio seletivo. Consigo imaginá-lo, isso sim, ao lado das vítimas, dos refugiados, dos que perderam familiares e seus lares e não têm para onde fugir.

Fixados numa visão literal do Antigo Testamento, essa vertente evangélica encara que os hebreus têm direito bíblico à Terra de Abraão, ainda que isso implique em impor sofrimento aos ‘infiéis’ que ali residiam.

Discriminam eles os filhos de Alá, assim como os de Exu, os de Tupã. Trata-se de uma lógica perversa que hierarquiza crenças e elimina a complexidade de diferentes expressões espirituais, que a seu modo, buscam o bem, a ética e o desenvolvimento pessoal.

Também não consigo evitar uma certa estranheza diante da prosperidade dos pastores midiáticos. Jesus perambulava pelas estradas da Galileia sem patrimônio e sem qualquer sinal de ostentação além da força da sua palavra. Passados dois mil anos, vemos impérios milionários de comunicação, jatinhos particulares, e pregadores que parecem mais próximos de grandes empresários do que de humildes pescadores. Isso sem falar da insistente associação entre fé e prosperidade financeira e da recomendação para recolhimento do dízimo, transformado em requisito para contrapartida da graça divina. O que diria Jesus ao encontrar a fé transformada em produto, o púlpito convertido em plataforma de influência e a contribuição dos fiéis apresentada como caminho para bênçãos divinas?

Os ensinamentos de Jesus ressaltavam claramente a preferência pelos pobres e necessitados em versículos como “é mais difícil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus” (Mateus, 19:24). Essa profissão de amor pelos despossuídos não parece se sintonizar com os mandamentos dos pastores que ostentam vidas de luxo. Tampouco a centralidade conferida à contribuição financeira induzida dos fiéis que parece mais se afinar com o comportamento mercantilista dos vendilhões que assaltavam os templos e provocando a ira de Jesus.

Retomando a palavra do apóstolo que emprestou seu nome à metrópole que abriga tribos tão diferentes, e dizia “aceitem-se uns aos outros da mesma forma que Cristo os aceitou, a fim de que vocês glorifiquem a Deus” (Romanos 15:7), volto a indagar: qual seria a escolha de Cristo?

 

 


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