Aconchegue-se no sofá e prepare a
pipoca. Esqueça preocupações do trabalho, problemas domésticos, aluguel, guerras,
corrupção, mudanças climáticas, contas atrasadas, taxa de colesterol e todas as
coisas chatas sobre as quais, quando questionado a respeito, você responde “e
eu com isso?”, empenhado que está em direcionar sua atenção para assuntos mais aprazíveis
como futricar na vida alheia.
Vai ter início o BBB. A partir de
agora, você será transportado para um maravilhoso mundo de fantasia, tão arrebatador
quanto um papo casual com o vizinho no elevador, ou sobre o comportamento do poodle
da moça da fila do supermercado. Nesse contexto, não há relatos edificantes, dramas
épicos ou sátiras de costumes. Nem mesmo um enredo ou um roteiro. Apenas uma
sequência de vai-e-vens dos personagens da sala para a cozinha e da cama para a
privada, entremeada por diálogos niilistas sobre as virtudes da apatia e do
ócio.
Embora voltado para indivíduos com reduzida
capacidade cognitiva e mentalidade psicossocial infanto-juvenil, não se confunde
com contos de fada ou de aventuras. Nele não há príncipes, donzelas, castelos,
dragões, criaturas mágicas e super-heróis. Apenas adultos ‘comuns’ e insossos tipo
os que habitam diuturnamente o Facebook e o Tik Tok. Tão estúpidos quanto seus
espectadores.
São barrados pelos experts em
audiência da Globo intelectuais, pessoas reflexivas, questionadoras e artistas
(exceto os ‘popularescos’). Os participantes são selecionados pelo grau de babaquice,
em sintonia com o sentimento de identificação dos telespectadores.
São priorizados aqueles que gostam de
fazer intrigas, injunções fúteis e tenham capacidade de partilhar sua estreita visão
de mundo com gente de sabedoria construída em grupos de whatsapps. Assuntos que,
não servindo para qualquer matéria jornalística de relevo (afora revistas Caras
e Contigo), são suficientes para provocar acaloradas discussões dos
‘especialistas’ em coisa nenhuma que frequentam os programas diurnos de Ana
Maria Braga, Sonia Abrão e Nelson Rubens. Que conseguem a proeza de superar em chatice
as bizantinas mesas redondas de futebol que debatem o duvidoso pênalti do zagueiro
flamenguista com a eloquência retórica de Cícero defendendo a República Romana.
Gente que, se não estivesse 24 horas
na Globoplay exibindo sua frivolidade, estaria junto a você, do outro lado da
tela, tornando o reality show campeão de audiência e corroborando as palavras
de Nelson Rodrigues: “os idiotas vão tomar conta do mundo, não pela sua
capacidade, mas pela quantidade; eles são muitos”.
Tais pessoas, invisíveis na turba
ante sua insignificância, ganham visibilidade na TV, fazendo do ofício do Big
Brother orwelliano um mar de tédio. Os detalhes do seu comportamento são prescrutadas
por centenas de câmeras e microfones estrategicamente posicionados na casa/estúdio
para acompanhar minuciosamente os movimentos e reações dos participantes.
Captam desde uma coçada de saco e peidos acidentais até opiniões
preconceituosas acompanhadas de risadas de cumplicidade.
Nesse circo, você poderá exercer sua vocação
cívica elegendo o infeliz que vai para o paredão com a seletividade que lhe
faltou na escolha do deputado do Centrão que seu voto colocou no parlamento,
cujo nome certamente lhe fugiu da memória, sobre cujas maracutaias você reitera
com desdém: “e eu com isso?”

3 comentários:
Patrão, li de imediato ... você expressou o pensamento de muita gente ... nem vou me estender mais ... você é o máximo!!!!!!
Bbb é um desrespeito aos telespectadores. Prefiro assistir a um bom filme
Programa medonho, duzinfernos
Putz, assunto bbb não perco tempo mesmo!!
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