Sou de uma época em que se acreditava
que uma imagem era a mais perfeita expressão da realidade. Aquilo, cuja
existência era testemunhada por esses olhos que a terra há de comer, estava lá
de verdade. A tarefa de descrever retoricamente tal imagem era uma vã tentativa
de convertê-la, através de símbolos (denominados palavras) em algo compreensível,
para os que não a presenciavam. Por mais habilidoso que fosse o narrador no manejo
dos vocábulos, jamais alcançaria o grau de fidelidade proporcionado pela imagem
propriamente dita. No máximo, poderia revestir o discurso com ornamentos
poéticos, conferindo-lhe uma versão mais formosa. Seria como esmiuçar com a
fala (ou o braile) a plenitude da cena a alguém privado da visão. Porém, era
consenso de que nada contribui melhor para a compreensão de algo do que a
experiência direta proporcionada pela imagem. Não por acaso, dizia-se que “uma
imagem vale mais do que mil palavras”.
Com o advento da Inteligência Artificial,
essa relação entre sujeito observador e objeto observado que parecia ser
inquestionável, desfez-se como um castelo de cartas. Pelo menos no que diz
respeito àquilo cuja visualização é mediada por telas - computador, celular,
televisão, cinema etc. Os milhões de pixels perfilados eletronicamente talvez
possibilitem uma resolução impressionante de seus contornos, mas não garantem
que o objeto que se nos apresenta naquele espaço luminoso, plano e retangular
seja de fato o que julgamos enxergar.
Uma maçã, recém-caída do pé, que se
oferece ao vivo e em cores ao tato, ao olfato, ao gosto e ao olhar, em toda sua
exuberância rubra, quando capturada pela lente de celulares – mesmo os de
última geração -, perde sua essência original, reduzindo-se a um simulacro de
maçã, não mais uma fruta em si, mas uma versão espúria, ‘virtual’ que, a rigor,
não poderia ser classificada como fruto pomáceo, mas uma reles representação
alegórica do espécime vegetal. Vale ela menos que uma maçã podre ou mesmo que um
suco Del Valle de maçã.
O avanço dos recursos computacionais
permitiu que fossem geradas imagens com um grau de nitidez e realismo capaz de
desafiar o discernimento humano. O espetáculo que assistimos deslumbrados
através do display nos impressiona pela sofisticação técnica e estética, porém não
inspira a mesma confiança. Falta-lhe a essência, a ‘alma’. É como se fosse uma
quimera sedutora, etérea, provinda do inconsciente. A verdade evaporou-se, deixando em seu rastro
os vestígios da incerteza, fragmentados no monitor. O objeto de uma imagem
visto através de um celular equivale a um Monet estampado numa camiseta de
poliéster.
A Inteligência Artificial proporciona
uma profusão de visões que vão de cachorros que cozinham como chefs a mandalas
animadas com efeitos lisérgicos. De cidades engolfadas por tsunamis
devastadores a pinturas que abandonam sua placidez centenária, libertas das molduras
onde foram enquadradas. Figuras extasiantes que tornam enfadonha e maçante nossa
mundana realidade concreta de boletos e louça empilhada sobre a pia.
Mas se as imagens, frutos de adulteração,
não valem meia pataca, tampouco as palavras ganharam pontos no mercado, onde as
Big Techs e seus algoritmos tenebrosos determinam o comportamento das pessoas.
Mas esse assunto vasto é matéria para outra ocasião.
Seja como for, entre imagens que não
garantem a realidade e palavras que não asseguram a verdade, resta um
território incerto, onde ver não é conhecer e dizer não significa compreender.
No ambiente tecnológico ao qual nossa
existência está se restringindo, o verdadeiro valor deixa de estar na imagem e
na palavra e passa a pousar na desconfiança e na dúvida. Pois se uma imagem já
não vale mil palavras e mil palavras não sustentam a verdade, o que resta é o
silêncio entre ambas, onde deixamos de consumir as aparências e começamos enfim
a perceber, contestar e deixar de ser massa de manobra para monetização de
influencers, pastores midiáticos, coaches da prosperidade, pilantras digitais e
ciber-picaretas. A humanidade que tanto avançou no progresso técnico, em termos
éticos, permanece na idade da pedra lascada.
Chegamos a um ponto em que a
tecnologia, de aliada na busca pelo conhecimento e na construção de um mundo
melhor, passou à condição de inimiga do pensamento, algoz da verdade, coveira
da democracia.
Some-se a isso a vulnerabilidade das
pessoas crédulas que não desenvolveram discernimento suficiente ou muniram-se
de análise crítica, o que as torna presas fáceis para discursos sedutores. E
teremos o prato feito para a distopia desoladora que se avizinha, onde nosso
papel será o de observadores passivos de nossa própria degeneração.
Ao ampliar suas potencialidades - e
reduzir as nossas -, a informática tende a nos tornar mais idiotas do que já
somos.

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