São Paulo, cidade agraciada com o
nome do mais célebre apóstolo do cristianismo, serviu de palco neste mês de
junho a dois eventos de naturezas aparentemente irreconciliáveis que, no
entanto, guardavam algo em comum: a capacidade de aglutinar multidões. De um
lado, a Marcha para Jesus e, de outro, a Parada LGBT+.
Ao presenciar essas duas
manifestações aparentemente tão díspares, uma dúvida me veio à mente: em qual delas
Jesus caminharia?
A pergunta pode soar provocativa, até
insolente. Afinal, de um lado, temos uma manifestação de caráter declaradamente
religioso dedicada à enfatizar a fé em Jesus. De outro, um evento aparentemente
pagão e depravado, com pessoas em trajes provocativos que representam o oposto
do que a tradicional religiosidade cristã professa. Corpos seminus entregues ao
hedonismo, música alta e danças sensuais que ferem o sagrado decoro litúrgico.
Mas se perscrutarmos além das
aparências e de pré-julgamentos, a resposta não seria assim tão óbvia.
A Marcha para Jesus, embalada com
música gospel e refrões de louvor ao Senhor, reuniu legiões de fiéis
disciplinados, com vestes discretas e cabelos alinhados. O que me leva a imaginar que Jesus com suas
sandálias de tiras, suas vestes rústicas, barbudo e cabeludo (mais próximas à
estética hippie) causaria certo desconforto.
Em contraste, na Parada LGBT+, ao som
de batidas eletrizantes, cada um se apresenta como melhor lhe convém. Paetês, plumas,
glitter, leques e vestimentas cintilantes esparramam-se espalhafatosamente pela
avenida numa explosão de cores. Reivindicam, a seu modo, reconhecimento e
respeito, glorificando a diversidade e celebrando a Vida. Partindo da ideia de
que Deus é Vida, não deixa de ser instigante pensar que essa manifestação pode
ser lida como uma espécie de experiência espiritual psicodélica.
Apesar de Marcha para Jesus, em tese,
aceitar qualquer indivíduo que queira participar, na prática, os discursos prevalecentes
são as conhecidas ladainhas pentecostais. Nesse meio, não são recebidos com
entusiasmo aqueles que professam outros credos, como os que idolatram imagens
(católicos) ou os que acreditam em reencarnação (espíritas). São especialmente mal
vistos (talvez com uma dose disfarçada de racismo) os que praticam religiões de
origem africana (umbanda, candomblé) cujos deuses e mentores espirituais
(orixás etc.) são comparados a demônios.
Também são segregados os que têm
condutas sexuais condenáveis, como gays e travestis que, reprimidos e
enquadrados, deveriam se submeter a ‘curas gay’ para se comportar como um ‘temente
a Deus’.
Verdade seja dita, esse comportamento
não é generalizado, havendo comunidades evangélicas ‘progressistas’ que acolhem
pessoas necessitadas independentemente de sua conduta pretérita e sua
orientação sexual. Mas o pensamento mainstream estimula uma atitude
persecutória contra homossexuais, feministas e aquelas que praticaram aborto,
ainda que sejam meninas vítimas de estupro, todos sujeitos a arder eternamente
no fogo do inferno.
Já a Parada Gay aceita de bom grado todos os que
queiram participar, sem exigir profissão de fé ou filiação religiosa. Nela
convivem católicos, evangélicos, espíritas, umbandistas, budistas, judeus, muçulmanos
e ateus. São também bem recebidas pessoas de diversas orientações sexuais: homossexuais,
heterossexuais, bissexuais e transexuais. Onde alguns enxergam promiscuidade, a
primeira palavra que me ocorre é inclusão.
Lendo os Evangelhos, encontramos um
Jesus que se aproxima justamente daqueles que a sociedade preferia manter à
margem. Devemos nos reportar às ações do Mestre que acolhia indistintamente
prostitutas, leprosos, deficientes, mulheres (vistas à época como categorias
inferiores), gentios que professavam outras religiões e samaritanos vindos de
outras paragens. O amor divino não se destina apenas aos integrantes de um
círculo fechado, reservado aos moralmente impecáveis. Como um coração de mãe,
no colo de Deus Pai havia lugar a todos os que praticassem o bem.
Na marcha que se diz cristã, outra
coisa que me chamou a atenção, a profusão de bandeiras de Israel. Nada de
errado em celebrar os vínculos entre duas tradições com raízes históricas
próximas. O que me intriga é a idealização quase
religiosa de um Estado que, como qualquer outro, está sujeito a críticas. Pergunto-me
por que uma manifestação dedicada a um líder espiritual que pregava a paz
precisa demonstrar identificação com um país envolvido em constantes conflitos
territoriais com vizinhos.
Enquanto a guerra produz milhares de vítimas
civis inocentes em Gaza e gera denúncias de graves violações de direitos
humanos, muitos líderes religiosos parecem demonstrar solidariedade
incondicional a um dos lados do conflito, sem a mesma empatia pelas sofridas populações
palestinas atingidas. Tenho dificuldade em conceber Jesus alinhado à lógica de
um apoio seletivo. Consigo imaginá-lo, isso sim, ao lado das vítimas, dos
refugiados, dos que perderam familiares e seus lares e não têm para onde fugir.
Fixados numa visão literal do Antigo
Testamento, essa vertente evangélica encara que os hebreus têm direito bíblico à
Terra de Abraão, ainda que isso implique em impor sofrimento aos ‘infiéis’ que
ali residiam.
Discriminam eles os filhos de Alá,
assim como os de Exu, os de Tupã. Trata-se de uma lógica perversa que
hierarquiza crenças e elimina a complexidade de diferentes expressões
espirituais, que a seu modo, buscam o bem, a ética e o desenvolvimento pessoal.
Também não consigo evitar uma certa
estranheza diante da prosperidade dos pastores midiáticos. Jesus perambulava
pelas estradas da Galileia sem patrimônio e sem qualquer sinal de ostentação
além da força da sua palavra. Passados dois mil anos, vemos impérios milionários
de comunicação, jatinhos particulares, e pregadores que parecem mais próximos
de grandes empresários do que de humildes pescadores. Isso sem falar da
insistente associação entre fé e prosperidade financeira e da recomendação para
recolhimento do dízimo, transformado em requisito para contrapartida da graça
divina. O que diria Jesus ao encontrar a fé transformada em produto, o púlpito
convertido em plataforma de influência e a contribuição dos fiéis apresentada como
caminho para bênçãos divinas?
Os ensinamentos de Jesus ressaltavam
claramente a preferência pelos pobres e necessitados em versículos como “é mais
difícil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no
Reino de Deus” (Mateus, 19:24). Essa profissão de amor pelos despossuídos não
parece se sintonizar com os mandamentos dos pastores que ostentam vidas de
luxo. Tampouco a centralidade conferida à contribuição financeira induzida dos fiéis
que parece mais se afinar com o comportamento mercantilista dos vendilhões que assaltavam
os templos e provocando a ira de Jesus.
Retomando a palavra do apóstolo que emprestou
seu nome à metrópole que abriga tribos tão diferentes, e dizia “aceitem-se uns
aos outros da mesma forma que Cristo os aceitou, a fim de que vocês glorifiquem
a Deus” (Romanos 15:7), volto a indagar: qual seria a escolha de Cristo?

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