Sou descendente de libaneses. Com
muito orgulho! Todos os meus quatro avós provieram daquele exótico e restrito pedaço
de terra, cujo tamanho não chega à metade do menor estado brasileiro, Sergipe.
Mesmo sendo um país tão pequetito,
enviou para o Brasil, ao longo do século XX, tanta gente que hoje há mais
descendentes libaneses no Brasil do que no próprio Líbano! Um em cada 20 brasileiros.
São por volta de 10 milhões de ‘turcos’, como erroneamente costumavam ser chamados
no tempo em que eu era criança. Certamente, a maior comunidade libanesa do mundo.
A oportunidade de desenvolver seus
pequenos negócios foi um atrativo para os libaneses se aventurarem para essas
distantes terras tropicais. E, diferentemente dos italianos, portugueses e
japoneses, espalharam-se demográfica e democraticamente por todos os estados de
Norte a Sul. E deram-se muito bem em todos. Começaram cuidando de “lojínias” e se
expandiram para outras áreas de atuação.
No campo da política, os ‘patrícios’ tiveram
uma participação notável. Encontramos exemplares em todos campos do espectro
ideológico, da direita à extrema esquerda. Nomes de relevo como: Paulo Maluf, Paulo
Skaf, Anthony Garotinho, Espiridião Amin, ACM Neto, Gabriel Chalita, Adib
Jatene, Guilherme Afif, Michel Temer, Gilberto Kassab, Tasso Jeraissati, Beto
Richa, Pedro Simon, Omar Aziz, Geraldo Alckmin, Simone Tebet, Patrus Ananias,
Fernando Haddad, Guilherme Boulos, Jandira Feghali.
Musicalmente, os ‘brimos’ se destacaram,
especialmente na MPB e no pop nacional: Ivon Cury, Tito Madi, Pedrinho Mattar, João
Bosco, Fagner, Almir Sater, Egberto Gismonti, Duo Assad, Badi Assad, Mariana
Aydar, Bruna Karam, Nonato Buzar, Tunai, André Abujamra, Evandro Mesquita,
Frejat, Chorão, Fauzi Beydoum, Wanderléa, Alok e por aí vai. Parece que só não entraram
na seara do sertanejo, do gospel e do pagode romântico. Que bom!
Em outras áreas da cultura, corre o
sangue libanês em gente como Beto Carrero, Luciana Gimenez, Sabrina Sato, Sônia
Abrão, Leda Nagle, William Bonner, Roberto Duailibi, Antônio Abujamra, Monark, Amyr Klink, Juca Kfouri, Jamil Chade, Davi
Nasser, Ibraim Sued, Ivaldo Bertazzo, Fauzi Arap, Betty Milan, José Simão, Janete
Clair, Malu Mader, Maurício Mattar, Armando Bogus, Felipe Carone, Arnaldo
Jabor, Walter Hugo Khouri, Fernando Gabeira, Andréia Sadi, Guga Chacra, Júlia
Duailibi, Marina Person, Emerson Kapaz, Luís Nassif, Tárik de Souza, Almir
Chediak, Aziz Ab’Saber, Emir Sader, Edmar Bacha, Pérsio Arida, Antônio Houaiss,
Mário Chamie, Milton Hatoum dentre tantos.
A culinária é capítulo à parte. Provindos
de um país onde alimentar-se é parte de um cerimonial de cordialidade e compartilhamento,
os caprichados quitutes árabes caíram no gosto do brasileiro: esfiha, kibe,
homus...
Embora tenha-me convertido ao
vegetarianismo, abro exceções para ingresso em meu restritivo cardápio verde do
quibe cru, do charutinho de uva e da kousa (abobrinha), recheados com carne bovina,
concessão que faço em nome da relevância afetivo-cultural. Mas o tabule, compatível
com meus recentes hábitos alimentares, ainda reina como manjar dos deuses. Não o
bastardo, empapado com trigo como servido em restaurantes de quilo, mas o autêntico
com pouco trigo, bastante salsinha, hortelã e um leve toque de pimenta síria.
Hummm!
Antigo lar dos fenícios (desenvolvida
civilização que, dentre outros legados, criou um sistema de sinais que deu
origem ao nosso alfabeto), o Líbano é um país singularíssimo. Embora faça parte
do mundo árabe, distingue-se por gozar de uma situação única, onde muçulmanos
xiitas e sunitas, cristãos maronitas, melquitas, armênios, ortodoxos, drusos
etc. convivem pacificamente.
É o único país do mundo, que eu saiba,
administrado por um arranjo institucional com participação das principais
religiões, garantindo tolerância no exercício dos diferentes credos. Bem
diferente de outros da região.
A capital Beirute, a “Paris do Oriente
Médio”, é uma metrópole com vida cultural pulsante, com relevantes traços
arquitetônicos e históricos, onde o moderno coexiste com a tradição.
Estrategicamente localizado, às
margens do Mediterrâneo, ladeado pelo gigantismo da Síria e pelo expansionismo
de Israel, o espremido Líbano acabou tendo o setor Sul de seu território
ocupado pelas milícias do Hezbollah, que lá se instalaram como resistência à ocupação
israelense de 1982 e se tornaram mais poderosas que o próprio exército oficial.
Com o pretexto de combatê-las, as
forças de Israel apoiadas pelos EUA têm promovido ataques impiedosos e
indiscriminados, massacrando a população civil de índole pacífica, sem
envolvimento com atividades belicosas, que apenas deseja continuar tocando seu inofenivo
dia a dia.
Como consequência, esse pacífico país,
exemplo para o mundo de convivência entre diversas culturas e religiões vem
sendo dizimado, sob o olhar conivente do mundo, inclusive da numerosa, mas alienada
colônia libanesa no Brasil, que de tal modo se acomodou por aqui que parece
ter-se de desconectado de suas origens.
Minha maior frustação é não ter podido
conhecer pessoalmente, em seus áureos tempos, a sagrada terra dos meus
antepassados, usufruindo in loco a célebre hospitalidade de seu povo e ter
ouvido da boca dos meus conterrâneos um afetuoso “ahlan wa sahlan” (seja
bem-vindo!)
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