Filmes com finais felizes, além de
nos inundar a alma com uma sensação boa, fazem-nos acreditar que existe uma
lógica subjacente à ordem das coisas, na qual a bondade sempre prevalece e os
ruins serão punidos. Tais enredos, salpicados de tragédias transitórias, sofrem
invariavelmente reviravoltas, até que o glorioso desfecho traga paz a nosso
coração. Depois de duas horas de angústia cinematográfica, o alívio compensa a
amargura. Podemos, então, dormir o sono dos justos e dos vingados, acreditando
que a marcha do destino obedeça a essa lógica regeneradora.
No entanto, quando nos voltamos para
a realidade cruel que nos cerca, constatamos que o roteiro da vida foi escrito
por alguém com pouco senso de humor e as coisas não caminham para a catarse desejada.
Quem tripudia sobre os outros é que alcança o triunfo; quem explora os
necessitados é que usufrui da opulência.
E o justo? Qual o papel desse escultor
ingênuo da utopia que se esmera em moldar o ser humano? Acumula decepções,
esperando em vão que o destino dê uma guinada e faça com que a lógica
hollywoodiana possa enfim vingar. Até que uma dúvida advém: e se o canalha com
sua falta de escrúpulos, for aquele que goza da preferência dos deuses?
As crenças religiosas oferecem a
promessa de que algum dia os bons serão recompensados e os maus castigados pelas
entidades etéreas que, no conforto de seus assentos celestiais, assistem as
desventuras da vida se desenrolarem.
Cadê o paraíso que premia os venturosos?
Qual é mesmo o endereço do inferno, destino dos maus? Onde está o deus que assiste
impassível a tantas maldades? Talvez não seja bem aquele que imaginamos e
esteja se divertindo daqueles que se equivocaram sobre sua índole benevolente. Talvez
seja ele um ser perverso que não se preocupa com o destino incerto que aguarda
seu rebanho desamparado.
E, pior: e se não houver deus nenhum?
Seja ele apenas uma criação fantasiosa dos homens para atender seu desejo
íntimo de que, num outro plano, se aplique a justiça. Porque, se não existe uma
justiça escondida atrás da cortina do mundo, então somos nós, apenas nós, os
atores desse espetáculo macabro em que improvisamos a trama. Onde não há um
roteirista nem um diretor cósmico. Não haverá um tribunal no fim dos tempos
para devolver ao injustiçado aquilo que lhe foi tomado. Apenas esta vida finita
e cruel.
O homem que tentou ser decente e
correto olha para trás e vê pouco além de perdas e danos. Fez o que acreditava
certo e, em troca, recebeu ingratidão. Agora, está cansado de não ter
reconhecimento. Talvez essa seja a forma mais perversa de revolta: não bradar contra
os céus, mas simplesmente deixar de acreditar que os céus se importam.
Apesar de todos os reveses que lhe
são colocados, o legítimo justo não se abate. Mesmo depois de tudo, quando
alguém cai na rua, ele estende a mão. Quando alguém chora, ele pergunta o motivo.
Quando alguém é injustiçado, sua indignação aflora.
Ele não se conforma em ser desse
jeito, mas tal sentimento nele está impregnado, não consegue evitar. Não se
sente superior, pois não há escala a avaliar a qualidade de suas ações. Ele é
apenas assim. Uma ovelha branca em meio a ovelhas negras.
Contra as mensagens que lhe são
passadas, ele ainda acredita. É como uma pequena brasa que resiste, mantendo
seu brilho sob toneladas de cinza. Uma centelha que ilumina tenuemente a
esperança dos tolos. O mundo lhe mostra que a bondade é inútil, mas ele teima
em ignorar essa evidência. Não porque lhe tenham prometido recompensas, nem
porque acredita que o tal deus o observa, ou porque espere um lugar melhor após
a morte. Sequer sabe se haverá esse ‘depois’. Continua porque, se abandonar
também isso, talvez descubra que a pior injustiça não é sofrer num mundo sem
justiça. É tornar-se semelhante àquilo que o fez sofrer.
Percebe que o ‘happy end’ não é ver
as coisas terminarem bem como o céu cor de rosa das telas de cinema, mas saber
que o final feliz vem daqueles que, mesmo com tanta coisa ruim rolando por aí, não
desistem. E essa seja a sina mais cruel: continuar esperando por um mundo
melhor quando os indícios são de que ele jamais virá.
E ele segue, vivendo a cada passo uma
nova desilusão. Mais um patife vencerá. Mais um inocente sucumbirá. E os crédulos
continuarão perguntando: “Onde estás, meu Deus?” enquanto do outro lado, haverá
apenas o silêncio. Talvez seja esse o verdadeiro happy end: não esperar que seja
feita a justiça, mas impedir que a injustiça nos transforme naquilo que não
queremos ser.
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