“Ô saudade que eu tava da vida de
cachorrada, da vida de putaria” (Gusttavo Lima)
Quando ouvi pela primeira falar em
‘sertanejo universitário’, a ideia que me passou pela cabeça é que se tratava
de uma versão mais elaborada do sertanejo ‘mainstream’ que dominava o
mercado, também conhecido como ‘sertanejo romântico’, de duplas como
Chitãozinho & Xororó, Leandro & Leonardo e Zezé di Camargo &
Luciano. O adjetivo ‘universitário’ sugeria, um refinamento estético, algo que
teve precedentes com outros estilos musicais populares - como o antigo ‘brega’
e a ‘jovem guarda’ – que, ao dialogarem com públicos mais exigentes e
escolarizados, sofreram releituras. Exemplos: Caetano interpretando Peninha e
Adriana Calcanhotto reinventando Leno & Lílian.
Fiz uma associação (que se mostrou indevida)
com o chamado “forró universitário” dos anos 90, uma derivação do forró ‘pé de
serra’ de nomes lendários como os de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro,
conferindo ao ritmo um toque mais pop e urbano, porém sem causar uma ruptura em
sua base rítmica, centrada no trio sanfona/zabumba/triângulo e sem romper com
seu contexto simbólico, ligado ao cotidiano nordestino.
Para entender melhor esse processo, é
preciso recuar um pouco. O sertanejo original (rebatizado de ‘sertanejo raiz’)
estava ligado à figura do homem simples do interior (estigmatizado na figura do
Jeca Tatu) e à sonoridade da viola caipira. Duplas como Cascatinha &
Inhana, Tião Carreiro & Pardinho e Pena Branca & Xavantinho são frutos
dessa linhagem que manteve os traços da cultura pura do campo.
A partir dos anos 80/90, o gênero
passou por uma transmutação significativa, incorporando a guitarra elétrica,
sofrendo influência do pop internacional e adotando padrões inspirados no
country norte-americano como o uso de chapéu e figurino de cowboy A ênfase a
temas românticos, propiciou-lhe grande sucesso de vendas. Canções como “É o
Amor” (Zezé & Luciano) e “Evidências” (Ch & X) marcaram essa fase.
Foi nos anos 2000 que desponta o tal
sertanejo universitário que, diferentemente do forró universitário, renegou a
essência do ritmo que lhe deu à luz. Nada tem a ver com o estereótipo do homem
do interior, sua religiosidade, seus valores simplórios, sua aparência humilde.
Em seu lugar, surge o machão individualista, endinheirado, trajado com roupas
de grife, jaquetas de couro e penteados estilosos. Visava atingir um público
mais ‘descolado’, conectado em novos padrões de comportamento. Para tanto, lançou
mão de teclados, sintetizadores e estruturas rítmicas mais dançáveis para
seduzir frequentadores de baladas.
O termo ‘universitário’ revela-se ambíguo.
Ao contrário do que poderia sugerir, não indica um salto de sofisticação
estética, apenas uma estratégia de marketing, um rótulo para fascinar um
público mais jovem, urbano e ambicioso em ascender socialmente, inclusive através
de formação acadêmica. A explosão do número de faculdades, sobretudo privadas,
gerou uma enxurrada de formandos, orientados mais pela lógica de mercado do que
pelo rigor acadêmico. Essa mudança de perfil ocasionou um reducionismo de
repertório e um menor senso crítico. Esse crescente contingente ‘universitário’
foi capturado pelos neosertanejos que lhes ofereciam produtos de fácil
assimilação, compatíveis com suas demandas.
Os representantes do estilo gostam de
embalar sua trajetória exitosa na retórica da meritocracia, atribuindo a
‘bênção’ do sucesso a seu pretenso talento. Com isso, constroem a imagem de
quem ‘venceu na vida’, desfilando envaidecidos nos palcos como nova elite
econômica do entretenimento. Amparados por uma presença digital massiva,
convertem a popularidade em negócio, diversificando as receitas com marcas
próprias e publicidade, incluindo apostas esportivas (bets), sem contar os
cachês milionários.
Em termos artísticos, o sertanejo
universitário, apesar do título pretensioso, deu um passo atrás em relação ao sertanejo
romântico. As melodias tornaram-se ainda mais previsíveis e sem inspiração, as
letras frívolas tratam de relações afetivas descartáveis, exaltação à farra e à
bebedeira, reservando à mulher o papel de objeto sexual.
Apesar de exibir invejáveis números no
streaming, o subgênero não adquiriu relevância. Os críticos torcem o nariz para
ele. São canções banais, sem criatividade, com prazo curto de validade, que não
permanecem na memória afetiva. Para aqueles que concebem música como manifestação
artística, o sertanejo universitário representa uma completa decepção para um
país que possui diversidade rítmica e riqueza melódica que se tornou referência
internacional.
Sua expansão, ao contrário do que se
imagina, não brotou espontaneamente do gosto popular, mas de uma portentosa engrenagem
de impulsionamento financiada pelo agronegócio que ganhou peso com a crescente
importância dessa atividade da economia do país. Isso explica a hegemonia do
ritmo na programação das emissoras de rádio, sobretudo do interior. Shows,
feiras agropecuárias e rodeios bancados por pequenas prefeituras, controladas
por políticos vinculados ao agro, ajudaram a bombar o gênero.
A forte ligação com o agro traduz-se
na esfera política a alinhamento a valores conservadores. Diferentemente de outros
segmentos artísticos, parte expressiva do sertanejo está fortemente vinculada
ao bolsonarismo, não raro manifestado em suas preferências políticas. Embora acusem
astros como Anitta, Pabllo Vittar, Caetano e Gil por pretensamente usarem
recursos da Lei Rouanet, levantamentos demonstram que os 10 maiores beneficiários
de recursos públicos provêm todos do mundo sertanejo, liderados por Gusttavo
Lima, e Bruno & Marrone.
Dominante no cenário nacional, o
gênero encontra resistências como em capitais do Norte/Nordeste como Recife e
Belém, onde prevalecem ritmos regionais, e sobretudo no Rio de Janeiro, território
livre do sertanejo, onde o ritmo ocupa um modesto 6º lugar na escala de
preferência, atrás de MPB, samba/pagode, gospel, rock e funk. Também no
exterior, mesmo em países vizinhos, o estilo não pegou. Os gringos que se
renderam à bossa nova e ao samba, não se deixaram encantar pelo lenga-lenga sertanejo
e sua parafernália tecnológica.
É comum também a comparação com o
funk carioca. Ambos são populares, comerciais e criticados pelo teor sexual presente
em suas letras. Mas há diferenças marcantes. O sertanejo, por trás de uma postura
aparentemente pudica, promove condutas amorais e obscenas, enquanto o funk é premeditadamente
chulo e insolente, refletindo o comportamento transgressor das periferias, ambiente
de desigualdade e exclusão, tornando-se forma de expressão e pertencimento
nesses territórios. Ademais, o funk não tem o suporte financeiro institucional de
que dispõe o sertanejo. Sua ascensão nas plataformas de streaming incomoda o
sertanejo que usa diversos expedientes para barrá-lo e desacreditá-lo. Apesar de
o funk se sobressair nos rankings digitais, foi bloqueado nas emissoras de
rádio por pressões econômicas (jabás). Os sertanejos ficaram mordidos com o crescimento
do funk, com seu apelo sensorial que conquistou boa parte da juventude pela
batida e pela dança.
No fim das contas, o ‘universitário’
do sertanejo diz menos sobre universidade e mais sobre mercado. Representa, na
prática, um flagrante empobrecimento artístico, levando os críticos,
preocupados com a pauperização musical, a se perguntar até onde vai o fundo
do poço.

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