terça-feira, 29 de setembro de 2026

O BANQUETE DO FIM DO MUNDO

 

Um encontro histórico em Washington colocou frente a frente os mandatários das duas maiores potências mundiais, EUA e China. Toda a pompa em torno dessa reunião de titãs sugeria que o evento seria um divisor de águas para a humanidade, abrindo caminho para a esperança de um futuro de entendimento e harmonia.

A refinada decoração do ambiente que abrigava os dois homens mais poderosos do planeta combinava louças de prata com arranjos florais predominantemente vermelhos, tom que identifica tanto a tradição cultural milenar da China e seu Partido Comunista, como a identidade do Partido Republicano americano.

Lado a lado, os líderes aguardavam ansiosos os quitutes escolhidos a dedo para satisfazer o apetite do seleto grupo que incluía alguns dos maiores nomes da tecnologia e da inteligência artificial como Elon Musk (Tesla/SpaceX), Tim Cook (Apple), Jensen Huang (Nvidia) e Lisa Su (AMD).

Percebe-se pela composição da equipe que o assunto a ser tratado entre a ingestão de uma porção de velouté de abóbora com cogumelos e uma garfada de robalo grelhado com gergelim não era tratar de questões mundanas como a paz mundial ou a melhora de condições sociais dos excluídos. O encontro gastronômico na East Room da Casa Branca com os oligarcas do Vale do Silício e de Shenzhen não iria perder tempo tratando de mudanças climáticas, ameaças pandêmicas ou crises migratórias que afligem os oito bilhões de terráqueos não convidados para a festa. Essas questões não foram ventiladas sequer durante a sobremesa, um crémeux de baunilha com cereja ou o derradeiro café cultivado nas encostas vulcânicas do Havaí (no caso do líder chinês, um chá verde, originário da região de Longjing).

Discutiram-se assuntos de suma importância para a realidade dos africanos subnutridos tais como comércio de chips, segurança na cadeia de suprimentos, minerais críticos e a expansão da tecnologia, aquela que, nos prometeram, seria usada para nos libertar do trabalho degradante e democratizar o conhecimento e que agora nos torna um bando de escravos digitais alienados. A mesma que concentra um poder cada vez maior nas mãos de cada vez menos indivíduos, beneficiários dos lucros trilionários enquanto as massas definham.

A agenda do retumbante encontro, despida de qualquer pudor ou maquiagem filantrópica, operou sob o pragmatismo mais gélido. Para que perder tempo salvando o planeta quando estão em jogo questões cruciais como a soberania sobre a indústria de semicondutores de Taiwan e a ameaça à liberdade das Big Techs de instrumentalizar os usuários e difundir ideias extremistas?

O encontro entre os líderes e os ricaços da tecnologia não é um debate sobre o futuro; é o inventário de um planeta onde o ser humano perdeu o valor e a barbárie foi digitalizada.

Enquanto o restrito grupo esbaldava-se no faustoso jantar regado a Schramsberg Blanc de Noirs, não muito distante dali, em Nova York, reuniam-se a pão e água numa assembleia piegas, os participantes da desprestigiada ONU. Lá estavam os porta-vozes do mundo que sobrou, ou seja, das outras 191 nações - número que não inclui o Estado da Palestina, eternamente barrado pelo veto americano, a mando de Israel.

Pobre ONU, projeto nascido ironicamente por iniciativa dos próprios EUA para se buscar um consenso internacional e reduzir as tensões, mas que agora a considera uma organização inútil que não atende as necessidades do ‘America First’. Criada em 1945, à sombra do fim da II Guerra Mundial, o louvável projeto americano parecia ter como objetivo elaborar o desenho de uma nova era de cooperação global. Essa herança foi jogada às traças. Ao adotar desprezo pelas instituições internacionais, os EUA renunciaram à responsabilidade global. O isolacionismo de Trump é uma postura de abandono do resto do mundo à própria sorte, enquanto sabota ativamente a cooperação internacional para garantir que as corporações americanas mantenham sua hegemonia colonialista sobre os mercados estrangeiros.

O país que outrora se autoproclamava "farol da liberdade" despiu-se de qualquer verniz de liderança ética. A terra de Jefferson e Lincoln foi sequestrada pela aliança espúria entre o chauvinismo econômico e o cartel dos magnatas do Vale do Silício. A busca pelo bem-estar e pelos direitos inalienáveis dos cidadãos de todo o mundo deu lugar à desregulamentação predatória, à exploração irrestrita de dados e à invasão da privacidade. O ser humano passou a ser apenas um perfil anônimo a ser monetizado por monopólios tecnológicos que operam acima de qualquer norma regulatória. Na planilha de custos deles, a humanidade tornou-se um ativo obsoleto.

Eu me pergunto onde foi parar aquela sociedade ideal fundada no humanismo e na solidariedade. Morreu nos sonhos hippies da década de 1960. Ironicamente, desfez-se nas mesmas cabeças de cabeludos convertidos em profetas da internet, rede de computadores concebida originalmente como ferramenta de democratização do conhecimento e de formação de um mundo melhor. Agora os ideais juvenis desaguaram na ganância e no alinhamento a um autocrata cruel que massacra imigrantes e financia genocídios.

Enquanto os EUA expõem sua arrogância imperial, prometendo aniquilar a civilização milenar persa que não conseguiram dobrar, a China contemporânea robotiza sua sociedade em nome da estabilidade estatal, assistindo seu líder absoluto receber do anfitrião Trump, pretenso arqui-inimigo, a bajulação de estender-lhe um tapete vermelho.

O dragão tecnológico chinês personifica a maior traição cultural e filosófica da história do Oriente, tendo devorado seus próprios alicerces para assumir a vanguarda da Inteligência Artificial. Pequim amputou a própria alma, sepultando milênios de sabedoria sob o asfalto de suas megacidades e a infraestrutura de seus data centers. O país que outrora valorizou o despojamento material, o respeito à natureza e a retidão social, preconizados por Confúcio e Lao Tsé, transformou-se em um colosso plastificado e artificial, onde o ser humano foi reduzido a um pixel no painel de controle do Estado. O ritmo orgânico da existência foi substituído pelo compasso implacável dos algoritmos de reconhecimento facial, pela vigilância ubíqua e pela modificação artificial do comportamento humano, cenário em que a virtude deixou de ser uma escolha moral do indivíduo, para se tornar uma pontuação automatizada por uma IA que manipula cidadãos como ratos de laboratório.

O ideal socialista foi oficialmente rifado em favor de um capitalismo de Estado hipertecnológico. Marx foi armazenado no mesmo arquivo morto dos pensadores dinásticos. A utopia de uma sociedade igualitária deu lugar a uma distopia de bilionários da tecnologia alinhados ao todo poderoso Partido, que fizeram fortuna à custa de jornadas de trabalho acachapantes. O país tornou-se o desdobramento dos modelos corrompidos do Ocidente que ele tanto finge combater: uma engrenagem fria, artificial e desprovida de humanismo.

Unificados pela mesma ganância, o capitalismo predatório americano e a tecnocracia artificial chinesa esvaziaram os valores milenares da humanidade em prol de uma corrida cega pela primazia da Inteligência Artificial.

Curiosamente, na mesa que reúne a maior autoridade do Ocidente com o líder da potência máxima do Oriente deixou de haver oposição entre dois mundos diferentes que propalavam sua superioridade: um fundamentado em um sistema econômico aglutinador de massas a defender a democracia e a liberdade; o outro fundamentado na sabedoria milenar que priorizava a prevalência de valores espirituais. Ambos se renderam à mesma premissa utilitarista barata. Em vez de princípios éticos, passaram a ser guiados por valores algorítmicos. O materialismo substituiu os deuses da religião por um deus ‘ex machina’ computacional sob a falsa promessa de resgatar a humanidade da miséria e da desigualdade.

Encerrada a comilança, entre o inebriante aroma do café havaiano e o último gole morno de chá verde special reserve, os senhores do mundo levantam-se saciados. O banquete termina, a conta é repassada para os oito bilhões de ausentes, domesticados por telas e algoritmos, que seguem marchando em direção ao abismo.

 


quinta-feira, 24 de setembro de 2026

HAPPY END

 
Filmes com finais felizes, além de nos inundar a alma com uma sensação boa, fazem-nos acreditar que existe uma lógica subjacente à ordem das coisas, na qual a bondade sempre prevalece e os ruins serão punidos. Tais enredos, salpicados de tragédias transitórias, sofrem invariavelmente reviravoltas, até que o glorioso desfecho traga paz a nosso coração. Depois de duas horas de angústia cinematográfica, o alívio compensa a amargura. Podemos, então, dormir o sono dos justos e dos vingados, acreditando que a marcha do destino obedeça a essa lógica regeneradora.

No entanto, quando nos voltamos para a realidade cruel que nos cerca, constatamos que o roteiro da vida foi escrito por alguém com pouco senso de humor e as coisas não caminham para a catarse desejada. Quem tripudia sobre os outros é que alcança o triunfo; quem explora os necessitados é que usufrui da opulência.

E o justo? Qual o papel desse escultor ingênuo da utopia que se esmera em moldar o ser humano? Acumula decepções, esperando em vão que o destino dê uma guinada e faça com que a lógica hollywoodiana possa enfim vingar. Até que uma dúvida advém: e se o canalha com sua falta de escrúpulos, for aquele que goza da preferência dos deuses?

As crenças religiosas oferecem a promessa de que algum dia os bons serão recompensados e os maus castigados pelas entidades etéreas que, no conforto de seus assentos celestiais, assistem as desventuras da vida se desenrolarem.

Cadê o paraíso que premia os venturosos? Qual é mesmo o endereço do inferno, destino dos maus? Onde está o deus que assiste impassível a tantas maldades? Talvez não seja bem aquele que imaginamos e esteja se divertindo daqueles que se equivocaram sobre sua índole benevolente. Talvez seja ele um ser perverso que não se preocupa com o destino incerto que aguarda seu rebanho desamparado.

E, pior: e se não houver deus nenhum? Seja ele apenas uma criação fantasiosa dos homens para atender seu desejo íntimo de que, num outro plano, se aplique a justiça. Porque, se não existe uma justiça escondida atrás da cortina do mundo, então somos nós, apenas nós, os atores desse espetáculo macabro em que improvisamos a trama. Onde não há um roteirista nem um diretor cósmico. Não haverá um tribunal no fim dos tempos para devolver ao injustiçado aquilo que lhe foi tomado. Apenas esta vida finita e cruel.

O homem que tentou ser decente e correto olha para trás e vê pouco além de perdas e danos. Fez o que acreditava certo e, em troca, recebeu ingratidão. Agora, está cansado de não ter reconhecimento. Talvez essa seja a forma mais perversa de revolta: não bradar contra os céus, mas simplesmente deixar de acreditar que os céus se importam.

Apesar de todos os reveses que lhe são colocados, o legítimo justo não se abate. Mesmo depois de tudo, quando alguém cai na rua, ele estende a mão. Quando alguém chora, ele pergunta o motivo. Quando alguém é injustiçado, sua indignação aflora.

Ele não se conforma em ser desse jeito, mas tal sentimento nele está impregnado, não consegue evitar. Não se sente superior, pois não há escala a avaliar a qualidade de suas ações. Ele é apenas assim. Uma ovelha branca em meio a ovelhas negras.

Contra as mensagens que lhe são passadas, ele ainda acredita. É como uma pequena brasa que resiste, mantendo seu brilho sob toneladas de cinza. Uma centelha que ilumina tenuemente a esperança dos tolos. O mundo lhe mostra que a bondade é inútil, mas ele teima em ignorar essa evidência. Não porque lhe tenham prometido recompensas, nem porque acredita que o tal deus o observa, ou porque espere um lugar melhor após a morte. Sequer sabe se haverá esse ‘depois’. Continua porque, se abandonar também isso, talvez descubra que a pior injustiça não é sofrer num mundo sem justiça. É tornar-se semelhante àquilo que o fez sofrer.

Percebe que o ‘happy end’ não é ver as coisas terminarem bem como o céu cor de rosa das telas de cinema, mas saber que o final feliz vem daqueles que, mesmo com tanta coisa ruim rolando por aí, não desistem. E essa seja a sina mais cruel: continuar esperando por um mundo melhor quando os indícios são de que ele jamais virá.

E ele segue, vivendo a cada passo uma nova desilusão. Mais um patife vencerá. Mais um inocente sucumbirá. E os crédulos continuarão perguntando: “Onde estás, meu Deus?” enquanto do outro lado, haverá apenas o silêncio. Talvez seja esse o verdadeiro happy end: não esperar que seja feita a justiça, mas impedir que a injustiça nos transforme naquilo que não queremos ser.


sábado, 12 de setembro de 2026

O DIA EM QUE AS TATUAGENS SAÍRAM DE MODA

 

Foi numa sexta-feira nublada de setembro que o mundo estremeceu. Nada de tornados, terremotos ou tsunamis. Tampouco o lançamento massivo de mísseis balísticos ou ameaças de guerra nuclear iminente. Algo mais bombástico: uma postagem de um influencer de moda decretou as seguintes palavras a seus milhões de fiéis seguidores: “A tendência para a próxima estação será exibir a pele nua e crua em seu esplendor natural. Tatuagem? Sai fora dessa brega intervenção artificial, aberração invasiva utilizada pelas gerações anteriores para difundir seus ultrapassados valores.”

Foi a senha para disparar o quiproquó. Em questão de horas, o mundo civilizado entrou em colapso estético. Na segunda-feira, as clínicas de remoção a laser exibiam filas que dobravam quarteirões e faziam dobrar os atendentes. Na terça, faltou horário. Na quarta, faltou equipamento. Na quinta, faltou esperança. E sobrou desespero.

A queixa generalizada nos consultórios de psicologia passou a ser: “Doutor, como conviver com o trauma de ter profanado minha cútis num momento de fraqueza?”

Criou-se até uma literatura crítica revisionista com conceitos pejorativos como ‘pele psíquica’, explicando que o que não pode ser elaborado por meio da palavra, acaba sendo externalizado no corpo. A tatuagem foi reduzida a uma tentativa de dominar por meio da agulha o complexo emocional de um passado sufocante. As figuras funcionariam como uma armadura, uma epiderme secundária, o território do ego em que o indivíduo expressa seu narcisismo e a imagem que nutre de si mesmo.

De repente, os prosaicos véus que cobrem o corpo (e as tatuagens) ganharam status fashion com força total. As burcas das mulheres islâmicas, antes execradas, passaram a ganhar respeito e devoção, sugerindo até a possibilidade de conversão religiosa e uma mudança comportamental frente à materialidade existencial do Ocidente.   

Assim nasceu o dilema daqueles que fizeram um pacto eterno de fidelidade com as agulhas segundo o qual o corpo foi vilipendiado e cedido aos arroubos de um impulso juvenil.

As cabeças carecas, antes transformadas em tela foram substituídas por implantes capilares. Pior foi a amargura dos entusiastas que levaram o procedimento para zonas inimagináveis como a tatuagem no globo ocular (eyeball tattoo), interior da boca, língua, genitais. Ou daqueles que não preservaram o rosto e demais partes expostas pelas vestes casuais. O que fazer agora com esse trambolho estilístico?

A discreta borboletinha no tornozelo, na qualidade de singelo adorno, foi poupada, passando incólume ao turbilhão higienista dos novos tempos, não chegando a comprometer seu usuário. Já os imensos dragões orientais e as frases motivacionais em sânscrito tornaram-se um estorvo megalítico a seus portadores.

Diante da nova tendência, os mais suscetíveis que haviam cravado um detalhado mosaico da cultura pop nos exíguos espaços disponíveis do corpo ficaram sem saber como agir. Enquanto não decidiam, passaram a vestir grossos sobretudos para ocultar seus exóticos rabiscos.

Lembrei-me do filme “A Outra História Americana”, em que o protagonista interpretado por Edward Norton, ao revisar seus valores ideológicos, já não se reconhecia no espelho, confrontado pela enorme suástica que carregava no peito. ‘O que faço com ela?’

A tatuagem parte do pressuposto de que somos seres imutáveis e as decisões tomadas são definitivas. Aqueles que a ela se submeteram acham que suas mentes jamais se modificarão e transferem o peso dessa imutabilidade para a própria pele. O problema surge quando a cabeça se submete a uma lavagem cerebral mas o resto da massa corpórea não é capaz de acompanhar a mudança.

O sábio Raul Seixas já havia antevisto o dilema ao manifestar preferência em ser uma metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião estampada sobre tudo.

Os usuários acreditavam, em sua santa ingenuidade, que a moda duraria até o fim de suas vidas úteis. O curioso é que a tatuagem costuma ser apresentada como uma afirmação de individualidade. "Quero ser único", diz alguém... enquanto entra numa fila de outros cinquenta querendo exatamente o mesmo ornamento polinésio, a mesma rosa cor -de-rosa, o mesmo astrolábio, o mesmo leão de olhar filosófico e a inevitável frase em celta cujo significado permanece indecifrável.

As tatuagens pareciam ter desvendado o segredo da imortalidade. Afinal, não bastava vestir a moda; era preciso costurá-la na própria pele. É um compromisso que nem casamento exige.

Há também a criatividade inesgotável dos apaixonados. Juram amor eterno, tatuam o nome da pessoa amada e, seis meses depois, descobrem que o amor era eterno até o próximo fim de semana. A pele, nossa fiel companheira de jornada, infelizmente, parece não acompanhar as desventuras fugazes do coração.

Naturalmente, a indústria de cosméticos aproveitou-se da situação para faturar alto, criando os ‘corretivos de pele’, uma base tão grossa que parecia massa corrida. Logo apareceram os alarmistas alertando sobre os perigos que tais métodos provocam ao sufocar o tecido cutâneo e provocar tumores malignos. E as fake news ajudaram a propagar pelas redes o pânico geral.

E, quando as tatuagens previsivelmente saíram de moda — porque tudo, absolutamente tudo, um dia sai — aconteceu o inimaginável: a ousadia passou a ser desfilar com a pele completamente lisa, como quando veio ao mundo.

Enquanto a mudança de paradigma ainda não se efetivara, eu observava curioso o hábito da humanidade de transformar o próprio corpo numa espécie de caderno de anotações. Uns escreviam poemas, outros desenhavam tigres, alguns registravam datas memoráveis. A pele virou agenda, álbum de lembranças e mural de recados.

Instalada a nova ordem, os conformistas se resignaram, alimentando a esperança de que, como sempre acontece, os ciclos façam que na próxima geração ou talvez daqui a 50 anos, quem sabe, a tatuagem volte à moda.

 

quarta-feira, 22 de julho de 2026

O CORAÇÃO NEGRO DO FUTEBOL

 

Àqueles que acompanharam a Copa do Mundo não deve ter passado despercebida a presença maciça de jogadores negros nas partidas. Não me refiro obviamente às equipes da África Subsaariana (Cabo Verde, Costa do Marfim, Congo...) que, por sinal, a cada edição vêm melhorando seu desempenho, enfrentando de igual para igual seleções consagradas do Primeiro Mundo. E sim às poderosas esquadras europeias, que, apesar do sobe/desce dos últimos anos, permanecem na linha de frente do futebol.

Em outro extremo, chama a atenção uma notável exceção: a Argentina, em cuja seleção não há sequer um único jogador negro. Resultado de uma política de ‘embranquecimento’ levada a cabo durante o século XIX, derivada do projeto colonialista praticado. O Estado portenho incentivou fortemente a imigração europeia e executou um recrutamento discricionário de negros para as frentes de batalha. Sem falar da incidência de epidemias que atingiu severamente os segmentos mais pobres. Tais fatores contribuíram em encolher drasticamente a presença da etnia no país. Esses movimentos fizeram com que a população negra fosse reduzida ao longo da história, ao que se estima, de 30% para menos de 1%, nível que se mantém até hoje. O resultado desse processo de exclusão racial é percebido dentro e fora dos estádios e ajuda a compreender as lamentáveis cenas de racismo expressas pela torcida celeste e... branca.

A situação de nosso vizinho sul-americano é intrigante. Separados apenas por uma fronteira de 1200 km, partilhamos com nossos hermanos um passado colonial marcado pela escravidão e muitos pontos em comum em nossas culturas, incluindo uma paixão quase religiosa pelo futebol. No entanto, enquanto o Brasil construiu uma sociedade miscigenada (ainda que marcada por desigualdades e racismo estrutural), no país ao lado os negros foram praticamente banidos da vida política e social.   

A Europa percorreu caminho inverso. Nas últimas décadas, o continente recebeu grandes levas de imigrantes africanos que se tornaram cidadãos franceses, ingleses, holandeses, belgas, alemães. Muitos deles, claro, tornaram-se craques de bola.

Antes da virada do século, o padrão dos jogadores europeus era bem diferente: atletas brancos leitosos, quase róseos, robustos, bem nutridos, disciplinados e impecavelmente preparados que praticavam um jogo quadradinho, previsível e altamente técnico, frio como os Alpes austríacos, preciso como os relógios suíços. Conservando esses atributos, o futebol europeu acumulou admiráveis conquistas.

Até que sua hegemonia foi quebrada em 1958 por um grupo de garotos morenos franzinos, bons em driblar e improvisar, provindos de um país tropical do Hemisfério Sul. Entre eles, um ‘negrinho’ camisa 10 que aos 17 anos cativou o mundo com seu toque genial, sendo entronado ‘rei do futebol’.

A partir daí, para manter sua relevância, o futebol europeu resolveu mudar de tonalidade. Essa transformação ficou particularmente evidenciada na seleção francesa 70% black de 2026, cuja formação escancarou ao mundo um país de cidadãos com características físicas diferentes daquela que o mundo se acostumara a assistir. Alguns conferiam a esse fenômeno um tom de deboche, insinuando, numa expressão escamoteada de racismo, que a seleção da França não era integrada por autênticos franceses, como se um dos critérios necessários para definir a nacionalidade fosse a cor da pele.

Não se tratava, é bom que se ressalte, de jogadores estrangeiros naturalizados e sim, em sua maioria, filhos ou netos de imigrantes nascidos ou criados na mesma terra de Charles De Gaulle, Edith Piaf, Monet e Simone de Beauvoir. Pessoas que participaram da construção da sociedade gaulesa contemporânea, mais plural e heterogênea. Que entoavam ‘A Marselhesa’ com o mesmo fervor dos demais e que ali estavam para dar seu sangue (igualmente vermelho) pela nação que os acolheu e exaltou com pioneirismo os ideais de Liberdade, Fraternidade e Igualdade.

Nobres valores que parecem vir sendo deixados de lado nesses tempos em que os fantasmas do racismo e da xenofobia têm aflorado, ameaçando até os campos presumivelmente neutros do esporte, ambiente em que o princípio da equanimidade de condições deveria prevalecer. Derivados da mesma lógica que inspirou o mito da superioridade ariana, desmontado quando Jesse Owens cruzou a linha de chegada bem à frente dos atletas que Hitler colocou na raia para se tornarem imbatíveis.

Hoje, a presença marcante de negros no ‘rude esporte bretão’ já não causa estranheza. Se o futebol é branco de nascimento, carrega em sua face nova coloração. Parodiando Vinícius de Moraes, se hoje ele é branco na estratégia, é negro demais no coração.

E essa metamorfose foi além do futebol. Basta ver a Corrida de São Silvestre, em que a reiterada superioridade dos filhos da Mama África tornou a competição desinteressante. Não é diferente no boxe, no basquete, no atletismo e em outras categorias olímpicas em que os negros têm monopolizado as grandes conquistas. Ao contrário do que ocorre em modalidades elitistas como tênis, golfe e fórmula 1, em que o domínio de branquelos bem formados permanece. 

Fenômeno semelhante acontece na música popular. Do jazz ao blues, do rock’n’roll ao soul, do mambo ao reggae, do samba ao maracatu, é difícil imaginar a trilha sonora do mundo sem a contribuição decisiva de artistas como Chuck Berry, Jimi Hendrix, Miles Davis, Duke Ellington, Louis Armstrong, Billie Holiday, Bob Marley, Stevie Wonder, Aretha Franklin, Michael Jackson, Ray Charles, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Cartola, Pixinguinha e tantos outros.

Não se trata de talento natural, inato, como se poderia erroneamente deduzir. Mas da capacidade humana que demonstraram de transmutar aflição em criação, exclusão em expressão, resistência em excelência.

A situação no campo das ciências merece reflexão. A predominância de cientistas e pensadores brancos não pode ser dissociada das condições que favoreceram acesso à educação, instituições de pesquisa e financiamento. A menor participação de negros nesses espaços está relacionada a barreiras econômicas, sociais e políticas, jamais à limitação de capacidade.

O mesmo ocorre em manifestações artísticas tradicionalmente associadas às elites. A música clássica, o balé, as artes plásticas e mesmo certos circuitos literários, continuam refletindo um padrão menos diverso. Essas expressões dependem de um capital cultural difícil de acumular: aulas precoces, instrumentos caros, escolas especializadas e acesso a instituições pouco permeáveis à segregada população negra.

Durante séculos, os padrões de valorização cultural privilegiaram referências europeias, enquanto as contribuições africanas e afrodescendentes foram sistematicamente marginalizadas. O reconhecimento de sua importância na música, no esporte e em outras manifestações culturais representa, antes de tudo, a reparação por uma injustiça histórica.

Assim, a mesma força que molda o coração negro do futebol e dita o ritmo das pistas de dança e dos palcos reluzentes precisa romper as barreiras intransponíveis das universidades e dos centros inacessíveis de poder. O talento e a resiliência que transformaram o esporte nascido inglês em espetáculo mundial de pluralidade são os mesmos que têm potencial para revolucionar a ciência e o pensamento global. Desde que as condições de largada sejam as mesmas. A história mostra que o protagonismo negro já não pede licença. Ele se impõe pelo mérito, provando que, se a tática do mundo insiste em ser monocromática, em seu peito pulsa um coração multicor.

 

 

terça-feira, 14 de julho de 2026

SELEÇÃO EVANGÉLICA DE FUTEBOL

 

O desempenho do Brasil na Copa de 2026 foi humilhante. Pela primeira vez desde 1990, nossa outrora temida seleção, (que passou a ser conhecida como ‘selecinha’) deu adeus ao Mundial antes mesmo das oitavas de final.

Desolador assistir a um dos poucos motivos de orgulho nacional desabar a olhos vistos, sem que haja sinal de reversão da tendência. O traumático 7 a 1 ante a Alemanha em 2014, em pleno Mineirão, já prenunciava o descalabro que estava por vir.

Não bastasse isso, temos de passar pelo constrangimento de assistir aos vizinhos hermanos, nossos rivais de estimação, esfregarem na nossa cara talento, organização e raça.

Explicações é que não faltam. Cada brasileiro querendo dar sua opinião num país, onde de técnico de futebol e de louco todo mundo tem um pouco. O técnico italiano, as deficiências do elenco, o esquema tático, o pênalti perdido. Cada um escolhendo seu bode expiatório preferido.

Mas enquanto sobram diagnósticos em mesas de bar, programas esportivos e grupos de whatsapp, a seleção continua afundando. Se existe algum consenso é que nosso futebol deixou de ser relevante e não mete medo em ninguém. Até os africanos estão nos superando. A dura verdade é que desaprendemos de produzir craques que façam a diferença. E menos ainda montar uma equipe coesa e poderosa que imponha respeito. A impressão que dá é que somos um elenco sem fibra, sem garra, sem disposição de dar sangue pela camisa.

Em meio a tanto achismo, uma abordagem merece atenção. Um artigo publicado pelo jornal britânico The Times, debruçado em entender essa anormal queda de produtividade do mais premiado e admirado futebol do planeta, atacou a questão por um flanco inesperado. Sugeriu uma relação entre a decadência do nosso desempenho futebolístico e o crescimento da igreja evangélica no país.

A tese, no mínimo inusitada, causou rebuliço e incendiou as redes sociais, sinal inequívoco de que pisou num calo sensível. À primeira vista, pode parecer tão absurda essa relação quanto apontar a falta de pontaria dos atacantes como decorrente do movimento das marés. Mas, vencido o estranhamento inicial, vale a pena examinar a hipótese sem paixão. Uma análise, digamos, antropológica do tema pode escancarar que por trás da derrocada do nosso futebol escondem-se transformações culturais na sociedade brasileira, em especial no campo religioso, onde o credo evangélico ganhou grande número de adeptos.

Chama a atenção que a grande maioria dos convocados professa o neopentecostalismo. Ao que se estima, 20 dos 26 convocados declaram-se evangélicos.  Apesar de que correlação não prova causalidade, não dá para ignorar que a ascensão dessa corrente religiosa ocorre no mesmo período das mudanças que moldaram o futebol brasileiro. Resta entender se há relação causal entre os dois eventos.

Não se trata de afirmar que a religião levou alguém a desaprender a jogar bola. Mas se o futebol é um espelho da sociedade, não permaneceria imune às mudanças de valores e comportamentos que atingiram o país. Talvez a equipe que entrou em campo não seja apenas uma seleção em crise, mas o retrato de um país que já não dança, improvisa e desafia as regras como antigamente.

A excelência do nosso jogo em seus áureos tempos estava umbilicalmente associada à malícia, à irreverência e até à velha e folclórica malandragem. Era a ginga forjada no chão batido num campo de terra improvisado na periferia com uma bola remendada. O futebol varzeano era muito mais que uma diversão de domingo. Era uma escola, uma incubadora de craques. Fazia parte do jeito brasileiro de expressar criatividade, alegria e ousadia. Era desse caldeirão de manifestações populares que brotavam jogadores capazes de transformar uma partida num espetáculo.

Mas o Brasil mudou. O avanço das igrejas neopentecostais nas periferias conduziu a uma mudança comportamental. Aspectos típicos da cultura nacional como o carnaval, o samba, o axé e a capoeira, mal vistos pelos evangélicos, passaram a ser deixados de lado. A vibração dessas manifestações culturais foi substituída por canções de louvor a Jesus.

O tão criticado Gerson e sua máxima de ‘levar vantagem’ traduzia o jeitinho brasileiro que desconsertava o engessado futebol europeu. Não é à toa que o ‘canhotinha de ouro’, como era conhecido, exercia uma liderança silenciosa e incontestável sobre seus companheiros naquela que muitos consideram a melhor seleção de todos os tempos, a de 1970, quando o Brasil, com uma campanha invicta, atropelou a Itália com uma goleada de 4 a 1, sagrando-se tricampeão e garantindo a posse permanente da Taça Jules Rimet. Gerson cobrava atitude, botava a moçada pra correr e não baixar a cabeça para os adversários e as adversidades.

Hoje, em contraste, assistimos a uma geração mais preocupada com a construção da própria imagem e contratos milionários do que a construção de uma campanha coletiva gloriosa na arena de combate.

Paralelamente, as demonstrações públicas de religiosidade passaram a ocupar um espaço cada vez maior e os ‘atletas de Cristo’ passaram a exaltar orgulhosamente sua relação com o ente superior e dar menor importância à mundana competição esportiva.

Se o time ganhava, maravilha, graças ao Deus. Se perdia, paciência, Deus não quis. A responsabilidade saía dos pés dos jogadores e era terceirizada para aquele ente misterioso que, do alto de seu trono celestial, não torce para nenhum time.

Não se trata de afirmar que a fé torna um jogador melhor ou pior. Mas cabe indagar se a hegemonia de uma cultura religiosa que valoriza a disciplina moral, a busca pela prosperidade pessoal não acabe anestesiando a espontaneidade e a irreverência que nos distinguiam.

Um dado impressionante que passou quase despercebido, em meio ao turbilhão de críticas, merece atenção especial. Segundo estatísticas apuradas pela prestigiosa empresa OPTA, nossa seleção foi a pior em taxas de aproveitamento em dribles na fase de grupos, atrás do Haiti e de Curaçao. A última dentre as 48 classificadas! Com uma pífia taxa de aproveitamento de 34%. Ou seja, 2 em cada 3 oportunidades de confronto corpo a corpo, fomos vencidos pelo adversário. Garrincha e Pelé devem estar se remoendo em seus túmulos.

Muito mais do que um recurso técnico, o drible é uma declaração de personalidade em que o adversário é ludibriado em suas expectativas e surrupiado pela abençoada malícia.

O que temos hoje? Um elenco de atletas sem brio, ‘tementes a Deus’, sem coragem de ousar, que ao invés do enfrentamento, prezam pela obediência e pela disciplina para alcançar a bênção divina pessoal.

A arte do futebol brasileiro nasceu nos campos de várzea espalhados pelas periferias, onde os moleques aprendiam a lidar com a pelota, antes mesmo de aprender as regras do jogo. Foi nesses territórios historicamente marcados pela exclusão social que o neopentecostalismo encontrou terreno fértil para sua expansão e passou a ocupar um espaço mais amplo na vida comunitária de pessoas carentes, oferecendo-lhes promessas de ascensão social, mediante atitudes de submissão e contenção.

Foi assim que perdemos a chance de ser novamente o país do futebol. Para tornarmo-nos o ‘país da Bíblia’.

 

 

quarta-feira, 8 de julho de 2026

REVELADA CONVERSA SECRETA ENTRE TRUMP E PRESIDENTE DA FIFA

 


TRUMP: - Good night, Mr. Infantino. How are you?

INFANTINO: - Buonasera, my boss, em que posso servi-lo dessa vez? Um Nobel de Literatura para variar?

TRUMP: - Como vai a American Cup?

INFANTINO:- De vento em popa, sir. Como o sr. orientou, excluímos o Irã da competição antes que eles provocassem na Copa um estrago maior do que o fechamento do Estreito de Ormuz. Sem precisar prender os atletas, cancelar visto nem nada. Sua sugestão de oferecer a vaga do Irã para a Itália não deu muito certo. Não tinha como barrar os muçulmanos, eles se classificaram em primeiro nas eliminatórias asiáticas.  

TRUMP: - Forget Italy. Não quero nenhum favor para a Meloni, aquela ingrata.

INFANTINO:- Solucionamos o problema de outro jeito, sir. Bastou hospedarmos os súditos dos aiatolás no México num hotel de segunda, sem ar-condicionado nem breakfast. Contratamos um conjunto local para tocar mariachi a noite inteira na janela deles. Eles chegavam esgotados no estádio. Aproveitamos também para colocar um sonífero na água deles na hora do hydration break para deixá-los meio grogues.

TRUMP: - Good job, my friend.

INFANTINO:- Pois é, mas não foi fácil, os caras são mais complicados do que dobrar a Guarda Revolucionária Islâmica. Os desgraçados não perderam nenhum jogo na 1ª fase. Mas resolvemos de vez o assunto no mata-mata, instruindo o árbitro e o VAR a anular o gol que daria a classificação deles, inventando um impedimento. 

TRUMP: - What is ‘impedimento’? Impeachment?

INFANTINO:- Mais ou menos, boss. Deixa pra lá, qualquer hora eu explico

TRUMP: - Estava pensando que ao invés de tocar hinos estrangeiros no início dos jogos, deveriam tocar God Bless America.  

INFANTINO:- My boss, tocar os hinos nacionais é tradição, não sei se conseguimos mudar isso de uma hora pra outra.

TRUMP: - Então pelo menos deveriam abrir os jogos com uma prece ou a leitura de um texto da Bíblia para agradar nossos eleitores batistas e pentecostais.  

INFANTINO:- Mas nem todos os países professam o cristianismo, boss. Temos federações árabes, asiáticas, africanas...

TRUMP: - OK! Never mind. Vamos ao que interessa. Fiquei sabendo de algo que me deixou bem irritado. Nosso melhor player, esse tal de Balogun, não vai poder jogar contra a Bélgica. O sujeito é filho de imigrante e negro, meio constrangedor para meus apoiadores do MAGA, mas parece que ele é bom de bola. O que aconteceu? Também sofreu impeachment?

INFANTINO:- Não, o problema aí é outro. É que ele recebeu cartão vermelho no jogo contra a Bósnia e pelas regras não vai poder jogar na próxima partida.

TRUMP: - Vermelho? Só podia ser coisa de esquerdista. Quem foi o idiota que inventou esse cartão?

INFANTINO:- Foi um juiz brasileiro, Claus não-sei-o-quê.

TRUMP: - Juiz brasileiro? Só pode ser amigo do cabeça de ovo do STF. Ops, careca como você, nada pessoal. Foi mal. Será que ele é daquela organização comunista de que tanto falam, o PCC?

INFANTINO:- Não sei dizer, boss. Mas dizem no comitê que ele é competente.

TRUMP: - Pra mim é desonesto. Me dá o nome dele que eu vou mandar aplicar a Lei Magnitsky contra o canalha. Vamos congelar as contas dele. Quero ver ele fazer compras em Miami com o cartão vermelho dele.

INFANTINO:- O problema, Boss, é que a regra não permite que esse imigrante jogue contra a Bélgica, pois tem que cumprir um jogo de suspensão automática. Mas não se preocupe. Com base no princípio da ‘dúvida razoável’, nossos advogados desencavaram uma cláusula obscura do código disciplinar da FIFA combinada com o Bill of Rights do século XVIII alegando que o cartão feriu os direitos civis dos americanos, Conseguimos que ele cumpra pena só na Copa de 2046.

TRUMP: - Fantastic, my friend! Vá se preparando. Vou liberar seu Trump Gold Card de US$ 1 milhão e um mês de estadia gratuita para sua família no “Tren de Aragua Trump Resort” que estamos construindo na Venezuela.

 

 


segunda-feira, 6 de julho de 2026

ERA SÓ UMA BRINCADEIRA

Cara, na moral, foi só uma zoação. Olha o tamanho da confusão que armaram pra cima da gente, mano! Não dá pra entender esse povo fazendo essa zoeira toda. Dá um tempo! Parece que nunca tiveram 14 anos.

Era só para tirar um sarro da tia na sala de aula, meu. Essa chata que vive querendo enfiar um monte de caretice na cabeça da gente, uns papos de cidadania, respeito, sociedade, essas coisas. Uns troços nada a ver, que não dão futuro, não rolam grana, não dão engajamento nas redes.

A ideia bizarra surgiu do nada no recreio. Alguém lançou o desafio maneiro pra ver quem encarava botar os vidrinhos na garrafa de água da tia. O mais doidão assumiu a missão. Bora dar umas risadas.

A gente puxou o celular pra filmar e botar no Tik Tok. O vídeo ia bombar: sangue, gritaria, esse tipo de coisa sempre viraliza. Mais seguidores, mais visualizações, mais compartilhamentos. Os algoritmos iam pirar, kkkkk.

Pena que alguns deram pra trás e falaram pra ela que era melhor não beber da água abençoada. Arregaram bonito os traíras. A verdade é que ninguém tava nem aí no que ia dar pro lado da tia. Quando muito ela podia engasgar, sei lá, sangrava um pouco, nenhum drama. Tomava um belo susto pra ficar esperta e parar de encher o saco.

Podia dar coisa pior? Podia. Vai que a coroa empacotasse de vez. Azar dela. Fazer o quê? A gente não é coveiro.

Com o piti que a bruxa armou ao descobrir o lance, deixei cair o iPhone. Ainda bem que não detonou a filmagem. Quem ia pagar o preju, isso ninguém fala.

E ainda puseram a infeliz pra choramingar na internet, dizendo que não queria mais lecionar, ia precisar de tratamento, viajou na maionese. Esse lenga-lenga de vitimismo que a gente já tá por aqui. Vê se te enxerga, mulher! Vai cuidar de teu homem e para de bancar a coitada.

De qualquer jeito, não ia dar em nada. No máximo, um sermão sacal do diretor, uma suspensãozinha de uns dias, legal pra gente tirar uma folga em casa. E ficava por isso mesmo. No Brasil, ninguém fica na cadeia. Pra nós, menores então, a lei protege de qualquer punição.

Os otários falam como se a gente fosse bandido. Menos, né. E outra: o professor não é esse santo que vocês pintam. O cara que se mete a dar aula é um fracassado que não conseguiu trampo que dá grana, vive estressado, ganha um salário de merda e passa a sua vidinha miserável em cima de livros, achando que vai mudar o mundo. É um frustrado que só enche a gente de tarefa chata, manda guardar celular e ainda quer se meter em dar lição de moral.

O que não dá pra engolir é esse monte de trouxa fazendo discurso e caindo em cima. Do nada apareceu polícia, imprensa, quiseram envolver até nossos pais que não tão nem aí. Não tem a menor graça, meu. A gente ia lá saber que vidro cortava garganta e podia matar? Vamos dar um fim nessa tragédia, gente. Chega de mimimi!

E ainda tiraram do ar o vídeo antes de viralizar. Sacanagem...

Cadê a liberdade de expressão?

 

 

quarta-feira, 1 de julho de 2026

QUANDO JESUS ENCONTROU OS ORIXÁS

 

Certas manhãs nascem diferentes. Não porque o sol brilhe mais intenso, mas porque o mundo resolve cochichar histórias para quem tem ouvidos para escutar.

Numa dessas manhãs, Jesus caminhava descalço, sozinho, por uma estrada de terra vermelha. O chão ainda guardava o frescor do orvalho, e a poeira fina subia entre seus dedos a cada passo. Carregava ele um manto simples, um sorriso sereno e o hábito de saudar árvores e animais.

Ao chegar a uma velha encruzilhada, sob a poeira suspensa, o ar pareceu subitamente mais denso. Ali sentado sobre uma pedra pontiaguda, encontrou um homem vestindo vermelho e preto e um chapéu desabado que sombreava os olhos vivos. Girava uma bengala entre os dedos e exibia um sorriso enigmático. O silêncio que os cercava era quase palpável, como se o tempo hesitasse diante do cruzamento.

—  Olá, viajante. O dia amanheceu largo para quem anda sozinho — disse o homem, voz rouca, cortando o silêncio com a precisão de uma lâmina afiada.

— A paz esteja convosco — respondeu Jesus.

O homem inclinou a cabeça, o sorriso expandindo-se em desafio.

— Paz é coisa que se procura no fim. Aqui no meio, o que manda é a escolha. E toda escolha cobra seu pedágio.

Era Exu. Não o das histórias mal contadas, personagem sombrio dos malfeitos que o preconceito inventou. Era o senhor das passagens, das escolhas, da palavra que abre caminhos e revela tropeços.

— Vai para onde? — perguntou Exu, tocando levemente a bengala ao solo, testando a firmeza do andarilho.

— Para onde houver alguém precisando de uma palavra de esperança, replicou Jesus sem recuar.

— Isso é o que não falta nesse mundinho.

Ambos sorriram. A tensão desfez-se no ar

Jesus e Exu continuaram caminhando juntos.

De repente, a calmaria foi interrompida. O vento começou a dançar de um jeito diferente, soprando em rápidas lufadas que ergueram a poeira e fizeram as folhas girar como se estivessem executando uma coreografia antiga. Envolta por tecidos claros que pareciam feitos do próprio ar, surgiu uma vistosa mulher, com os olhos faiscando como relâmpagos contidos.

— Bons ventos os trazem, forasteiros — disse ela, a voz vibrando como um trovão distante.

Era Iansã.

— As pessoas temem as tormentas, mas ignoram que é o vento quem limpa o céu. E leva embora o que insiste em ficar.

Jesus, segurando firme seus longos cabelos esvoaçantes e seu manto que se rebelava no corpo, respondeu:

— Às vezes, é preciso perder o que nos prende para encontrar o que nos chama.

Iansã sorriu satisfeita e o vento amainou, transformando-se numa brisa suave.

Enquanto Exu retornava à sua morada na encruzilhada, Jesus seguia em frente.

O calor do dia começou a apertar e surgiu o rumor de água corrente.

À margem de um riacho cristalino, onde o aroma de lírios e água fresca acalmavam os sentidos, emerge a silhueta cativante de Oxum. O reflexo do sol na água criava faíscas douradas ao redor de suas mãos. Observava ela os peixes bailarem entre as pedras.

Ao ver o andarilho exausto, ela prontamente lhe ofereceu água em uma cuia reluzente.

— Toda sede merece respeito.

Jesus, sentindo-se acolhido, aceitou de bom grado e agradeceu.

O contraste entre a urgência do mundo e a calmaria daquele córrego era profundo. Oxum olhou nos olhos dele e perguntou:

— Reconheço em você um sábio. Então, me esclareça, por favor, essa questão que me tortura: por que tanta gente acredita que a força necessita de barulho?

— Porque não lhes foi ensinado escutar o silêncio.

Ela sorriu com a mesma felicidade que invade um curso da água quando os raios do sol da manhã acariciam sua superfície.

Jesus continuou sua jornada de destino incerto, deixando o vale e subindo a serra. onde o vento uivava e a gravidade parecia confrontar a pequenez e a fragilidade humanas, quando avistou Xangô.

Recolhido em seu trono de pedra bruta, observava o horizonte como quem pesa as coisas do mundo numa balança invisível.

— Justiça... — balbuciou, a voz grave reverberando no paredão de pedra, como querendo concluir um pensamento inacabado. — Todos imploram por ela.

Ele olhou para Jesus, medindo a estatura espiritual daquele homem franzino. Fez uma pausa e completou:

— Mas o que os homens desejam é apenas vencer.

Jesus assentiu, sentindo o peso daquela verdade esmagadora.

— Amar a justiça exige coragem. Amar a vitória nem tanto.

Os dois trocaram um olhar de cumplicidade. abençoando o veredicto silencioso que compartilhavam.

Jesus prosseguiu. Ao descer a montanha, a vegetação fechou-se em uma mata densa. O ar tornou-se úmido, com cheiro de musgo, resina e folhas pisadas.

Na beira da mata, um homem de porte firme e olhar certeiro observava as copas das árvores, perfeitamente camuflado na proteção das sombras. Um pequeno pássaro pousou-lhe no ombro, sem medo.

Era Oxóssi. A imensidão da floresta parecia intimidar o intruso, mas Jesus avançou com reverência e sem temor. O caçador apresentou-se com as seguintes palavras:

— A floresta nunca fala alto — disse — Mesmo assim, nada do que acontece lhe escapa.

Jesus acercou-se com mais um passo e passou a mão sobre o tronco rugoso de uma árvore centenária, sentido a vida pulsar sob a casca grossa.

— Meu Pai também costuma ensinar usando sementes.

Oxóssi abriu um sorriso cordial, transformando a tensão da mata em hospitalidade.

— Sei disso. Ele é um excelente jardineiro. Formaríamos uma ótima dupla.

Jesus deixou-o, em direção a uma praia isolada, onde as ondas vinham e iam como se o mar, através delas, respirasse. O sal grudava-lhe na pele e o som rítmico do oceano quebrava na areia branca.

Ali avistou Iemanjá.

Vestida com as cores da espuma, ela observava o oceano com a serenidade de quem reconhece todas as lágrimas que nele desaguam. O horizonte infinito trazia uma melancolia profunda, quase dolorosa.

— Os seres humanos choram muito.

Jesus aproximou-se, parando onde a água borbulhante alcançava seus pés. Respondeu:

— Porque amam muito.

Ela concordou, com o olhar medindo a ida e a vinda das marés.

— E continuam amando, mesmo depois de sofrer.

— Talvez seja essa sua maior coragem.

Por um instante, ninguém disse nada. Nem precisava. As ondas falaram por ambos, engolindo a dor do mundo no balanço das águas.

Quando o sol começou a se esconder, tingindo o céu de tons de brasa e púrpura, Exu reapareceu, na margem da estrada.

— Engraçado..., comentou, surgindo da penumbra.

— O quê? — perguntou Jesus, sentando-se a seu lado.

— Estava aqui meditando: cada povo inventa um jeito diferente de procurar o sagrado.

Jesus, com olhar perdido no horizonte, retrucou:

— Verdade. E, quase sempre, se desentendem, achando que estão do lado da razão. Como se a razão tivesse um lado.

Exu deu uma sonora gargalhada que ecoou ao longe, afugentando os últimos pássaros do dia.

— Sendo que o caminho permanece lá. Indiferente às batalhas que se fazem em seu nome.

Como velhos amigos, os dois sentaram-se na mesma encruzilhada onde tudo havia começado, ensaiando um final para o encontro.

Alguns passantes estranharam a cena. Uns viram apenas dois homens comuns conversando. Outros juravam ter presenciado uma roda de luz que os cercava. Houve quem dissesse que eram conhecidos de longa data. Também apareceu quem garantisse que a cena não passava de miragem.

O certo é que ninguém escutou o que falavam. Talvez porque certas conversas não tenham sido feitas para ser reveladas.

Quando a noite caiu de vez, cobrindo a paisagem com um manto de estrelas, cada um retomou a direção que lhe cabia.

Antes de partir, Exu, ajeitando o chapéu, perguntou com respeito:

— Então, Mestre (permita-me chamá-lo assim?). Quando nos veremos de novo?

Jesus respondeu:

— Todo encontro sincero deixa uma porta aberta.

Exu bateu a ponta da bengala no chão e um estalo seco ecoou bem longe.

— Que os caminhos então permaneçam abertos.

—Os corações também.

Se tal encontro aconteceu de verdade, ninguém sabe com certeza. Mas quem relata costuma terminar sempre do mesmo jeito: dizendo que, naquela encruzilhada, ninguém saiu com a última palavra.