Certas
manhãs nascem diferentes. Não porque o sol brilhe mais intenso, mas porque o
mundo resolve cochichar histórias para quem tem ouvidos para escutar.
Numa
dessas manhãs, Jesus caminhava descalço, sozinho, por uma estrada de terra
vermelha. O chão ainda guardava o frescor do orvalho, e a poeira fina subia
entre seus dedos a cada passo. Carregava ele um manto simples, um sorriso sereno
e o hábito de saudar árvores e animais.
Ao
chegar a uma velha encruzilhada, sob a poeira suspensa, o ar pareceu
subitamente mais denso. Ali sentado sobre uma pedra pontiaguda, encontrou um
homem vestindo vermelho e preto e um chapéu desabado que sombreava os olhos
vivos. Girava uma bengala entre os dedos e exibia um sorriso enigmático. O
silêncio que os cercava era quase palpável, como se o tempo hesitasse diante do
cruzamento.
—
Olá, viajante. O dia amanheceu largo
para quem anda sozinho — disse o homem, voz rouca, cortando o silêncio com a
precisão de uma lâmina afiada.
—
A paz esteja convosco — respondeu Jesus.
O
homem inclinou a cabeça, o sorriso expandindo-se em desafio.
—
Paz é coisa que se procura no fim. Aqui no meio, o que manda é a escolha. E
toda escolha cobra seu pedágio.
Era
Exu. Não o das histórias mal contadas, personagem sombrio dos malfeitos que o
preconceito inventou. Era o senhor das passagens, das escolhas, da palavra que
abre caminhos e revela tropeços.
—
Vai para onde? — perguntou Exu, tocando levemente a bengala ao solo, testando a
firmeza do andarilho.
—
Para onde houver alguém precisando de uma palavra de esperança, replicou Jesus
sem recuar.
—
Isso é o que não falta nesse mundinho.
Ambos
sorriram. A tensão desfez-se no ar
Jesus
e Exu continuaram caminhando juntos.
De
repente, a calmaria foi interrompida. O vento começou a dançar de um jeito diferente,
soprando em rápidas lufadas que ergueram a poeira e fizeram as folhas girar
como se estivessem executando uma coreografia antiga. Envolta por tecidos
claros que pareciam feitos do próprio ar, surgiu uma vistosa mulher, com os
olhos faiscando como relâmpagos contidos.
—
Bons ventos os trazem, forasteiros — disse ela, a voz vibrando como um trovão
distante.
Era
Iansã.
—
As pessoas temem as tormentas, mas ignoram que é o vento quem limpa o céu. E
leva embora o que insiste em ficar.
Jesus,
segurando firme seus longos cabelos esvoaçantes e seu manto que se rebelava no
corpo, respondeu:
—
Às vezes, é preciso perder o que nos prende para encontrar o que nos chama.
Iansã
sorriu satisfeita e o vento amainou, transformando-se numa brisa suave.
Enquanto
Exu retornava à sua morada na encruzilhada, Jesus seguia em frente.
O
calor do dia começou a apertar e surgiu o rumor de água corrente.
À
margem de um riacho cristalino, onde o aroma de lírios e água fresca acalmavam
os sentidos, emerge a silhueta cativante de Oxum. O reflexo do sol na água
criava faíscas douradas ao redor de suas mãos. Observava ela os peixes bailarem
entre as pedras.
Ao
ver o andarilho exausto, ela prontamente lhe ofereceu água em uma cuia
reluzente.
—
Toda sede merece respeito.
Jesus,
sentindo-se acolhido, aceitou de bom grado e agradeceu.
O
contraste entre a urgência do mundo e a calmaria daquele córrego era profundo.
Oxum olhou nos olhos dele e perguntou:
—
Reconheço em você um sábio. Então, me esclareça, por favor, essa questão que me
tortura: por que tanta gente acredita que a força necessita de barulho?
—
Porque não lhes foi ensinado escutar o silêncio.
Ela
sorriu com a mesma felicidade que invade um curso da água quando os raios do
sol da manhã acariciam sua superfície.
Jesus
continuou sua jornada de destino incerto, deixando o vale e subindo a serra. onde
o vento uivava e a gravidade parecia confrontar a pequenez e a fragilidade
humanas, quando avistou Xangô.
Recolhido
em seu trono de pedra bruta, observava o horizonte como quem pesa as coisas do
mundo numa balança invisível.
—
Justiça... — balbuciou, a voz grave reverberando no paredão de pedra, como
querendo concluir um pensamento inacabado. — Todos imploram por ela.
Ele
olhou para Jesus, medindo a estatura espiritual daquele homem franzino. Fez uma
pausa e completou:
—
Mas o que os homens desejam é apenas vencer.
Jesus
assentiu, sentindo o peso daquela verdade esmagadora.
—
Amar a justiça exige coragem. Amar a vitória nem tanto.
Os
dois trocaram um olhar de cumplicidade. abençoando o veredicto silencioso que
compartilhavam.
Jesus
prosseguiu. Ao descer a montanha, a vegetação fechou-se em uma mata densa. O ar
tornou-se úmido, com cheiro de musgo, resina e folhas pisadas.
Na
beira da mata, um homem de porte firme e olhar certeiro observava as copas das
árvores, perfeitamente camuflado na proteção das sombras. Um pequeno pássaro
pousou-lhe no ombro, sem medo.
Era
Oxóssi. A imensidão da floresta parecia intimidar o intruso, mas Jesus avançou
com reverência e sem temor. O caçador apresentou-se com as seguintes palavras:
—
A floresta nunca fala alto — disse — Mesmo assim, nada do que acontece lhe
escapa.
Jesus
acercou-se com mais um passo e passou a mão sobre o tronco rugoso de uma árvore
centenária, sentido a vida pulsar sob a casca grossa.
—
Meu Pai também costuma ensinar usando sementes.
Oxóssi
abriu um sorriso cordial, transformando a tensão da mata em hospitalidade.
—
Sei disso. Ele é um excelente jardineiro. Formaríamos uma ótima dupla.
Jesus
deixou-o, em direção a uma praia isolada, onde as ondas vinham e iam como se o
mar, através delas, respirasse. O sal grudava-lhe na pele e o som rítmico do oceano
quebrava na areia branca.
Ali
avistou Iemanjá.
Vestida
com as cores da espuma, ela observava o oceano com a serenidade de quem
reconhece todas as lágrimas que nele desaguam. O horizonte infinito trazia uma
melancolia profunda, quase dolorosa.
—
Os seres humanos choram muito.
Jesus
aproximou-se, parando onde a água borbulhante alcançava seus pés. Respondeu:
—
Porque amam muito.
Ela
concordou, com o olhar medindo a ida e a vinda das marés.
—
E continuam amando, mesmo depois de sofrer.
—
Talvez seja essa sua maior coragem.
Por
um instante, ninguém disse nada. Nem precisava. As ondas falaram por ambos,
engolindo a dor do mundo no balanço das águas.
Quando
o sol começou a se esconder, tingindo o céu de tons de brasa e púrpura, Exu
reapareceu, na margem da estrada.
—
Engraçado..., comentou, surgindo da penumbra.
—
O quê? — perguntou Jesus, sentando-se a seu lado.
—
Estava aqui meditando: cada povo inventa um jeito diferente de procurar o sagrado.
Jesus,
com olhar perdido no horizonte, retrucou:
—
Verdade. E, quase sempre, se desentendem, achando que estão do lado da razão.
Como se a razão tivesse um lado.
Exu
deu uma sonora gargalhada que ecoou ao longe, afugentando os últimos pássaros
do dia.
—
Sendo que o caminho permanece lá. Indiferente às batalhas que se fazem em seu
nome.
Como
velhos amigos, os dois sentaram-se na mesma encruzilhada onde tudo havia
começado, ensaiando um final para o encontro.
Alguns
passantes estranharam a cena. Uns viram apenas dois homens comuns conversando. Outros
juravam ter presenciado uma roda de luz que os cercava. Houve quem dissesse que
eram conhecidos de longa data. Também apareceu quem garantisse que a cena não
passava de miragem.
O
certo é que ninguém escutou o que falavam. Talvez porque certas conversas não
tenham sido feitas para ser reveladas.
Quando
a noite caiu de vez, cobrindo a paisagem com um manto de estrelas, cada um retomou
a direção que lhe cabia.
Antes
de partir, Exu, ajeitando o chapéu, perguntou com respeito:
—
Então, Mestre (permita-me chamá-lo assim?). Quando nos veremos de novo?
Jesus
respondeu:
—
Todo encontro sincero deixa uma porta aberta.
Exu
bateu a ponta da bengala no chão e um estalo seco ecoou bem longe.
—
Que os caminhos então permaneçam abertos.
—Os
corações também.
Se
tal encontro aconteceu de verdade, ninguém sabe com certeza. Mas quem relata
costuma terminar sempre do mesmo jeito: dizendo que, naquela encruzilhada,
ninguém saiu com a última palavra.
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