Podemos dormir tranquilos, pois Big
Daddy ‘is watching you’, direto da Casa Branca. Investido de ilimitados
poderes imperiais, o supremo cowboy zela 24 horas por nossa integridade ideológica.
Mr. Orange, autointitulado ‘xerife do mundo’, mentor do far west style, onde
quer que as forças esquerdistas corrompedoras da moral e dos bons costumes impeçam
a implantação da doutrina MAGA.
Mr. Orange é um escudo inabalável
contra a ação maléfica de negros, mestiços, latinos, islâmicos, abortistas, feministas,
LGBT’s, ONGs e ambientalistas que ameaça a ascendência dos valores ocidentais, machistas,
caucasianos e anglo-saxões que faz da América um exemplo de civilização bem
sucedida, a ser alastrada pelas regiões selvagens onde a palavra de Cristo não
chegou.
Nos redutos tropicais brasílicos, escancarar-se-ão
as portas dos casebres e barracos para que os ares insalubres do atraso sejam varridos
pelo frescor dos ventos boreais do Vale do Silício. Serão abandonadas as banais
referências tupiniquins, tais como o forró, o berimbau, o açaí, o afoxé e o
ziriguidum para possibilitar a entrada triunfal de startups e legiões de nerds,
geeks, hackers, techies e afins.
Mr. Orange assegurará plena guarida
aos leais bajuladores, Mileis, Bukeles e Delcys. que se mostrem convenientemente
servis às instruções neoliberais e aos preceitos da propriedade privada, guiado
em sua cruzada pela palavra da Bíblia, pelo mapa dos poços de petróleo e pela
cotação das terras raras na bolsa Nasdaq.
A abertura da Caixa de Pandora dos
arquivos Epstein revelou uma indesejável faceta pecaminosa, convertida
rapidamente pelos devotos em abençoada libidinagem, regada a água benta. Mr.
Orange, travestido de representante pedófilo santificado da família tradicional
protestante pôde então estender seus tentáculos implacáveis para nos salvar de
nós mesmos em nossos próprios quintais. Enviando seus drones kamikaze, mísseis
hipersônicos, caças de quinta geração e sistemas cibernéticos integrados em
nosso socorro para impor aos ímpios, ateus e seres pensantes a moral pregada pelos
neopentecostais do Alabama. Ainda que, nesse processo, escolas de meninas tivessem
que ser explodidas.
De onde quer que venha o perigo, democratas,
jornalistas, estudantes, sociólogos, comunistas, imigrantes, aiatolás, e todos
os que insistirem em se opor à expansão da microsoft, do big mac cheddar e do combustível
fóssil, depuradores da raça humana, degenerada por teorias globalistas.
Seja na Venezuela, no Irã, em Cuba,
na Groenlândia, no Canadá, no Líbano, no México, na California, na faixa de
Gaza, no estreito de Ormuz e onde mais for, cuida ele da segurança dos
investimentos ianques em todo o planeta Terra. E no espaço sideral! Projetos
espaciais financiados por Sir Musk e Sir Bezzos são direcionados a fincar a
bandeira confederada neonazista e providenciar acesso ilimitado de wifi em todas
as unidades do sistema solar, antes que desaforados asiáticos o façam com o
Huawei 5G, a rede Tik Tok e o detestável dístico “made in china”.
O ‘laranja mecânica’ não para.
Diariamente inventa um inimigo imaginário num país aleatório para mobilizar sua
indústria bélica e sua base de haters, ansiosa por inundar as redes sociais com
fake news repugnantes referentes aos desafetos da vez. Façam suas apostas e
deixem girar a roleta. Qual será o próximo alvo dos caprichos intervencionistas
do Gengis Khan do século XXI? Burundi? Liechtenstein?
Bélgica? Turcomenistão? Uruguai? Quixeramobim? Rocinha? Em todos os cantos
dessa Terra plana que Deus-Pai abençoou com o sistema capitalista e o dízimo
sagrado.
Não tentem os detratores se ocultar nos
ambientes furtivos de embaixadas, mesquitas, universidades ou aldeias
yanomamis, pois poderosos algoritmos rastrearão as vozes dissonantes em todos
os rincões onde houver uma tela de celular e uma torre provedora de internet.
Autorizado pela prerrogativa de
apertar o privativo botão vermelho do Juízo Final que o voto texano lhe
conferiu, Mr. Orange busca pela força de seu arsenal nuclear e pelo vazio de
suas ideias tirar leite das pedras, conquistar a liberdade das tiranias e a paz
dos cemitérios.

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