sábado, 12 de setembro de 2026

O DIA EM QUE AS TATUAGENS SAÍRAM DE MODA

 

Foi numa sexta-feira nublada de setembro que o mundo estremeceu. Nada de tornados, terremotos ou tsunamis. Tampouco o lançamento massivo de mísseis balísticos ou ameaças de guerra nuclear iminente. Algo mais bombástico: uma postagem de um influencer de moda decretou as seguintes palavras a seus milhões de fiéis seguidores: “A tendência para a próxima estação será exibir a pele nua e crua em seu esplendor natural. Tatuagem? Sai fora dessa brega intervenção artificial, aberração invasiva utilizada pelas gerações anteriores para difundir seus ultrapassados valores.”

Foi a senha para disparar o quiproquó. Em questão de horas, o mundo civilizado entrou em colapso estético. Na segunda-feira, as clínicas de remoção a laser exibiam filas que dobravam quarteirões e faziam dobrar os atendentes. Na terça, faltou horário. Na quarta, faltou equipamento. Na quinta, faltou esperança. E sobrou desespero.

A queixa generalizada nos consultórios de psicologia passou a ser: “Doutor, como conviver com o trauma de ter profanado minha cútis num momento de fraqueza?”

Criou-se até uma literatura crítica revisionista com conceitos pejorativos como ‘pele psíquica’, explicando que o que não pode ser elaborado por meio da palavra, acaba sendo externalizado no corpo. A tatuagem foi reduzida a uma tentativa de dominar por meio da agulha o complexo emocional de um passado sufocante. As figuras funcionariam como uma armadura, uma epiderme secundária, o território do ego em que o indivíduo expressa seu narcisismo e a imagem que nutre de si mesmo.

De repente, os prosaicos véus que cobrem o corpo (e as tatuagens) ganharam status fashion com força total. As burcas das mulheres islâmicas, antes execradas, passaram a ganhar respeito e devoção, sugerindo até a possibilidade de conversão religiosa e uma mudança comportamental frente à materialidade existencial do Ocidente.   

Assim nasceu o dilema daqueles que fizeram um pacto eterno de fidelidade com as agulhas segundo o qual o corpo foi vilipendiado e cedido aos arroubos de um impulso juvenil.

As cabeças carecas, antes transformadas em tela foram substituídas por implantes capilares. Pior foi a amargura dos entusiastas que levaram o procedimento para zonas inimagináveis como a tatuagem no globo ocular (eyeball tattoo), interior da boca, língua, genitais. Ou daqueles que não preservaram o rosto e demais partes expostas pelas vestes casuais. O que fazer agora com esse trambolho estilístico?

A discreta borboletinha no tornozelo, na qualidade de singelo adorno, foi poupada, passando incólume ao turbilhão higienista dos novos tempos, não chegando a comprometer seu usuário. Já os imensos dragões orientais e as frases motivacionais em sânscrito tornaram-se um estorvo megalítico a seus portadores.

Diante da nova tendência, os mais suscetíveis que haviam cravado um detalhado mosaico da cultura pop nos exíguos espaços disponíveis do corpo ficaram sem saber como agir. Enquanto não decidiam, passaram a vestir grossos sobretudos para ocultar seus exóticos rabiscos.

Lembrei-me do filme “A Outra História Americana”, em que o protagonista interpretado por Edward Norton, ao revisar seus valores ideológicos, já não se reconhecia no espelho, confrontado pela enorme suástica que carregava no peito. ‘O que faço com ela?’

A tatuagem parte do pressuposto de que somos seres imutáveis e as decisões tomadas são definitivas. Aqueles que a ela se submeteram acham que suas mentes jamais se modificarão e transferem o peso dessa imutabilidade para a própria pele. O problema surge quando a cabeça se submete a uma lavagem cerebral mas o resto da massa corpórea não é capaz de acompanhar a mudança.

O sábio Raul Seixas já havia antevisto o dilema ao manifestar preferência em ser uma metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião estampada sobre tudo.

Os usuários acreditavam, em sua santa ingenuidade, que a moda duraria até o fim de suas vidas úteis. O curioso é que a tatuagem costuma ser apresentada como uma afirmação de individualidade. "Quero ser único", diz alguém... enquanto entra numa fila de outros cinquenta querendo exatamente o mesmo ornamento polinésio, a mesma rosa cor -de-rosa, o mesmo astrolábio, o mesmo leão de olhar filosófico e a inevitável frase em celta cujo significado permanece indecifrável.

As tatuagens pareciam ter desvendado o segredo da imortalidade. Afinal, não bastava vestir a moda; era preciso costurá-la na própria pele. É um compromisso que nem casamento exige.

Há também a criatividade inesgotável dos apaixonados. Juram amor eterno, tatuam o nome da pessoa amada e, seis meses depois, descobrem que o amor era eterno até o próximo fim de semana. A pele, nossa fiel companheira de jornada, infelizmente, parece não acompanhar as desventuras fugazes do coração.

Naturalmente, a indústria de cosméticos aproveitou-se da situação para faturar alto, criando os ‘corretivos de pele’, uma base tão grossa que parecia massa corrida. Logo apareceram os alarmistas alertando sobre os perigos que tais métodos provocam ao sufocar o tecido cutâneo e provocar tumores malignos. E as fake news ajudaram a propagar pelas redes o pânico geral.

E, quando as tatuagens previsivelmente saíram de moda — porque tudo, absolutamente tudo, um dia sai — aconteceu o inimaginável: a ousadia passou a ser desfilar com a pele completamente lisa, como quando veio ao mundo.

Enquanto a mudança de paradigma ainda não se efetivara, eu observava curioso o hábito da humanidade de transformar o próprio corpo numa espécie de caderno de anotações. Uns escreviam poemas, outros desenhavam tigres, alguns registravam datas memoráveis. A pele virou agenda, álbum de lembranças e mural de recados.

Instalada a nova ordem, os conformistas se resignaram, alimentando a esperança de que, como sempre acontece, os ciclos façam que na próxima geração ou talvez daqui a 50 anos, quem sabe, a tatuagem volte à moda.

 

quarta-feira, 22 de julho de 2026

O CORAÇÃO NEGRO DO FUTEBOL

 

Àqueles que acompanharam a Copa do Mundo não deve ter passado despercebida a presença maciça de jogadores negros nas partidas. Não me refiro obviamente às equipes da África Subsaariana (Cabo Verde, Costa do Marfim, Congo...) que, por sinal, a cada edição vêm melhorando seu desempenho, enfrentando de igual para igual seleções consagradas do Primeiro Mundo. E sim às poderosas esquadras europeias, que, apesar do sobe/desce dos últimos anos, permanecem na linha de frente do futebol.

Em outro extremo, chama a atenção uma notável exceção: a Argentina, em cuja seleção não há sequer um único jogador negro. Resultado de uma política de ‘embranquecimento’ levada a cabo durante o século XIX, derivada do projeto colonialista praticado. O Estado portenho incentivou fortemente a imigração europeia e executou um recrutamento discricionário de negros para as frentes de batalha. Sem falar da incidência de epidemias que atingiu severamente os segmentos mais pobres. Tais fatores contribuíram em encolher drasticamente a presença da etnia no país. Esses movimentos fizeram com que a população negra fosse reduzida ao longo da história, ao que se estima, de 30% para menos de 1%, nível que se mantém até hoje. O resultado desse processo de exclusão racial é percebido dentro e fora dos estádios e ajuda a compreender as lamentáveis cenas de racismo expressas pela torcida celeste e... branca.

A situação de nosso vizinho sul-americano é intrigante. Separados apenas por uma fronteira de 1200 km, partilhamos com nossos hermanos um passado colonial marcado pela escravidão e muitos pontos em comum em nossas culturas, incluindo uma paixão quase religiosa pelo futebol. No entanto, enquanto o Brasil construiu uma sociedade miscigenada (ainda que marcada por desigualdades e racismo estrutural), no país ao lado os negros foram praticamente banidos da vida política e social.   

A Europa percorreu caminho inverso. Nas últimas décadas, o continente recebeu grandes levas de imigrantes africanos que se tornaram cidadãos franceses, ingleses, holandeses, belgas, alemães. Muitos deles, claro, tornaram-se craques de bola.

Antes da virada do século, o padrão dos jogadores europeus era bem diferente: atletas brancos leitosos, quase róseos, robustos, bem nutridos, disciplinados e impecavelmente preparados que praticavam um jogo quadradinho, previsível e altamente técnico, frio como os Alpes austríacos, preciso como os relógios suíços. Conservando esses atributos, o futebol europeu acumulou admiráveis conquistas.

Até que sua hegemonia foi quebrada em 1958 por um grupo de garotos morenos franzinos, bons em driblar e improvisar, provindos de um país tropical do Hemisfério Sul. Entre eles, um ‘negrinho’ camisa 10 que aos 17 anos cativou o mundo com seu toque genial, sendo entronado ‘rei do futebol’.

A partir daí, para manter sua relevância, o futebol europeu resolveu mudar de tonalidade. Essa transformação ficou particularmente evidenciada na seleção francesa 70% black de 2026, cuja formação escancarou ao mundo um país de cidadãos com características físicas diferentes daquela que o mundo se acostumara a assistir. Alguns conferiam a esse fenômeno um tom de deboche, insinuando, numa expressão escamoteada de racismo, que a seleção da França não era integrada por autênticos franceses, como se um dos critérios necessários para definir a nacionalidade fosse a cor da pele.

Não se tratava, é bom que se ressalte, de jogadores estrangeiros naturalizados e sim, em sua maioria, filhos ou netos de imigrantes nascidos ou criados na mesma terra de Charles De Gaulle, Edith Piaf, Monet e Simone de Beauvoir. Pessoas que participaram da construção da sociedade gaulesa contemporânea, mais plural e heterogênea. Que entoavam ‘A Marselhesa’ com o mesmo fervor dos demais e que ali estavam para dar seu sangue (igualmente vermelho) pela nação que os acolheu e exaltou com pioneirismo os ideais de Liberdade, Fraternidade e Igualdade.

Nobres valores que parecem vir sendo deixados de lado nesses tempos em que os fantasmas do racismo e da xenofobia têm aflorado, ameaçando até os campos presumivelmente neutros do esporte, ambiente em que o princípio da equanimidade de condições deveria prevalecer. Derivados da mesma lógica que inspirou o mito da superioridade ariana, desmontado quando Jesse Owens cruzou a linha de chegada bem à frente dos atletas que Hitler colocou na raia para se tornarem imbatíveis.

Hoje, a presença marcante de negros no ‘rude esporte bretão’ já não causa estranheza. Se o futebol é branco de nascimento, carrega em sua face nova coloração. Parodiando Vinícius de Moraes, se hoje ele é branco na estratégia, é negro demais no coração.

E essa metamorfose foi além do futebol. Basta ver a Corrida de São Silvestre, em que a reiterada superioridade dos filhos da Mama África tornou a competição desinteressante. Não é diferente no boxe, no basquete, no atletismo e em outras categorias olímpicas em que os negros têm monopolizado as grandes conquistas. Ao contrário do que ocorre em modalidades elitistas como tênis, golfe e fórmula 1, em que o domínio de branquelos bem formados permanece. 

Fenômeno semelhante acontece na música popular. Do jazz ao blues, do rock’n’roll ao soul, do mambo ao reggae, do samba ao maracatu, é difícil imaginar a trilha sonora do mundo sem a contribuição decisiva de artistas como Chuck Berry, Jimi Hendrix, Miles Davis, Duke Ellington, Louis Armstrong, Billie Holiday, Bob Marley, Stevie Wonder, Aretha Franklin, Michael Jackson, Ray Charles, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Cartola, Pixinguinha e tantos outros.

Não se trata de talento natural, inato, como se poderia erroneamente deduzir. Mas da capacidade humana que demonstraram de transmutar aflição em criação, exclusão em expressão, resistência em excelência.

A situação no campo das ciências merece reflexão. A predominância de cientistas e pensadores brancos não pode ser dissociada das condições que favoreceram acesso à educação, instituições de pesquisa e financiamento. A menor participação de negros nesses espaços está relacionada a barreiras econômicas, sociais e políticas, jamais à limitação de capacidade.

O mesmo ocorre em manifestações artísticas tradicionalmente associadas às elites. A música clássica, o balé, as artes plásticas e mesmo certos circuitos literários, continuam refletindo um padrão menos diverso. Essas expressões dependem de um capital cultural difícil de acumular: aulas precoces, instrumentos caros, escolas especializadas e acesso a instituições pouco permeáveis à segregada população negra.

Durante séculos, os padrões de valorização cultural privilegiaram referências europeias, enquanto as contribuições africanas e afrodescendentes foram sistematicamente marginalizadas. O reconhecimento de sua importância na música, no esporte e em outras manifestações culturais representa, antes de tudo, a reparação por uma injustiça histórica.

Assim, a mesma força que molda o coração negro do futebol e dita o ritmo das pistas de dança e dos palcos reluzentes precisa romper as barreiras intransponíveis das universidades e dos centros inacessíveis de poder. O talento e a resiliência que transformaram o esporte nascido inglês em espetáculo mundial de pluralidade são os mesmos que têm potencial para revolucionar a ciência e o pensamento global. Desde que as condições de largada sejam as mesmas. A história mostra que o protagonismo negro já não pede licença. Ele se impõe pelo mérito, provando que, se a tática do mundo insiste em ser monocromática, em seu peito pulsa um coração multicor.

 

 

terça-feira, 14 de julho de 2026

SELEÇÃO EVANGÉLICA DE FUTEBOL

 

O desempenho do Brasil na Copa de 2026 foi humilhante. Pela primeira vez desde 1990, nossa outrora temida seleção, (que passou a ser conhecida como ‘selecinha’) deu adeus ao Mundial antes mesmo das oitavas de final.

Desolador assistir a um dos poucos motivos de orgulho nacional desabar a olhos vistos, sem que haja sinal de reversão da tendência. O traumático 7 a 1 ante a Alemanha em 2014, em pleno Mineirão, já prenunciava o descalabro que estava por vir.

Não bastasse isso, temos de passar pelo constrangimento de assistir aos vizinhos hermanos, nossos rivais de estimação, esfregarem na nossa cara talento, organização e raça.

Explicações é que não faltam. Cada brasileiro querendo dar sua opinião num país, onde de técnico de futebol e de louco todo mundo tem um pouco. O técnico italiano, as deficiências do elenco, o esquema tático, o pênalti perdido. Cada um escolhendo seu bode expiatório preferido.

Mas enquanto sobram diagnósticos em mesas de bar, programas esportivos e grupos de whatsapp, a seleção continua afundando. Se existe algum consenso é que nosso futebol deixou de ser relevante e não mete medo em ninguém. Até os africanos estão nos superando. A dura verdade é que desaprendemos de produzir craques que façam a diferença. E menos ainda montar uma equipe coesa e poderosa que imponha respeito. A impressão que dá é que somos um elenco sem fibra, sem garra, sem disposição de dar sangue pela camisa.

Em meio a tanto achismo, uma abordagem merece atenção. Um artigo publicado pelo jornal britânico The Times, debruçado em entender essa anormal queda de produtividade do mais premiado e admirado futebol do planeta, atacou a questão por um flanco inesperado. Sugeriu uma relação entre a decadência do nosso desempenho futebolístico e o crescimento da igreja evangélica no país.

A tese, no mínimo inusitada, causou rebuliço e incendiou as redes sociais, sinal inequívoco de que pisou num calo sensível. À primeira vista, pode parecer tão absurda essa relação quanto apontar a falta de pontaria dos atacantes como decorrente do movimento das marés. Mas, vencido o estranhamento inicial, vale a pena examinar a hipótese sem paixão. Uma análise, digamos, antropológica do tema pode escancarar que por trás da derrocada do nosso futebol escondem-se transformações culturais na sociedade brasileira, em especial no campo religioso, onde o credo evangélico ganhou grande número de adeptos.

Chama a atenção que a grande maioria dos convocados professa o neopentecostalismo. Ao que se estima, 20 dos 26 convocados declaram-se evangélicos.  Apesar de que correlação não prova causalidade, não dá para ignorar que a ascensão dessa corrente religiosa ocorre no mesmo período das mudanças que moldaram o futebol brasileiro. Resta entender se há relação causal entre os dois eventos.

Não se trata de afirmar que a religião levou alguém a desaprender a jogar bola. Mas se o futebol é um espelho da sociedade, não permaneceria imune às mudanças de valores e comportamentos que atingiram o país. Talvez a equipe que entrou em campo não seja apenas uma seleção em crise, mas o retrato de um país que já não dança, improvisa e desafia as regras como antigamente.

A excelência do nosso jogo em seus áureos tempos estava umbilicalmente associada à malícia, à irreverência e até à velha e folclórica malandragem. Era a ginga forjada no chão batido num campo de terra improvisado na periferia com uma bola remendada. O futebol varzeano era muito mais que uma diversão de domingo. Era uma escola, uma incubadora de craques. Fazia parte do jeito brasileiro de expressar criatividade, alegria e ousadia. Era desse caldeirão de manifestações populares que brotavam jogadores capazes de transformar uma partida num espetáculo.

Mas o Brasil mudou. O avanço das igrejas neopentecostais nas periferias conduziu a uma mudança comportamental. Aspectos típicos da cultura nacional como o carnaval, o samba, o axé e a capoeira, mal vistos pelos evangélicos, passaram a ser deixados de lado. A vibração dessas manifestações culturais foi substituída por canções de louvor a Jesus.

O tão criticado Gerson e sua máxima de ‘levar vantagem’ traduzia o jeitinho brasileiro que desconsertava o engessado futebol europeu. Não é à toa que o ‘canhotinha de ouro’, como era conhecido, exercia uma liderança silenciosa e incontestável sobre seus companheiros naquela que muitos consideram a melhor seleção de todos os tempos, a de 1970, quando o Brasil, com uma campanha invicta, atropelou a Itália com uma goleada de 4 a 1, sagrando-se tricampeão e garantindo a posse permanente da Taça Jules Rimet. Gerson cobrava atitude, botava a moçada pra correr e não baixar a cabeça para os adversários e as adversidades.

Hoje, em contraste, assistimos a uma geração mais preocupada com a construção da própria imagem e contratos milionários do que a construção de uma campanha coletiva gloriosa na arena de combate.

Paralelamente, as demonstrações públicas de religiosidade passaram a ocupar um espaço cada vez maior e os ‘atletas de Cristo’ passaram a exaltar orgulhosamente sua relação com o ente superior e dar menor importância à mundana competição esportiva.

Se o time ganhava, maravilha, graças ao Deus. Se perdia, paciência, Deus não quis. A responsabilidade saía dos pés dos jogadores e era terceirizada para aquele ente misterioso que, do alto de seu trono celestial, não torce para nenhum time.

Não se trata de afirmar que a fé torna um jogador melhor ou pior. Mas cabe indagar se a hegemonia de uma cultura religiosa que valoriza a disciplina moral, a busca pela prosperidade pessoal não acabe anestesiando a espontaneidade e a irreverência que nos distinguiam.

Um dado impressionante que passou quase despercebido, em meio ao turbilhão de críticas, merece atenção especial. Segundo estatísticas apuradas pela prestigiosa empresa OPTA, nossa seleção foi a pior em taxas de aproveitamento em dribles na fase de grupos, atrás do Haiti e de Curaçao. A última dentre as 48 classificadas! Com uma pífia taxa de aproveitamento de 34%. Ou seja, 2 em cada 3 oportunidades de confronto corpo a corpo, fomos vencidos pelo adversário. Garrincha e Pelé devem estar se remoendo em seus túmulos.

Muito mais do que um recurso técnico, o drible é uma declaração de personalidade em que o adversário é ludibriado em suas expectativas e surrupiado pela abençoada malícia.

O que temos hoje? Um elenco de atletas sem brio, ‘tementes a Deus’, sem coragem de ousar, que ao invés do enfrentamento, prezam pela obediência e pela disciplina para alcançar a bênção divina pessoal.

A arte do futebol brasileiro nasceu nos campos de várzea espalhados pelas periferias, onde os moleques aprendiam a lidar com a pelota, antes mesmo de aprender as regras do jogo. Foi nesses territórios historicamente marcados pela exclusão social que o neopentecostalismo encontrou terreno fértil para sua expansão e passou a ocupar um espaço mais amplo na vida comunitária de pessoas carentes, oferecendo-lhes promessas de ascensão social, mediante atitudes de submissão e contenção.

Foi assim que perdemos a chance de ser novamente o país do futebol. Para tornarmo-nos o ‘país da Bíblia’.