“Da força da grana que ergue e
destrói coisas belas” (Caetano Veloso, Sampa)
Quem tem, como eu, a desventura de
residir em São Paulo, já se deu conta, angustiado, da incontrolável proliferação
de novos prédios que vêm pipocando pela metrópole, em especial nos bairros mais
valorizados (e cobiçados). São torres que abrigam escritórios e apartamentos
para todos os tamanhos e gostos que brotam como ervas daninhas por todos os
cantos, à revelia de qualquer projeto de ordenação urbana. Atendem menos às carências
da cidade do que à voracidade da especulação imobiliária e dos interesses
imediatistas das incorporadoras, sem que o poder público imponha restrições com
base nos impactos sobre a malha viária e a já combalida infraestrutura
(saneamento, abastecimento de água, energia elétrica, transporte, etc.).
Nessa toada, diariamente, somos
abordados nas ruas por vendedores bem trajados que tentam nos passar a lábia
para investir nossas parcas economias em empreendimentos imobiliários que
sequer saíram do papel. Prometem-nos um novo conceito de habitação para nossos
filhos e bichinhos, um futuro dourado com sustentabilidade, proximidade à natureza,
mobilidade e bem estar, o mesmo que seu projeto está no caminho de inviabilizar.
Tentam nos convencer a nos encaixotar em estúdios de luxo cercados por muros e
dispositivos de segurança que nos abriguem do assédio de assaltantes e pedintes
sem-teto, marginalizados pelo mesmo processo que este modelo de habitação ajuda
a perpetuar.
São milhares de edifícios em
construção, que nos dão a sensação de que vivemos sob um eterno e inacabado canteiro
de obras e nos infernizam dia e noite com ruídos incessantes de guindastes,
bate-estacas, britadeiras e caminhões.
Cada edifício que se ergue em uma zona
excessivamente adensada promete despejar pelas vias estreitas do entorno dezenas
(talvez centenas) de novos veículos motorizados que já não se locomovem, apenas
existem, fazendo do hábito de transitar um exercício de paciência e resignação.
Esse desvairado furor construtivo
abarrota os cofres das incorporadoras e abastece as propinas de agentes
públicos omissos. O único propósito que não cumpre é o de atender à necessidade
de moradias, voltado que está a nichos específicos e lucrativos, distantes das
reais necessidades da maioria da população que continua habitando casebres
insalubres, ocupando margens de represas e engordando favelas.
Segue a cartilha do neoliberalismo extremo
que obedece exclusivamente aos ditames do mercado, enriquece uns poucos
empresários e investidores, empobrece a população e a urbe em sua vocação de núcleo
de integração das atividades de moradia, trabalho e lazer dos cidadãos.
A capital paulista, um dos maiores
polos econômicos e culturais da América Latina, não teve seu crescimento acompanhado
por gestões compatíveis com sua pujança. Seus habitantes, apesar de afetados
por essas mazelas, não elegeram governantes capazes de lhes proporcionar benefícios
duradouros, já que prezam apenas iniciativas com prazo de validade inferior a
seu mandato de quatro anos.
Esse processo perverso originou-se
com o prefeito Faria Lima, que conferiu prioridade a grandes obras viárias que,
além de consumirem grande parte do orçamento municipal, possibilitaram malversação
das verbas. Isso ocorreu durante a gestão Maluf que torrou os escassos recursos
drenados da arrecadação de impostos em túneis e viadutos, incluindo o
monstrengo Minhocão, um monumento ao mau gosto que ajudou a degradar o centro
da cidade e tornou-se um elefante branco encravado entre tradicionais e
históricas vias existentes, hoje sucateadas. Essas obras faraônicas de
necessidade questionável ajudaram também a legitimar a cultura do ‘rouba mas
faz’ encampada pelos eleitores que não se importam em ver parte do dinheiro público
apropriado por políticos desonestos, desde que sejam realizadas obras de
visibilidade.
O resultado dessas escolhas
equivocadas está no que a cidade hoje se transformou: excesso de concreto, escassez
de áreas verdes, parques e espaços de socialização e convivência. Consagrou-se
a prevalência da cultura do automóvel poluidor e consumidor de combustível
fóssil. Ficaram relegados a segundo plano calçadas, pedestres, ciclistas e transporte
coletivo. Isso tornou a metrópole paulistana que já não prima pela beleza, ainda
mais hostil para seus moradores.
A desgraça da vez é a excessiva
permissividade atual para o erguimento de prédios, sem qualquer controle. Nosso
atual prefeito e seu desvirtuado Plano Diretor foram em grande parte
responsáveis por permitir essa verticalização desenfreada. Mas, verdade seja
dita, contou com a preciosa colaboração de uma das piores câmaras municipais da
história, composta em sua maioria por vereadores mais preocupados com pautas de
costumes ou ideológicas do que com o planejamento urbano, dando as costas para a
melhoria de vida da população que deveriam representar.
Nossa tão maltratada Sampa, já
vitimada por infortúnios como violência, assaltos, barulho, falta de escolas,
postos de saúde e, paradoxalmente, falta de habitação, vai assim aos poucos se
degradando, com a perspectiva de tornar-se inabitável em algumas décadas. O
erguimento desordenado de edifícios é o mais novo ingrediente para compor esse cenário
distópico.
E pensar que os imponentes edifícios
já foram um símbolo de progresso que tanto nos orgulhava...

Nenhum comentário:
Postar um comentário