terça-feira, 24 de janeiro de 2023

PÁTRIA

“O patriotismo é o último refúgio do canalha” (Samuel Johnson)

Não tenho a menor afinidade pela turma de amarelo que se autointitula ‘patriota’, termo que, não por coincidência, guarda similitude fonética com ‘idiota’. Depois do quebra-quebra insano que promoveram em Brasília, a simples menção à palavra ‘patriota’ me provoca chiliques. O obsessivo fetichismo dos tais ‘patriotas’ por símbolos nacionais (bandeira, hino, brasão) e seu primitivo sentimento de presumir com orgulho ‘seu país’ maior do que o ‘país do outro’, é algo que, ao invés de ser estudado por cientistas políticos, deveria ser objeto de análise psicossexual pelos freudianos de plantão.

A compulsão cívica dos ‘patriotas’ é o que leva os governos a práticas deploráveis como a exploração de povos mais frágeis, o imperialismo e um permanente estado de beligerância. Em consequência, advém a militarização da sociedade, a escalada nuclear e o desperdício de recursos (que poderiam ser usados em áreas mais nobres como saúde, educação) com fins bélicos de ‘defesa nacional’.

Não houvesse ‘pátrias’ a defender, o mundo poderia dedicar-se com mais afinco a ações de solidariedade, auxílio aos mais necessitados e combate à fome. E não haveria espaço para o surgimento de líderes imperiais como Napoleão, Hitler e Stálin.

Decorrem desse patriotismo exacerbado e deturpado desígnios como hegemonia, expansionismo, nacionalismo, ufanismo, chauvinismo, xenofobia.

Políticos que enfatizam esse incondicional ‘amor à Pátria’, normalmente agregam-no princípios retrógrados de religiosidade e costumes. ‘Deus, Pátria e Família’ foi o mote que norteou o governo Bolsonaro, o mesmo que embalou o ideário de regimes fascistas.

Minhas restrições não impedem que eu tenha carinho e afeição pelas coisas da minha terra, uma ligação emocional pelo lugar onde nasci e construí minha vida. Nem implicam que eu não seja um torcedor roxo da seleção canarinho em campeonatos de futebol. Não me considerar um ‘patri(idi)ota’ não me exime de ser um legítimo BRASILEIRO da gema.

Ainda que descendente de imigrantes, sinto-me totalmente integrado nesse maravilhoso país tropical, apaixonei-me por suas peculiaridades, sua singular brejeirice. Em viagens internacionais, não dá para conter o mar de felicidade ao cruzar com um conterrâneo, estabelecendo com ele uma imediata relação de gaiata cumplicidade. Não há como não se comover ao deparar-se, do outro lado do mundo, com algum vestígio de brasilidade, tal como encontrar um restaurante que servisse comida típica da ‘terrinha’. Algo que nos remete às lembranças do passado, aos vínculos emocionais que criamos, aos valores efetivamente ‘pátrios’ que aprendemos a amar. Contextos onde pôde ser aplicada com precisão a brasileiríssima palavra ‘saudade’, intraduzível em qualquer outro idioma.

O país do acarajé, da feijoada, da tapioca, da caipirinha, do guaraná, do açaí, da jabuticaba, do pão de queijo, do pé-de-moleque, do quindim, do boto rosa, da arara azul, do carnaval, do samba, do forró, da bossa nova, do tropicalismo, do bumba meu boi, de Macunaíma, da Bahia, do Pão de Açúcar, da garota de Ipanema, da capoeira, do cordel, da festa junina, do candomblé, do saci, de Pelé, Carmen Miranda, Elza Soares, Jobim, Gonzagão, do Pantanal, da Amazônia, da vitória régia, dos igarapés, dos seringueiros, dos yanomamis.

Esses genuínos valores pátrios foram vilipendiados pelos ‘patriotas’ que assumiram o poder em 2019. Impuseram o conceito militar de pátria. Não um apego emocional a ser preservado no âmago do coração, mas uma unidade geopolítica a ser defendida com tanques e baionetas contra gringos. Estariam esses pretensamente dispostos a ‘usurpar’ a Amazônia e seus valiosos minérios, a única coisa que concebem como digna de interesse numa região tomada pelos ‘selvagens’ incivilizados e pelo ‘mato’ que atravancava o progresso. Sob o aludido pretexto de salvaguardar a floresta da ‘cobiça’ das ONGs, entregaram-na ao agronegócio, aos madeireiros, grileiros e garimpeiros e até mesmo à bandidagem e ao narcotráfico.

Esse conceito conspurcado de patriotismo foi usado pelos donos do poder contra todos aqueles que não partilhavam dos seus ideais, a fim de disseminar o ódio contra os chamados ‘inimigos da pátria’. Ser patriota passou a ser sinônimo de ser militarista, armamentista, antiabortista, antiesquerdista, negacionista, bolsonarista. Passou a significar agressão ao meio ambiente, às artes, à cultura, às minorias oprimidas.

Foi essa mesma concepção espúria que levou ‘patriotas’ envoltos em bandeiras nacionais a barbarizar os prédios públicos dos três poderes que dão suporte a nosso regime democrático, imbuídos de uma missão divina: dar um golpe de estado para impedir a saída do proclamado ‘mito’, o ‘salvador da pátria’. 

A definição que prezo de ‘pátria’ é bem diferente. É a externada por Mário Vargas Llosa por ocasião do recebimento do prêmio Nobel de literatura: “A pátria não são as bandeiras nem os hinos, nem os discursos apodícticos sobre heróis emblemáticos. A pátria é um punhado de lugares e pessoas que habitam a nossa memória e a tingem de melancolia. A sensação cálida de que não interessa onde estejamos, sempre existirá um lar onde possamos voltar. Patriotismo é um salutar e generoso sentimento de amor pela terra onde nascemos, onde viveram os nossos antepassados, onde se concretizaram os nossos primeiros sonhos, forjada uma paisagem familiar de geografias, entes queridos e acontecimentos que se transformam em sinalizadores de memória e defesas contra a solidão. Pátria é um chamado da tribo, um eco primitivo de épocas nas quais a identidade era condição de sobrevivência, diante de um mundo desconhecido e profundamente hostil. Estar ‘entre os seus’, reconhecê-los, mesmo à distância, pelos jeitos comuns.”

Isso é verdadeiramente PÁTRIA!

 

 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

MINIONS

As ações risíveis dessas criaturas para tentar tirar o governo eleito do poder, como orar na porta dos quartéis e pedir a intervenção de extraterrestres pareciam até então inofensivas. Em 8 de janeiro, todavia, descambaram para atos de barbárie como invadir a sede dos três poderes, destruir vidraças, móveis e obras de arte, roubar equipamentos públicos e defecar nos tapetes.

Não se pode afirmar que esses infelizes compõem propriamente uma classe social, já que provêm de distintas faixas de renda. Além da inerente parvalhice, têm em comum uma doentia devoção ao ex-presidente, ungido de poderes divinos.

Alguns chamam essa turma de ‘gado’. Considero o termo inadequado já que não se verifica entre eles homogeneidade bovina. Há gente de tudo quanto é tipo: madames espalhafatosas, aposentados, caminhoneiros, praticantes de artes marciais, CAC’s, policiais, milicos, garimpeiros ilegais, crentes, comerciantes, empresários e (pasme!) até médicos e engenheiros.

Na falta de um termo melhor, batizaram-nos de minions. O termo é inspirado nos personagens do filme de animação “Meu Malvado Favorito”, caracterizados por sua limitada inteligência e sua condição de vassalos do vilão Gru, assemelhado a nosso bizarro ex-mandatário, daí a derivação ‘bolsominions’, aqueles que acatam cegamente o que seu capitão-guru estabelecer.

A submissão incondicional dos minions a um líder primitivo desafia a interpretação dos sociólogos que não têm em suas referências históricas padrões equivalentes em nossa sociedade. Para melhor compreendê-los, talvez devamos recorrer à antropologia. Ao invés de estudá-los como atores sociais, melhor considerá-los como membros fanáticos de uma seita, já que suas motivações são guiadas por instintos primais de obediência a um brutamontes alçado à condição de mentor espiritual.

Para eles, o genocida que, no auge da pandemia, passeava alegremente de moto e jet ski, é um deus. Já o demônio é representado por um indivíduo barbudo de 9 dedos que merece arder eternamente nas chamas do inferno.

Não são incomuns referências a diversas sociedades cujos hábitos são determinados pelos caprichos de divindades semi-humanas acolhidos pelos lacaios. É recorrente entre algumas culturas a veneração a animais como a vaca, o elefante ou o gato. Mas é inédita a adoração a asnos.

Quase todos os minions são brancos mas é possível, entre eles, identificar alguns negros (de alma branca). Seria injusto dizer que todos são racistas, machistas e homofóbicos. Mas estaria inclinado a afirmar que todos os racistas, machistas e homofóbicos são minions. Ok, é exagero! Uns 98% são.

No passado, os minions eram pessoas alienadas, sem interesse por política, preocupados com assuntos triviais. Foram manipulados por grupos radicais para servir como massa de manobra a seus interesses maléficos. Através de mensagens do WhatsApp, esses coitados foram convencidos a desfraldar a bandeira por temas que fogem à sua realidade.

Pacatas donas de casa que passam os dias à frente da TV de repente começaram a discutir as limitações constitucionais das atribuições do STF. Fãs de filmes de ação passaram a opinar sobre as distorções da lei Rouanet. Crédulas, fiéis aos pastores que nunca abriram um jornal desandaram a discorrer sobre as virtudes do neoliberalismo.

Os cientistas sociais fundem os neurônios para explicar o surgimento de figuras estapafúrdias como ‘religiosos armamentistas’, ‘democratas extremistas’, ‘liberais autoritários’, ‘capitalistas sem-grana’, ‘médicos antivacina’, ‘supremacistas negros’, ‘gays machistas’ etc.

Na verdade, não passam de pessoas ocas, amorfas, mortos-vivos que durante décadas omitiram-se de se envolver nas questões nacionais e de repente saem de suas catacumbas fantasiados com a camisa amarela da CBF para salvar o país do comunismo ateu.

São enfim inocentes úteis, sem capacidade de discernimento. Por trás deles, há gente graúda com projetos tenebrosos de poder. Pessoal do agronegócio que visa transformar florestas em pastos. Militares com polpudos soldos, saudosos dos tempos da ditadura. Grupos evangélicos que querem impor uma república teocrática. Facções neonazistas visando minar a democracia. Grandes proprietários empenhados em impedir reformas sociais. Esses agentes ocultos permanecem ilesos, conspirando na surdina enquanto os minions por eles instrumentalizados não conseguem entender por que estão sendo levados para o xadrez.

Mas os minions, não são dignos de nossa compaixão. Não são apenas os fofos personagens do desenho animado. Voluntariaram-se a prestar-se a esse papel ridículo de coveiros da democracia. Como poderão no futuro justificar perante seus filhos que estavam ajudando a aplicar um golpe de Estado para defender seus interesses mesquinhos ou os de pessoas inescrupulosas que os fizeram de fantoches?

Fazem jus a nosso repúdio e mereceriam pegar uns tempos de prisão para refletirem sobre o mal que fizeram ao país.

 

 

 

sábado, 7 de janeiro de 2023

SOB NOVA DIREÇÃO

Você me abre seus braços e a gente faz um país (“Fullgás”, Marina Lima & Antônio Cícero)

Estamos, desde o início de 2023, sob nova direção. Não, não vou aqui tratar de política, tema proibitivo que já rendeu tudo de ruim que podia nos últimos quatro anos, criando inimizades, apartando familiares, instituindo a segregação, o ódio e o culto às armas de fogo como programa de Estado.

Do alto de meio século de vida adulta que carrego às costas, assisti esse país sofrer inomináveis insanidades nas mãos de governantes dos mais diversos matizes. Jovem, senti as agruras de ter experimentado na pele o medo de me manifestar, quando, durante o regime militar, no ambiente escolar e nas reuniões com amigos, foi-me usurpado o direito de externar meu pensamento e debater questões de interesse geral, sob o risco de ir para a prisão ou ser tachado de subversivo.

Atravessei a fase de ascendência, em substituição aos fardados, dos políticos profissionais que assaltaram (literalmente) o poder e instituíram práticas de corrupção e ineficiência administrativa.

Testemunhei a miséria aumentar, a inflação disparar, a poupança ser impunemente confiscada, entre outros abusos de governantes ineptos e suas políticas econômicas desastrosas aplicadas pelos postos Ipiranga de plantão.

Assisti com desgosto o país ‘do futuro’, que ofereceu ao mundo o glamour do carnaval, a magia da bossa nova e a ginga de Pelé e Garrincha, entrar em decadência e perder o protagonismo no cenário mundial. Chegando a colocar-se em quinto lugar entre as maiores economias do planeta, hoje não figura sequer entre os dez primeiros. Enquanto o resto do mundo decolava, o Brasil caminhava para trás. Até o futebol, maior orgulho nacional, desabou na mediocridade, a partir do fatídico 7 x 1.

No entanto, ainda que tenha passado por tantos dissabores cívicos, jamais presenciei momentos de tamanha humilhação como os dos tempos recentes.

Tudo o que conferia ao nosso povo uma ponta de orgulho sofreu um cruel processo de desmanche nos últimos quatro anos. Nossos caros valores históricos, artísticos e culturais, nossa natureza exuberante, os povos originários, milenares guardiães das nossas florestas e rios, aquilo que enfim nos conferia nossa identidade, que nos distinguia como pátria, foram desmantelados. O país de povo acolhedor e alegre e de tantas belezas naturais, passou a ser mal visto, tornou-se um pária internacional governado por lunáticos.

Senti desalento pelo retrocesso civilizatório que nos vitimou nesse período vergonhoso em que foi aqui instituída uma república miliciano-evangélico-obscurantista.

Em lugar das glórias esportistas, passamos a ostentar o título de campeões mundiais de desigualdade social, de desmatamento e de número de óbitos por COVID (por número de habitantes).

A culpa pela situação vexatória não deve ser imputada ao grupelho arcaico e negacionista que assumiu o poder, mas àqueles que lá o alçaram pelo voto. Ou seja, ao povo brasileiro. Não me reconheci como parte dessa gente. Embora sempre tenha tido uma postura crítica a meus conterrâneos, à sua vocação de levar vantagem às custas dos demais, ao matreiro ‘jeitinho brasileiro’ e à aceitação do ‘rouba-mas-faz’, encarava a coisa com uma dose de condescendência permissiva, afinal o brasileiro é antes de tudo um gozador nato, aquele que leva tudo ‘na flauta’.

A mesma índole jocosa que no passado levou tais pessoas, como protesto, a eleger o rinoceronte Cacareco e consagrou figuras tragicômicas como Tiririca e Doutor Enéas, agora alçava ao poder um outsider, um indivíduo grotesco e inculto, um hitlerzinho bufão que passou a dirigir o país como se fosse um botequim de zona, ameaçando aos berros seus desafetos com palavras de baixo calão e nos constrangia com sua postura pouco dignificante em reuniões ministeriais e junto a chefes de Estado.  

Só que a ascensão dessa mais nova e perversa versão da bizarrice nacional não provocou risos. Não vi humor algum em assistir impotente à barbárie por ela promovida nos últimos anos pela graça (e desgraça) do projeto de destruição perpetrado com suporte das nossas elites infames.

Sim, pois a base principal de apoio ao desgoverno que se instalou partiu das camadas mais bem aquinhoadas da população. Triste constatar que esses ditos ‘cidadãos de bem’ preferiram financiar grupos de brucutus armados para que lhes fosse assegurado conservar sua posição social privilegiada do que se empenhar em construir uma nação digna com instituições sólidas e estáveis onde todos tenham direitos assegurados.

Felizmente todo esse pesadelo chegou ao fim. E a mudança foi paradoxalmente alavancada pelos mais humildes, os menos escolados, os excluídos, os habitantes das periferias das grandes cidades e dos rincões distantes do sertão nordestino. Os mesmos que não se curvaram à chantagem das medidas eleitoreiras custeadas com indecorosos malabarismos fiscais. Os mesmos que, contrariando as orientações dos pastores charlatães e dos reluzentes ídolos sertanejos, tiveram a hombridade de votar contra e pôr um basta nessa farra.

Isso não significa que devemos passar o pano nos novos dirigentes. Têm eles que ser cobrados para não sair da linha. Apesar de todo o desalento, é preciso conservar a esperança de superarmos as desventuras. Afinal a tarefa que nos cabe é nada menos do que reconstruir um país em ruínas.