quinta-feira, 14 de maio de 2026

MEMÓRIAS DE UM ESTU(DANTE)

 

Muito poderia exaltar do DANTE, colégio que me educou com disciplina espartana - ‘pero sin perder la ternura jamás’ – por 14 ininterruptos anos, do pré-primário até a conclusão do ciclo secundário. Cuja qualidade de ensino me possibilitou ingressar com louvor em duas faculdades de renome da USP, Economia (FEA) e Direito no Largo São Francisco (esta última optei por abandonar por falta de vocação). Assim como adentrar para o serviço público, na carreira de Auditor Fiscal, através de concurso em que desbanquei mais de 100 gabaritados concorrentes pela vaga que ocupei por quase 20 anos até me aposentar. E que me inspiraram a exercer com gosto a atividade de magistério em duas faculdades.

Motivos para louvar a excelência do padrão “dantesco” não faltam. Contei com educadores de primeira linha que supervisionaram meus tempos de colegial (à ocasião, Científico). Como a exigente Albanese de Matemática, o bonachão Pastore de Química, o galanteador Milton de Física, o irrepreensível Renan de Geografia, o austero Orestes Rosolias de História (em cujo livro autoral, pinçado num empoeirado sebo, estudei), a talentosa Germana de Desenho, o maestro Salvatore Callia. Aquele que musicou os versos ufanistas: “Do Dante Alighieri sairão os mais valorosos pioneiros que pela taba espalharão como galhardos vanguardeiros”. E que potencializou a vocação musical que desenvolvi com a loja de LPs raros que, por 26 anos, sustentei.

E, em especial, o saudoso professor Alceu Tafari de Português que plantou em mim o desejo de escrever, que até hoje me atiça. E que me honrou com uma lisonjeira nota dez de redação, até então inatingível em nossa turma. Texto que iniciou com as seguintes palavras: “O homem em seu ser, sem ser só seu...”, compondo um triângulo isóceles de vocábulos em cujo cume aparecia O HOMEM e na base, em letras garrafais, DEUS. Um ambicioso ensaio metafísico, hehe.

Mas minha memória afetiva do Dante se estende muito além desses aspectos, digamos, pedagógicos. Revela-se em pequenos detalhes extracurriculares. No pátio enorme onde, desafiando as rígidas regras de comportamento, improvisávamos um futebol com bola de pano. Na cantina, onde uma mini garrafa de guaraná Antarctica acompanhava os sanduíches de mortadela (ou de azeitona com maionese que minha mãe preparava para o recreio). Na profusão de ‘pererecas’ pretas que pululavam alucinadas por todos os cantos desafiando os atordoados vigilantes. Nas figurinhas do Pato Donald e de atletas de futebol que trocávamos ou usávamos para ‘bater bafo’ pelas escadarias. No parque-santuário Trianon, fragmento esquecido de selva na ‘selvagem’ e árida urbe, cujas centenárias árvores, que guardavam até um bicho preguiça, afrontavam a perene solidez daquela histórica instituição de ensino.

Revela-se também nas feminíssimas colegas pelas quais nutríamos amores platônicos ou nas inatingíveis mestras que nos seduziam e provocavam fantasias eróticas só com seu olhar professoral - figuras que pareciam brotar das reminiscências de Fellini no autobiográfico Amarcord.

No ônibus escolar em que, durante o primário, cobiçávamos usufruir emoções de carrossel por ocupar um assento estrategicamente posicionado ao lado do motorista, raramente disponível. Na caricata bruxa dentuça que o Eduardo Zocchi me ensinou a desenhar, minha marca registrada por muitos anos.

No ritual do sino replicando o mesmo número de badaladas com uma pontualidade que antevia a precisão dos relógios digitais, executadas pelo Seu Marino que, por décadas, jamais faltou à sua função: “será que o homem não tira férias?”.

Grato período que consumiu 13 anos da nata da minha infância/adolescência, esticado em um ano por uma infeliz repetência em Matemática com 2 bimestres de nota zero por WO, motivada por uma hepatite que me deixou 3 meses de cama. Fábio D’Ávila foi o único colega que prestigiou esse ausente enfermo, honrando-me com uma visita domiciliar. Mas, cuja desventura reproduzida em 2 outros colegas que partilharam a mesma condição, possibilitou com eles estreitar preciosas relações de companheirismo. Seus nomes: Daud (Zuni) e Volpe, cujos laços de amizade perduraram anos a fio. Complementados com a tardia chegada do Grego (Chrysanthos) – figura ímpar que agora se escafedeu para a terra helênica dos seus ancestrais. Formamos o Quarteto Fantástico que por décadas permaneceu imbatível, frequentando regularmente as mais diversas pizzarias de São Paulo. Afora uma viagem de 30 dias por Cabo Frio que entrou para os anais, com meu fusca amarelo, versão paulista do Manuel Audaz.

Mais do que boletins, cadernetas e lousas, são esses pormenores ‘pormaiores’ do Dante e circundantes, que permanecerão eternamente ‘como dantes no quartel de Abrantes’ embalando divertidamente minhas lembranças naquilo que resta de minha jornada pós-escolar. Gostaria de deixá-los consignados para assim fazer constar minha presença nesse momento de confraternização.

  

sábado, 2 de maio de 2026

CARAS E COROAS

 

“Esse cara sou eu” (Roberto Carlos)

Esse texto vai para aqueles que, como eu, já foram caras e, sem aviso prévio, foram remanejados para a turma dos coroas. Devo ter faltado à assembleia deliberativa que cravou essa arbitrária realocação, à revelia dos afetados.

Acho que criaram as regras desse jogo para me infligir essa fatalidade metafísica em que o resultado do arremesso da moeda do destino estabelece ‘cara’ para a fase ascendente da existência e ‘coroa’ para seu ocaso.

Apesar disso, tento me conservar em formol no modo ‘cara’, contrariando a certidão, a lombar e o espelho. Sou um cara duro na queda. Se me chamam de vovô, mando um: “vovô é o cacete, seu fedelho!”

Não nego certa dificuldade em encarar os caras de hoje, aqueles que são caras de fato, com as características pertinentes. Ser cara no mundo de hoje é bem diferente de ser cara quando eu era cara. Vivem tais seres numa rotação diferente da época em que não havia celular nem internet nem pix nem Netflix. Mas tinha Asterix e Obelix.

Mas, caramba, não sou saudosista. Ser cara é um estado de espírito e diante das objeções dou um reset e me coloco na parte legal de ser cara: disposição de mudar, fome em aprender, esperança, curiosidade, inconformismo, rebeldia.

Às vezes me sinto pregando no deserto. Um velho lobo, desgarrado da matilha, cujo uivo rouco ainda ecoa por aí. E incomoda os rebanhos de ovelhas.

O que me deprime é ver a transformação dos meus companheiros de estrada. Caras que nasceram na mesma época que eu, atravessaram os mesmos anos, encararam as mesmas revoluções, rebeliões, repressões. Fomos cúmplices nesses momentos de resistência. Para, no fim das contas, chegar à conclusão, com cara de tacho, de que, como dizia o Belchior, continuamos vivendo “como nossos pais”. O fato é que muitos caras - pessoas que nos foram caras - por divergências políticas, nos viraram a cara. Que tristeza, cara! Babacas que glorificam as chineladas enquadradoras de que foram vítimas. Descarados.

Tornaram-se eminentes gagás. Não pelo detalhe da pele franzida, mas pelas rugas de desumanidade que se calcificaram por dentro, imunes a aplicações de botox. As mesmas que nos acomodaram na poltrona da resignação, assistindo a vida escoar pela TV. Lendo Caras.

Pior são os caras que, na maior cara dura, deixaram-se virar caretas. Gente com corpo jovial que a vida desafia a transgredir, com cabeça de matusalém, exaltando o conformismo e barrando avanços civilizatórios. São aqueles boyzinhos sarados e tatuados, cheios de pose que, na flor da idade, enaltecem patriotismo, militarismo, machismo, racismo. Têm ideias e preconceitos mais arraigados do que os de seus avós. São caras de duas caras. E, desculpe, nenhum caráter.

Para quando dermos de cara com o dia final, estirados e cercados por coroas a coroar falsamente nossa impoluta figura – com direito a coroa de flores e tudo – chegarmos à constatação de não haverá mágica - por mais cara que seja – capaz de nos fazer voltar a ser caras de novo.

 

 

segunda-feira, 27 de abril de 2026

SERTANEJO UNIVERSITÁRIO

“Ô saudade que eu tava da vida de cachorrada, da vida de putaria” (Gusttavo Lima)

Quando ouvi pela primeira falar em ‘sertanejo universitário’, a ideia que me passou pela cabeça é que se tratava de uma versão mais elaborada do sertanejo ‘mainstream’ que dominava o mercado, também conhecido como ‘sertanejo romântico’, de duplas como Chitãozinho & Xororó, Leandro & Leonardo e Zezé di Camargo & Luciano. O adjetivo ‘universitário’ sugeria, um refinamento estético, algo que teve precedentes com outros estilos musicais populares - como o antigo ‘brega’ e a ‘jovem guarda’ – que, ao dialogarem com públicos mais exigentes e escolarizados, sofreram releituras. Exemplos: Caetano interpretando Peninha e Adriana Calcanhotto reinventando Leno & Lílian.

Fiz uma associação (que se mostrou indevida) com o chamado “forró universitário” dos anos 90, uma derivação do forró ‘pé de serra’ de nomes lendários como os de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, conferindo ao ritmo um toque mais pop e urbano, porém sem causar uma ruptura em sua base rítmica, centrada no trio sanfona/zabumba/triângulo e sem romper com seu contexto simbólico, ligado ao cotidiano nordestino.

Para entender melhor esse processo, é preciso recuar um pouco. O sertanejo original (rebatizado de ‘sertanejo raiz’) estava ligado à figura do homem simples do interior (estigmatizado na figura do Jeca Tatu) e à sonoridade da viola caipira. Duplas como Cascatinha & Inhana, Tião Carreiro & Pardinho e Pena Branca & Xavantinho são frutos dessa linhagem que manteve os traços da cultura pura do campo.

A partir dos anos 80/90, o gênero passou por uma transmutação significativa, incorporando a guitarra elétrica, sofrendo influência do pop internacional e adotando padrões inspirados no country norte-americano como o uso de chapéu e figurino de cowboy A ênfase a temas românticos, propiciou-lhe grande sucesso de vendas. Canções como “É o Amor” (Zezé & Luciano) e “Evidências” (Ch & X) marcaram essa fase.

Foi nos anos 2000 que desponta o tal sertanejo universitário que, diferentemente do forró universitário, renegou a essência do ritmo que lhe deu à luz. Nada tem a ver com o estereótipo do homem do interior, sua religiosidade, seus valores simplórios, sua aparência humilde. Em seu lugar, surge o machão individualista, endinheirado, trajado com roupas de grife, jaquetas de couro e penteados estilosos. Visava atingir um público mais ‘descolado’, conectado em novos padrões de comportamento. Para tanto, lançou mão de teclados, sintetizadores e estruturas rítmicas mais dançáveis para seduzir frequentadores de baladas.

O termo ‘universitário’ revela-se ambíguo. Ao contrário do que poderia sugerir, não indica um salto de sofisticação estética, apenas uma estratégia de marketing, um rótulo para fascinar um público mais jovem, urbano e ambicioso em ascender socialmente, inclusive através de formação acadêmica. A explosão do número de faculdades, sobretudo privadas, gerou uma enxurrada de formandos, orientados mais pela lógica de mercado do que pelo rigor acadêmico. Essa mudança de perfil ocasionou um reducionismo de repertório e um menor senso crítico. Esse crescente contingente ‘universitário’ foi capturado pelos neosertanejos que lhes ofereciam produtos de fácil assimilação, compatíveis com suas demandas.

Os representantes do estilo gostam de embalar sua trajetória exitosa na retórica da meritocracia, atribuindo a ‘bênção’ do sucesso a seu pretenso talento. Com isso, constroem a imagem de quem ‘venceu na vida’, desfilando envaidecidos nos palcos como nova elite econômica do entretenimento. Amparados por uma presença digital massiva, convertem a popularidade em negócio, diversificando as receitas com marcas próprias e publicidade, incluindo apostas esportivas (bets), sem contar os cachês milionários.

Em termos artísticos, o sertanejo universitário, apesar do título pretensioso, deu um passo atrás em relação ao sertanejo romântico. As melodias tornaram-se ainda mais previsíveis e sem inspiração, as letras frívolas tratam de relações afetivas descartáveis, exaltação à farra e à bebedeira, reservando à mulher o papel de objeto sexual.

Apesar de exibir invejáveis números no streaming, o subgênero não adquiriu relevância. Os críticos torcem o nariz para ele. São canções banais, sem criatividade, com prazo curto de validade, que não permanecem na memória afetiva. Para aqueles que concebem música como manifestação artística, o sertanejo universitário representa uma completa decepção para um país que possui diversidade rítmica e riqueza melódica que se tornou referência internacional.

Sua expansão, ao contrário do que se imagina, não brotou espontaneamente do gosto popular, mas de uma portentosa engrenagem de impulsionamento financiada pelo agronegócio que ganhou peso com a crescente importância dessa atividade da economia do país. Isso explica a hegemonia do ritmo na programação das emissoras de rádio, sobretudo do interior. Shows, feiras agropecuárias e rodeios bancados por pequenas prefeituras, controladas por políticos vinculados ao agro, ajudaram a bombar o gênero.

A forte ligação com o agro traduz-se na esfera política a alinhamento a valores conservadores. Diferentemente de outros segmentos artísticos, parte expressiva do sertanejo está fortemente vinculada ao bolsonarismo, não raro manifestado em suas preferências políticas. Embora acusem astros como Anitta, Pabllo Vittar, Caetano e Gil por pretensamente usarem recursos da Lei Rouanet, levantamentos demonstram que os 10 maiores beneficiários de recursos públicos provêm todos do mundo sertanejo, liderados por Gusttavo Lima, e Bruno & Marrone.

Dominante no cenário nacional, o gênero encontra resistências como em capitais do Norte/Nordeste como Recife e Belém, onde prevalecem ritmos regionais, e sobretudo no Rio de Janeiro, território livre do sertanejo, onde o ritmo ocupa um modesto 6º lugar na escala de preferência, atrás de MPB, samba/pagode, gospel, rock e funk. Também no exterior, mesmo em países vizinhos, o estilo não pegou. Os gringos que se renderam à bossa nova e ao samba, não se deixaram encantar pelo lenga-lenga sertanejo e sua parafernália tecnológica.

É comum também a comparação com o funk carioca. Ambos são populares, comerciais e criticados pelo teor sexual presente em suas letras. Mas há diferenças marcantes. O sertanejo, por trás de uma postura aparentemente pudica, promove condutas amorais e obscenas, enquanto o funk é premeditadamente chulo e insolente, refletindo o comportamento transgressor das periferias, ambiente de desigualdade e exclusão, tornando-se forma de expressão e pertencimento nesses territórios. Ademais, o funk não tem o suporte financeiro institucional de que dispõe o sertanejo. Sua ascensão nas plataformas de streaming incomoda o sertanejo que usa diversos expedientes para barrá-lo e desacreditá-lo. Apesar de o funk se sobressair nos rankings digitais, foi bloqueado nas emissoras de rádio por pressões econômicas (jabás). Os sertanejos ficaram mordidos com o crescimento do funk, com seu apelo sensorial que conquistou boa parte da juventude pela batida e pela dança.

No fim das contas, o ‘universitário’ do sertanejo diz menos sobre universidade e mais sobre mercado. Representa, na prática, um flagrante empobrecimento artístico, levando os críticos, preocupados com a pauperização musical, a se perguntar até onde vai o fundo do poço.

 

terça-feira, 21 de abril de 2026

É DIFÍCIO

 

“Da força da grana que ergue e destrói coisas belas” (Caetano Veloso, Sampa)

Quem tem, como eu, a desventura de residir em São Paulo, já se deu conta, angustiado, da incontrolável proliferação de novos prédios que vêm pipocando pela metrópole, em especial nos bairros mais valorizados (e cobiçados). São torres que abrigam escritórios e apartamentos para todos os tamanhos e gostos que brotam como ervas daninhas por todos os cantos, à revelia de qualquer projeto de ordenação urbana. Atendem menos às carências da cidade do que à voracidade da especulação imobiliária e dos interesses imediatistas das incorporadoras, sem que o poder público imponha restrições com base nos impactos sobre a malha viária e a já combalida infraestrutura (saneamento, abastecimento de água, energia elétrica, transporte, etc.).

Nessa toada, diariamente, somos abordados nas ruas por vendedores bem trajados que tentam nos passar a lábia para investir nossas parcas economias em empreendimentos imobiliários que sequer saíram do papel. Prometem-nos um novo conceito de habitação para nossos filhos e bichinhos, um futuro dourado com sustentabilidade, proximidade à natureza, mobilidade e bem estar, o mesmo que seu projeto está no caminho de inviabilizar. Tentam nos convencer a nos encaixotar em estúdios de luxo cercados por muros e dispositivos de segurança que nos abriguem do assédio de assaltantes e pedintes sem-teto, marginalizados pelo mesmo processo que este modelo de habitação ajuda a perpetuar.

São milhares de edifícios em construção, que nos dão a sensação de que vivemos sob um eterno e inacabado canteiro de obras e nos infernizam dia e noite com ruídos incessantes de guindastes, bate-estacas, britadeiras e caminhões.

Cada edifício que se ergue em uma zona excessivamente adensada promete despejar pelas vias estreitas do entorno dezenas (talvez centenas) de novos veículos motorizados que já não se locomovem, apenas existem, fazendo do hábito de transitar um exercício de paciência e resignação.

Esse desvairado furor construtivo abarrota os cofres das incorporadoras e abastece as propinas de agentes públicos omissos. O único propósito que não cumpre é o de atender à necessidade de moradias, voltado que está a nichos específicos e lucrativos, distantes das reais necessidades da maioria da população que continua habitando casebres insalubres, ocupando margens de represas e engordando favelas.

Segue a cartilha do neoliberalismo extremo que obedece exclusivamente aos ditames do mercado, enriquece uns poucos empresários e investidores, empobrece a população e a urbe em sua vocação de núcleo de integração das atividades de moradia, trabalho e lazer dos cidadãos.

A capital paulista, um dos maiores polos econômicos e culturais da América Latina, não teve seu crescimento acompanhado por gestões compatíveis com sua pujança. Seus habitantes, apesar de afetados por essas mazelas, não elegeram governantes capazes de lhes proporcionar benefícios duradouros, já que prezam apenas iniciativas com prazo de validade inferior a seu mandato de quatro anos.

Esse processo perverso originou-se com o prefeito Faria Lima, que conferiu prioridade a grandes obras viárias que, além de consumirem grande parte do orçamento municipal, possibilitaram malversação das verbas. Isso ocorreu durante a gestão Maluf que torrou os escassos recursos drenados da arrecadação de impostos em túneis e viadutos, incluindo o monstrengo Minhocão, um monumento ao mau gosto que ajudou a degradar o centro da cidade e tornou-se um elefante branco encravado entre tradicionais e históricas vias existentes, hoje sucateadas. Essas obras faraônicas de necessidade questionável ajudaram também a legitimar a cultura do ‘rouba mas faz’ encampada pelos eleitores que não se importam em ver parte do dinheiro público apropriado por políticos desonestos, desde que sejam realizadas obras de visibilidade.

O resultado dessas escolhas equivocadas está no que a cidade hoje se transformou: excesso de concreto, escassez de áreas verdes, parques e espaços de socialização e convivência. Consagrou-se a prevalência da cultura do automóvel poluidor e consumidor de combustível fóssil. Ficaram relegados a segundo plano calçadas, pedestres, ciclistas e transporte coletivo. Isso tornou a metrópole paulistana que já não prima pela beleza, ainda mais hostil para seus moradores.

A desgraça da vez é a excessiva permissividade atual para o erguimento de prédios, sem qualquer controle. Nosso atual prefeito e seu desvirtuado Plano Diretor foram em grande parte responsáveis por permitir essa verticalização desenfreada. Mas, verdade seja dita, contou com a preciosa colaboração de uma das piores câmaras municipais da história, composta em sua maioria por vereadores mais preocupados com pautas de costumes ou ideológicas do que com o planejamento urbano, dando as costas para a melhoria de vida da população que deveriam representar.

Nossa tão maltratada Sampa, já vitimada por infortúnios como violência, assaltos, barulho, falta de escolas, postos de saúde e, paradoxalmente, falta de habitação, vai assim aos poucos se degradando, com a perspectiva de tornar-se inabitável em algumas décadas. O erguimento desordenado de edifícios é o mais novo ingrediente para compor esse cenário distópico.

E pensar que os imponentes edifícios já foram um símbolo de progresso que tanto nos orgulhava...

 

 

 

quinta-feira, 16 de abril de 2026

UMA IMAGEM OU MIL PALAVRAS?

 

Sou de uma época em que se acreditava que uma imagem era a mais perfeita expressão da realidade. Aquilo, cuja existência era testemunhada por esses olhos que a terra há de comer, estava lá de verdade. A tarefa de descrever retoricamente tal imagem era uma vã tentativa de convertê-la, através de símbolos (denominados palavras) em algo compreensível, para os que não a presenciavam. Por mais habilidoso que fosse o narrador no manejo dos vocábulos, jamais alcançaria o grau de fidelidade proporcionado pela imagem propriamente dita. No máximo, poderia revestir o discurso com ornamentos poéticos, conferindo-lhe uma versão mais formosa. Seria como esmiuçar com a fala (ou o braile) a plenitude da cena a alguém privado da visão. Porém, era consenso de que nada contribui melhor para a compreensão de algo do que a experiência direta proporcionada pela imagem. Não por acaso, dizia-se que “uma imagem vale mais do que mil palavras”.

Com o advento da Inteligência Artificial, essa relação entre sujeito observador e objeto observado que parecia ser inquestionável, desfez-se como um castelo de cartas. Pelo menos no que diz respeito àquilo cuja visualização é mediada por telas - computador, celular, televisão, cinema etc. Os milhões de pixels perfilados eletronicamente talvez possibilitem uma resolução impressionante de seus contornos, mas não garantem que o objeto que se nos apresenta naquele espaço luminoso, plano e retangular seja de fato o que julgamos enxergar.

Uma maçã, recém-caída do pé, que se oferece ao vivo e em cores ao tato, ao olfato, ao gosto e ao olhar, em toda sua exuberância rubra, quando capturada pela lente de celulares – mesmo os de última geração -, perde sua essência original, reduzindo-se a um simulacro de maçã, não mais uma fruta em si, mas uma versão espúria, ‘virtual’ que, a rigor, não poderia ser classificada como fruto pomáceo, mas uma reles representação alegórica do espécime vegetal. Vale ela menos que uma maçã podre ou mesmo que um suco Del Valle de maçã.

O avanço dos recursos computacionais permitiu que fossem geradas imagens com um grau de nitidez e realismo capaz de desafiar o discernimento humano. O espetáculo que assistimos deslumbrados através do display nos impressiona pela sofisticação técnica e estética, porém não inspira a mesma confiança. Falta-lhe a essência, a ‘alma’. É como se fosse uma quimera sedutora, etérea, provinda do inconsciente.  A verdade evaporou-se, deixando em seu rastro os vestígios da incerteza, fragmentados no monitor. O objeto de uma imagem visto através de um celular equivale a um Monet estampado numa camiseta de poliéster.

A Inteligência Artificial proporciona uma profusão de visões que vão de cachorros que cozinham como chefs a mandalas animadas com efeitos lisérgicos. De cidades engolfadas por tsunamis devastadores a pinturas que abandonam sua placidez centenária, libertas das molduras onde foram enquadradas. Figuras extasiantes que tornam enfadonha e maçante nossa mundana realidade concreta de boletos e louça empilhada sobre a pia.

Mas se as imagens, frutos de adulteração, não valem meia pataca, tampouco as palavras ganharam pontos no mercado, onde as Big Techs e seus algoritmos tenebrosos determinam o comportamento das pessoas. Mas esse assunto vasto é matéria para outra ocasião.

Seja como for, entre imagens que não garantem a realidade e palavras que não asseguram a verdade, resta um território incerto, onde ver não é conhecer e dizer não significa compreender.

No ambiente tecnológico ao qual nossa existência está se restringindo, o verdadeiro valor deixa de estar na imagem e na palavra e passa a pousar na desconfiança e na dúvida. Pois se uma imagem já não vale mil palavras e mil palavras não sustentam a verdade, o que resta é o silêncio entre ambas, onde deixamos de consumir as aparências e começamos enfim a perceber, contestar e deixar de ser massa de manobra para monetização de influencers, pastores midiáticos, coaches da prosperidade, pilantras digitais e ciber-picaretas. A humanidade que tanto avançou no progresso técnico, em termos éticos, permanece na idade da pedra lascada.

Chegamos a um ponto em que a tecnologia, de aliada na busca pelo conhecimento e na construção de um mundo melhor, passou à condição de inimiga do pensamento, algoz da verdade, coveira da democracia.

Some-se a isso a vulnerabilidade das pessoas crédulas que não desenvolveram discernimento suficiente ou muniram-se de análise crítica, o que as torna presas fáceis para discursos sedutores. E teremos o prato feito para a distopia desoladora que se avizinha, onde nosso papel será o de observadores passivos de nossa própria degeneração.

Ao ampliar suas potencialidades - e reduzir as nossas -, a informática tende a nos tornar mais idiotas do que já somos.

 

 

sexta-feira, 10 de abril de 2026

LÍBANO LIBRE

 

Sou descendente de libaneses. Com muito orgulho! Todos os meus quatro avós provieram daquele exótico e restrito pedaço de terra, cujo tamanho não chega à metade do menor estado brasileiro, Sergipe.

Mesmo sendo um país tão pequetito, enviou para o Brasil, ao longo do século XX, tanta gente que hoje há mais descendentes libaneses no Brasil do que no próprio Líbano! Um em cada 20 brasileiros. São por volta de 10 milhões de ‘turcos’, como erroneamente costumavam ser chamados no tempo em que eu era criança. Certamente, a maior comunidade libanesa do mundo.

A oportunidade de desenvolver seus pequenos negócios foi um atrativo para os libaneses se aventurarem para essas distantes terras tropicais. E, diferentemente dos italianos, portugueses e japoneses, espalharam-se demográfica e democraticamente por todos os estados de Norte a Sul. E deram-se muito bem em todos. Começaram cuidando de “lojínias” e se expandiram para outras áreas de atuação.

No campo da política, os ‘patrícios’ tiveram uma participação notável. Encontramos exemplares em todos campos do espectro ideológico, da direita à extrema esquerda. Nomes de relevo como: Paulo Maluf, Paulo Skaf, Anthony Garotinho, Espiridião Amin, ACM Neto, Gabriel Chalita, Adib Jatene, Guilherme Afif, Michel Temer, Gilberto Kassab, Tasso Jeraissati, Beto Richa, Pedro Simon, Omar Aziz, Geraldo Alckmin, Simone Tebet, Patrus Ananias, Fernando Haddad, Guilherme Boulos, Jandira Feghali.

Musicalmente, os ‘brimos’ se destacaram, especialmente na MPB e no pop nacional: Ivon Cury, Tito Madi, Pedrinho Mattar, João Bosco, Fagner, Almir Sater, Egberto Gismonti, Duo Assad, Badi Assad, Mariana Aydar, Bruna Karam, Nonato Buzar, Tunai, André Abujamra, Evandro Mesquita, Frejat, Chorão, Fauzi Beydoum, Wanderléa, Alok e por aí vai. Parece que só não entraram na seara do sertanejo, do gospel e do pagode romântico. Ainda bem!

Em outras áreas da cultura, corre o sangue libanês em gente como Beto Carrero, Luciana Gimenez, Sabrina Sato, Sônia Abrão, Leda Nagle, William Bonner, Roberto Duailibi, Antônio Abujamra, Amyr Klink, Juca Kfouri, Jamil Chade, Davi Nasser, Ibraim Sued, Ivaldo Bertazzo, Fauzi Arap, Betty Milan, José Simão, Janete Clair, Malu Mader, Maurício Mattar, Armando Bogus, Felipe Carone, Arnaldo Jabor, Walter Hugo Khouri, Fernando Gabeira, Andréia Sadi, Guga Chacra, Júlia Duailibi, Marina Person, Emerson Kapaz, Luís Nassif, Tárik de Souza, Almir Chediak, Aziz Ab’Saber, Emir Sader, Edmar Bacha, Pérsio Arida, Antônio Houaiss, Mário Chamie, Milton Hatoum dentre tantos.

A culinária é capítulo à parte. Provindos de um país onde alimentar-se é parte de um respeitoso cerimonial de cordialidade e compartilhamento, os caprichados quitutes árabes caíram no gosto do brasileiro: esfiha, kibe, homus...

Embora tenha-me convertido ao vegetarianismo, abro exceções para ingresso em meu restritivo cardápio verde do quibe cru, do charutinho de uva e da kousa (abobrinha), recheados com carne bovina, concessão que faço em nome da relevância afetivo-cultural. Mas o tabule, compatível com meus recentes hábitos alimentares, ainda reina como manjar dos deuses. Não o bastardo, empapado com trigo como servido em restaurantes de quilo, mas o autêntico com pouco trigo, bastante salsinha, hortelã e um leve toque de pimenta síria. Hummm!

Antigo lar dos fenícios (desenvolvida civilização que, dentre outros legados, criou um sistema de sinais que deu origem ao nosso alfabeto), o Líbano é um país singularíssimo. Embora faça parte do mundo árabe, distingue-se por gozar de uma situação única, onde muçulmanos xiitas e sunitas, cristãos maronitas, melquitas, armênios, ortodoxos, drusos etc. convivem pacificamente.

É o único país do mundo, que eu saiba, administrado por um arranjo institucional com participação das principais religiões, garantindo tolerância no exercício dos diferentes credos. Bem diferente de outros da região.

A capital Beirute, a “Paris do Oriente Médio”, é uma metrópole com vida cultural pulsante, com relevantes traços arquitetônicos e históricos, onde o moderno coexiste com a tradição.

Estrategicamente localizado, às margens do Mediterrâneo, ladeado pelo gigantismo da Síria e pelo expansionismo de Israel, o espremido Líbano acabou tendo o setor Sul de seu território ocupado pelas milícias do Hezbollah, que lá se instalaram como resistência à ocupação israelense de 1982 e se tornaram mais poderosas que o próprio exército oficial.

Com o pretexto de combatê-las, as forças de Israel têm promovido ataques impiedosos e indiscriminados, massacrando a população civil de índole pacata, que apenas deseja continuar tocando seu inofensivo dia a dia dedicado ao comércio familiar de rua, barracas com especiarias, cafés, restaurantes típicos, vendedores ambulantes de shawarma, falafel, manakish (pão com zaatar), kafta e doces artesanais e atividades ligadas ao turismo que há poucos anos florescia.

Hospitais, colégios, universidades e bairros estritamente residenciais têm sido devastados pelos bombardeios perpetrados por caças de última geração fornecidos pelos EUA ao Estado sionista que estão inviabilizando a existência do Líbano como nação independente. O país está pagando pesado e injusto preço por manter uma postura de não investir em atividades bélicas, como seus vizinhos.

Como consequência, esse pacífico país, exemplo para o mundo de convivência entre diversas culturas e religiões vem sendo dizimado, sob o olhar conivente do mundo, inclusive da numerosa, mas alienada colônia libanesa no Brasil, que de tal modo se acomodou por aqui que parece ter-se de desconectado de suas origens.

Minha maior frustação é não ter podido conhecer pessoalmente, em seus áureos tempos, a sagrada terra dos meus antepassados, usufruindo in loco a célebre hospitalidade de seu povo e ter ouvido da boca dos meus conterrâneos um afetuoso “ahlan wa sahlan” (seja bem-vindo!)

 

sábado, 4 de abril de 2026

DIGNÍSSIMO CANALHA (VERSÃO 2026)

 
Pelo presente instrumento, venho desrespeitosamente dirigir-me a vossa excelência, em minúsculas, na dimensão da pequenez moral que encarnas. Refiro-me a ti, nobre calhorda, investido que estás da augusta prerrogativa, intransferível e vitalícia, de decidir o destino dos que habitam o mundo dos vivos, já que o dos mortos foge à tua jurisdição, embora almejes equiparar-te ao Ser Supremo que, inobstante os acórdãos do teu STF, exerce deliberações irrevogáveis no reino celestial.

A ti, que acolhes a reverência do povo que, passivo, aguarda tuas soberanas e irretocáveis decisões peremptórias. A ti, que te vales das prerrogativas que te distingue dos simples mortais, relegados à sua insignificância, quando de tua boca ouvem o famigerado “sabe com quem estás falando?”. A ti, ente indigno que, indignado, bradas por direitos inalienáveis enquanto vives na intimidade inescrutável da tua vida privada de práticas inconfessáveis. A ti, que por exercer o ofício de julgar os outros, julgas-te acima dos outros.

Venho oficiar-te, honorável patife, que encontro maior retidão e honra na palavra sincera que brota do coração de um pobre inculto do que nos alfarrábios que sustêm tuas áridas sentenças intermináveis. As mesmas que ambicionas inscrever nos anais da imortalidade, onde ostentas para as gerações futuras tua soberba grandiloquência farisaica e tua rocambolesca sapiência estéril.

Os recursos do erário que faltam no amparo aos desprovidos, amealhas sem cerimônia ou parcimônia para manter intacto esse intrincado e indecifrável sistema, tão inócuo quanto iníquo, que cinicamente intitulas como ‘Justiça’. Revestes com aura de magnificência e infalibilidade essa espetaculosa pantomima patética e embusteira sob a qual se vergam as vidas dos que se submetem ao jugo do teu julgar.

Esgueiras-te por esse emaranhado de leis, decretos, normas, códigos, regimentos, resoluções, regulamentos que se presta como barreira ao acesso dos leigos, vedando-lhe o acesso ao teu território demarcado. Atribuis a ti mesmo o monopólio do saber e das práticas legitimadas ‘por lei’. Para que, na mesma medida em que expandes a doutrina do DIREITO, reduzes o primado da JUSTIÇA.

A chave de tua inoperância tem nome: PRAZO. Permites que os julgamentos se arrastem indefinidamente, sob a cínica presunção de que a justiça necessita de décadas para abarcar os infinitos meandros legais. E assim vais multiplicando as instâncias para alargar tanto os períodos de apreciação quanto o tamanho do teu patrimônio pessoal.

 Adias, protelas, procrastinas, prorrogas, retardas, demoras, diferes, pospões, alongas, espichas, espacejas, alastras, dilatas, encompridas, acresces, expandes, empurras com a barriga até ver coroada a prescrição do crime. Conside­raste, eminente pulha, que, após décadas de espera, a sentença já foi proferida, independentemente do trânsito em julgado? Devo informar-te, distinto safardana, que quem aguarda por anos, seja amargando a privação de um direito ou usufruindo do gáudio de uma pena descumprida, já é repositório do veredito, seja o que venha constar no papel. Todo esse ritual inesgotável serve apenas para tornar a justiça uma peça utópica, inatingível para os dela sedentos.  

Sai da tocaia, egrégio velhaco. Desce do palácio de capítulos, parágrafos, alíneas, incisos, caputs e cláusulas em que te enclausuras. Cumpre salientar, excelentíssimo pústula, que as ruas, distantes dos terraços dos palácios erguidos para te apartares da realidade de fato (e de direito), já não pertencem àqueles que nelas deveriam transitar, dominadas pelos malfeitores que libertaste das masmorras por artifícios legais e expedientes processuais, devolvidos à liberdade para continuar delinquindo, convictos de que os braços da lei jamais os alcançarão. Facínoras de toda espécie a quem remiste de pena, zombam daqueles que se pautam por princípios e honradez, sem armas, armações ou respaldo advocatício.

Pessoas corretas vivem ao arrepio das formalidades legais que utilizas para agrilhoar os cidadãos, emparelhados pelo mesmo nível de calhordice que estabeleces tendo por referência teu espúrio padrão de valores. Com o intuito de que venham necessitar de tua mediação remunerada segundo a tabela do OAB.

Sob o manto de teu propalado ‘estado de direito’, corruptos e ladrões escapam ilesos de suas falcatruas. Contam não apenas com tua plácida condescendência, mas com tua cruel cumplicidade. São para esses que aplicas a máxima leniência, amparando-os com a força irrefutável das brechas da lei, concedendo-lhes draconiana indulgência. Cobrindo com o verniz legalista da imunidade a impunidade. “Por falta de provas”, provas.

Quando se erguem vozes contra tua ineficácia, a estratégia de defesa já está traçada: eximir-te de responsabilidade. Culpas os legisladores, a polícia, a escassez de juízes, seus salários insuficientes e o excesso de carga horária, a inexistência de vagas no sistema prisional, a carência de investimentos, os problemas sociais, a ausência de políticas públicas, a colonização portuguesa. Assim, absolves-te ‘in totum’.

Todo teu empenho converge para um único objetivo: não punir. Inocentes ou culpados, pouco importa, prevalece sempre o princípio ‘in dubio pro reo’. Desde que teus honorários sejam quitados com precisão, integralidade e... justiça.

Quando um crime hediondo mobiliza a opinião pública, tens à mão um arsenal para abrandar o rigor da pena: tornozeleira eletrônica, prisão domiciliar, bom comportamento, atenuantes, progressão do regime, indulto, ‘saidinha’ de Natal, superlotação carcerária, penas alternativas, remissão, sursis, audiências de custódia. Tudo preparado para abrandar ou extinguir a punição. E criar novas possibilidades de utilizar teus serviços e criar vagas para a leva de recém-formados pelas faculdades de direito que abrem em cada esquina.

Por todos os pretextos, vais libertando das grades os poderosos e seu séquito de advogados, reservando os horrores dos calabouços aos despossuídos das posses que bancariam teus emolumentos. Os que não colaboram com o pecúlio que sustenta a devassidão moral que apadrinhas e consagra esse país como o paraíso da impunidade.

Deixa de hipocrisia. A quem pretendes enganar ao afirmar que personificas a Justiça? Teu ofício é apenas advogar em prol de vermes, retribuindo-lhes com pérfidos serviços o dinheiro que garante o suntuoso padrão de vida que ostentas. Incluindo os penduricalhos incorporados a teu holerite, como ‘direito adquirido’.

Quem te sustenta, respeitável biltre, são os safados. Crápulas que, desprovidos de considerações éticas, estudam teus intrincados preceitos e se formam doutores para assimilar os meios legais, penais, constitucionais e amorais de permanecer impunes, qualificando-se a ingressar em tuas ro­dinhas infames. Partilharem do cafezinho do fórum, onde, por trás de indevassáveis paredes, ro­lam torpezas inimagináveis. Tornam-se teus colegas e cupinchas, uma associação fechada de rábulas parasitas.

A verdadeira Justiça é o oposto de ti. Consiste em tornar o mundo digno, prescindindo de teus sórdidos préstimos. Os princípios de retidão e civilidade, carregamo-los em nós. Num mundo de justos, tua ‘justiça’ não se ajusta. Que papel teriam juristas numa sociedade sem delitos? Os íntegros coexistem com harmonia, dispensando tua protocolar intermediação. Quem carece de lei são aqueles que dela vivem à margem.

Data vênia, ilustríssimo, vai à p* que te pariu.

 

 

(Adaptação de texto originalmente publicado em 2013)

 

 

quinta-feira, 26 de março de 2026

O QUE ELES DIZEM

 

Eles dizem que tudo vai às mil maravilhas, que nunca estivemos tão bem e que a tecnologia chegou para melhorar nossas vidas. “O que seria de nós - perguntam eles - sem a internet”? Nem dá para imaginar... Como poderíamos nos munir de fake news e organizar o cotidiano sem a enxurrada de opiniões alheias? E a saúde, como cuidar dela sem recorrer ao Dr. Google, especialista em diagnósticos instantâneos e automedicação virtual? Enfim, caminhamos para um futuro onde tudo será entregue pronto e mastigado. Nosso papel na formação de nossa própria vida será o de um mero espectador, um acessório de segunda.

E as operações bancárias então? Antes, carregávamos dinheiro vivo em bolsos e bolsas vulneráveis, espreitados por gatunos. Agora que migramos para cartões e aplicativos, os gatunos migraram para o ciberespaço. Podemos nos fartar em gastos por 29 dias, antes que a chegada da fatura no 30º acabe com a festa. Tudo a um módico custo anual, diluído em doze parcelas e juros ligeiramente escorchantes.

Games, tem para todos os gostos, para nos entreter (e nos viciar) nas brechas de tempo, destinadas a reflexão ou contemplação de árvores, mesmo que elas (as brechas e as árvores) não existam mais. Passatempos sobre pornografia, violência e ódio que nos engajam e dão sentido a nossa vida carente de emoção e transgressão, tornam-nos monstros cruéis, tarados, abusadores. Porém exímios em informática.

E as compras? Como viver sem o opulento cardápio de inutilidades da Amazon? Tudo pelo prazer de nos autopresentear com quinquilharias primorosamente embaladas, sem precisar levantar do trono de onde governamos nossa vida, espremida nas polegadas de uma tela.

Quanto ao saber, “que progresso!” Já não precisamos de faculdades e mestres para nos entulhar com seu inútil conhecimento acadêmico que no fim só nos rendem inteligência, um diploma e nenhum bitcoin. “Certificando-nos como sábios pobretões”, argumentam eles.

E quanto às fotos que disparamos freneticamente feito metralhadoras giratórias para descartar 99 de cada 100, sem nos preocupar com a liturgia dos negativos e revelações da Kodak? Tanta foto que registra lugares de que mal lembramos, cuja beleza inerente permanecerá guardada em sua essência intangível. Paisagens e semblantes que atravessaram fugazmente nossa existência sem deixar vestígios. Mas as fotos estão lá! Redundantes, tediosas, iguais, testemunhas silenciosas de aventuras nunca experimentadas. Dissolvidas nos infinitos gigabytes, que deixaremos de herança para que nossos filhos nunca acessem.

As músicas que apreciamos entulhamos em playlists para descartar como resíduos digitais, após uma semana, quando delas não mais nos recordarmos. Um rolo compressor de bytes, catalogados por ordem de insignificância. E pensar que houve um tempo em que músicos e artistas se dedicavam a criar arte em discos com capas, encartes, fichas técnicas, destinados a enriquecer as prateleiras de nossas salas? “Pra quê tudo isso”, perguntam eles? O que importa nessa efêmera existência é criar seleções no Spotify com os hits reciclados do momento. A própria plataforma, que parece nos conhecer melhor do que nós mesmos, decide o que gostamos, sem nos consultar.

E os filmes que a Netflix renova a cada semana? Um dilúvio de blockbusters sem inspiração em que nos afogamos, sem saber com qual deles desperdiçaremos nosso balde de pipocas. O essencial, claro, ali não está. Os clássicos, os cults que passaram na Mostra. Aqueles que deixaram marcas profundas e armazenamos em nossa memória RAM afetiva.  “Nem tudo é perfeito”, apressam-se em nos lembrar.

Podemos apreciar nossa comidinha impessoal, pedida pelo iFood há 10 minutos. Basta um toque na tela e o objeto de nosso desejo se materializa à porta. Às vezes bate uma saudade (“saudosismo”, contrapõem eles) do prazer de preparar quitutes com o toque caseiro que a avó nos ensinou, aquele temperinho especial, saído quentinho do forno. “Mas a vida corrida de hoje não comporta essas pueris extravagâncias afetivas. Não podemos nos dar ao luxo de desperdiçar tais minutos em sentimentalismo culinário.” É o que eles dizem.

Se quisermos quebrar a rotina e ir a um restaurante ou ao teatro, uma chamadinha e o UBER providencia, num passe de mágica, um motorista robotizado com sorriso ensaiado para nos conduzir a nosso destino, teletransportados pelos mapas do GPS, onde não figuram parques, ipês, monumentos, casarões, pássaros, cães e crianças brincando... Sem preocupação com taxímetro, combustível e sem recorrer ao tumultuado transporte de massas.

Podemos ainda usar e abusar das mensagens disparadas pela conta gratuita que o Gmail nos disponibilizou, condicionada, claro, aos ininteligíveis termos de uso que lhes permitem, com nossa anuência, manipular nossa vida, dela espremendo o que lhes interessa. Sem precisar recorrer ao velho Correio (lembra-se dele?) com aquele cerimonial de redigir, dobrar, selar, enviar e aguardar o recebimento incerto. “Atraso de vida”, proclamam eles.

Tampouco precisamos memorizar os aniversários de amigos e familiares; o Facebook se incumbe dessa chatice. Podemos enviar felicitações via whatsapp por mensagem de texto (ou de áudio para mostrar que nos restou a voz humana). Nada de telefonemas, tendo que rebuscar palavras enfadonhas que traduzem emoções há muito esquecidas. O único esforço é encontrar o emoji adequado e... pronto, missão cumprida! Sem o calor de um abraço ou as sutilezas que o tempo estampa na expressão. Sem bolo, sem velas, sem beijinhos, essas cerimônias que o pessoal das antigas valorizava. E, convenhamos, quem precisa de amigos de carne e osso quando no Face temos milhares, com retratos, perfis, stories, a ficha completa. Se incluíssemos os crimes, teríamos um dossiê policial.

Sim, a tecnologia nos abarrotou com trivialidades para transformar uma vida insossa numa insossa vida. Mas não há motivo para desespero. Chegou a Inteligência Artificial, prometendo solucionar os problemas com seus algoritmos infalíveis. “Fique frio que tudo ficará bem”. É o que eles dizem.

 

  

quinta-feira, 19 de março de 2026

A IRA E O IRÃ

 

O esporte sempre manteve a tradição e a virtude de se posicionar acima das picuinhas políticas. Nas arenas, as únicas regras que valem são as estabelecidas pelas federações esportivas.

Do mesmo modo, quando um país sedia uma grande competição tipo Olimpíadas, Copa de Futebol, Fórmula 1, deve demonstrar que possui disposição e infraestrutura que garantam que o certame transcorra com lisura e imparcialidade, sem intercorrências que comprometam seu êxito.

 A iniciativa de sediar um evento esportivo de grande magnitude serve também para exibir internacionalmente as qualidades do anfitrião no atendimento aos requisitos de organização e logística.

Mesmo em tempos de Guerra Fria ou situações de conflitos, as competições esportivas transcorreram com normalidade, como campo não contaminado, onde se pode exercer com civilidade a prática desportiva, a mesma que desde a Grécia antiga cumpre relevante papel em termos de desenvolvimento pessoal, promoção da saúde, socialização e integração.

Alguns casos vêm à memória como as Olimpíadas de 1936 na Alemanha sob o nazismo. Nesse período de alguns meses, Hitler afrouxou seu autoritarismo, interrompeu a perseguição a judeus, negros e opositores e adotou providências para garantir condições para que visitantes de todas as pátrias pudessem se sentir à vontade em terras germânicas, apreciando a excelência que o regime queria demonstrar.

Outro exemplo é o do campeonato mundial de futebol realizado na Argentina em 1978, sob uma feroz ditadura, quando o clima nos estádios não se deixou contaminar pela repressão das ruas. O técnico portenho à ocasião, César Luís Menotti, que levou sua seleção ao título, tinha inclinações socialistas e nem por isso foi coagido em seu trabalho.

Caso semelhante ocorreu por aqui durante os anos de chumbo do governo Médici, quando João Saldanha, simpático ao ‘Partidão’, comandou a seleção canarinho que classificou o Brasil nas eliminatórias para a Copa de 1970, da qual sairia tricampeã. Em resposta ao general ditador, que fizera pressão para a convocação de um atleta, o ‘João Sem Medo’ (como era conhecido) retrucou com ombridade: “o presidente escala o ministério, eu escalo a seleção”.

De fato, o esporte pode se orgulhar de ter atravessado muitas décadas sendo ‘território livre’, imune a ingerências, um espaço de congraçamento, onde todos se respeitam,  o jogo sujo é chutado para escanteio e a trambicagem recebe cartão vermelho.

Essa virtude infelizmente vem sendo dilapidada nesses tempos em que a intolerância passou a reger as relações interpessoais.

A seleção futebolística do Irã teve um desempenho brilhante nas eliminatórias e se classificou com louvor para disputar a copa na América do Norte de 2026. No entanto, a ofensiva de forças americanas ao país persa resultou na incerteza de o time participar da competição com jogos programados  para o território do país que perpetrou o ataque.

Em relação à nação dos aiatolás, por mais que não a apreciemos, essa hesitação é justificável, partindo de quem foi vítima de ataque. O que é inaceitável é a posição oficial do governo americano que, nas palavras de seu mandatário mor, afirmou que não podia garantir a segurança dos atletas do país islâmico de modo que não seria ‘apropriada’ a vinda da delegação. Ora, isso significa que os EUA não estão qualificados a sediar o evento já que se declararam incapacitados de garantir a segurança dos jogadores de uma das seleções habilitadas a participar.

É ainda mais absurdo o fato de gabando-se de ser a nação mais poderosa e pujante do planeta, os ianques declararem não ter condições de assegurar que suas exímias forças de segurança ofereçam proteção a atletas, de que nacionalidade forem, que compareceriam não para soltar mísseis, mas para jogar bola. Tal evasiva parece tratar-se de mais uma ‘trumpice’.

Esse comportamento antidesportivo não é exclusividade dos EUA de Trump. A arquirrival Rússia é governada há 27 anos por um ex-membro da KGB, reconhecido por adotar atitudes pouco ortodoxas como a de injetar substâncias químicas proibidas nos competidores para aumentar a chance de conduzi-los ao pódio, levando as autoridades esportivas a banir os comandados de Putin de competições esportivas. Tal prática combina com outra, habitual do mandatário cossaco, a de envenenar bebidas de desafetos políticos.

Atitudes como essas partindo de 2 dos maiores líderes mundiais que deveriam ser pessoas impolutas, além de colocar em xeque o esplendor do esporte, demonstram a degeneração moral daqueles que, por sua posição de destaque deveriam baluartes de integridade.

Estamos voltando aos tempos da barbárie, em que uma tribo mantém em relação à outra, uma atitude hostil, pondo abaixo séculos de avanço civilizatório e de aprimoramento das relações diplomáticas. Que mundo estamos deixando para nossos filhos em que os grandes líderes comportam-se como trogloditas?

A atitude de Trump é parte de seu perfil arrogante. O presidente republicano já havia rompido outro hábito secular, ao se recusar a cumprimentar o vencedor das eleições de 2020, ato de grandeza que reforçaria os primados do regime democrático que pressupõe aceitar o resultado eleitoral e quem perde reconhece a derrota e parte para a próxima.

No Brasil, essa conduta deplorável foi copiada em 2022 quando o perdedor nas urnas, discípulo de Trump, recusou-se a cumprimentar o candidato eleito legitimamente. Preferiu fugir para Orlando para não demonstrar cordialidade nem se ‘rebaixar’ de sua condição de ‘mito’, apertando a mão de 4 dedos do adversário político, gesto que ajudaria a pacificar o país e desarmar os espíritos. Birrento, manteve sua base raivosa preparada para o enfrentamento.

A prática de cumprimentar o oponente (diferente do ‘inimigo’) tem origem no espírito esportivo, em que, ao fim da contenda, vencedor e perdedor dão-se as mãos civilizadamente, mostrando que o embate que ocorreu na arena foi encerrado com o apito final, voltando os competidores a ser apenas indivíduos normais, merecedores de respeito e consideração.

Essas atitudes de confronto permanente são produtos do radicalismo que tem formado a índole das pessoas que naturalizam o ódio e as tornam incapazes de enxergar o outro como um ser humano que, mesmo pensando diferente, é digno de gentileza. São frutos de uma época de deterioração social, onde a internet substituiu a comunicação tête-à-tête, olho no olho, na qual as pessoas tinham maior chance de se entender e havia maior empatia. Mas isso é assunto para uma outra crônica.