quarta-feira, 27 de maio de 2026

O OCASO DO MACHO

 
A onda de feminicídios e a misoginia escancarada nas redes sociais costumam ser atribuídas à ação de influenciadores da machosfera e aos algoritmos raivosos da extrema direita. A explicação procede, mas pode ser ampliada.

Numa abordagem, digamos, ‘psicossocial’, diria que se trata de uma reação de desespero do macho da espécie diante de um mundo que já não gira exclusivamente ao seu redor. Um último suspiro do velho sistema patriarcal que vem derretendo frente à crescente participação feminina na vida política e social.

Freud explica: o comportamento hostil ante o sexo oposto decorre da ferida narcísica que vitimou o rapagão magoado, que exercia o papel de provedor, centro da casa, autoridade inquestionável. Com o ego machucado pela perda dessas prerrogativas, sente-se como um reizinho destronado e se volta com agressividade contra as ex-vassalas.

Jung também daria seu pitaco: a cultura patriarcal superestimou valores associados ao masculino, como dureza e racionalidade, enquanto escondia sob o tapete dimensões ligadas à ‘anima’: intuição, sensibilidade, acolhimento. Sem saber lidar com a ‘porção feminina’ presente em si mesmo, o brutamontes partiu pra porrada.

Psicologismos à parte, o fato é que o Clube do Bolinha entrou em estado de insolvência.

As mudanças vêm em ritmo de tartaruga. Considere-se, por exemplo, o Congresso brasileiro: as mulheres ali reunidas não teriam quórum sequer para conter as bancadas da Bala, do Boi e da Bíblia (redutos amplamente masculinos). Luta desigual: Barbie x Conan o Bárbaro.

No STF, a pobre Carmen Lúcia segura as pontas do ‘bloco do eu sozinha’, no julgamento das pautas de interesse da parcela de 51% da população brasileira. Até o presidente ‘progressista’, ao tirar uma carta da manga para a nova vaga aberta na Corte, descarta a dama de copas e prefere o evangélico de confiança.

Ainda assim, já houve progresso. Afinal, não há muito tempo, a discussão girava em torno de decidir se quem veste saia e soutien poderia ter direito a voto.

Com o tempo, elas timidamente começaram a ocupar algumas cadeiras nas universidades. Depois chegaram aos escritórios, aos postos de chefia e aos concursos públicos. Quando se deram conta, estavam assinando contratos, coordenando equipes e ornamentando com plantas e objetos decorativos o ambiente cinza de trabalho.

Se o fanfarrão tem a força, a dama tem a resiliência. Suporta em silêncio a dor do parto para cumprir o indispensável desígnio de gerar a vida que biologicamente lhe cabe. Já o bebezão beberrão choraminga por parir um novo mundo, no qual tem de partilhar decisões com a parceira, antes ignorada. Reclama, tadinho, do orgulho ferido. Mas minimiza a situação opressiva de quem dá à luz sem sequer poder abortar pois seu corpo é tratado como propriedade do Estado religioso varonil.

Mas não adianta espernear, Zé Mané. Seu reino está sucumbindo em meio às garrafas de cerveja que você vira nas madrugadas de bar, falando de futebol e putaria, enquanto a patroa, sem receber um puto, rala pra não deixar desestruturar o lar e não desencaminhar os filhos que você botou no mundo ao dar vazão a seu instinto carnal.

A força bruta já teve seus dias de glória quando era necessário colocar um sujeito parrudo portando um tacape na entrada da caverna para impedir o assalto de inimigos ou de feras que espreitavam ao redor.

Mas não dá para reproduzir esse padrão paleolítico depois da invenção da vacina, da internet e do vaso sanitário. O que pode sustentar a estabilidade da sociedade do futuro não é a largura do bíceps nem o comprimento do pênis, mas a colaboração, a solidariedade, a preservação ambiental. E nesses quesitos o bicho-homem já mostrou historicamente sua inabilidade.

Não seria justo generalizar: nem todos os varões sufocaram em si os aspectos sensíveis da personalidade. Não me refiro apenas aos gays, mas aos emotivos, os suscetíveis ao martírio dos necessitados que se mobilizam para melhorar o mundo, preferencialmente sem recorrer à violência.

Na outra ponta, também há mulheres com posturas mão-de-ferro. Margaret Thatcher é o exemplo mais citado. Uma machona que tratou demandas sociais com cacetete. Modelo de mulher, segundo o manual dos homens.

Há também aquelas acomodadas que obtêm benesses por sua apropriada condição de submissão. São as que só votam em homens pois os julgam mais capacitados para tomar decisões.

Mas de uma maneira geral, recortes eleitorais comprovam diferenças de comportamento político entre os gêneros, com maior sensibilidade feminina a pautas sociais e humanitárias, enquanto o eleitorado masculino tende a se inclinar a discursos de ordem e segurança.

Computando apenas votos femininos, teríamos nos livrado do estorvo trumpista, e os EUA teriam pela primeira vez uma presidente mulher (algo que teria um impacto mais disruptivo do que a eleição de um presidente negro, trauma já superado com Obama). De fato, a sociedade americana, mais do que o racismo, escancarou seu machismo.

Escolha seu time. De um lado, os vilões que envergonham a raça humana: Nero, Calígula, Átila, Gengis Khan, Pizarro, Robespierre, Hitler, Mussolini, Stalin, Pol Pot, Mao Tsé-Tung, Franco, Salazar, Idi Amin, Pinochet, Garrastazu Médici, Kim Jong-Un, Bin Laden, Bashar Al Assad, Putin. Só marmanjo.

Do outro lado: Joana d’Arc, Teresa de Calcutá, Simone de Beauvoir, Hanna Arendt, Angela Merkel, Greta Thunberg, Malala, Claudia Sheinbaum, Julia Gillard, Michelle Bachelet, Mãe Stella de Oxóssi, Sônia Guajajara, Marina Silva, Djamila Ribeiro. Aquelas que, a partir de trajetórias distintas, ajudaram a construir um mundo mais justo, equitativo... e feminino. Para homens e mulheres.

 

quinta-feira, 14 de maio de 2026

MEMÓRIAS DE UM ESTU(DANTE)

 

Muito poderia exaltar do DANTE, colégio que me educou com disciplina espartana - ‘pero sin perder la ternura jamás’ – por 14 ininterruptos anos, do pré-primário até a conclusão do ciclo secundário. Cuja qualidade de ensino me possibilitou ingressar com louvor em duas faculdades de renome da USP, Economia (FEA) e Direito no Largo São Francisco (esta última optei por abandonar por falta de vocação). Assim como adentrar para o serviço público, na carreira de Auditor Fiscal, através de concurso em que desbanquei mais de 100 gabaritados concorrentes pela vaga que ocupei por quase 20 anos até me aposentar. E que me inspiraram a exercer com gosto a atividade de magistério em duas faculdades.

Motivos para louvar a excelência do padrão “dantesco” não faltam. Contei com educadores de primeira linha que supervisionaram meus tempos de colegial (à ocasião, Científico). Como a exigente Albanese de Matemática, o bonachão Pastore de Química, o galanteador Milton de Física, o irrepreensível Renan de Geografia, o austero Orestes Rosolias de História (em cujo livro autoral, pinçado num empoeirado sebo, estudei), a talentosa Germana de Desenho, o maestro Salvatore Callia. Aquele que musicou os versos ufanistas: “Do Dante Alighieri sairão os mais valorosos pioneiros que pela taba espalharão como galhardos vanguardeiros”. E que potencializou a vocação musical que desenvolvi com a loja de LPs raros que, por 26 anos, sustentei.

E, em especial, o saudoso professor Alceu Tafari de Português que plantou em mim o desejo de escrever, que até hoje me atiça. E que me honrou com uma lisonjeira nota dez de redação, até então inatingível em nossa turma. Texto que iniciou com as seguintes palavras: “O homem em seu ser, sem ser só seu...”, compondo um triângulo isóceles de vocábulos em cujo cume aparecia O HOMEM e na base, em letras garrafais, DEUS. Um ambicioso ensaio metafísico, hehe.

Mas minha memória afetiva do Dante se estende muito além desses aspectos, digamos, pedagógicos. Revela-se em pequenos detalhes extracurriculares. No pátio enorme onde, desafiando as rígidas regras de comportamento, improvisávamos um futebol com bola de pano. Na cantina, onde uma mini garrafa de guaraná Antarctica acompanhava os sanduíches de mortadela (ou de azeitona com maionese que minha mãe preparava para o recreio). Na profusão de ‘pererecas’ pretas que pululavam alucinadas por todos os cantos desafiando os atordoados vigilantes. Nas figurinhas do Pato Donald e de atletas de futebol que trocávamos ou usávamos para ‘bater bafo’ pelas escadarias. No parque-santuário Trianon, fragmento esquecido de selva na ‘selvagem’ e árida urbe, cujas centenárias árvores, que guardavam até um bicho preguiça, afrontavam a perene solidez daquela histórica instituição de ensino.

Revela-se também nas feminíssimas colegas pelas quais nutríamos amores platônicos ou nas inatingíveis mestras que nos seduziam e provocavam fantasias eróticas só com seu olhar professoral - figuras que pareciam brotar das reminiscências de Fellini no autobiográfico Amarcord.

No ônibus escolar em que, durante o primário, cobiçávamos usufruir emoções de carrossel por ocupar um assento estrategicamente posicionado ao lado do motorista, raramente disponível. Na caricata bruxa dentuça que o Eduardo Zocchi me ensinou a desenhar, minha marca registrada por muitos anos.

No ritual do sino replicando o mesmo número de badaladas com uma pontualidade que antevia a precisão dos relógios digitais, executadas pelo Seu Marino que, por décadas, jamais faltou à sua função: “será que o homem não tira férias?”.

Grato período que consumiu 13 anos da nata da minha infância/adolescência, esticado em um ano por uma infeliz repetência em Matemática com 2 bimestres de nota zero por WO, motivada por uma hepatite que me deixou 3 meses de cama. Fábio D’Ávila foi o único colega que prestigiou esse ausente enfermo, honrando-me com uma visita domiciliar. Mas, cuja desventura reproduzida em 2 outros colegas que partilharam a mesma condição, possibilitou com eles estreitar preciosas relações de companheirismo. Seus nomes: Daud (Zuni) e Volpe, cujos laços de amizade perduraram anos a fio. Complementados com a tardia chegada do Grego (Chrysanthos) – figura ímpar que agora se escafedeu para a terra helênica dos seus ancestrais. Formamos o Quarteto Fantástico que por décadas permaneceu imbatível, frequentando regularmente as mais diversas pizzarias de São Paulo. Afora uma viagem de 30 dias por Cabo Frio que entrou para os anais, com meu fusca amarelo, versão paulista do Manuel Audaz.

Mais do que boletins, cadernetas e lousas, são esses pormenores ‘pormaiores’ do Dante e circundantes, que permanecerão eternamente ‘como dantes no quartel de Abrantes’ embalando divertidamente minhas lembranças naquilo que resta de minha jornada pós-escolar. Gostaria de deixá-los consignados para assim fazer constar minha presença nesse momento de confraternização.

  

sábado, 2 de maio de 2026

CARAS E COROAS

 

“Esse cara sou eu” (Roberto Carlos)

Esse texto vai para aqueles que, como eu, já foram caras e, sem aviso prévio, foram remanejados para a turma dos coroas. Devo ter faltado à assembleia deliberativa que cravou essa arbitrária realocação, à revelia dos afetados.

Acho que criaram as regras desse jogo para me infligir essa fatalidade metafísica em que o resultado do arremesso da moeda do destino estabelece ‘cara’ para a fase ascendente da existência e ‘coroa’ para seu ocaso.

Apesar disso, tento me conservar em formol no modo ‘cara’, contrariando a certidão, a lombar e o espelho. Sou um cara duro na queda. Se me chamam de vovô, mando um: “vovô é o cacete, seu fedelho!”

Não nego certa dificuldade em encarar os caras de hoje, aqueles que são caras de fato, com as características pertinentes. Ser cara no mundo de hoje é bem diferente de ser cara quando eu era cara. Vivem tais seres numa rotação diferente da época em que não havia celular nem internet nem pix nem Netflix. Mas tinha Asterix e Obelix.

Mas, caramba, não sou saudosista. Ser cara é um estado de espírito e diante das objeções dou um reset e me coloco na parte legal de ser cara: disposição de mudar, fome em aprender, esperança, curiosidade, inconformismo, rebeldia.

Às vezes me sinto pregando no deserto. Um velho lobo, desgarrado da matilha, cujo uivo rouco ainda ecoa por aí. E incomoda os rebanhos de ovelhas.

O que me deprime é ver a transformação dos meus companheiros de estrada. Caras que nasceram na mesma época que eu, atravessaram os mesmos anos, encararam as mesmas revoluções, rebeliões, repressões. Fomos cúmplices nesses momentos de resistência. Para, no fim das contas, chegar à conclusão, com cara de tacho, de que, como dizia o Belchior, continuamos vivendo “como nossos pais”. O fato é que muitos caras - pessoas que nos foram caras - por divergências políticas, nos viraram a cara. Que tristeza, cara! Babacas que glorificam as chineladas enquadradoras de que foram vítimas. Descarados.

Tornaram-se eminentes gagás. Não pelo detalhe da pele franzida, mas pelas rugas de desumanidade que se calcificaram por dentro, imunes a aplicações de botox. As mesmas que nos acomodaram na poltrona da resignação, assistindo a vida escoar pela TV. Lendo Caras.

Pior são os caras que, na maior cara dura, deixaram-se virar caretas. Gente com corpo jovial que a vida desafia a transgredir, com cabeça de matusalém, exaltando o conformismo e barrando avanços civilizatórios. São aqueles boyzinhos sarados e tatuados, cheios de pose que, na flor da idade, enaltecem patriotismo, militarismo, machismo, racismo. Têm ideias e preconceitos mais arraigados do que os de seus avós. São caras de duas caras. E, desculpe, nenhum caráter.

Para quando dermos de cara com o dia final, estirados e cercados por coroas a coroar falsamente nossa impoluta figura – com direito a coroa de flores e tudo – chegarmos à constatação de não haverá mágica - por mais cara que seja – capaz de nos fazer voltar a ser caras de novo.