Foi numa sexta-feira nublada de setembro que o mundo estremeceu. Nada de tornados, terremotos ou tsunamis. Tampouco o lançamento massivo de mísseis balísticos ou ameaças de guerra nuclear iminente. Algo mais bombástico: uma postagem de um influencer de moda decretou as seguintes palavras a seus milhões de fiéis seguidores: “A tendência para a próxima estação será exibir a pele nua e crua em seu esplendor natural. Tatuagem? Sai fora dessa brega intervenção artificial, aberração invasiva utilizada pelas gerações anteriores para difundir seus ultrapassados valores.”
Foi a senha para disparar o quiproquó.
Em questão de horas, o mundo civilizado entrou em colapso estético. Na segunda-feira,
as clínicas de remoção a laser exibiam filas que dobravam quarteirões e faziam
dobrar os atendentes. Na terça, faltou horário. Na quarta, faltou equipamento.
Na quinta, faltou esperança. E sobrou desespero.
A queixa generalizada nos
consultórios de psicologia passou a ser: “Doutor, como conviver com o trauma de
ter profanado minha cútis num momento de fraqueza?”
Criou-se até uma literatura crítica revisionista
com conceitos pejorativos como ‘pele psíquica’, explicando que o que não pode
ser elaborado por meio da palavra, acaba sendo externalizado no corpo. A
tatuagem foi reduzida a uma tentativa de dominar por meio da agulha o complexo
emocional de um passado sufocante. As figuras funcionariam como uma armadura,
uma epiderme secundária, o território do ego em que o indivíduo expressa seu
narcisismo e a imagem que nutre de si mesmo.
De repente, os prosaicos véus que
cobrem o corpo (e as tatuagens) ganharam status fashion com força total.
As burcas das mulheres islâmicas, antes execradas, passaram a ganhar respeito e
devoção, sugerindo até a possibilidade de conversão religiosa e uma mudança
comportamental frente à materialidade existencial do Ocidente.
Assim nasceu o dilema daqueles que
fizeram um pacto eterno de fidelidade com as agulhas segundo o qual o corpo foi
vilipendiado e cedido aos arroubos de um impulso juvenil.
As cabeças carecas, antes
transformadas em tela foram substituídas por implantes capilares. Pior foi a
amargura dos entusiastas que levaram o procedimento para zonas inimagináveis
como a tatuagem no globo ocular (eyeball tattoo), interior da boca, língua,
áreas genitais. Ou daqueles que não preservaram o rosto e demais partes expostas
pelas vestes casuais. O que fazer agora com esse trambolho estilístico?
A discreta borboletinha no tornozelo,
na qualidade de singelo adorno, foi poupada, passando incólume ao turbilhão
higienista dos novos tempos, não chegando a comprometer seu usuário. Já os
imensos dragões orientais e as frases motivacionais em sânscrito tornaram-se um
estorvo megalítico a seus portadores.
Diante da nova tendência, os mais suscetíveis
que haviam cravado um detalhado mosaico da cultura pop nos exíguos espaços disponíveis
do corpo ficaram sem saber como agir. Enquanto não decidiam, passaram a vestir
grossos sobretudos para ocultar seus exóticos rabiscos.
Lembrei-me do filme “A Outra História
Americana”, em que o protagonista interpretado por Edward Norton, ao revisar
seus valores ideológicos, já não se reconhecia no espelho, confrontado pela
enorme suástica que carregava no peito. ‘O que faço com ela?’
A tatuagem parte do pressuposto de
que somos seres imutáveis e as decisões tomadas são definitivas. Aqueles que a
ela se submeteram acham que suas mentes jamais se modificarão e transferem o
peso dessa imutabilidade para a própria pele. O problema surge quando a cabeça se
submete a uma lavagem cerebral mas o resto da massa corpórea não é capaz de
acompanhar a mudança.
O sábio Raul Seixas já havia
antevisto o dilema ao manifestar preferência em ser uma metamorfose ambulante
do que ter aquela velha opinião estampada sobre tudo.
Os usuários acreditavam, em sua santa
ingenuidade, que a moda duraria até o fim de suas vidas úteis. O curioso é que
a tatuagem costuma ser apresentada como uma afirmação de individualidade.
"Quero ser único", diz alguém... enquanto entra numa fila de outros
cinquenta querendo exatamente o mesmo ornamento polinésio, a mesma rosa cor
-de-rosa, o mesmo astrolábio, o mesmo leão de olhar filosófico e a inevitável
frase em celta cujo significado permanece indecifrável.
As tatuagens pareciam ter desvendado
o segredo da imortalidade. Afinal, não bastava vestir a moda; era preciso
costurá-la na própria pele. É um compromisso que nem casamento exige.
Há também a criatividade inesgotável
dos apaixonados. Juram amor eterno, tatuam o nome da pessoa amada e, seis meses
depois, descobrem que o amor era eterno até o próximo fim de semana. A pele,
nossa fiel companheira de jornada, infelizmente, parece não acompanhar as
desventuras fugazes do coração.
Naturalmente, a indústria de
cosméticos aproveitou-se da situação para faturar alto, criando os ‘corretivos
de pele’, uma base tão grossa que parecia massa corrida. Logo apareceram os
alarmistas alertando sobre os perigos que tais métodos provocam ao sufocar o
tecido cutâneo e provocar tumores malignos. E as fake news ajudaram a
propagar pelas redes o pânico geral.
E, quando as tatuagens previsivelmente
saíram de moda — porque tudo, absolutamente tudo, um dia sai — aconteceu o inimaginável:
a ousadia passou a ser desfilar com a pele completamente lisa, como quando veio
ao mundo.
Enquanto a mudança de paradigma ainda
não se efetivara, eu observava curioso o hábito da humanidade de transformar o
próprio corpo numa espécie de caderno de anotações. Uns escreviam poemas,
outros desenhavam tigres, alguns registravam datas memoráveis. A pele virou
agenda, álbum de lembranças e mural de recados.
Instalada a nova ordem, os
conformistas se resignaram, alimentando a esperança de que, como sempre
acontece, os ciclos façam que na próxima geração ou talvez daqui a 50 anos, quem
sabe, a tatuagem volte à moda.
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