sábado, 31 de outubro de 2026

O MEU ERRO

 

O meu erro foi acreditar na ternura inerente dos outros da minha espécie. Deles nunca exigi a perfeição. Não pedi que fossem anjos imaculados, muito menos que tivessem asas que os elevassem para realidades divinas onde habitam os castos.

Que fossem apenas GENTE, moldados com GENTILEZA. Com todas as limitações de sua condição. Mulheres, homens, crianças, adultos, coloridos ou brancos, com suas santas imperfeições humanas, suas variadas personalidades, suas maravilhosas diversidades. Dotados de alma e coração.

Não pedi que, de sua razão, fosse feita vaidade a lhes colocar num pedestal, acima das feras e das matas com quem dividem esse sagrado solo sagrado, sobre o qual exercem sua existência. Mas também não imaginava que sua oculta natureza sombria pudesse rebaixá-los a uma condição inferior.

Acreditei que a educação os tornaria mais sábios e o conhecimento mais humanos. Que a experiência lhes servisse de guia e os séculos de chagas os ensinaria a evitar tragédias. Que sua jornada no planeta fosse coroada de sensatez, a chave do segredo passada de pai para filho e de filho para neto.

Achei que passar a agrura de momentos difíceis, lutas e destruição, os fizesse evoluir. Uma espiral virtuosa de contínua elevação espiritual que os levasse a atingir os píncaros da existência até que a Terra fosse espelho do Céu.

Em minhas tolas ilações não haveria espaço para que esse obscuro objeto de minhas conjecturas se dedicasse a aperfeiçoar os meios de sepultar seus irmãos e submetê-los à exploração e ao sofrimento.

Progressos inimagináveis me surpreenderam, rompendo as fronteiras do milagre. Em minhas elucubrações mais profundas, não ousaria imaginar que sua voz e sua imagem pudessem cruzar os oceanos. Achei que seria bem mais fácil trocar afeição com o vizinho do lado. Que louco!

Romperam o átomo e rasgaram o manto inatingível do universo. Parecia tão mais simples permitir o acesso de seus iguais a obviedades como a água e o pão.

Hoje assisto abismado máquinas ser cultuadas como deuses. Delegamos a elas o ofício de pensar, já que pensar tornou-se uma atividade inútil e fútil. Assim como já haviam se tornado a empatia, a amizade, o perdão.

Parecia razoável supor que o desenvolvimento material resultaria em desenvolvimento moral. Que as sociedades mais opulentas seriam as mais justas, que a acumulação do conhecimento reduziria a intolerância e que o avanço científico constrangeria a barbárie.

Descobri decepcionado que as pessoas não apenas toleram os maus: elas os adoram, elegem-nos, transformam-nos em mitos. Os que pregam a violência e o ódio são louvados como heróis. O caráter e o entendimento tornaram-se debilidades a ser evitadas e quem os cultiva é tachado de tolo.

Também acreditei que a humanidade reverenciaria os mares, os rios, a terra, as florestas e tudo o mais que nos foi ofertado. Era a lógica: cuidar da nossa própria sobrevivência e da nossa prole deveria ser prioridade.

O meu grande erro foi acreditar que o ser humano, ao decifrar o mundo, aprenderia a melhorá-lo. Que enxergar a luz implicaria em fugir das sombras. Descobri entristecido que compreender não resulta em mudar, assim como identificar o correto não significa aplicá-lo.

Não quero continuar me iludindo. Não me peçam para recuperar a ingenuidade perdida, atropelada pelas decepções do caminho. Resta-me o consolo amargo de saber que, apesar de tudo, fui o que menos errei.

 

 

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