Àqueles que acompanharam a Copa do Mundo não deve ter passado despercebida a presença maciça de jogadores negros nas partidas. Não me refiro obviamente às equipes da África Subsaariana (Cabo Verde, Costa do Marfim, Congo...) que, por sinal, a cada edição vêm melhorando seu desempenho, enfrentando de igual para igual seleções consagradas do Primeiro Mundo. E sim às poderosas esquadras europeias, que, apesar do sobe/desce dos últimos anos, permanecem na linha de frente do futebol.
Em outro extremo, chama a atenção uma
notável exceção: a Argentina, em cuja seleção não há sequer um único jogador
negro. Resultado de uma política de ‘embranquecimento’ levada a cabo durante o
século XIX, derivada do projeto colonialista praticado. O Estado portenho
incentivou fortemente a imigração europeia e executou um recrutamento
discricionário de negros para as frentes de batalha. Sem falar da incidência de
epidemias que atingiu severamente os segmentos mais pobres. Tais fatores
contribuíram em encolher drasticamente a presença da etnia no país. Esses
movimentos fizeram com que a população negra fosse reduzida ao longo da
história, ao que se estima, de 30% para menos de 1%, nível que se mantém até
hoje. O resultado desse processo de exclusão racial é percebido dentro e fora
dos estádios e ajuda a compreender as lamentáveis cenas de racismo expressas
pela torcida celeste e... branca.
A situação de nosso vizinho sul-americano
é intrigante. Separados apenas por uma fronteira de 1200 km, partilhamos com
nossos hermanos um passado colonial marcado pela escravidão e muitos pontos em
comum em nossas culturas, incluindo uma paixão quase religiosa pelo futebol. No
entanto, enquanto o Brasil construiu uma sociedade miscigenada (ainda que
marcada por desigualdades e racismo estrutural), no país ao lado os negros
foram praticamente banidos da vida política e social.
A Europa percorreu caminho inverso.
Nas últimas décadas, o continente recebeu grandes levas de imigrantes africanos
que se tornaram cidadãos franceses, ingleses, holandeses, belgas, alemães. Muitos
deles, claro, tornaram-se craques de bola.
Antes da virada do século, o padrão
dos jogadores europeus era bem diferente: atletas brancos leitosos, quase
róseos, robustos, bem nutridos, disciplinados e impecavelmente preparados que praticavam
um jogo quadradinho, previsível e altamente técnico, frio como os Alpes
austríacos, preciso como os relógios suíços. Conservando esses atributos, o
futebol europeu acumulou admiráveis conquistas.
Até que sua hegemonia foi quebrada em
1958 por um grupo de garotos morenos franzinos, bons em driblar e improvisar, provindos de um país tropical do
Hemisfério Sul. Entre eles, um ‘negrinho’ camisa 10 que aos 17 anos cativou o
mundo com seu toque genial, sendo entronado ‘rei do futebol’.
A partir daí, para manter sua
relevância, o futebol europeu resolveu mudar de tonalidade. Essa transformação
ficou particularmente evidenciada na seleção francesa 70% black de 2026, cuja
formação escancarou ao mundo um país de cidadãos com características físicas
diferentes daquela que o mundo se acostumara a assistir. Alguns conferiam a
esse fenômeno um tom de deboche, insinuando, numa expressão escamoteada de
racismo, que a seleção da França não era integrada por autênticos franceses,
como se um dos critérios necessários para definir a nacionalidade fosse a cor
da pele.
Não se tratava, é bom que se
ressalte, de jogadores estrangeiros naturalizados e sim, em sua maioria, filhos
ou netos de imigrantes nascidos ou criados na mesma terra de Charles De Gaulle,
Edith Piaf, Monet e Simone de Beauvoir. Pessoas que participaram da construção
da sociedade gaulesa contemporânea, mais plural e heterogênea. Que entoavam ‘A
Marselhesa’ com o mesmo fervor dos demais e que ali estavam para dar seu sangue
(igualmente vermelho) pela nação que os acolheu e exaltou com pioneirismo os
ideais de Liberdade, Fraternidade e Igualdade.
Nobres valores que parecem vir sendo
deixados de lado nesses tempos em que os fantasmas do racismo e da xenofobia têm
aflorado, ameaçando até os campos presumivelmente neutros do esporte, ambiente
em que o princípio da equanimidade de condições deveria prevalecer. Derivados
da mesma lógica que inspirou o mito da superioridade ariana, desmontado quando
Jesse Owens cruzou a linha de chegada bem à frente dos atletas que Hitler
colocou na raia para se tornarem imbatíveis.
Hoje, a presença marcante de negros
no ‘rude esporte bretão’ já não causa estranheza. Se o futebol é branco de
nascimento, carrega em sua face nova coloração. Parodiando Vinícius de Moraes,
se hoje ele é branco na estratégia, é negro demais no coração.
E essa metamorfose foi além do
futebol. Basta ver a Corrida de São Silvestre, em que a reiterada superioridade
dos filhos da Mama África tornou a competição desinteressante. Não é diferente
no boxe, no basquete, no atletismo e em outras categorias olímpicas em que os
negros têm monopolizado as grandes conquistas. Ao contrário do que ocorre em
modalidades elitistas como tênis, golfe e fórmula 1, em que o domínio de branquelos
bem formados permanece.
Fenômeno semelhante acontece na
música popular. Do jazz ao blues, do rock’n’roll ao soul, do mambo ao reggae,
do samba ao maracatu, é difícil imaginar a trilha sonora do mundo sem a
contribuição decisiva de artistas como Chuck Berry, Jimi Hendrix, Miles Davis,
Duke Ellington, Louis Armstrong, Billie Holiday, Bob Marley, Stevie Wonder,
Aretha Franklin, Michael Jackson, Ray Charles, Milton Nascimento, Gilberto Gil,
Cartola, Pixinguinha e tantos outros.
Não se trata de talento natural,
inato, como se poderia erroneamente deduzir. Mas da capacidade humana que
demonstraram de transmutar aflição em criação, exclusão em expressão,
resistência em excelência.
A situação no campo das ciências
merece reflexão. A predominância de cientistas e pensadores brancos não pode
ser dissociada das condições que favoreceram acesso à educação, instituições de
pesquisa e financiamento. A menor participação de negros nesses espaços está
relacionada a barreiras econômicas, sociais e políticas, jamais à limitação de
capacidade.
O mesmo ocorre em manifestações
artísticas tradicionalmente associadas às elites. A música clássica, o balé, as
artes plásticas e mesmo certos circuitos literários, continuam refletindo um
padrão menos diverso. Essas expressões dependem de um capital cultural difícil
de acumular: aulas precoces, instrumentos caros, escolas especializadas e
acesso a instituições pouco permeáveis à segregada população negra.
Durante séculos, os padrões de
valorização cultural privilegiaram referências europeias, enquanto as
contribuições africanas e afrodescendentes foram sistematicamente
marginalizadas. O reconhecimento de sua importância na música, no esporte e em
outras manifestações culturais representa, antes de tudo, a reparação por uma
injustiça histórica.
Assim, a mesma força que molda o
coração negro do futebol e dita o ritmo das pistas de dança e dos palcos
reluzentes precisa romper as barreiras intransponíveis das universidades e dos
centros inacessíveis de poder. O talento e a resiliência que transformaram o
esporte nascido inglês em espetáculo mundial de pluralidade são os mesmos que
têm potencial para revolucionar a ciência e o pensamento global. Desde que as
condições de largada sejam as mesmas. A história mostra que o protagonismo
negro já não pede licença. Ele se impõe pelo mérito, provando que, se a tática
do mundo insiste em ser monocromática, em seu peito pulsa um coração multicor.
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