
A onda de feminicídios e a misoginia
escancarada nas redes sociais costumam ser atribuídas à ação de influenciadores
da machosfera e aos algoritmos raivosos da extrema direita. A explicação procede,
mas pode ser ampliada.
Numa abordagem, digamos,
‘psicossocial’, diria que se trata de uma reação de desespero do macho da
espécie diante de um mundo que já não gira exclusivamente ao seu redor. Um
último suspiro do velho sistema patriarcal que vem derretendo frente à crescente
participação feminina na vida política e social.
Freud explica: o comportamento hostil
ante o sexo oposto decorre da ferida narcísica que vitimou o rapagão magoado,
que exercia o papel de provedor, centro da casa, autoridade inquestionável. Com
o ego machucado pela perda dessas prerrogativas, sente-se como um reizinho
destronado e se volta com agressividade contra as ex-vassalas.
Jung também daria seu pitaco: a
cultura patriarcal superestimou valores associados ao masculino, como dureza e
racionalidade, enquanto escondia sob o tapete dimensões ligadas à ‘anima’:
intuição, sensibilidade, acolhimento. Sem saber lidar com a ‘porção feminina’ presente
em si mesmo, o brutamontes partiu pra porrada.
Psicologismos à parte, o fato é que o
Clube do Bolinha entrou em estado de insolvência.
As mudanças vêm em ritmo de
tartaruga. Considere-se, por exemplo, o Congresso brasileiro: as mulheres ali
reunidas não teriam quórum sequer para conter as bancadas da Bala, do Boi e da Bíblia
(redutos amplamente masculinos). Luta desigual: Barbie x Conan o Bárbaro.
No STF, a pobre Carmen Lúcia segura
as pontas do ‘bloco do eu sozinha’, no julgamento das pautas de interesse da
parcela de 51% da população brasileira. Até o presidente ‘progressista’, ao
tirar uma carta da manga para a nova vaga aberta na Corte, descarta a dama de
copas e prefere o evangélico de confiança.
Ainda assim, já houve progresso.
Afinal, não há muito tempo, a discussão girava em torno de decidir se quem
veste saia e soutien poderia ter direito a voto.
Com o tempo, elas timidamente
começaram a ocupar algumas cadeiras nas universidades. Depois chegaram aos
escritórios, aos postos de chefia e aos concursos públicos. Quando se deram
conta, estavam assinando contratos, coordenando equipes e ornamentando com
plantas e objetos decorativos o ambiente cinza de trabalho.
Se o fanfarrão tem a força, a dama
tem a resiliência. Suporta em silêncio a dor do parto para cumprir o indispensável
desígnio de gerar a vida que biologicamente lhe cabe. Já o bebezão beberrão choraminga
por parir um novo mundo, no qual tem de partilhar decisões com a parceira,
antes ignorada. Reclama, tadinho, do orgulho ferido. Mas minimiza a situação
opressiva de quem dá à luz sem sequer poder abortar pois seu corpo é tratado
como propriedade do Estado religioso varonil.
Mas não adianta espernear, Zé Mané. Seu
reino está sucumbindo em meio às garrafas de cerveja que você vira nas
madrugadas de bar, falando de futebol e putaria, enquanto a patroa, sem receber
um puto, rala pra não deixar desestruturar o lar e não desencaminhar os filhos
que você botou no mundo ao dar vazão a seu instinto carnal.
A força bruta já teve seus dias de
glória quando era necessário colocar um sujeito parrudo portando um tacape na
entrada da caverna para impedir o assalto de inimigos ou de feras que
espreitavam ao redor.
Mas não dá para reproduzir esse
padrão paleolítico depois da invenção da vacina, da internet e do vaso
sanitário. O que pode sustentar a estabilidade da sociedade do futuro não é a largura
do bíceps nem o comprimento do pênis, mas a colaboração, a solidariedade, a
preservação ambiental. E nesses quesitos o bicho-homem já mostrou
historicamente sua inabilidade.
Não seria justo generalizar: nem
todos os varões sufocaram em si os aspectos sensíveis da personalidade. Não me
refiro apenas aos gays, mas aos emotivos, os suscetíveis ao martírio dos necessitados
que se mobilizam para melhorar o mundo, preferencialmente sem recorrer à
violência.
Na outra ponta, também há mulheres
com posturas mão-de-ferro. Margaret Thatcher é o exemplo mais citado. Uma
machona que tratou demandas sociais com cacetete. Modelo de mulher, segundo o
manual dos homens.
Há também aquelas acomodadas que obtêm
benesses por sua apropriada condição de submissão. São as que só votam em
homens pois os julgam mais capacitados para tomar decisões.
Mas de uma maneira geral, recortes
eleitorais comprovam diferenças de comportamento político entre os gêneros, com
maior sensibilidade feminina a pautas sociais e humanitárias, enquanto o eleitorado
masculino tende a se inclinar a discursos de ordem e segurança.
Computando apenas votos femininos,
teríamos nos livrado do estorvo trumpista, e os EUA teriam pela primeira vez
uma presidente mulher (algo que teria um impacto mais disruptivo do que a
eleição de um presidente negro, trauma já superado com Obama). De fato, a
sociedade americana, mais do que o racismo, escancarou seu machismo.
Escolha seu time. De um lado, os
vilões que envergonham a raça humana: Nero, Calígula, Átila, Gengis Khan,
Pizarro, Robespierre, Hitler, Mussolini, Stalin, Pol Pot, Mao Tsé-Tung, Franco,
Salazar, Idi Amin, Pinochet, Garrastazu Médici, Kim Jong-Un, Bin Laden, Bashar
Al Assad, Putin. Só marmanjo.
Do outro lado: Joana d’Arc, Teresa de
Calcutá, Simone de Beauvoir, Hanna Arendt, Angela Merkel, Greta Thunberg,
Malala, Claudia Sheinbaum, Julia Gillard, Michelle Bachelet, Mãe Stella de
Oxóssi, Sônia Guajajara, Marina Silva, Djamila Ribeiro. Aquelas que, a partir
de trajetórias distintas, ajudaram a construir um mundo mais justo, equitativo...
e feminino. Para homens e mulheres.
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