“Esse cara sou eu”
(Roberto Carlos)
Esse texto vai para aqueles que, como
eu, já foram caras e, sem aviso prévio, foram remanejados
para a turma dos coroas. Devo ter faltado à assembleia deliberativa que cravou
essa arbitrária realocação, à revelia dos afetados.
Acho que criaram as regras desse jogo
para me infligir essa fatalidade metafísica em que o resultado do arremesso da
moeda do destino estabelece ‘cara’ para a fase ascendente da existência e
‘coroa’ para seu ocaso.
Apesar disso, tento me conservar em
formol no modo ‘cara’, contrariando a certidão, a lombar e o espelho. Sou um
cara duro na queda. Se me chamam de vovô, mando um: “vovô é o cacete, seu
fedelho!”
Não nego certa dificuldade em encarar
os caras de hoje, aqueles que são caras de fato, com as características pertinentes.
Ser cara no mundo de hoje é bem diferente de ser cara quando eu era cara. Vivem
tais seres numa rotação diferente da época em que não havia celular nem
internet nem pix nem Netflix. Mas tinha Asterix e Obelix.
Mas, caramba, não sou saudosista. Ser
cara é um estado de espírito e diante das objeções dou um reset e me coloco na
parte legal de ser cara: disposição de mudar, fome em aprender, esperança,
curiosidade, inconformismo, rebeldia.
Às vezes me sinto pregando no
deserto. Um velho lobo, desgarrado da matilha, cujo uivo rouco ainda ecoa por
aí. E incomoda os rebanhos de ovelhas.
O que me deprime é ver a transformação
dos meus companheiros de estrada. Caras que nasceram na mesma época que eu, atravessaram
os mesmos anos, encararam as mesmas revoluções, rebeliões, repressões. Fomos cúmplices
nesses momentos de resistência. Para, no fim das contas, chegar à conclusão, com
cara de tacho, de que, como dizia o Belchior, continuamos vivendo “como nossos
pais”. O fato é que muitos caras - pessoas que nos foram caras - por divergências
políticas, nos viraram a cara. Que tristeza, cara! Babacas que glorificam as
chineladas enquadradoras de que foram vítimas.
Descarados.
Tornaram-se eminentes gagás. Não pelo
detalhe da pele franzida, mas pelas rugas de desumanidade que se calcificaram
por dentro, imunes a aplicações de botox. As mesmas que nos acomodaram na
poltrona da resignação, assistindo a vida escoar pela TV. Lendo Caras.
Pior são os caras que, na maior cara dura,
deixaram-se virar caretas. Gente com corpo jovial que a vida desafia a
transgredir, com cabeça de matusalém, exaltando o conformismo e barrando
avanços civilizatórios. São aqueles boyzinhos sarados e tatuados, cheios de
pose que, na flor da idade, enaltecem patriotismo, militarismo, machismo, racismo. Têm ideias e preconceitos mais arraigados do que os de seus avós. São
caras de duas caras. E, desculpe, nenhum caráter.
Para quando dermos de cara com o dia
final, estirados e cercados por coroas a coroar falsamente nossa impoluta
figura – com direito a coroa de flores e tudo – chegarmos à constatação de não
haverá mágica - por mais cara que seja – capaz de nos fazer voltar a ser caras
de novo.

Um comentário:
É aquilo, quem vê cara vê formação. Dito isso, na boa, tô preferindo ser coroa a cara. Cara ainda vai ter que ralar muito pra ser coroa, não invejo não. No triângulo equilátero que é a vida, tô começando a última aresta. Sem drama, enquanto der. E aos caretas citados, meu desprezo básico. Valeu!
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