O desempenho do Brasil na Copa de 2026 foi humilhante. Pela primeira vez desde 1990, nossa outrora temida seleção, (que passou a ser conhecida como ‘selecinha’) deu adeus ao Mundial antes mesmo das oitavas de final.
Desolador assistir a um dos poucos
motivos de orgulho nacional desabar a olhos vistos, sem que haja sinal de reversão
da tendência. O traumático 7 a 1 ante a Alemanha em 2014, em pleno Mineirão, já
prenunciava o descalabro que estava por vir.
Não bastasse isso, temos de passar
pelo constrangimento de assistir aos vizinhos hermanos, nossos rivais de
estimação, esfregarem na nossa cara talento, organização e raça.
Explicações é que não faltam. Cada brasileiro
querendo dar sua opinião num país, onde de técnico de futebol e de louco todo
mundo tem um pouco. O técnico italiano, as deficiências do elenco, o esquema
tático, o pênalti perdido. Cada um escolhendo seu bode expiatório preferido.
Mas enquanto sobram diagnósticos em
mesas de bar, programas esportivos e grupos de whatsapp, a seleção continua
afundando. Se existe algum consenso é que nosso futebol deixou de ser relevante
e não mete medo em ninguém. Até os africanos estão nos superando. A dura
verdade é que desaprendemos de produzir craques que façam a diferença. E menos
ainda montar uma equipe coesa e poderosa que imponha respeito. A impressão que
dá é que somos um elenco sem fibra, sem garra, sem disposição de dar sangue
pela camisa.
Em meio a tanto achismo, uma abordagem
merece atenção. Um artigo publicado pelo jornal britânico The Times, debruçado
em entender essa anormal queda de produtividade do mais premiado e admirado
futebol do planeta, atacou a questão por um flanco inesperado. Sugeriu uma
relação entre a decadência do nosso desempenho futebolístico e o crescimento da
igreja evangélica no país.
A tese, no mínimo inusitada, causou
rebuliço e incendiou as redes sociais, sinal inequívoco de que pisou num calo
sensível. À primeira vista, pode parecer tão absurda essa relação quanto apontar
a falta de pontaria dos atacantes como decorrente do movimento das marés. Mas,
vencido o estranhamento inicial, vale a pena examinar a hipótese sem paixão. Uma
análise, digamos, antropológica do tema pode escancarar que por trás da derrocada
do nosso futebol escondem-se transformações culturais na sociedade brasileira,
em especial no campo religioso, onde o credo evangélico ganhou grande número de
adeptos.
Chama a atenção que a grande maioria
dos convocados professa o neopentecostalismo. Ao que se estima, 20 dos 26
convocados declaram-se evangélicos. Apesar
de que correlação não prova causalidade, não dá para ignorar que a ascensão
dessa corrente religiosa ocorre no mesmo período das mudanças que moldaram o
futebol brasileiro. Resta entender se há relação causal entre os dois eventos.
Não se trata de afirmar que a
religião levou alguém a desaprender a jogar bola. Mas se o futebol é um espelho
da sociedade, não permaneceria imune às mudanças de valores e comportamentos
que atingiram o país. Talvez a equipe que entrou em campo não seja apenas uma
seleção em crise, mas o retrato de um país que já não dança, improvisa e
desafia as regras como antigamente.
A excelência do nosso jogo em seus
áureos tempos estava umbilicalmente associada à malícia, à irreverência e até à
velha e folclórica malandragem. Era a ginga forjada no chão batido num campo de
terra improvisado na periferia com uma bola remendada. O futebol varzeano era
muito mais que uma diversão de domingo. Era uma escola, uma incubadora de
craques. Fazia parte do jeito brasileiro de expressar criatividade, alegria e
ousadia. Era desse caldeirão de manifestações populares que brotavam jogadores
capazes de transformar uma partida num espetáculo.
Mas o Brasil mudou. O avanço das
igrejas neopentecostais nas periferias conduziu a uma mudança comportamental.
Aspectos típicos da cultura nacional como o carnaval, o samba, o axé e a
capoeira, mal vistos pelos evangélicos, passaram a ser deixados de lado. A
vibração dessas manifestações culturais foi substituída por canções de louvor a
Jesus.
O tão criticado Gerson e sua máxima
de ‘levar vantagem’ traduzia o jeitinho brasileiro que desconsertava o engessado
futebol europeu. Não é à toa que o ‘canhotinha de ouro’, como era conhecido, exercia
uma liderança silenciosa e incontestável sobre seus companheiros naquela que muitos
consideram a melhor seleção de todos os tempos, a de 1970, quando o Brasil, com
uma campanha invicta, atropelou a Itália com uma goleada de 4 a 1, sagrando-se
tricampeão e garantindo a posse permanente da Taça Jules Rimet. Gerson cobrava
atitude, botava a moçada pra correr e não baixar a cabeça para os adversários e
as adversidades.
Hoje, em contraste, assistimos a uma
geração mais preocupada com a construção da própria imagem e contratos
milionários do que a construção de uma campanha coletiva gloriosa na arena de
combate.
Paralelamente, as demonstrações
públicas de religiosidade passaram a ocupar um espaço cada vez maior e os
‘atletas de Cristo’ passaram a exaltar orgulhosamente sua relação com o ente
superior e dar menor importância à mundana competição esportiva.
Se o time ganhava, maravilha, graças
ao Deus. Se perdia, paciência, Deus não quis. A responsabilidade saía dos pés
dos jogadores e era terceirizada para aquele ente misterioso que, do alto de
seu trono celestial, não torce para nenhum time.
Não se trata de afirmar que a fé torna
um jogador melhor ou pior. Mas cabe indagar se a hegemonia de uma cultura religiosa
que valoriza a disciplina moral, a busca pela prosperidade pessoal não acabe anestesiando
a espontaneidade e a irreverência que nos distinguiam.
Um dado impressionante que passou
quase despercebido, em meio ao turbilhão de críticas, merece atenção especial. Segundo
estatísticas apuradas pela prestigiosa empresa OPTA, nossa seleção foi a pior
em taxas de aproveitamento em dribles na fase de grupos, atrás do Haiti e de Curaçao.
A última dentre as 48 classificadas! Com uma pífia taxa de aproveitamento de 34%.
Ou seja, 2 em cada 3 oportunidades de confronto corpo a corpo, fomos vencidos
pelo adversário. Garrincha e Pelé devem estar se remoendo em seus túmulos.
Muito mais do que um recurso técnico,
o drible é uma declaração de personalidade em que o adversário é ludibriado em
suas expectativas e surrupiado pela abençoada malícia.
O que temos hoje? Um elenco de atletas
sem brio, ‘tementes a Deus’, sem coragem de ousar, que ao invés do
enfrentamento, prezam pela obediência e pela disciplina para alcançar a bênção divina
pessoal.
A arte do futebol brasileiro nasceu nos
campos de várzea espalhados pelas periferias, onde os moleques aprendiam a
lidar com a pelota, antes mesmo de aprender as regras do jogo. Foi nesses territórios
historicamente marcados pela exclusão social que o neopentecostalismo encontrou
terreno fértil para sua expansão e passou a ocupar um espaço mais amplo na vida
comunitária de pessoas carentes, oferecendo-lhes promessas de ascensão social,
mediante atitudes de submissão e contenção.
Foi assim que perdemos a chance de
ser novamente o país do futebol. Para tornar-nos o ‘país da Bíblia’.
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