Muito poderia exaltar do DANTE, colégio
que me educou com disciplina espartana - ‘pero sin perder la ternura jamás’
– por 14 ininterruptos anos, do pré-primário até a conclusão do ciclo
secundário. Cuja qualidade de ensino me possibilitou ingressar com louvor em
duas faculdades de renome da USP, Economia (FEA) e Direito no Largo São
Francisco (esta última optei por abandonar por falta de vocação). Assim como adentrar
para o serviço público, na carreira de Auditor Fiscal, através de concurso em
que desbanquei mais de 100 gabaritados concorrentes pela vaga que ocupei por
quase 20 anos até me aposentar. E que me inspiraram a exercer com gosto a
atividade de magistério em duas faculdades.
Motivos para louvar a excelência do padrão
“dantesco” não faltam. Contei com educadores de primeira linha que supervisionaram
meus tempos de colegial (à ocasião, Científico). Como a exigente Albanese de
Matemática, o bonachão Pastore de Química, o galanteador Milton de Física, o irrepreensível
Renan de Geografia, o austero Orestes Rosolias de História (em cujo livro
autoral, pinçado num empoeirado sebo, estudei), a talentosa Germana de Desenho,
o maestro Salvatore Callia. Aquele que musicou os versos ufanistas: “Do
Dante Alighieri sairão os mais valorosos pioneiros que pela taba espalharão
como galhardos vanguardeiros”. E que potencializou a vocação musical que desenvolvi
com a loja de LPs raros que, por 26 anos, sustentei.
E, em especial, o saudoso professor
Alceu Tafari de Português que plantou em mim o desejo de escrever, que até hoje
me atiça. E que me honrou com uma lisonjeira nota dez de redação, até então inatingível
em nossa turma. Texto que iniciou com as seguintes palavras: “O homem em seu
ser, sem ser só seu...”, compondo um triângulo isóceles de vocábulos em cujo
cume aparecia O HOMEM e na base, em letras garrafais, DEUS. Um ambicioso ensaio
metafísico, hehe.
Mas minha memória afetiva do Dante se
estende muito além desses aspectos, digamos, pedagógicos. Revela-se em pequenos
detalhes extracurriculares. No pátio enorme onde, desafiando as rígidas regras
de comportamento, improvisávamos um futebol com bola de pano. Na cantina, onde uma
mini garrafa de guaraná Antarctica acompanhava os sanduíches de mortadela (ou de
azeitona com maionese que minha mãe preparava para o recreio). Na profusão de
‘pererecas’ pretas que pululavam alucinadas por todos os cantos desafiando os
atordoados vigilantes. Nas figurinhas do Pato Donald e de atletas de futebol
que trocávamos ou usávamos para ‘bater bafo’ pelas escadarias. No parque-santuário
Trianon, fragmento esquecido de selva na ‘selvagem’ e árida urbe, cujas centenárias
árvores, que guardavam até um bicho preguiça, afrontavam a perene solidez
daquela histórica instituição de ensino.
Revela-se também nas feminíssimas
colegas pelas quais nutríamos amores platônicos ou nas inatingíveis mestras que
nos seduziam e provocavam fantasias eróticas só com seu olhar professoral - figuras
que pareciam brotar das reminiscências de Fellini no autobiográfico Amarcord.
No ônibus escolar em que, durante o
primário, cobiçávamos usufruir emoções de carrossel por ocupar um assento
estrategicamente posicionado ao lado do motorista, raramente disponível. Na caricata
bruxa dentuça que o Eduardo Zocchi me ensinou a desenhar, minha marca
registrada por muitos anos.
No ritual do sino replicando o mesmo
número de badaladas com uma pontualidade que antevia a precisão dos relógios digitais,
executadas pelo Seu Marino que, por décadas, jamais faltou à sua função: “será
que o homem não tira férias?”.
Grato período que consumiu 13 anos da
nata da minha infância/adolescência, esticado em um ano por uma infeliz
repetência em Matemática com 2 bimestres de nota zero por WO, motivada por uma
hepatite que me deixou 3 meses de cama. Fábio D’Ávila foi o único colega que prestigiou
esse ausente enfermo, honrando-me com uma visita domiciliar. Mas, cuja
desventura reproduzida em 2 outros colegas que partilharam a mesma condição, possibilitou
com eles estreitar preciosas relações de companheirismo. Seus nomes: Daud
(Zuni) e Volpe, cujos laços de amizade perduraram anos a fio. Complementados
com a tardia chegada do Grego (Chrysanthos) – figura ímpar que agora se
escafedeu para a terra helênica dos seus ancestrais. Formamos o Quarteto Fantástico
que por décadas permaneceu imbatível, frequentando regularmente as mais
diversas pizzarias de São Paulo. Afora uma viagem de 30 dias por Cabo Frio que entrou
para os anais, com meu fusca amarelo, versão paulista do Manuel Audaz.
Mais do que boletins, cadernetas e
lousas, são esses pormenores ‘pormaiores’ do Dante e circundantes, que
permanecerão eternamente ‘como dantes no quartel de Abrantes’ embalando
divertidamente minhas lembranças naquilo que resta de minha jornada pós-escolar.
Gostaria de deixá-los consignados para assim fazer constar minha presença nesse
momento de confraternização.
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