“Debaixo dos caracóis dos seus cabelos, uma história pra contar de um mundo tão distante” (Roberto e Erasmo Carlos)
Os saudosos anos 60, além de propiciar
nova consciência, clamor pacifista e efervescência artística, colocaram nos moços
longas cabeleiras. Encaracoladas, cacheadas, naturais, lisas, afro, black
power, rebeldes, mas invariavelmente compridas.
Depositários inconformados de valores
de uma sociedade decrépita que exaltava a grana e a guerra, os jovens cabeludos ansiavam
por uma nova ordem onde floresceria o amor e a solidariedade universal.
Os profetas da Nova Era atribuíam o movimento
à irrupção da Era de Aquário. “Quando a lua está na sétima casa e Júpiter
alinha-se com Marte”, dizia a canção-símbolo do musical “HAIR” (cabelo).
As mesmas cabeças que, turbinadas por
alucinógenos, hospedavam interiormente loucos devaneios de libertação, faziam brotar
exteriormente caracóis psicodélicos e fios emaranhados rebeldes.
Cabelos longos significavam também transgressão
à virilidade e à classificação dos gêneros segundo a tradição moralista cristã
que dividia o ser humano em 2 categorias absolutas: o homem e a mulher, definidas
respectivamente pelas cores azul e rosa.
As mulheres que tinham nos abundantes
cabelos a marca registrada da feminilidade como protótipo de beleza, agora
enfrentavam a concorrência masculina, numa época em que os limites que
separavam as duas tipologias biológicas tornaram-se mais fluidos.
Os militares machões que promoviam a
guerra e a repressão sempre tiveram aversão por cabelos compridos, enfileirando-os
em pelotões capilares uniformes através de cortes tipo reco.
O sistema opressor para impor os
valores burgueses exigia do indivíduo apresentação visual condizente. As vestes
e o penteado deveriam retratar disciplina e ordem. Cabelos e roupas
desalinhados eram sinal de desleixo, desrespeito, rebeldia.
A marcha inexorável do tempo sepultou
os anos 60 e com eles a quimera por um mundo melhor. “O sonho acabou”, proclamou
o cabeludo John Lennon.
Com o passar dos anos, os cabelos tornaram-se
grisalhos, cresceram tanto que ficaram frágeis, começaram a cair como folhas no
outono.
Cabelos compridos saíram de moda.
Também saiu de moda o empenho em acabar com as guerras e salvar o planeta.
Adveio uma nova leva de jovens
individualistas com aspirações de ascensão social e fortuna material. Essa espécie
em expansão era representada por um figurino asseado, bem trajado, de cabelos
aparados.
A nova safra de jovens das gerações
X, Y e Z, ao invés de colares, fitas, pulseiras artesanais com a insígnia de
paz e amor, portava roupas e acessórios de grife. Os hippies de outrora
tornaram-se capitalistas de terno e gravata e investidores do mercado de ações
e em criptomoedas.
Alguns mais extremados ostentavam,
orgulhosos, símbolos neonazistas, muitos deles... carecas. O radicalismo execrava
radicalmente a presença de fios subversivos.
Carregavam metralhadora numa mão e
Bíblia noutra. Respaldavam seu ódio nas palavras do mesmo Cristo que, triste
ironia, pregava amor e usava vestes simples, sandálias, barba e... cabelos
compridos.
Talvez eu seja apenas um saudosista
que me apegue a um passado cabeludo que não volta mais.
Mas no alto das minhas décadas de
vida, reluto em ir ao barbeiro cortar periodicamente os cabelos. A eles me apego,
como uma ingênua esperança de voltar a sonhar por um mundo melhor.


