sábado, 4 de abril de 2026

DIGNÍSSIMO CANALHA (VERSÃO 2026)

 
Pelo presente instrumento, venho desrespeitosamente dirigir-me a vossa excelência, em minúsculas, na dimensão da pequenez moral que encarnas. Refiro-me a ti, nobre calhorda, investido que estás da augusta prerrogativa, intransferível e vitalícia, de decidir o destino dos que habitam o mundo dos vivos, já que o dos mortos foge à tua jurisdição, embora almejes equiparar-te ao Ser Supremo que, inobstante os acórdãos do teu STF, exerce deliberações irrevogáveis no reino celestial.

A ti, que acolhes a reverência do povo que, passivo, aguarda tuas soberanas e irretocáveis decisões peremptórias. A ti, que te vales das prerrogativas que te distingue dos simples mortais, relegados à sua insignificância, quando de tua boca ouvem o famigerado “sabe com quem estás falando?”. A ti, ente indigno que, indignado, bradas por direitos inalienáveis enquanto vives na intimidade inescrutável da tua vida privada de práticas inconfessáveis. A ti, que por exercer o ofício de julgar os outros, julgas-te acima dos outros.

Venho oficiar-te, honorável patife, que encontro maior retidão e honra na palavra sincera que brota do coração de um pobre inculto do que nos alfarrábios que sustêm tuas áridas sentenças intermináveis. As mesmas que ambicionas inscrever nos anais da imortalidade, onde ostentas para as gerações futuras tua soberba grandiloquência farisaica e tua rocambolesca sapiência estéril.

Os recursos do erário que faltam no amparo aos desprovidos, amealhas sem cerimônia ou parcimônia para manter intacto esse intrincado e indecifrável sistema, tão inócuo quanto iníquo, que cinicamente intitulas como ‘Justiça’. Revestes com aura de magnificência e infalibilidade essa espetaculosa pantomima patética e embusteira sob a qual se vergam as vidas dos que se submetem ao jugo do teu julgar.

Esgueiras-te por esse emaranhado de leis, decretos, normas, códigos, regimentos, resoluções, regulamentos que se presta como barreira ao acesso dos leigos, vedando-lhe o acesso ao teu território demarcado. Atribuis a ti mesmo o monopólio do saber e das práticas legitimadas ‘por lei’. Para que, na mesma medida em que expandes a doutrina do DIREITO, reduzes o primado da JUSTIÇA.

A chave de tua inoperância tem nome: PRAZO. Permites que os julgamentos se arrastem indefinidamente, sob a cínica presunção de que a justiça necessita de décadas para abarcar os infinitos meandros legais. E assim vais multiplicando as instâncias para alargar tanto os períodos de apreciação quanto o tamanho do teu patrimônio pessoal.

 Adias, protelas, procrastinas, prorrogas, retardas, demoras, diferes, pospões, alongas, espichas, espacejas, alastras, dilatas, encompridas, acresces, expandes, empurras com a barriga até ver coroada a prescrição do crime. Conside­raste, eminente pulha, que, após décadas de espera, a sentença já foi proferida, independentemente do trânsito em julgado? Devo informar-te, distinto safardana, que quem aguarda por anos, seja amargando a privação de um direito ou usufruindo do gáudio de uma pena descumprida, já é repositório do veredito, seja o que venha constar no papel. Todo esse ritual inesgotável serve apenas para tornar a justiça uma peça utópica, inatingível para os dela sedentos.  

Sai da tocaia, egrégio velhaco. Desce do palácio de capítulos, parágrafos, alíneas, incisos, caputs e cláusulas em que te enclausuras. Cumpre salientar, excelentíssimo pústula, que as ruas, distantes dos terraços dos palácios erguidos para te apartares da realidade de fato (e de direito), já não pertencem àqueles que nelas deveriam transitar, dominadas pelos malfeitores que libertaste das masmorras por artifícios legais e expedientes processuais, devolvidos à liberdade para continuar delinquindo, convictos de que os braços da lei jamais os alcançarão. Facínoras de toda espécie a quem remiste de pena, zombam daqueles que se pautam por princípios e honradez, sem armas, armações ou respaldo advocatício.

Pessoas corretas vivem ao arrepio das formalidades legais que utilizas para agrilhoar os cidadãos, emparelhados pelo mesmo nível de calhordice que estabeleces tendo por referência teu espúrio padrão de valores. Com o intuito de que venham necessitar de tua mediação remunerada segundo a tabela do OAB.

Sob o manto de teu propalado ‘estado de direito’, corruptos e ladrões escapam ilesos de suas falcatruas. Contam não apenas com tua plácida condescendência, mas com tua cruel cumplicidade. São para esses que aplicas a máxima leniência, amparando-os com a força irrefutável das brechas da lei, concedendo-lhes draconiana indulgência. Cobrindo com o verniz legalista da imunidade a impunidade. “Por falta de provas”, provas.

Quando se erguem vozes contra tua ineficácia, a estratégia de defesa já está traçada: eximir-te de responsabilidade. Culpas os legisladores, a polícia, a escassez de juízes, seus salários insuficientes e o excesso de carga horária, a inexistência de vagas no sistema prisional, a carência de investimentos, os problemas sociais, a ausência de políticas públicas, a colonização portuguesa. Assim, absolves-te ‘in totum’.

Todo teu empenho converge para um único objetivo: não punir. Inocentes ou culpados, pouco importa, prevalece sempre o princípio ‘in dubio pro reo’. Desde que teus honorários sejam quitados com precisão, integralidade e... justiça.

Quando um crime hediondo mobiliza a opinião pública, tens à mão um arsenal para abrandar o rigor da pena: tornozeleira eletrônica, prisão domiciliar, bom comportamento, atenuantes, progressão do regime, indulto, ‘saidinha’ de Natal, superlotação carcerária, penas alternativas, remissão, sursis, audiências de custódia. Tudo preparado para abrandar ou extinguir a punição. E criar novas possibilidades de utilizar teus serviços e criar vagas para a leva de recém-formados pelas faculdades de direito que abrem em cada esquina.

Por todos os pretextos, vais libertando das grades os poderosos e seu séquito de advogados, reservando os horrores dos calabouços aos despossuídos das posses que bancariam teus emolumentos. Os que não colaboram com o pecúlio que sustenta a devassidão moral que apadrinhas e consagra esse país como o paraíso da impunidade.

Deixa de hipocrisia. A quem pretendes enganar ao afirmar que personificas a Justiça? Teu ofício é apenas advogar em prol de vermes, retribuindo-lhes com pérfidos serviços o dinheiro que garante o suntuoso padrão de vida que ostentas. Incluindo os penduricalhos incorporados a teu holerite, como ‘direito adquirido’.

Quem te sustenta, respeitável biltre, são os safados. Crápulas que, desprovidos de considerações éticas, estudam teus intrincados preceitos e se formam doutores para assimilar os meios legais, penais, constitucionais e amorais de permanecer impunes, qualificando-se a ingressar em tuas ro­dinhas infames. Partilharem do cafezinho do fórum, onde, por trás de indevassáveis paredes, ro­lam torpezas inimagináveis. Tornam-se teus colegas e cupinchas, uma associação fechada de rábulas parasitas.

A verdadeira Justiça é o oposto de ti. Consiste em tornar o mundo digno, prescindindo de teus sórdidos préstimos. Os princípios de retidão e civilidade, carregamo-los em nós. Num mundo de justos, tua ‘justiça’ não se ajusta. Que papel teriam juristas numa sociedade sem delitos? Os íntegros coexistem com harmonia, dispensando tua protocolar intermediação. Quem carece de lei são aqueles que dela vivem à margem.

Data vênia, ilustríssimo, vai à p* que te pariu.

 

 

(Adaptação de texto originalmente publicado em 2013)