segunda-feira, 25 de abril de 2022

AS 100 MAIORES MÚSICAS BRASILEIRAS DO SÉCULO XX (5ª PARTE)

 

Segue a quinta e última parte da lista das 100 maiores músicas brasileiras do século XX:

 81) MARINA – FULLGÁS

Maior sucesso de Marina (antes de agregar o Lima ao nome artístico), composição própria com seu irmão, o filósofo, escritor, crítico literário, membro da ABL e assíduo parceiro Antônio Cícero. A canção figura no álbum homônimo (1984), também o de maior êxito da cantora carioca, inclusive junto à crítica. O disco traz mais três temas conhecidos: ME CHAMA de Lobão, MESMO QUE SEJA EU de Roberto e Erasmo e VENENO de Nélson Motta. FULLGÁS, ainda que dançante, tem uma letra notável que correlaciona o conceito ‘fugaz’ com o termo inglês ‘full gas’ (cheio de gás) que, embora conflituosos, podem no amor, levar à plenitude da relação: “você me abre seus braços e a gente faz um país”. Regravada dentre outros por Lulu Santos, Simone, Fernanda Abreu, Ivete Sangalo, Emílio Santiago e Fábio Jr.

 

82) ELZA SOARES – SE ACASO VOCÊ CHEGASSE

Esse samba de Lupicínio Rodrigues da década de 30 (parceria com Felisberto Martins), gravado à época com sucesso por Cyro Monteiro, voltou a ganhar brilho mais de 20 anos depois com a singular releitura de Elza Soares no álbum batizado com o nome da canção (1960), tornando-se um dos mais representativos da sua carreira. O álbum traz outro grande sucesso, MULATA ASSANHADA de Ataulfo Alves. Tais canções consagraram o modo peculiar de cantar de Elza, análogo à técnica jazzística chamada de ‘scat’, celebrizada por Louis Armstrong e Ella Fitzgerald, em que os floreios vocais são usados como um instrumento. Porém, no caso de sambista carioca, o recurso surgiu espontaneamente, lançando mão de sua voz rouca. A artista foi ‘descoberta’ pelas novas gerações a partir do famoso dueto com Caetano em LÍNGUA do álbum VELÔ (1984), sendo entronada no altar da MPB.

 

83) LEGIÃO URBANA – QUE PAÍS É ESSE

Essa canção, utilizada em atos políticos promovidos por partidários das mais diversas correntes, tornou-se um hino. Foi a música nacional mais executada em 1987, ano em que foi lançada no álbum homônimo, o terceiro do Legião, o qual também traz a quilométrica FAROESTE CABOCLO, uma saga de 9 minutos que subverteu os padrões radiofônicos. QUE PAÍS É ESSE foi composta por Renato Russo antes do surgimento do Legião no começo dos 80’s mas tristemente continua atual com seus versos “ninguém respeita a Constituição mas todos acreditam no futuro da Nação”. A canção sobressai-se em meio a dezenas de hits do conjunto, o segundo que mais vendeu discos no país (atrás apenas dos pagodeiros do Raça Negra). Regravaram Paralamas, Capital Inicial e CPM-22.

 

84) ÂNGELA MARIA – GENTE HUMILDE

GENTE HUMILDE foi composta, sob a forma de choro, pelo violonista Aníbal Augusto Sardinha, conhecido como Garoto, na primeira metade do século. Baden Powell ‘descobriu-a’ e levou-a para Vinícius de Moraes que se apaixonou pela melodia, colocando-lhe, com a ajuda de Chico Buarque, uma letra. Esta, segundo consta, procurou ser fiel à original concepção de Garoto que, ao visitar um subúrbio do Rio de Janeiro, encantou-se com as pessoas que levavam uma vida modesta porém digna e feliz, homenageando-as com o tema. A canção entrou no álbum CHICO BUARQUE DE HOLLANDA Nº 4 de 1970 (gravado parcialmente na Itália, quando o compositor carioca se encontrava em exílio), sendo no mesmo ano registrada por Ângela Maria no álbum ÂNGELA DE TODOS OS TEMAS, sendo essa a versão que a consagrou definitivamente.  Recebeu inúmeras outras interpretações, dentre as quais, destacam-se Baden, Paulinho Nogueira, Toquinho, Paulo Bellinati, Radamés Gnatalli, Taiguara, Bethânia, Márcia, Miúcha, Moraes Moreira, Jair Rodrigues, Nelson Gonçalves, Agostinho dos Santos, Sílvio Caldas, Altemar Dutra, Chitãozinho & Xororó, Quarteto em Cy, Luiz Melodia, Ana Carolina, Renato Russo, Francisco José e Mercedes Sosa.

 

85) ZIZI POSSI – O CIRCO MÍSTICO

Chico Buarque assina algumas das melhores trilhas de espetáculos teatrais musicais como Gota d’Água, Ópera do Malandro e Calabar, o Elogio da Traição. Em O Grande Circo Místico, o compositor carioca se superou. De autoria de Chico em parceria com Edu, a trilha é irretocável. Tanto que foi mantida na transposição para o cinema sob a direção de Cacá Diegues. O enredo narra a saga de uma família austríaca, dona de um circo por cinco gerações, onde brota um improvável romance entre um aristocrata e uma acrobata. As músicas são interpretadas originalmente por Chico & Edu, Milton Nascimento, Gil, Tim Maia, Gal, Jane Duboc, Simone e Zizi Possi a qual ficou com a canção-tema, uma das mais tocantes da trilha, registrada em álbum pela Som Livre (1983), nunca tendo sido gravada por Chico. Zizi gravou-a também com outro arranjo em seu álbum PRA SEMPRE E MAIS UM DIA do mesmo ano. Regravaram Edu Lobo (álbum MEIA NOITE), Elba Ramalho e Vânia Bastos.

 

86) TONINHO HORTA – MANUEL O AUDAZ

Essa famosa canção de Toninho Horta foi gravada pela primeira vez pelo autor num pouco conhecido álbum partilhado com outros três músicos, Beto Guedes, Danilo Caymmi e Novelli, lançado pela Odeon no rastro do sucesso de CLUBE DA ESQUINA, reunindo músicos que direta ou indiretamente tivessem relação com o movimento musical. Mas tornou-se conhecida quando Toninho regravou-a em seu álbum de 1980, ao lado de Lô Borges com o ilustre acompanhamento de Pat Metheny. A composição, parceria com Fernando Brant, foi feita em homenagem a um jeep batizado como Manuel (referência ao personagem Manuelzão de Grande Sertão Veredas de Guimarães Rosa, famoso por sua sabedoria e respeito à natureza) que levava o grupo de companheiros musicais pelas estradas precárias do interior de Minas. No mesmo ano, Jane Duboc gravou-a em seu celebrado álbum LANGUIDEZ.

 

87) RENATO TEIXEIRA – ROMARIA

Ainda que tenha nascido em Santos, litoral de SP, cursado Engenharia no prestigioso ITA, começado sua vida profissional produzindo jingles publicitários e tido uma formação urbana típica de classe média, Renato Teixeira abraçou por opção a autêntica música caipira a que se dedicou. Foi através de ROMARIA, inserida no álbum de 1977 de Elis Regina, que seu nome se tornou nacionalmente conhecido. Renato também a registrou no álbum homônimo de 1978. A canção quebrou o preconceito contra esse gênero, visto dentro do contexto musical brasileiro como banal. O próprio público de Elis estranhou a iniciativa, acostumado com um repertório que privilegiava outra linha de composições. ROMARIA trata do homem simples do interior e a religiosidade do romeiro e sua devoção à Nossa Senhora de Aparecida e sua perspectiva em conseguir melhorar sua vida sofrida através da fé. A letra, sem fugir desse universo, expresso com palavras simples, carrega uma poesia comovente: “Me disseram, porém, que eu viesse aqui pra pedir de romaria e prece paz nos desaventos. Como eu não sei rezar, só queria mostrar meu olhar”. A música recebeu infindáveis versões, como as de Maria Rita, Bethânia, Alcione (com Victor & Leo), Fafá de Belém, Zé Ramalho, Passoca, Inezita Barroso, Fábio Jr, Jessé, Sérgio Reis, Daniel, João Mineiro & Marciano, Pena Branca & Xavantinho, Rosa de Saron e Padre Fábio de Mello.

 

88) DÓRIS MONTEIRO - É ISSO AÍ

Não, a canção a que nos referimos não é a manjada versão homônima de Damien Rice gravada por Ana Carolina e Seu Jorge, uma das campeãs de execução em rádio em 2006. Trata-se de um delicado samba composto por Sidney Miller especialmente para Dóris Monteiro que o registrou em seu álbum DORIS de 1971, um dos mais afamados da cantora. Tornou-se uma das conhecidas composições de Miller que, em sua breve existência (morreu aos 35 anos), destacou-se por suas elaboradas letras como em A ESTRADA E O VIOLEIRO, que no concorrido Festival de MPB de 1967 da Record faturou o prêmio de melhor letra. São de sua autoria também a cantiga de roda O CIRCO (Nara Leão) e a contestatória POIS É PRA QUÊ? (MPB-4). É ISSO AÍ foi também regravada por Joyce Moreno, Casuarina e Paula Lima que inclusive nomeou com esse título seu primeiro álbum, de 2001, num ritmo dançante, sucesso das pistas.

 

89) SÉRGIO SAMPAIO – EU QUERO É BOTAR MEU BLOCO NA RUA

O VII Festival Internacional da Canção de 1972 foi aquele que colocou uma pá de cal em cima da gloriosa era dos festivais. A destituição de Nara Leão da presidência do júri por exigência do regime militar, acompanhada da renúncia coletiva dos demais jurados, desacreditou totalmente o resultado e inviabilizou futuras iniciativas nesse campo. A despeito das adversidades, o evento teve a virtude de revelar nomes que se projetariam como Fagner, Alceu Valença, Raul Seixas, Belchior, Hermeto, Ednardo, Paulo César Pinheiro, Renato Teixeira, Ruy Mauriti e Sérgio Sampaio. Esse defendeu EU QUERO É BOTAR... que marcaria sua breve e promissora carreira, interrompida com sua morte aos 47 anos. Lançada em single, alcançou a venda de 500 mil cópias, puxando as vendas do LP homônimo (1973) e foi interpretada como um libelo anticonformista e uma convocação para colocar as massas na rua contra a repressão, personalizada na figura de Durango Kid. Foi regravada por Ney Matogrosso, Margareth Menezes, Maria Alcina, Lobão, Roupa Nova, Casuarina, Monobloco e Baiana System,

 

90) NEY MATOGROSSO – NÃO EXISTE PECADO AO SUL DO EQUADOR

Composta por Chico em parceria com o poeta moçambicano Ruy Guerra, essa canção fazia parte originalmente do álbum CALABAR de 1973 (trilha da peça Calabar, o Elogio da Traição), nome vetado pela censura, ganhando o título de CHICO CANTA.  Assim como outras faixas do álbum, todas compostas pela dupla Chico/Ruy, essa teve problemas para ser liberada, tendo algumas palavras substituídas para passar pelo crivo da censura. O nome da canção foi extraído de uma frase que, segundo o livro Raízes do Brasil do historiador Sérgio Buarque de Holanda (pai de Chico), era utilizada no século XVII, para definir o hemisfério sul do planeta como terra de ninguém, onde tudo era permitido. O fato é que a canção desvinculou-se do contexto em que foi concebida, ganhou vida própria e seu ritmo alegre projetou-a como marchinha de carnaval, sobretudo na brilhante interpretação de Ney Matogrosso, presente em seu álbum FEITIÇO (1978). Foi também gravada pelo MPB-4 & Quarteto em Cy e Marlene.

 

91) LUIZ VIEIRA – PRELÚDIO PRA NINAR GENTE GRANDE

O pernambucano Luiz Vieira deixou algumas canções que se tornaram imortais como: PAZ DO MEU AMOR - PRELÚDIO Nº 2 (sucesso na voz de Taiguara e de Hebe Camargo), MENINO DE BRAÇANÃ (regravado dentre outros por Zizi Possi, Rita Lee e Nara Leão), NA ASA DO VENTO em parceria com João do Vale (revelada por Caetano Veloso) e PRELÚDIO PRA NINAR GENTE GRANDE, também conhecida como MENINO PASSARINHO (“sou menino passarinho com vontade de voar”). Diz-se que a canção surgiu em função das inúmeras viagens aéreas que o cantador fazia por conta de compromissos que tinha como radialista e apresentador de TV em várias capitais do país. A música foi lançada originalmente em 78 rotações (1962) e depois em compacto pela gravadora Copacabana. Mas pode ser encontrada no álbum O MELHOR DE LUIZ VIEIRA. A canção foi regravada por Fagner, Ângela Maria, Hebe Camargo, Sílvio César, Agnaldo Rayol, Agnaldo Timóteo, Waldir Azevedo e Márcio Greick.

 

92) EDNARDO – PAVÃO MYSTERIOZO

Houve um tempo que a Globo usava seu poder televisivo para promover a boa música brasileira. Um exemplo é essa canção de Ednardo que, graças à inserção como tema de abertura da novela Saramandaia, tornou-se o maior sucesso da carreira do artista cearense, dois anos após entrar, sem repercussão, em seu álbum de 1974, O ROMANCE DO PAVÃO MYSTERIOZO. Ednardo inspirou-se para compô-la em um clássico da literatura de cordel do início do século XX, num difundido folheto de José Camelo Resende que trata de uma bela donzela presa por seu pai no alto de uma torre, resgatada através de um pavão mecânico. Essa história de heroísmo serviu como alegoria sobre a situação repressiva do país, onde a donzela representaria a liberdade, reclusa e fora do alcance do povo mas que seria liberta pelos aventureiros que criam ‘asas’, ao contrário dos vilões: “Eles são muitos mas não podem voar”. O realismo fantástico da novela de Dias Gomes propiciou a idealização dessas figuras míticas. A música começa com um ritmo nordestino para desembocar em hipnotizantes tambores que remetem a rituais indígenas, tendo sido apropriada pelos índios do Xingu. Regravaram a música Ney Matogrosso, Elba, Oswaldo Montenegro, Fernanda Takai, Cláudio Lins, o grupo Rastapé e a orquestra de Paul Mauriat.

 

93) PAULINHO NOGUEIRA – SIMPLESMENTE

Como expoente da música instrumental, o nome de Paulinho Nogueira aparece mais frequentemente referenciado pelos mestres de violão do que pelo público em geral. Pode ser identificado pelas sua famosa BACHIANINHA Nº 1, também conhecida na interpretação de Toquinho (seu fiel discípulo), tendo sido por ele composta em homenagem a Johann Sebastian Bach, seu maior ídolo. Dentre suas contribuições para a música, está também a craviola, instrumento musical por ele inventado. MENINA, lançada em compacto, foi sua canção mais popular, tendo alcançado as paradas de sucesso. Morreu em 2003, tendo mais de 20 LPs registrados por diversos selos e apenas seus últimos trabalhos saíram em CD. Não é o caso de SIMPLESMENTE (1974), álbum lançado pela Continental com arranjo e regência de Nélson Ayres que, além da BACHIANINHA Nº 1, traz a linda canção que dá nome ao álbum. Com o subtítulo de O BEM VERDADEIRO, SIMPLESMENTE tem um toque de bossa nova e uma letra inspiradora que motiva a auto-aceitação frente às interferências da sociedade. Foi regravada por Lula Barbosa, Carlos José, Roberto Riberti, Trovadores Urbanos e pelo próprio Paulinho no álbum CORAÇÃO VIOLÃO e, em uma versão instrumental, no álbum TONS E SEMITONS. Entrou também na trilha da novela Ídolo de Pano da TV Tupi.

 

94) ALCEU VALENÇA – LA BELLE DE JOUR

Através de SETE DESEJOS de 1992, um dos melhores álbuns de sua carreira, Alceu conquistou uma nova geração de ouvintes incorporando a seu repertório canções mais líricas e românticas, sem abrir mão do regionalismo que caracteriza o conjunto de sua obra. Sobressaem-se duas pérolas:  LA BELLE DE JOUR, um de seus maiores sucessos, homenagem à atriz Jacqueline Bisset com cuja beleza se encantou num encontro casual num bar quando o artista pernambucano encontrava-se em Paris, imaginando-a passear num domingo azul pela praia de Boa Viagem em Recife. Batizou a canção, todavia, com a designação conferida a outra musa, Catherine Deneuve, extraída da famosa película de Luis Buñuel, “A Bela da Tarde”. A outra obra-prima é TESOURA DO DESEJO, belíssima canção romântica com a brilhante participação de Zizi Possi que narra o diálogo entre dois amantes em frente a um bar do Leblon com um emocionante sax de Paulinho Andrade. No álbum ao vivo GRANDE ENCONTRO (1996), o dueto é reconstituído com Elba Ramalho. As duas canções são de autoria de Alceu.

 

95) TECA CALAZANS – CAICÓ

CAICÓ (CANTIGA)  (“oh mana, deixa eu ir, oh mana eu vou só, oh mana deixa eu ir para o sertão do Caicó”) é um tema folclórico de domínio público recolhido por Villa Lobos, tendo recebido letra de Teca Calazans, adaptação que a tornou conhecida do público. Essa cantora capixaba, mais do que em seu país natal, tornou-se conhecida na França, onde formou dupla com o músico Ricardo Villas que também por ali se encontrava, exilado por razões políticas. Lançaram diversos álbuns divulgando a música regional brasileira no exterior. De volta ao Brasil, Teca lançou diversos trabalhos sempre divulgando temas tradicionais e folclóricos e resgatando a obra de antigos compositores. Teca registrou a canção em seu álbum ao lado de Ricardo Villas (Teca & Ricardo), POVO DAQUI. Regravou-a num ritmo ligeiro no álbum FORRÓ DE CARA NOVO, com Dominguinhos, e no álbum TECA CALAZANS CANTA VILLA LOBOS. Foi também gravada por Egberto Gismonti, Pena Branca e Xavantinho, Ney Matogrosso e Trio Esperança. Mas foi a comovente versão de Milton Nascimento no disco SENTINELA (1980) que a tornou popular.

 

96) AMELINHA – FREVO MULHER

Essa composição de Zé Ramalho marca também o início de seu relacionamento amoroso com Amelinha que resultou num casamento (com dois filhos) que persistiu por cinco anos. A cantora cearense serviu-lhe de musa e a canção foi a ela destinada, nomeando seu segundo álbum de carreira (1978), que lhe rendeu um disco de ouro. A música em ritmo de forró, embalada pela sanfona do mestre Dominguinhos, tem uma energia contagiante, tornando-se uma das preferidas para embalar os blocos carnavalescos. Além do próprio Zé Ramalho no violão, participa Geraldo Azevedo, com Wilson das Neves na percussão. Como é próprio do compositor, a letra é repleta de metáforas de interpretações ambíguas: “Gemeram entre cabeças na ponta do esporão, a folha do não-me-toque e o medo da solidão, veneno meu companheiro desata no cantador e desemboca no primeiro açude do meu amor”. Além de Zé Ramalho, regravaram a canção Elba, Édson Cordeiro, Diogo Nogueira, Cláudia Leitte, Rastapé, Banda Calypso, Aviões do Forró, Jammil, Luiz Caldas, Kaleidoscópio, Robertinho do Recife,  Pato Fu, Tulipa Ruiz e Nando Reis.

 

97) BOCA LIVRE – TOADA

Despontando no fim dos anos 70, como grupo de apoio a nomes como Edu Lobo e Milton Nascimento, o Boca Livre não parecia ser fadado a prosperar num projeto próprio. À época, as gravadoras investiam apenas em artistas consagrados e música de baixa categoria com maior apelo comercial. Nesse contexto, a proposta de um conjunto vocal com repertório focado em música brasileira de qualidade, um domínio sobre o qual o consagrado MPB-4 já marcara território, não parecia promissora. Tanto que o desacreditado quarteto formado originalmente por Maurício Maestro, Zé Renato, Cláudio Nucci e David Tygel teve que bancar com recursos próprios seu primeiro vinil de 1979. O resultado foi surpreendente: mais de 100 mil cópias vendidas a partir da divulgação (com perdão da expressão) “boca a boca”, um marco na história da produção cultural independente. O carro-chefe do álbum foi TOADA (em que já se evidenciara a genialidade criativa da dupla Cláudio Nucci e Zé Renato).

 

98) BETO GUEDES – SAL DA TERRA

Desde o começo dos anos 80, com essa canção, Beto Guedes e Ronaldo Bastos já vinham alertando para a devastação ambiental (“Terra, és o mais bonito dos planetas, tão te maltratando por dinheiro, tu que és a nave nossa irmã”) e sobre a necessidade de mudarmos de atitude em relação à sua preservação (“falo desse chão da nossa casa, vem que tá na hora de arrumar”). A canção foi a faixa que puxou o álbum CONTOS DA LUA VAGA (1981), produzido por Wagner Tiso com a participação de Flávio Venturini e Joyce. Nesse mesmo álbum, a mesma dupla de compositores assinou uma outra faixa que se destacou, CANÇÃO DO NOVO MUNDO sobre a esperança de um mundo melhor e sem violência (“nem a força bruta pode um sonho apagar”). Gravaram SAL DA TERRA Simone, Jussara Silveira, Sandra de Sá, Maria Gadú, 14 Bis, Roupa Nova, Orlando Morais, Jessé, Ivete Sangalo, Angélica, Sylvinha e Jota Quest.

 

99) GILSON – CASINHA BRANCA

A singela música do então pouco conhecido cantor potiguar (parceria com Joran e Marcelo), ao entrar na trilha da novela Marron Glacé de 1979, tornou-se um fenômeno de execução nas rádios. Integrou também o primeiro álbum do cantor desse mesmo ano. Aborda ela uma questão atemporal já revista por CASA NO CAMPO de Zé Rodrix: a opção por uma vida despojada em uma casinha simples do interior, longe da turbulência das grandes cidades. Foi regravada por inúmeros astros como Roberta Campos, Bethânia, Maria Creuza, Fábio Jr, Peninha, José Augusto, Gian e Giovani, Cascatinha & Inhana e Neguinho da Beija Flor. Recebeu até uma inusitada versão de Jim Capaldi, membro do lendário grupo britânico Traffic. O roqueiro tem afinidade com o Brasil, tendo vivido na Bahia por alguns anos (mais tarde gravaria também ANNA JÚLIA da banda Los Hermanos). A bela releitura de Capaldi de 1981 ganhou o título de OLD PHOTOGRAPHS e embora conservasse a melodia da original de Gilson e uma temática similar, recebeu em inglês uma letra diferente.

 

100) MORAES MOREIRA – GUITARRA BAIANA

O cantor, compositor e instrumentista baiano, conhecido por ser vocalista e principal integrante dos Novos Baianos, partiu para a carreira solo a partir de 1975. Seu primeiro álbum, nesse ano, pela Som Livre, vinculado que estava ao trio elétrico de Dodô e Osmar, apresenta diversos temas associados ao carnaval baiano, com destaque à psicodelia e ao trabalho instrumental. Para tanto, contou com suporte de Armandinho (guitarra e bandolim), Dadi (baixo), Gustavo Schroeter (bateria) e Mú Carvalho (teclados), músicos que viriam a formar o grupo A Cor do Som. GUITARRA BAIANA é uma faixa instrumental de sua autoria em que Moraes faz uma introdução em vocalise e toca violão, acompanhado de Armandinho na guitarra. A canção recebeu uma adaptação pela qual é mais conhecida que entrou na trilha da primeira versão da novela Gabriela (1975).

 

 

 

  

 

 

 

Confira a 1ª parte:

https://oquedemimsoueu.blogspot.com/2022/03/as-100-maiores-musicas-brasileiras-do.html

 

Confira a 2ª parte:

https://oquedemimsoueu.blogspot.com/2022/03/as-100-maiores-musicas-brasileiras-do_27.html

  

Confira a 3ª parte:

https://oquedemimsoueu.blogspot.com/2022/04/as-100-maiores-musicas-brasileiras-do.html

  

 Confira a 4ª parte:

https://oquedemimsoueu.blogspot.com/2022/04/as-100-maiores-musicas-brasileiras-do_17.html

 


 

 

 

 

 

domingo, 17 de abril de 2022

AS 100 MAIORES MÚSICAS BRASILEIRAS DO SÉCULO XX (4a PARTE)

  

Segue a quarta parte da lista das 100 maiores músicas brasileiras do século XX:

 

61) SECOS & MOLHADOS – ROSA DE HIROSHIMA

ROSA DE HIROSHIMA foi, ao lado de SANGUE LATINO, o grande hit do primeiro álbum do grupo paulista com Ney Matogrosso como vocalista, uma das obras primas certificadas da discografia nacional. O álbum, que traz mais temas conhecidos (O VIRA, ASSIM ASSADO, O PATRÃO NOSSO DE CADA DIA, FALA), além do reconhecimento da crítica, alcançou um êxito comercial sem precedentes, com mais de um milhão de cópias vendidas. A melodia de autoria do violonista Gerson Conrad sobre um poema de Vinícius de Morais foi a única faixa não creditada ao líder do grupo, João Ricardo. Trata-se de um clamor pacifista contra a barbárie das bombas atômicas lançadas sobre as cidades de Hiroshima e Nagasaki no Japão que teve como saldo de 250 mil pessoas mortas além das inumeráveis consequências advindas da radioatividade (“pensem nas crianças mudas telepáticas, pensem nas meninas cegas inexatas, pensem nas mulheres rotas alteradas, pensem nas feridas como rosas cálidas”). A rosa é também uma metáfora para a imagem em forma de flor da explosão nuclear, a antítese entre a beleza da flor e a repulsa do genocídio. Além de ser regravada por Ney em disco solo, foi também registrada por Arnaldo Antunes, Rita Ribeiro & Jussara Freire, pelos grupos Akundum, Salário Mínimo e Raices de America e pelo músico argentino Pedro Aznar.

 

62) TOQUINHO – AQUARELA

Toquinho, exímio violonista, tornou-se famoso especialmente por suas prestigiosas parcerias. Além de Vinícius de Morais, com quem manteve uma duradoura dupla de sucesso (não apenas no Brasil mas na Itália e na Argentina), tem colaborações com Chico, Benjor, Paulinho da Viola, Belchior, Jane Duboc, Paulinho Nogueira, Guarnieri, Paulo Vanzolini, MPB-4, Paulo Ricardo (RPM) e com o saxofonista japonês Sadao Watanabe. Sobressaiu-se também por projetos voltados a crianças como diversas composições de ARCA DE NOÉ, um dos mais conhecidos discos voltados para o público infantil, e no álbum colaborativo CASA DE BRINQUEDOS (que revelou a canção O CADERNO, interpretada por Chico Buarque). Mas com AQUARELA, o artista paulistano atingiu o pico. Quando estava na Itália, Toquinho apresentou um esboço da música (parceria com Vinícius) a dois compositores italianos Maurizio Fabrizio (Mushi) e Guido Morra, que, em conjunto, criaram a canção ACQUARELLO. Lançada no mercado italiano, fez um espantoso sucesso (ganhando disco de ouro). Só então foi lançada no Brasil, onde o sucesso foi ainda maior, tornando-se um dos mais famosos temas infantis. Faz parte do álbum homônimo de Toquinho (1983).  

 

63) CHICO SCIENCE & NAÇÃO ZUMBI – A CIDADE

Quando lançaram o álbum DA LAMA AO CAOS em 1994, Chico Science e o grupo Nação Zumbi não avaliaram a dimensão da revolução estética e cultural que estavam desencadeando.  O disco tido como primeira manifestação do movimento “manguebeat” influenciou toda uma geração de artistas sobretudo do Nordeste e se firmou como uma das mais importantes obras das últimas décadas.  Science sacudiu o panorama musical com sua fusão de ritmos regionais como o maracatu e o frevo com sons universais como o rock hardcore e o hip hop, privilegiando percussão e batidas. Nesse sentido, a proposta foi mais radical que no álbum seguinte, AFROCIBERDELIA (mais pop e que contém MARACATU ATÔMICO de Jorge Mautner). A faixa A CIDADE se sobressaiu, contextualizando a metrópole como palco para os embates e disputa pelo poder às custas de degradação e do caos urbano: “a cidade não para, a cidade só cresce, o de cima sobe e o de baixo desce”. O modelo de dinâmica degenerativa foi Recife, onde o artista nasceu e cresceu: “num dia de sol Recife acordou com a mesma fedentina do dia anterior”. A canção foi regravada por Marina Lima, Rebeca Matta e Mundo Livre S.A.

 

64) NANA CAYMMI – RESPOSTA AO TEMPO

Nana Caymmi sempre foi uma cantora respeitável, com um repertório distinto e uma interpretação sóbria, sem concessões. RESPOSTA AO TEMPO, sem abrir mão de seu seleto padrão, alcançou um resultado excepcional, o maior sucesso da cantora carioca, assim como o álbum que a contém (1998). É verdade que seu desempenho foi turbinado ao servir de tema de abertura para a minissérie Hilda Furacão, mas isso é insuficiente para explicar o imenso êxito que coroou o talento do maestro e pianista Cristóvão Bastos que já tinha composto uma década antes outra joia, TODO O SENTIMENTO, parceria com Chico Buarque. Agora o parceiro foi outro letrista de mão cheia, Aldir Blanc que confirmou seu dom especial para boleros (assim como DOIS PRA LÁ DOIS PRA CÁ). RESPOSTA AO TEMPO é construída como um diálogo com o tempo que transcorre implacavelmente, um tema (com perdão do trocadilho) atemporal.  O próprio Aldir registrou a canção em seu único álbum como intérprete, VIDA NOTURNA (2005). A canção foi também regravada por Milton Nascimento, Simone, Miúcha e Claudette Soares.

 

65) JARDS MACALÉ – MOVIMENTO DOS BARCOS

Composição de dois músicos ligados à primeira fase do tropicalismo, Jards Macalé e Capinan. Consta do primeiro disco de Macalé de 1972 conhecido pela faixa de abertura, FARINHA DO DESPREZO (outra parceria com Capinan), com participação dos cultuados Lanny Gordin na guitarra e Tutty Moreno na batera (esposo da cantora Joyce). A melodia melancólica (sentimento que prevalece ao longo do álbum), foi composta por Macalé após se afastar do movimento tropicalista. A bela letra de Capinan (conhecido do grande público pelas parcerias com Edu Lobo em PONTEIO e com Gil em SOY LOCO POR TI AMERICA) ressalta que “é impossível levar um barco sem temporais”. A mesma dupla iria compor a impactante GOTHAM CITY, apresentada por Macalé no FIC de 1968 da Globo. MOVIMENTO DOS BARCOS, apresentada também por Macalé no show Phono  73, foi mal recebida pela plateia que não se sensibilizou ante as sutilezas tecidas pelo violão do músico carioca. Mas foi reabilitada na voz de Bethânia que a gravou em três álbuns: ROSA DOS VENTOS (1971), DRAMA 3º ATO (1973) e DENTRO DO MAR TEM RIO (2007), sempre ao vivo. Foi regravada também por Toni Platão, Maria da Paz e grupo Ava.

 

66) CAZUZA – CODINOME BEIJA-FLOR

Líder do consagrado Barão Vermelho, banda de ponta do chamado BRock (rock dos anos 80), Cazuza ambicionava novos caminhos, tendo se aventurado com o álbum EXAGERADO (1985) em uma incerta carreira solo. Já de cara, rompeu paradigmas com essa reflexiva canção romântica que viria a se tornar um de seus maiores hits, onde, ao invés da guitarra, sobressaem-se os teclados conduzidos por Nico Rezende. Escrita no quarto de um hospital, de onde avistava um renitente beija-flor à janela que diariamente o visitava, recebeu um arranjo intimista proposto pelo crítico Ezequiel Neves (coautor ao lado de Reinaldo Arias e do próprio Cazuza). A singela letra provocou discussões por incluir uma indecifrável (mas instigante) expressão “só eu que podia, dentro de sua orelha fria, dizer segredos de liquidificador” (?). A canção passou dois anos figurando entre as mais executadas no rádio e recebeu mais de 70 regravações das quais se destacam a de Luiz Melodia, Barão Vermelho, Fábio Jr, Wando, Ângela & Cauby, Emílio Santiago, Simone, Joanna, Leila Pinheiro, Ana Cañas, Diogo Nogueira, Pedro Mariano, Gian & Giovani, Simony e Richard Clayderman.

 

67) IVAN LINS – ABRE ALAS

Essa canção inaugura uma longa coleção de parcerias entre Ivan e Vítor Martins que inclui: BANDEIRA DO DIVINO, DINORAH DINORAH, CARTOMANTE, DESESPERAR JAMAIS, SOMOS TODOS IGUAIS NESTA NOITE, COMEÇAR DE NOVO, VITORIOSA, ITUVERAVA etc. Foi também a primeira de uma série de canções contestatórias de Ivan, ressaltando a falta de liberdade (“encoste essa porta que a nossa conversa não pode vazar; a vida não era assim, não era assim”) e a esperança por melhores tempos (“abre alas pra minha folia, já está chegando a hora”). Rompe assim a falsa imagem de ufanismo criada com O AMOR É O MEU PAÍS, 2º lugar no FIC de 1970, em plena vigência do regime militar. Nesse mesmo ano, Elis gravaria MADALENA, uma de suas mais famosas composições, abrindo espaço para a exitosa carreira do artista carioca. ABRE ALAS, com uma abertura de piano que remete aos clássicos do Clube da Esquina, integra o álbum MODO LIVRE (1974). Regravada por Quarteto em Cy, Pery Ribeiro, Tânia Maria, Carol Saboya, MPB-4, Claudette Soares, Leny Andrade, Lani Hall e Sarah Vaughn.

 


68) ELOMAR – O VIOLEIRO

Ainda que Elomar seja um dos maiores artistas da nossa música, o valor da obra do cantador é por poucos reconhecido, devido a suas características pouco convencionais. Integrando o erudito com o regional, utiliza-se de uma linguagem dialetal com termos herdados da tradição árabe e ibérica incorporados à cultura nordestina pela colonização portuguesa (“cantadô di trovas i martelo di gabinete, lijêra i moirão”). Como resultado de sua vivência no sertão baiano, afastado da civilização, aborda tópicos como a religiosidade, o folclore, a natureza, a problemática social e temas universais como o amor. A maneira singular como dedilha o violão subverte os padrões a que nossos ouvidos estão acostumados, embora uma única audição baste para cativar o ouvinte pela sua beleza e originalidade. Seu primeiro álbum, ...DAS BARRANCAS DO RIO GAVIÃO (1972) o único lançado por uma grande gravadora, a Polygram reúne 12 composições próprias tendo merecido na contracapa uma especial apresentação de um ilustre fã: Vinícius de Moraes. O VIOLEIRO, faixa que abre o disco tem versos que traduzem a sina do trovador: “apois pro cantador e o violeiro só hai três coisa nesse mundo vão: amor, forria, viola, nunca dinheiro; viola, forria, amor, dinheiro não.” A música foi também gravada por Fagner, Elba, Raices de America, Tiago Pinheiro (com Marlui Miranda), Titane e Xangai.

 

69) SIDNEY MILLER – POIS É PRA QUÊ?

Ele costuma ser comparado a Chico Buarque de quem foi contemporâneo. Exagero? Nara Leão (que tinha o dom de revelar novos talentos) em seu álbum de 1967, VENTO DE MAIO gravou quatro faixas do jovem Chico e cinco do jovem Sidney, incluindo O CIRCO, a de maior sucesso. Destacava-se sobretudo (coisa rara) como letrista. No mais concorrido de todos os festivais, o de 1967 da Record, sua composição A ESTRADA E O VIOLEIRO faturou o prêmio de melhor letra, derrotando nesse quesito Chico, Vinícius, Caetano, Gil, Edu Lobo, Vandré, Vítor Martins, Renato Teixeira, Tom Zé e outros figurões da MPB. Sua promissora carreira terminou prematuramente com sua morte por infarto aos 35 anos e apenas 3 álbuns gravados. O segundo, DO GUARANI AO GUARANÁ (1968), teve participações ilustres (Nara, Paulinho da Viola, Gal, MPB-4, Macalé) mas a faixa que se sobressaiu foi por ele mesmo interpretada: a toada POIS É PRA QUÊ? A música que denota o desalento ante a situação política no país tornou-se conhecida na voz do MPB-4 (álbum DE PALAVRA EM PALAVRA de 1971).

 

70) MAYSA – BARQUINHO

Essa canção de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli marca uma mudança de temática da bossa nova antes focada em dramas românticos, herança dos boleros e sambas-canção, passando a relevar aspectos despojados da paisagem costeira de cidades como a do Rio de Janeiro com seu mar e suas belezas naturais. Segundo consta, BARQUINHO foi inspirada num episódio em que os autores ficaram à deriva em alto mar, sendo resgatados de volta ao cais. A música de 1961 era para ser interpretada por Nara Leão, então com 19 anos, namorada de Bôscoli. Todavia Maysa antecipou-se e roubou-lhe a música e o namorado. Registrou-a no álbum homônimo (1961). A canção foi regravada por João Gilberto, Pery Ribeiro, Paulinho Nogueira, Elis, Baden, Altamiro Carrilho, Jair Rodrigues, Fernanda Takai, Rosana e Sandy. No exterior, por Andy Summers (com Roberto Menescal), Peggy Lee, Kerry Allyson, Stacey Kent etc.  E até pela indulgente Nara em 1986.

 

71) RUY MAURITY TRIO – SERAFIM E SEUS FILHOS

Irmão do pianista Antonio Adolfo, Ruy Maurity seguiu caminho bem diverso, dedicando-se à música regional. Há quem diga que foi um dos precursores do chamado rock rural. Com DIA 5 venceu o Festival Universitário de 1970 derrotando nomes como Ivan Lins, Gonzaguinha e Aldir Blanc. Teve diversas canções escaladas para novelas da Globo  (especialmente Fogo Sobre Terra). Mas ficou conhecido mesmo pela belíssima SERAFIM E SEUS FILHOS de sua autoria (parceria com José Jorge) do álbum EM BUSCA DO OURO (1972).  Em 1976, Ruy registrou-a com novo arranjo no álbum NEM OURO NEM PRATA e em 1980 criou uma continuação, ARTIMANHAS DE LOURENÇO FILHO DE SERAFIM, mantendo a mesma melodia com nova letra. Mas a gravação original é a que se eternizou. A música explora o mundo mágico e as lendas reprodutoras do imaginário do homem do interior. Com base no folclore, narra a saga de Serafim e seus 4 filhos bandoleiros, o menor dos quais afastou-se do grupo e foi por isso assassinado pelo pai, voltando sob a forma de lobisomem para aterrorizar a família. Essa canção tornou-se um clássico no gênero sendo encampada por várias versões incluindo sertanejos: Eduardo Costa, Zezé di Camargo & Luciano, Sérgio Reis, Amado Batista, Trio Esperança e Grupo Tarancón.

 

72) RITA LEE –DOCE VAMPIRO

Rita Lee reinou como rainha do rock desde que se separou d’Os Mutantes. Com o álbum lançado em 1979, identificado pela primeira faixa MANIA DE VOCÊ, entra numa nova frase (embora o rock ainda se faça presente como em PAPAI ME EMPRESTA O CARRO), explorando novos ritmos e criando temas com intensidade romântica e sensual, efeito de sua fervorosa relação amorosa com seu marido e colaborador, o guitarrista Roberto de Carvalho. Mas a veia transgressora, desbocada e criativa da ‘ovelha negra’ permanece lá. Isso transparece em CHEGA MAIS, MANIA DE VOCÊ e DOCE VAMPIRO. As três tornaram-se megahits, mas DOCE VAMPIRO foi a que melhor se preservou dos efeitos do tempo, fazendo jus à ideia de que o maléfico ser não envelhece, ou mais provavelmente por tratar da imemorial associação entre vampirismo e erotismo (“brindando a morte e fazendo amor”). Rita compôs essa canção (a única do álbum de sua exclusiva autoria), segundo consta, quando solitária no quarto em sua casa em SP imaginou a chegada de Roberto que vivia no RJ, entrando pela janela como se fosse um vampiro. Foi regravada por Ney Matogrosso e Ná Ozzetti.

 

73) MPB-4 –AMIGO É PRA ESSAS COISAS

Canção que marcou para sempre a genialidade do então novato Aldir Blanc (em parceria com Sílvio da Silva Jr) com uma irrepreensível interpretação do MPB-4 que narra um diálogo entre dois amigos na mesa de bar em que um deles confidencia suas desventuras e desesperança enquanto o outro procura animá-lo. A canção ficou em 2º lugar no Festival Universitário da TV Tupi de 1970 e saiu no álbum DEIXA ESTAR (mesmo ano) do conjunto carioca. Foi também registrada pelas duplas Ruy Faria (ex-MPB-4)/Chico Buarque,  Ruy Faria/Carlinhos Vergueiro e Emílio Santiago/João Nogueira. A mesma dupla de compositores criou uma continuação bem humorada também interpretada pelo MPB-4, onde os mesmos amigos voltam a se encontrar em novas circunstâncias já num clima descontraído de abertura política: AMIGO DA ONÇA no álbum BONS TEMPOS HEIN?! (1979).

 

74) PENA BRANCA E XAVANTINHO – O CIO DA TERRA

A dupla Chico/Milton que em 1976 já produzira O QUE SERÁ?, foi responsável por outra deslumbrante canção, O CIO DA TERRA. A melodia de Milton inspirou-se em grupos folclóricos chilenos e no canto das camponesas envolvidas na colheita do algodão no Vale do Rio Doce , à que Chico apôs uma letra para comemorar o movimento sindical que se organizava no país com a abertura política no ano de 1977. A música foi lançada originalmente como lado B de um compacto, onde o lado A continha PRIMEIRO DE MAIO, outra composição da dupla, menos conhecida. Ambas são interpretadas em dueto pelos autores. O CIO DA TERRA, em poucos versos, sublinha a sagrada relação entre o agricultor e a terra a qual retribui com provimentos o labor nela despendido pelo trabalhador rural, respeitando seus ciclos: “afagar a terra, conhecer os desejos da terra, cio da terra, a propícia estação e fecundar o chão”. A canção ganhou ainda mais autenticidade ao ser interpretada pela dupla Pena Branca e Xavantinho, especializada em divulgar a genuína música sertaneja. Ingressou em seu álbum CIO DA TERRA produzido por Tavinho Moura com participação de Milton e Marcus Viana. A canção foi também gravada por Bethânia com Omara Portuondo, Mercedes Sosa, Raices de America, Uakti, MPB-4, Quarteto em Cy, Banda de Pau e Corda, Tetê Espíndola, Sérgio Reis, Christian & Ralf e Chico Rey & Paraná. 

 

75) ROUPA NOVA – SAPATO VELHO

Quem avalia a carreira do Roupa Nova por suas canções românticas de apelo popular, talvez não imagine que o grupo também se sobressai no quesito qualidade (com músicos habilidosos e um competente trabalho vocal). E tem pedigree: nasceu apadrinhado por ninguém menos do que Milton Nascimento, admirador de primeira hora, que aliás ajudou a batizar o grupo com o título de uma de suas canções. Seu primeiro álbum de 1981 permanece como a mais honesta referência do grupo. O disco traz os dois primeiros hits: CANÇÃO DE VERÃO (Luiz Guedes e Thomas Roth) e SAPATO VELHO (Mú, Paulinho Tapajós e Claudio Nucci), certamente um dos mais belos exemplares da MPB. Frente aos mirabolantes números que o grupo ostenta em seu currículo, o humilde álbum de 1981 com suas modestas vendas de 15 mil cópias traduz com perfeição o que dizem as palavras de SAPATO VELHO: “Você lembra, lembra daquele tempo, eu tinha estrelas nos olhos, um jeito de herói, era mais forte e veloz que qualquer mocinho de cowboy (...) Talvez eu seja simplesmente como um sapato velho mas ainda sirvo se você quiser, basta você me calçar que eu aqueço o frio dos seus pés”. Foi também gravada por Cláudio Nucci, Paulinho Tapajós, A Cor do Som, Markinhos Moura e Quarteto em Cy.

 

76) WANDO – FOGO E PAIXÃO

Nesses tempos de demolição de dogmas, o que há pouco era tido como cafona, vem sendo ressignificado pelos novos padrões de aceitação. Com a eclosão de músicas de baixíssimo padrão, chegou-se à conclusão que o antigo brega afinal de contas não era assim tão ruim. Wando, representante máximo dessa vertente, por exemplo, sempre foi marginalizado pela MPB devido a seus temas românticos de apelo popular que mais tarde passaram a resvalar para o erotismo e a obscenidade com a distribuição de calcinhas em seus shows. FOGO E PAIXÃO, com seus grudentos (e geniais) versos de abertura: “você é luz, é raio, estrela e luar, manhã de sol, meu iaiá, meu ioiô”, sua música mais adorada, foi lançada no álbum VULGAR E COMUM É NÃO MORRER DE AMOR (título que denota uma resposta a seus críticos) de 1985. A música foi de sua autoria juntamente com sua mulher Rose, mas o cantor cavalheirescamente quis destinar os créditos apenas a ela. Foi regravada pelos Demônios da Garoa, Originais do Samba, Raça Negra, Edith Veiga, Reginaldo Rossi, Fábio Jr, Zeca Baleiro e Nando Reis.

 

77) GONZAGUINHA – O QUE É O QUE É

Uma ode à esperança e à alegria. Essa canção, presente no álbum CAMINHOS DO CORAÇÃO (1982) marca uma mudança radical de postura de Gonzaguinha: “É a vida e é bonita, é bonita (...) viver e não ter a vergonha de ser feliz” diz o refrão. Nem parece o mesmo compositor que nove anos antes proferia com rancor: “tudo vai bem, tudo legal, cerveja, samba e amanhã seu Zé se acabarem com seu Carnaval?” em COMPORTAMENTO GERAL, canção que o deixou visado pelo DOPS, órgão de repressão aos opositores do governo militar, mas também moldou ao jovem filho de Luiz Gonzaga (reconhecido como Luiz Gonzaga Jr) a imagem de um sujeito amargo e pessimista. Com a abertura política, já reconhecido como “Gonzaguinha”, o artista carioca passou a focar mais temas românticos, gravados por cantoras como Bethânia, Elis, Gal, Simone e Joanna. Ficou de bem com a vida, a mesma que lhe foi trágica e ironicamente tirada num acidente automobilístico aos 45 anos. O QUE É... foi gravada por seu filho Daniel Gonzaga e também por Zizi Possi, Beth Carvalho, Bethânia, Diogo Nogueira, Emílio Santiago, MPB-4, Margareth Menezes, Zé Ramalho, e Padre Fábio Mello.

 

78) LENO & LÍLIAN – EU NÃO SABIA QUE VOCÊ EXISTIA

Adriana Calcanhotto foi responsável por resgatar um dos maiores êxitos da Jovem Guarda, DEVOLVA-ME. O compacto com a canção interpretada por Leno & Lílian que tinha do outro lado, POBRE MENINA, outro grande sucesso, manteve-se por semanas no pico das paradas de sucesso. DEVOLVA-ME é da autoria de Lílian (Knapp) com Renato Barros, líder do grupo Renato & Seus Blue Caps. O músico e compositor que, aliás, era namorado da cantora, foi autor de outro inesquecível sucesso da dupla lançado em seguida,  EU NÃO SABIA QUE VOCÊ EXISTIA, com Pedrinho da Luz dos Fevers arrepiando na guitarra. As três canções entraram no primeiro álbum de L&L de 1966.  No ano seguinte, antes do lançamento do 2º LP, a dupla se desfez. Mais tarde, sob o comando de Raul Seixas (na época, Raulzito), voltaram a se reunir mas sem o mesmo brilho. Seguindo carreira solo, Lilian Knapp teve dois discos de sucesso enquanto Leno passou a ser Gileno buscou novos rumos musicais. EU NÃO SABIA... foi regravada por Renato & seus Blue Caps, Os Vips, The Fevers, Jane & Herondy, José Augusto, Angélica, Zé Renato e Arrigo Barnabé.

  

79) MILTON BANANA TRIO – CIDADE VAZIA

O baterista Milton Banana marcou presença em momentos chave da história bossa nova como a gravação original de CHEGA DE SAUDADE com João Gilberto (1959), no show BOSSA NOVA AT CARNEGIE HALL (1962) e no álbum GETZ/GILBERTO, o disco que expandiu o ritmo para o mundo (1964). Comandou uma banda, algo insólito para um baterista, o Milton Banana Trio. Entre os mais de 20 álbuns gravados pelo grupo, destaca-se BALANÇANDO COM MILTON BANANA TRIO (1966), conjunto composto à época por Cido Bianchi ao piano e Mário Augusto no contrabaixo (formação que depois se alteraria), que traz essa pérola do samba-jazz, CIDADE VAZIA, composição de Baden Powell com letra de Lula (Luís Fernando) Freire. A música foi gravada inicialmente por Elizeth Cardoso no álbum MUITO ELIZETH (1966), porém foi a eletrizante versão instrumental de Milton Banana que a consagrou. Foi também registrada pelo próprio Baden no álbum BADEN POWELL QUARTET VOL. 2 (1970), pelo Zimbo Trio, pelo SOM 3 de César Camargo Mariano, por Amilton Godoy e Leo Gandelman. Djalma Dias com Sambossa 5 e Marianna Leporace fizeram a versão cantada.

 

80) CAPITAL INICIAL – PRIMEIROS ERROS

Kiko Zambianchi ficou surpreso quando foi convidado para participar de um álbum ao vivo do grupo Capital Inicial patrocinado pela MTV com seu maior sucesso, PRIMEIROS ERROS, também conhecida como CHOVE. Faz aí uma analogia entre erros que cometemos e a ausência de sol, mas a mudança é difícil pois “só chove, chove, chove, chove”. A música fora gravada com sucesso pelo autor no seu álbum de estreia, CHOQUE (1985), e a cantora Simony acabara de lançar um cover. CHOVE Parecia já ter rendido o que podia. O Capital também não estava nos melhores tempos. Vinha em trajetória descendente e o vocalista Dinho Ouro Preto que abandonara o grupo para tentar carreira solo, retornara para participar do referido álbum e reerguer o grupo. Contrariando todas as expectativas, o ACÚSTICO do Capital foi um arraso, um dos mais bem sucedidos do projeto MTV. E PRIMEIROS ERROS acabou se tornando surpreendentemente o grande sucesso do álbum a ponto de muitos julgarem tratar-se de uma composição do grupo brasiliense. Lobão regravou-a em 2018 em seu álbum ANTOLOGIA POLITICAMENTE INCORRETA...

 




 

 

Confira a 1ª parte:

https://oquedemimsoueu.blogspot.com/2022/03/as-100-maiores-musicas-brasileiras-do.html

 

Confira a 2ª parte:

https://oquedemimsoueu.blogspot.com/2022/03/as-100-maiores-musicas-brasileiras-do_27.html

  

Confira a 3ª parte:

https://oquedemimsoueu.blogspot.com/2022/04/as-100-maiores-musicas-brasileiras-do.html

 

Confira a 5ª parte:

https://oquedemimsoueu.blogspot.com/2022/04/as-100-maiores-musicas-brasileiras-do_25.html