terça-feira, 10 de maio de 2022

FAIR PLAY

You win some, lose some, it's all the same to me, the pleasure is to play (“Você ganha algumas, perde algumas, dá no mesmo para mim, a graça é jogar”) - Motorhead, Ace of Spades

 

“FAIR PLAY” é uma expressão inglesa originária do mundo esportivo que pode ser traduzida como “jogo limpo”, que traz a essência que inspirou o surgimento dos Jogos Olímpicos. Está associada à ideia de “espírito esportivo”, de “saber perder” e de que numa disputa o que vale é a luta e o empenho do competidor, independente do resultado final. Acima de qualquer coisa está o respeito às regras e a um código de conduta balizado pela ética.

Violam esse primado os contendores que se dopam e usam artifícios ilícitos, fazem “jogo sujo”, aplicam “golpes baixos”, dão soco abaixo da cintura, fazem gol com a mão e recorrem a outros expedientes para ludibriar a arbitragem.

Na outra ponta, são modelos de fair play aqueles que abdicam de vantagens espúrias e abrem mão da utilização de métodos que, embora não previstos nos regulamentos, constituem ações moralmente condenáveis. Optam por um caminho eticamente elevado, o que muito diz a respeito de seu caráter.

Como exemplo de atitudes louváveis, poderíamos citar a prática consagrada no futebol de se lançar a bola para fora do campo, interrompendo a partida, ao se perceber a contusão de um jogador do time adversário, nobre procedimento que o time beneficiário retribui. Ainda que não estejam explicitados em nenhum manual, tais procedimentos cavalheirescos dignificam os competidores. O prazer pessoal de agir com gentileza e cortesia confere a sensação engrandecedora de se estar bem consigo mesmo, de ter feito a coisa certa, de conectar-se com os princípios divinos, sentimento que supera a fútil vantagem de lucrar aproveitando-se egoisticamente de uma circunstância favorável.

No dia a dia, esse comportamento revela-se em atitudes cordiais como dar a vez ao idoso ou ao pedestre que atravessa a rua, recolher o papel jogado por alguém negligente, fazer doações a necessitados ou simplesmente ser amável com o próximo. Esses pequenos gestos de cidadania tornam o cotidiano mais saudável, a relação entre as pessoas mais gratificante e o mundo um lugar mais agradável de se viver.

Na esfera política, o fair play aplica-se ao regime democrático onde a disputa pelo poder subordina-se a regras a que os competidores comprometem-se civilizadamente a obedecer. Não nos referimos apenas às normas de licitude, observadas pela Justiça, mas também às normas de decoro e retidão que impedem que os candidatos, por exemplo, se valham de fake news para enganar os eleitores.

Respeitando tal princípio, os regimes abertos e livres, cujas normas impessoais são concebidas para fazer prevalecer a vontade autêntica da maioria, gabam-se de sua superioridade moral sobre os ditatoriais onde as determinações são impostas casuisticamente para beneficiar um déspota ou um pequeno grupo de indivíduos que visa se eternizar no poder.

Infelizmente, em várias nações ditas democráticas, constatamos uma degeneração desses sublimes preceitos. Nos EUA, justamente o país que abriga uma das autoproclamadas democracias mais respeitadas do planeta, o fair play deu uma degringolada.

Nas últimas eleições americanas houve um rompimento desse contrato implícito. O candidato Donald Trump recusou-se a aceitar o resultado eleitoral adverso, reconhecido por todas as instâncias institucionais certificadas para fazer cumprir com isenção o que determina a lei. O comportamento do ex-presidente demonstrou uma lastimável falta de “espírito esportivo”, arranhando indelevelmente o que por décadas prevaleceu como um dos pilares da credibilidade do sistema.

Recusou-se ademais a cumprimentar o legítimo vencedor, ato tradicional da cultura americana adotado quase que como um ritual, como forma de celebrar a legitimidade do resultado. O gesto simbólico de estender a mão ao adversário funciona como um aval para a sagração do processo de escolha, acima das rasteirices da disputa.

Não satisfeito com o estrago, Trump insuflou seus seguidores a invadir o Capitólio e destruir símbolos seculares do país. Os EUA que se gabavam de ostentar o modelo de democracia, apequenaram-se perante o mundo e os próprios cidadãos americanos, outrora orgulhosos de suas instituições.

No Brasil, onde, desde a redemocratização, a liturgia da troca de mandatários vem sendo acatada por políticos das mais diversas inclinações ideológicas, corremos o risco de ver repetida essa quebra ao fair play democrático.

O Trump tropical que nos governa invoca fantasmas como o ‘descrédito’ das urnas e a ‘imparcialidade’ da Justiça para deslegitimar o processo eleitoral que ameaça sua recondução ao cargo. O que transparece aqui é a lógica do menino birrento: caso eu não vença a partida, o resultado não vale e não tem mais jogo.

O presidente sugere a participação de seus amigos militares para inspecionar as eleições. Seria como se em uma partida de futebol do Brasileirão, o dirigente de um dos times recusasse o árbitro indicado pela CBF e exigisse que o escolhido seja seu segurança particular. Ora, segundo a Constituição cabe à Justiça Eleitoral e não às Forças Armadas o papel de assegurar a lisura das eleições. São as regras e quem quiser participar deve obedecê-las.

A ruptura do fair play nas democracias vem sendo acompanhada pela ascensão da cultura do ódio, própria do extremismo. As redes sociais têm fortalecido esse processo ao fomentar manifestações de intolerância. As pessoas são insufladas a assumir uma postura agressiva em relação a quem pensa diferente.

A violação do fair play replicou no campo esportivo, voltando-se contra o espírito que o originou. Os comportamentos dos atletas profissionais desvirtuaram-se em função do excessivo apego ao dinheiro e à fama. O ‘amor à camisa’, tão vinculado ao esporte amador, está em vias de extinção.

Essa tendência revela-se também no comportamento virulento das torcidas organizadas. Ante a escalada de selvageria, as diferenças não são resolvidas no gramado segundo as regras, mas com base da violência de barras de ferro, rojões e até armas de fogo usadas contra os simpatizantes do time adversário.

Além da esfera esportiva e política, a ruptura do fair play se manifesta no racismo, na homofobia, no ódio contra imigrantes e minorias e no campo religioso onde cada vez mais prevalece a intolerância aos que seguem outros cultos, como religiões de matrizes africanas.

É triste e preocupante assistir a derrocada do fair play nesses tempos sombrios. É um degrau abaixo em direção à barbárie para a qual parece caminhar nossa civilização.

 

 

 

 

 


segunda-feira, 2 de maio de 2022

O MOVIMENTO DAS COISAS

“Sem preconceito, ou mania de passado, sem querer ficar do lado de quem não quer navegar, faça como o velho marinheiro que durante o nevoeiro leva o barco devagar” (Paulinho da Viola em “Argumento”)

 

Vejo as coisas ao meu redor mudarem tão rapidamente que hesito em me posicionar sobre elas.

Livros que no passado devorei avidamente e que me forneceram ensinamentos tão preciosos que me pareceram eternos, hoje se deterioram nas prateleiras sob o efeito deletério do tempo. E não apenas por suas páginas amareladas nem pelas passagens que me pareceram tão notáveis que mereceram ser sublinhadas a caneta, hoje pálidas marcas borradas, desgastadas pelo bolor da obsolescência.

Maneiras de como alcançar um mundo melhor, pelas quais valia a pena lutar a fim de construir uma sociedade mais justa, hoje claudicam na incerteza sobre o futuro possível do planeta devastado, fruto do nosso falido projeto civilizatório.

Até o que a ciência estabelece como verdade inquestionável, estará irremediavelmente condenado pelas teorias em gestação que produzirão novas leis ‘definitivas’, com prazo de validade até a data da próxima pandemia.

Peças publicitárias que, a nossos inocentes olhos eram totalmente triviais, hoje ardem nas fogueiras inquisitoriais do “politicamente correto” ou são aposentadas compulsoriamente pelos novos padrões estéticos. Parecem-nos agora tão ridículas quanto os automóveis quadrados com cores berrantes que rodavam pelas ruas de paralelepípedos iluminadas por postes da Light.

Filmes instruem didaticamente como transformar pessoas vivas em cadáveres sanguinolentos e games hiper-realistas adestrados por crianças de jardim de infância ensinam como perfurar a tiros outros seres humanos com requintes de violência. Há 30 anos, seriam objeto de indignação pelos vigilantes pais, hoje ineptos avós caretas e carecas.

Um beijo na boca entre dois homens que, há não muitos anos, só seria tolerado em ambientes restritos, invade com naturalidade os lares, via novela das 7 da Globo, sob o olhar incrédulo dos tiozões. Comportamentos ‘liberais’, comuns em praias cariocas, adentram pela telinha sem pedir licença em pequenas comunidades do interior onde vigora um outro estilo de vida e costumes mais recatados.

Entram nesse balaio questões espinhosas como a ideologia de gênero, o feminismo, o consumo de drogas, o aborto e outros temas que afrontam uma sociedade arcaica ainda atrelada a velhos paradigmas e que não consegue digerir tantas novidades num espaço de tempo tão pequeno.

Importante ressaltar que todas essas demandas são legítimas e merecem ser apreciadas e discutidas sem preconceitos. Não se trata de contestar sua pertinência, mas a velocidade com que são submetidas a uma sociedade que se debate para não perder suas escassas referências.

Em consequência, surge um apego cada vez maior a um passado razoável onde as coisas pareciam ‘fazer sentido’ e o tempo transcorria num ritmo mais prudente, compatível com os ciclos da Natureza e com as vibrações pulsáteis do nosso organismo que modulam o fluxo da vida.

Talvez tais questões sejam de interesse da sociologia e da psicologia. Minha abordagem é, digamos, mais ‘antropológica’, posto que aborda os chamados valores culturais milenarmente erigidos.

Alega-se que nossa sociedade, ao lidar com essas mudanças, é ‘conservadora’, na acepção pejorativa do termo. Trata-se a meu ver de uma inverdade, já que esse suposto ‘conservadorismo’ diz respeito à conservação da identidade cultural moldada ao longo de gerações. São valores que, ‘certos’ ou ‘errados’, constituem a essência dessa identidade e não podem ser desconstruídos abruptamente.

Penso que os setores progressistas da sociedade, comprometidos em oferecer um futuro melhor para todos, devem rever as estratégias políticas em lidar com tais questões para não se desconectarem de amplos setores sociais que se sentem escanteados com o avanço das novas pautas que têm surgido. 

Talvez você pense que tais ponderações não passem de masturbação mental de um pobre escritor retrógrado que perdeu o bonde da história. Prefiro acreditar tratar-se de uma humilde contribuição para reflexão sobre as vicissitudes da modernidade.

 

 

segunda-feira, 25 de abril de 2022

AS 100 MAIORES MÚSICAS BRASILEIRAS DO SÉCULO XX (5ª PARTE)

 

Segue a quinta e última parte da lista das 100 maiores músicas brasileiras do século XX:

 81) MARINA – FULLGÁS

Maior sucesso de Marina (antes de agregar o Lima ao nome artístico), composição própria com seu irmão, o filósofo, escritor, crítico literário, membro da ABL e assíduo parceiro Antônio Cícero. A canção figura no álbum homônimo (1984), também o de maior êxito da cantora carioca, inclusive junto à crítica. O disco traz mais três temas conhecidos: ME CHAMA de Lobão, MESMO QUE SEJA EU de Roberto e Erasmo e VENENO de Nélson Motta. FULLGÁS, ainda que dançante, tem uma letra notável que correlaciona o conceito ‘fugaz’ com o termo inglês ‘full gas’ (cheio de gás) que, embora conflituosos, podem no amor, levar à plenitude da relação: “você me abre seus braços e a gente faz um país”. Regravada dentre outros por Lulu Santos, Simone, Fernanda Abreu, Ivete Sangalo, Emílio Santiago e Fábio Jr.

 

82) ELZA SOARES – SE ACASO VOCÊ CHEGASSE

Esse samba de Lupicínio Rodrigues da década de 30 (parceria com Felisberto Martins), gravado à época com sucesso por Cyro Monteiro, voltou a ganhar brilho mais de 20 anos depois com a singular releitura de Elza Soares no álbum batizado com o nome da canção (1960), tornando-se um dos mais representativos da sua carreira. O álbum traz outro grande sucesso, MULATA ASSANHADA de Ataulfo Alves. Tais canções consagraram o modo peculiar de cantar de Elza, análogo à técnica jazzística chamada de ‘scat’, celebrizada por Louis Armstrong e Ella Fitzgerald, em que os floreios vocais são usados como um instrumento. Porém, no caso de sambista carioca, o recurso surgiu espontaneamente, lançando mão de sua voz rouca. A artista foi ‘descoberta’ pelas novas gerações a partir do famoso dueto com Caetano em LÍNGUA do álbum VELÔ (1984), sendo entronada no altar da MPB.

 

83) LEGIÃO URBANA – QUE PAÍS É ESSE

Essa canção, utilizada em atos políticos promovidos por partidários das mais diversas correntes, tornou-se um hino. Foi a música nacional mais executada em 1987, ano em que foi lançada no álbum homônimo, o terceiro do Legião, o qual também traz a quilométrica FAROESTE CABOCLO, uma saga de 9 minutos que subverteu os padrões radiofônicos. QUE PAÍS É ESSE foi composta por Renato Russo antes do surgimento do Legião no começo dos 80’s mas tristemente continua atual com seus versos “ninguém respeita a Constituição mas todos acreditam no futuro da Nação”. A canção sobressai-se em meio a dezenas de hits do conjunto, o segundo que mais vendeu discos no país (atrás apenas dos pagodeiros do Raça Negra). Regravaram Paralamas, Capital Inicial e CPM-22.

 

84) ÂNGELA MARIA – GENTE HUMILDE

GENTE HUMILDE foi composta, sob a forma de choro, pelo violonista Aníbal Augusto Sardinha, conhecido como Garoto, na primeira metade do século. Baden Powell ‘descobriu-a’ e levou-a para Vinícius de Moraes que se apaixonou pela melodia, colocando-lhe, com a ajuda de Chico Buarque, uma letra. Esta, segundo consta, procurou ser fiel à original concepção de Garoto que, ao visitar um subúrbio do Rio de Janeiro, encantou-se com as pessoas que levavam uma vida modesta porém digna e feliz, homenageando-as com o tema. A canção entrou no álbum CHICO BUARQUE DE HOLLANDA Nº 4 de 1970 (gravado parcialmente na Itália, quando o compositor carioca se encontrava em exílio), sendo no mesmo ano registrada por Ângela Maria no álbum ÂNGELA DE TODOS OS TEMAS, sendo essa a versão que a consagrou definitivamente.  Recebeu inúmeras outras interpretações, dentre as quais, destacam-se Baden, Paulinho Nogueira, Toquinho, Paulo Bellinati, Radamés Gnatalli, Taiguara, Bethânia, Márcia, Miúcha, Moraes Moreira, Jair Rodrigues, Nelson Gonçalves, Agostinho dos Santos, Sílvio Caldas, Altemar Dutra, Chitãozinho & Xororó, Quarteto em Cy, Luiz Melodia, Ana Carolina, Renato Russo, Francisco José e Mercedes Sosa.

 

85) ZIZI POSSI – O CIRCO MÍSTICO

Chico Buarque assina algumas das melhores trilhas de espetáculos teatrais musicais como Gota d’Água, Ópera do Malandro e Calabar, o Elogio da Traição. Em O Grande Circo Místico, o compositor carioca se superou. De autoria de Chico em parceria com Edu, a trilha é irretocável. Tanto que foi mantida na transposição para o cinema sob a direção de Cacá Diegues. O enredo narra a saga de uma família austríaca, dona de um circo por cinco gerações, onde brota um improvável romance entre um aristocrata e uma acrobata. As músicas são interpretadas originalmente por Chico & Edu, Milton Nascimento, Gil, Tim Maia, Gal, Jane Duboc, Simone e Zizi Possi a qual ficou com a canção-tema, uma das mais tocantes da trilha, registrada em álbum pela Som Livre (1983), nunca tendo sido gravada por Chico. Zizi gravou-a também com outro arranjo em seu álbum PRA SEMPRE E MAIS UM DIA do mesmo ano. Regravaram Edu Lobo (álbum MEIA NOITE), Elba Ramalho e Vânia Bastos.

 

86) TONINHO HORTA – MANUEL O AUDAZ

Essa famosa canção de Toninho Horta foi gravada pela primeira vez pelo autor num pouco conhecido álbum partilhado com outros três músicos, Beto Guedes, Danilo Caymmi e Novelli, lançado pela Odeon no rastro do sucesso de CLUBE DA ESQUINA, reunindo músicos que direta ou indiretamente tivessem relação com o movimento musical. Mas tornou-se conhecida quando Toninho regravou-a em seu álbum de 1980, ao lado de Lô Borges com o ilustre acompanhamento de Pat Metheny. A composição, parceria com Fernando Brant, foi feita em homenagem a um jeep batizado como Manuel (referência ao personagem Manuelzão de Grande Sertão Veredas de Guimarães Rosa, famoso por sua sabedoria e respeito à natureza) que levava o grupo de companheiros musicais pelas estradas precárias do interior de Minas. No mesmo ano, Jane Duboc gravou-a em seu celebrado álbum LANGUIDEZ.

 

87) RENATO TEIXEIRA – ROMARIA

Ainda que tenha nascido em Santos, litoral de SP, cursado Engenharia no prestigioso ITA, começado sua vida profissional produzindo jingles publicitários e tido uma formação urbana típica de classe média, Renato Teixeira abraçou por opção a autêntica música caipira a que se dedicou. Foi através de ROMARIA, inserida no álbum de 1977 de Elis Regina, que seu nome se tornou nacionalmente conhecido. Renato também a registrou no álbum homônimo de 1978. A canção quebrou o preconceito contra esse gênero, visto dentro do contexto musical brasileiro como banal. O próprio público de Elis estranhou a iniciativa, acostumado com um repertório que privilegiava outra linha de composições. ROMARIA trata do homem simples do interior e a religiosidade do romeiro e sua devoção à Nossa Senhora de Aparecida e sua perspectiva em conseguir melhorar sua vida sofrida através da fé. A letra, sem fugir desse universo, expresso com palavras simples, carrega uma poesia comovente: “Me disseram, porém, que eu viesse aqui pra pedir de romaria e prece paz nos desaventos. Como eu não sei rezar, só queria mostrar meu olhar”. A música recebeu infindáveis versões, como as de Maria Rita, Bethânia, Alcione (com Victor & Leo), Fafá de Belém, Zé Ramalho, Passoca, Inezita Barroso, Fábio Jr, Jessé, Sérgio Reis, Daniel, João Mineiro & Marciano, Pena Branca & Xavantinho, Rosa de Saron e Padre Fábio de Mello.

 

88) DÓRIS MONTEIRO - É ISSO AÍ

Não, a canção a que nos referimos não é a manjada versão homônima de Damien Rice gravada por Ana Carolina e Seu Jorge, uma das campeãs de execução em rádio em 2006. Trata-se de um delicado samba composto por Sidney Miller especialmente para Dóris Monteiro que o registrou em seu álbum DORIS de 1971, um dos mais afamados da cantora. Tornou-se uma das conhecidas composições de Miller que, em sua breve existência (morreu aos 35 anos), destacou-se por suas elaboradas letras como em A ESTRADA E O VIOLEIRO, que no concorrido Festival de MPB de 1967 da Record faturou o prêmio de melhor letra. São de sua autoria também a cantiga de roda O CIRCO (Nara Leão) e a contestatória POIS É PRA QUÊ? (MPB-4). É ISSO AÍ foi também regravada por Joyce Moreno, Casuarina e Paula Lima que inclusive nomeou com esse título seu primeiro álbum, de 2001, num ritmo dançante, sucesso das pistas.

 

89) SÉRGIO SAMPAIO – EU QUERO É BOTAR MEU BLOCO NA RUA

O VII Festival Internacional da Canção de 1972 foi aquele que colocou uma pá de cal em cima da gloriosa era dos festivais. A destituição de Nara Leão da presidência do júri por exigência do regime militar, acompanhada da renúncia coletiva dos demais jurados, desacreditou totalmente o resultado e inviabilizou futuras iniciativas nesse campo. A despeito das adversidades, o evento teve a virtude de revelar nomes que se projetariam como Fagner, Alceu Valença, Raul Seixas, Belchior, Hermeto, Ednardo, Paulo César Pinheiro, Renato Teixeira, Ruy Mauriti e Sérgio Sampaio. Esse defendeu EU QUERO É BOTAR... que marcaria sua breve e promissora carreira, interrompida com sua morte aos 47 anos. Lançada em single, alcançou a venda de 500 mil cópias, puxando as vendas do LP homônimo (1973) e foi interpretada como um libelo anticonformista e uma convocação para colocar as massas na rua contra a repressão, personalizada na figura de Durango Kid. Foi regravada por Ney Matogrosso, Margareth Menezes, Maria Alcina, Lobão, Roupa Nova, Casuarina, Monobloco e Baiana System,

 

90) NEY MATOGROSSO – NÃO EXISTE PECADO AO SUL DO EQUADOR

Composta por Chico em parceria com o poeta moçambicano Ruy Guerra, essa canção fazia parte originalmente do álbum CALABAR de 1973 (trilha da peça Calabar, o Elogio da Traição), nome vetado pela censura, ganhando o título de CHICO CANTA.  Assim como outras faixas do álbum, todas compostas pela dupla Chico/Ruy, essa teve problemas para ser liberada, tendo algumas palavras substituídas para passar pelo crivo da censura. O nome da canção foi extraído de uma frase que, segundo o livro Raízes do Brasil do historiador Sérgio Buarque de Holanda (pai de Chico), era utilizada no século XVII, para definir o hemisfério sul do planeta como terra de ninguém, onde tudo era permitido. O fato é que a canção desvinculou-se do contexto em que foi concebida, ganhou vida própria e seu ritmo alegre projetou-a como marchinha de carnaval, sobretudo na brilhante interpretação de Ney Matogrosso, presente em seu álbum FEITIÇO (1978). Foi também gravada pelo MPB-4 & Quarteto em Cy e Marlene.

 

91) LUIZ VIEIRA – PRELÚDIO PRA NINAR GENTE GRANDE

O pernambucano Luiz Vieira deixou algumas canções que se tornaram imortais como: PAZ DO MEU AMOR - PRELÚDIO Nº 2 (sucesso na voz de Taiguara e de Hebe Camargo), MENINO DE BRAÇANÃ (regravado dentre outros por Zizi Possi, Rita Lee e Nara Leão), NA ASA DO VENTO em parceria com João do Vale (revelada por Caetano Veloso) e PRELÚDIO PRA NINAR GENTE GRANDE, também conhecida como MENINO PASSARINHO (“sou menino passarinho com vontade de voar”). Diz-se que a canção surgiu em função das inúmeras viagens aéreas que o cantador fazia por conta de compromissos que tinha como radialista e apresentador de TV em várias capitais do país. A música foi lançada originalmente em 78 rotações (1962) e depois em compacto pela gravadora Copacabana. Mas pode ser encontrada no álbum O MELHOR DE LUIZ VIEIRA. A canção foi regravada por Fagner, Ângela Maria, Hebe Camargo, Sílvio César, Agnaldo Rayol, Agnaldo Timóteo, Waldir Azevedo e Márcio Greick.

 

92) EDNARDO – PAVÃO MYSTERIOZO

Houve um tempo que a Globo usava seu poder televisivo para promover a boa música brasileira. Um exemplo é essa canção de Ednardo que, graças à inserção como tema de abertura da novela Saramandaia, tornou-se o maior sucesso da carreira do artista cearense, dois anos após entrar, sem repercussão, em seu álbum de 1974, O ROMANCE DO PAVÃO MYSTERIOZO. Ednardo inspirou-se para compô-la em um clássico da literatura de cordel do início do século XX, num difundido folheto de José Camelo Resende que trata de uma bela donzela presa por seu pai no alto de uma torre, resgatada através de um pavão mecânico. Essa história de heroísmo serviu como alegoria sobre a situação repressiva do país, onde a donzela representaria a liberdade, reclusa e fora do alcance do povo mas que seria liberta pelos aventureiros que criam ‘asas’, ao contrário dos vilões: “Eles são muitos mas não podem voar”. O realismo fantástico da novela de Dias Gomes propiciou a idealização dessas figuras míticas. A música começa com um ritmo nordestino para desembocar em hipnotizantes tambores que remetem a rituais indígenas, tendo sido apropriada pelos índios do Xingu. Regravaram a música Ney Matogrosso, Elba, Oswaldo Montenegro, Fernanda Takai, Cláudio Lins, o grupo Rastapé e a orquestra de Paul Mauriat.

 

93) PAULINHO NOGUEIRA – SIMPLESMENTE

Como expoente da música instrumental, o nome de Paulinho Nogueira aparece mais frequentemente referenciado pelos mestres de violão do que pelo público em geral. Pode ser identificado pelas sua famosa BACHIANINHA Nº 1, também conhecida na interpretação de Toquinho (seu fiel discípulo), tendo sido por ele composta em homenagem a Johann Sebastian Bach, seu maior ídolo. Dentre suas contribuições para a música, está também a craviola, instrumento musical por ele inventado. MENINA, lançada em compacto, foi sua canção mais popular, tendo alcançado as paradas de sucesso. Morreu em 2003, tendo mais de 20 LPs registrados por diversos selos e apenas seus últimos trabalhos saíram em CD. Não é o caso de SIMPLESMENTE (1974), álbum lançado pela Continental com arranjo e regência de Nélson Ayres que, além da BACHIANINHA Nº 1, traz a linda canção que dá nome ao álbum. Com o subtítulo de O BEM VERDADEIRO, SIMPLESMENTE tem um toque de bossa nova e uma letra inspiradora que motiva a auto-aceitação frente às interferências da sociedade. Foi regravada por Lula Barbosa, Carlos José, Roberto Riberti, Trovadores Urbanos e pelo próprio Paulinho no álbum CORAÇÃO VIOLÃO e, em uma versão instrumental, no álbum TONS E SEMITONS. Entrou também na trilha da novela Ídolo de Pano da TV Tupi.

 

94) ALCEU VALENÇA – LA BELLE DE JOUR

Através de SETE DESEJOS de 1992, um dos melhores álbuns de sua carreira, Alceu conquistou uma nova geração de ouvintes incorporando a seu repertório canções mais líricas e românticas, sem abrir mão do regionalismo que caracteriza o conjunto de sua obra. Sobressaem-se duas pérolas:  LA BELLE DE JOUR, um de seus maiores sucessos, homenagem à atriz Jacqueline Bisset com cuja beleza se encantou num encontro casual num bar quando o artista pernambucano encontrava-se em Paris, imaginando-a passear num domingo azul pela praia de Boa Viagem em Recife. Batizou a canção, todavia, com a designação conferida a outra musa, Catherine Deneuve, extraída da famosa película de Luis Buñuel, “A Bela da Tarde”. A outra obra-prima é TESOURA DO DESEJO, belíssima canção romântica com a brilhante participação de Zizi Possi que narra o diálogo entre dois amantes em frente a um bar do Leblon com um emocionante sax de Paulinho Andrade. No álbum ao vivo GRANDE ENCONTRO (1996), o dueto é reconstituído com Elba Ramalho. As duas canções são de autoria de Alceu.

 

95) TECA CALAZANS – CAICÓ

CAICÓ (CANTIGA)  (“oh mana, deixa eu ir, oh mana eu vou só, oh mana deixa eu ir para o sertão do Caicó”) é um tema folclórico de domínio público recolhido por Villa Lobos, tendo recebido letra de Teca Calazans, adaptação que a tornou conhecida do público. Essa cantora capixaba, mais do que em seu país natal, tornou-se conhecida na França, onde formou dupla com o músico Ricardo Villas que também por ali se encontrava, exilado por razões políticas. Lançaram diversos álbuns divulgando a música regional brasileira no exterior. De volta ao Brasil, Teca lançou diversos trabalhos sempre divulgando temas tradicionais e folclóricos e resgatando a obra de antigos compositores. Teca registrou a canção em seu álbum ao lado de Ricardo Villas (Teca & Ricardo), POVO DAQUI. Regravou-a num ritmo ligeiro no álbum FORRÓ DE CARA NOVO, com Dominguinhos, e no álbum TECA CALAZANS CANTA VILLA LOBOS. Foi também gravada por Egberto Gismonti, Pena Branca e Xavantinho, Ney Matogrosso e Trio Esperança. Mas foi a comovente versão de Milton Nascimento no disco SENTINELA (1980) que a tornou popular.

 

96) AMELINHA – FREVO MULHER

Essa composição de Zé Ramalho marca também o início de seu relacionamento amoroso com Amelinha que resultou num casamento (com dois filhos) que persistiu por cinco anos. A cantora cearense serviu-lhe de musa e a canção foi a ela destinada, nomeando seu segundo álbum de carreira (1978), que lhe rendeu um disco de ouro. A música em ritmo de forró, embalada pela sanfona do mestre Dominguinhos, tem uma energia contagiante, tornando-se uma das preferidas para embalar os blocos carnavalescos. Além do próprio Zé Ramalho no violão, participa Geraldo Azevedo, com Wilson das Neves na percussão. Como é próprio do compositor, a letra é repleta de metáforas de interpretações ambíguas: “Gemeram entre cabeças na ponta do esporão, a folha do não-me-toque e o medo da solidão, veneno meu companheiro desata no cantador e desemboca no primeiro açude do meu amor”. Além de Zé Ramalho, regravaram a canção Elba, Édson Cordeiro, Diogo Nogueira, Cláudia Leitte, Rastapé, Banda Calypso, Aviões do Forró, Jammil, Luiz Caldas, Kaleidoscópio, Robertinho do Recife,  Pato Fu, Tulipa Ruiz e Nando Reis.

 

97) BOCA LIVRE – TOADA

Despontando no fim dos anos 70, como grupo de apoio a nomes como Edu Lobo e Milton Nascimento, o Boca Livre não parecia ser fadado a prosperar num projeto próprio. À época, as gravadoras investiam apenas em artistas consagrados e música de baixa categoria com maior apelo comercial. Nesse contexto, a proposta de um conjunto vocal com repertório focado em música brasileira de qualidade, um domínio sobre o qual o consagrado MPB-4 já marcara território, não parecia promissora. Tanto que o desacreditado quarteto formado originalmente por Maurício Maestro, Zé Renato, Cláudio Nucci e David Tygel teve que bancar com recursos próprios seu primeiro vinil de 1979. O resultado foi surpreendente: mais de 100 mil cópias vendidas a partir da divulgação (com perdão da expressão) “boca a boca”, um marco na história da produção cultural independente. O carro-chefe do álbum foi TOADA (em que já se evidenciara a genialidade criativa da dupla Cláudio Nucci e Zé Renato).

 

98) BETO GUEDES – SAL DA TERRA

Desde o começo dos anos 80, com essa canção, Beto Guedes e Ronaldo Bastos já vinham alertando para a devastação ambiental (“Terra, és o mais bonito dos planetas, tão te maltratando por dinheiro, tu que és a nave nossa irmã”) e sobre a necessidade de mudarmos de atitude em relação à sua preservação (“falo desse chão da nossa casa, vem que tá na hora de arrumar”). A canção foi a faixa que puxou o álbum CONTOS DA LUA VAGA (1981), produzido por Wagner Tiso com a participação de Flávio Venturini e Joyce. Nesse mesmo álbum, a mesma dupla de compositores assinou uma outra faixa que se destacou, CANÇÃO DO NOVO MUNDO sobre a esperança de um mundo melhor e sem violência (“nem a força bruta pode um sonho apagar”). Gravaram SAL DA TERRA Simone, Jussara Silveira, Sandra de Sá, Maria Gadú, 14 Bis, Roupa Nova, Orlando Morais, Jessé, Ivete Sangalo, Angélica, Sylvinha e Jota Quest.

 

99) GILSON – CASINHA BRANCA

A singela música do então pouco conhecido cantor potiguar (parceria com Joran e Marcelo), ao entrar na trilha da novela Marron Glacé de 1979, tornou-se um fenômeno de execução nas rádios. Integrou também o primeiro álbum do cantor desse mesmo ano. Aborda ela uma questão atemporal já revista por CASA NO CAMPO de Zé Rodrix: a opção por uma vida despojada em uma casinha simples do interior, longe da turbulência das grandes cidades. Foi regravada por inúmeros astros como Roberta Campos, Bethânia, Maria Creuza, Fábio Jr, Peninha, José Augusto, Gian e Giovani, Cascatinha & Inhana e Neguinho da Beija Flor. Recebeu até uma inusitada versão de Jim Capaldi, membro do lendário grupo britânico Traffic. O roqueiro tem afinidade com o Brasil, tendo vivido na Bahia por alguns anos (mais tarde gravaria também ANNA JÚLIA da banda Los Hermanos). A bela releitura de Capaldi de 1981 ganhou o título de OLD PHOTOGRAPHS e embora conservasse a melodia da original de Gilson e uma temática similar, recebeu em inglês uma letra diferente.

 

100) MORAES MOREIRA – GUITARRA BAIANA

O cantor, compositor e instrumentista baiano, conhecido por ser vocalista e principal integrante dos Novos Baianos, partiu para a carreira solo a partir de 1975. Seu primeiro álbum, nesse ano, pela Som Livre, vinculado que estava ao trio elétrico de Dodô e Osmar, apresenta diversos temas associados ao carnaval baiano, com destaque à psicodelia e ao trabalho instrumental. Para tanto, contou com suporte de Armandinho (guitarra e bandolim), Dadi (baixo), Gustavo Schroeter (bateria) e Mú Carvalho (teclados), músicos que viriam a formar o grupo A Cor do Som. GUITARRA BAIANA é uma faixa instrumental de sua autoria em que Moraes faz uma introdução em vocalise e toca violão, acompanhado de Armandinho na guitarra. A canção recebeu uma adaptação pela qual é mais conhecida que entrou na trilha da primeira versão da novela Gabriela (1975).

 

 

 

  

 

 

 

Confira a 1ª parte:

https://oquedemimsoueu.blogspot.com/2022/03/as-100-maiores-musicas-brasileiras-do.html

 

Confira a 2ª parte:

https://oquedemimsoueu.blogspot.com/2022/03/as-100-maiores-musicas-brasileiras-do_27.html

  

Confira a 3ª parte:

https://oquedemimsoueu.blogspot.com/2022/04/as-100-maiores-musicas-brasileiras-do.html

  

 Confira a 4ª parte:

https://oquedemimsoueu.blogspot.com/2022/04/as-100-maiores-musicas-brasileiras-do_17.html