quarta-feira, 22 de julho de 2026

O CORAÇÃO NEGRO DO FUTEBOL

 

Àqueles que acompanharam a Copa do Mundo não deve ter passado despercebida a presença maciça de jogadores negros nas partidas. Não me refiro obviamente às equipes da África Subsaariana (Cabo Verde, Costa do Marfim, Congo...) que, por sinal, a cada edição vêm melhorando seu desempenho, enfrentando de igual para igual seleções consagradas do Primeiro Mundo. E sim às poderosas esquadras europeias, que, apesar do sobe/desce dos últimos anos, permanecem na linha de frente do futebol.

Em outro extremo, chama a atenção uma notável exceção: a Argentina, em cuja seleção não há sequer um único jogador negro. Resultado de uma política de ‘embranquecimento’ levada a cabo durante o século XIX, derivada do projeto colonialista praticado. O Estado portenho incentivou fortemente a imigração europeia e executou um recrutamento discricionário de negros para as frentes de batalha. Sem falar da incidência de epidemias que atingiu severamente os segmentos mais pobres. Tais fatores contribuíram em encolher drasticamente a presença da etnia no país. Esses movimentos fizeram com que a população negra fosse reduzida ao longo da história, ao que se estima, de 30% para menos de 1%, nível que se mantém até hoje. O resultado desse processo de exclusão racial é percebido dentro e fora dos estádios e ajuda a compreender as lamentáveis cenas de racismo expressas pela torcida celeste e... branca.

A situação de nosso vizinho sul-americano é intrigante. Separados apenas por uma fronteira de 1200 km, partilhamos com nossos hermanos um passado colonial marcado pela escravidão e muitos pontos em comum em nossas culturas, incluindo uma paixão quase religiosa pelo futebol. No entanto, enquanto o Brasil construiu uma sociedade miscigenada (ainda que marcada por desigualdades e racismo estrutural), no país ao lado os negros foram praticamente banidos da vida política e social.   

A Europa percorreu caminho inverso. Nas últimas décadas, o continente recebeu grandes levas de imigrantes africanos que se tornaram cidadãos franceses, ingleses, holandeses, belgas, alemães. Muitos deles, claro, tornaram-se craques de bola.

Antes da virada do século, o padrão dos jogadores europeus era bem diferente: atletas brancos leitosos, quase róseos, robustos, bem nutridos, disciplinados e impecavelmente preparados que praticavam um jogo quadradinho, previsível e altamente técnico, frio como os Alpes austríacos, preciso como os relógios suíços. Conservando esses atributos, o futebol europeu acumulou admiráveis conquistas.

Até que sua hegemonia foi quebrada em 1958 por um grupo de garotos morenos franzinos, bons em driblar e improvisar, provindos de um país tropical do Hemisfério Sul. Entre eles, um ‘negrinho’ camisa 10 que aos 17 anos cativou o mundo com seu toque genial, sendo entronado ‘rei do futebol’.

A partir daí, para manter sua relevância, o futebol europeu resolveu mudar de tonalidade. Essa transformação ficou particularmente evidenciada na seleção francesa 70% black de 2026, cuja formação escancarou ao mundo um país de cidadãos com características físicas diferentes daquela que o mundo se acostumara a assistir. Alguns conferiam a esse fenômeno um tom de deboche, insinuando, numa expressão escamoteada de racismo, que a seleção da França não era integrada por autênticos franceses, como se um dos critérios necessários para definir a nacionalidade fosse a cor da pele.

Não se tratava, é bom que se ressalte, de jogadores estrangeiros naturalizados e sim, em sua maioria, filhos ou netos de imigrantes nascidos ou criados na mesma terra de Charles De Gaulle, Edith Piaf, Monet e Simone de Beauvoir. Pessoas que participaram da construção da sociedade gaulesa contemporânea, mais plural e heterogênea. Que entoavam ‘A Marselhesa’ com o mesmo fervor dos demais e que ali estavam para dar seu sangue (igualmente vermelho) pela nação que os acolheu e exaltou com pioneirismo os ideais de Liberdade, Fraternidade e Igualdade.

Nobres valores que parecem vir sendo deixados de lado nesses tempos em que os fantasmas do racismo e da xenofobia têm aflorado, ameaçando até os campos presumivelmente neutros do esporte, ambiente em que o princípio da equanimidade de condições deveria prevalecer. Derivados da mesma lógica que inspirou o mito da superioridade ariana, desmontado quando Jesse Owens cruzou a linha de chegada bem à frente dos atletas que Hitler colocou na raia para se tornarem imbatíveis.

Hoje, a presença marcante de negros no ‘rude esporte bretão’ já não causa estranheza. Se o futebol é branco de nascimento, carrega em sua face nova coloração. Parodiando Vinícius de Moraes, se hoje ele é branco na estratégia, é negro demais no coração.

E essa metamorfose foi além do futebol. Basta ver a Corrida de São Silvestre, em que a reiterada superioridade dos filhos da Mama África tornou a competição desinteressante. Não é diferente no boxe, no basquete, no atletismo e em outras categorias olímpicas em que os negros têm monopolizado as grandes conquistas. Ao contrário do que ocorre em modalidades elitistas como tênis, golfe e fórmula 1, em que o domínio de branquelos bem formados permanece. 

Fenômeno semelhante acontece na música popular. Do jazz ao blues, do rock’n’roll ao soul, do mambo ao reggae, do samba ao maracatu, é difícil imaginar a trilha sonora do mundo sem a contribuição decisiva de artistas como Chuck Berry, Jimi Hendrix, Miles Davis, Duke Ellington, Louis Armstrong, Billie Holiday, Bob Marley, Stevie Wonder, Aretha Franklin, Michael Jackson, Ray Charles, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Cartola, Pixinguinha e tantos outros.

Não se trata de talento natural, inato, como se poderia erroneamente deduzir. Mas da capacidade humana que demonstraram de transmutar aflição em criação, exclusão em expressão, resistência em excelência.

A situação no campo das ciências merece reflexão. A predominância de cientistas e pensadores brancos não pode ser dissociada das condições que favoreceram acesso à educação, instituições de pesquisa e financiamento. A menor participação de negros nesses espaços está relacionada a barreiras econômicas, sociais e políticas, jamais à limitação de capacidade.

O mesmo ocorre em manifestações artísticas tradicionalmente associadas às elites. A música clássica, o balé, as artes plásticas e mesmo certos circuitos literários, continuam refletindo um padrão menos diverso. Essas expressões dependem de um capital cultural difícil de acumular: aulas precoces, instrumentos caros, escolas especializadas e acesso a instituições pouco permeáveis à segregada população negra.

Durante séculos, os padrões de valorização cultural privilegiaram referências europeias, enquanto as contribuições africanas e afrodescendentes foram sistematicamente marginalizadas. O reconhecimento de sua importância na música, no esporte e em outras manifestações culturais representa, antes de tudo, a reparação por uma injustiça histórica.

Assim, a mesma força que molda o coração negro do futebol e dita o ritmo das pistas de dança e dos palcos reluzentes precisa romper as barreiras intransponíveis das universidades e dos centros inacessíveis de poder. O talento e a resiliência que transformaram o esporte nascido inglês em espetáculo mundial de pluralidade são os mesmos que têm potencial para revolucionar a ciência e o pensamento global. Desde que as condições de largada sejam as mesmas. A história mostra que o protagonismo negro já não pede licença. Ele se impõe pelo mérito, provando que, se a tática do mundo insiste em ser monocromática, em seu peito pulsa um coração multicor.

 

 

Nenhum comentário: