terça-feira, 20 de janeiro de 2026

DEBAIXO DOS CARACÓIS DOS SEUS CABELOS

 

“Debaixo dos caracóis dos seus cabelos, uma história pra contar de um mundo tão distante” (Roberto e Erasmo Carlos)

Os saudosos anos 60, além de propiciar nova consciência, clamor pacifista e efervescência artística, colocaram nos moços longas cabeleiras. Encaracoladas, cacheadas, naturais, lisas, afro, black power, rebeldes, mas invariavelmente compridas.

Depositários inconformados de valores de uma sociedade decrépita que exaltava a grana e a guerra, os jovens cabeludos ansiavam por uma nova ordem onde floresceria o amor e a solidariedade universal.

Os profetas da Nova Era atribuíam o movimento à irrupção da Era de Aquário. “Quando a lua está na sétima casa e Júpiter alinha-se com Marte”, dizia a canção-símbolo do musical “HAIR” (cabelo).

As mesmas cabeças que, turbinadas por alucinógenos, hospedavam interiormente loucos devaneios de libertação, faziam brotar exteriormente caracóis psicodélicos e fios emaranhados rebeldes.

Cabelos longos significavam também transgressão à virilidade e à classificação dos gêneros segundo a tradição moralista cristã que dividia o ser humano em 2 categorias absolutas: o homem e a mulher, definidas respectivamente pelas cores azul e rosa.

As mulheres que tinham nos abundantes cabelos a marca registrada da feminilidade como protótipo de beleza, agora enfrentavam a concorrência masculina, numa época em que os limites que separavam as duas tipologias biológicas tornaram-se mais fluidos.

Os militares machões que promoviam a guerra e a repressão sempre tiveram aversão por cabelos compridos, enfileirando-os em pelotões capilares uniformes através de cortes tipo reco.

O sistema opressor para impor os valores burgueses exigia do indivíduo apresentação visual condizente. As vestes e o penteado deveriam retratar disciplina e ordem. Cabelos e roupas desalinhados eram sinal de desleixo, desrespeito, rebeldia.

A marcha inexorável do tempo sepultou os anos 60 e com eles a quimera por um mundo melhor. “O sonho acabou”, proclamou o cabeludo John Lennon.

Com o passar dos anos, os cabelos tornaram-se grisalhos, cresceram tanto que ficaram frágeis, começaram a cair como folhas no outono.

Cabelos compridos saíram de moda. Também saiu de moda o empenho em acabar com as guerras e salvar o planeta.

Adveio uma nova leva de jovens individualistas com aspirações de ascensão social e fortuna material. Essa espécie em expansão era representada por um figurino asseado, bem trajado, de cabelos aparados.

A nova safra de jovens das gerações X, Y e Z, ao invés de colares, fitas, pulseiras artesanais com a insígnia de paz e amor, portava roupas e acessórios de grife. Os hippies de outrora tornaram-se capitalistas de terno e gravata e investidores do mercado de ações e em criptomoedas.

Alguns mais extremados ostentavam, orgulhosos, símbolos neonazistas, muitos deles... carecas. O radicalismo execrava radicalmente a presença de fios subversivos.

Carregavam metralhadora numa mão e Bíblia noutra. Respaldavam seu ódio nas palavras do mesmo Cristo que, triste ironia, pregava amor e usava vestes simples, sandálias, barba e... cabelos compridos.

Talvez eu seja apenas um saudosista que me apegue a um passado cabeludo que não volta mais.

Mas no alto das minhas décadas de vida, reluto em ir ao barbeiro cortar periodicamente os cabelos. A eles me apego, como uma ingênua esperança de voltar a sonhar por um mundo melhor.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

EU SOU MOTOBOY

 

Você que me vê um pivete mau caráter, um delinquente montado numa moto assassina, presta atenção. Não fosse o motoboy aqui, o folgado aí não teria a domicílio o game das crianças, a ração do dogue ou o tênis da patroa comprado barato no aplicativo. Você me deve essa, mano.

Então vê se te recolhe no teu mundinho mixuruca e para de praguejar do jeito que eu dirijo. Ou você acha que seguindo o guia de boas maneiras do Detran, eu faria a mágica de chegar no teu sofá hoje o bagulho que você pediu ontem no Shopee? Sou o zé-ninguém faz-tudo que dá conta do delivery do supermercado e da farmácia. O curinga que garante a marmita fresca do I-Food e a pizza quentinha no teu portão.

Passo sim farol vermelho. E daí? Queimo as faixas, subo as calçadas, atropelo coroas ceguetas, entro na contramão. E não tem ‘otoridade’ que me enquadre, nem radar que anote minha placa coberta. Eu não importo pros caras.

Mas nas ruas das cidades grandes só dá eu. Você pode cantar de galo no jardim da tua casa, no pátio do teu condomínio boiola. Mas dos muros pra fora, é do meu jeito que as coisas rolam. Fica na tua e bico calado.

Os trouxas ficam cagando de medo dos pontos na carteira por queimar a faixa das avenidas. Já eu costuro, faço malabarismo, passo pela direita e ninguém é macho pra encarar ou caguetar o Zé-Mané aqui.  Então vê se tira esse carango fedorento da frente ou arranco fora teu espelho. E nem vem arrumar perrengue pro meu lado senão chamo os chapas e o prejuízo do retrovisor vai sair pior pra você, véi. Aceita que dói menos.

Regrinhas de velocidade não vão me barrar de cumprir minha escala e faturar meu ganha-pão. Não tenho opção. Não tenho um puto no bolso. Não tenho carteira assinada. Não tenho férias. Não tenho plano de saúde. Não posso dar bobeira. Se um maluco passar de caminhão por cima, viro mais um presunto a entrar pras estatísticas de acidentes. Já era.

Recebo por entrega e tem uns algoritmos atrozes que me fazem trabalhar como um camelo, sem tempo pra mijar ou bater umazinha pra aliviar. Fico sob estresse o dia todo, tiro do vale-miséria e dos trocados da caixinha os custos pra manter a máquina ativa. Nessa guerra desigual minha chance de sobrar inteiro é pequena. Mas se eu sair vivo dessa, um dia abrirei um trampo só meu, sem ninguém pra encher o saco. Pode crer.

Sou produto do caos urbano e das tretas sociais sem saída. Venho das favelas, onde polícia não entra, juiz quer distância e político bambambã não apita. Lá manda quem pode mais. Uns traficam pó, outros se seguram com metranca. Minha arma pra me manter limpo e garantir o feijão do meu muquifo é minha fiel motoca.

Trago para os bairros dos bacanas o som dos pancadões da perifa e libero os decibéis dos escapamentos envenenados para assombrar tuas noites de sono. É pra te lembrar que eu existo. E não tem GCM bunda mole que me faça aquietar.

Por isso, bro’, arranca da minha frente e fica esperto. Eu sou motoboy e exijo respeito.

 

 

 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

BORA

 

Brasileiros de todas regiões e rincões têm o privilégio de dispor de um cardápio infindável de palavras para expressar ideias e sentimentos, com folga de opções semânticas.

Nem mesmo o meio milhão de verbetes (além de gírias, regionalismos, neologismos e termos técnicos não catalogados) do Aurélio ou do Houaiss parecem ser suficientes para impedir que nosso falastrão povo recorra a novos termos para exercer sua voracidade verborrágica-papagatória.

Tudo bem, termos coloquiais são bem-vindos, enriquecem e arejam nossa língua, adaptando-a aos novos tempos e costumes.

Mas um em especial me soa particularmente irritante e não o consigo digerir: BORA. “Bora criar uma palavrinha nova?” “Bora lá!” Grrrr!

E assim nasceu o chulo e varzeano 'bora', termo originário de papo furado de bebuns que se espalhou como erva daninha nas rodas de desocupados e hoje é usado ad nauseam nos mais variados contextos, sobretudo por aqueles chegados a uma iconoclastia fonética.

Criei uma aversão insanável por essa palavrinha insossa.  Quando alguém me vem com 'bora fazer tal coisa', tenho um impulso irresistível de rebater: "bora pqp!"

O 'bora' é uma contração espúria das palavras 'vamos’ + ‘embora '. Mas como utilizar 2 palavras ao invés de uma é exigir demais dos neurônios do brasileiro, 'bora usar bora'. Como desgraça pouca é bobagem, alguns recorreram a um encurtamento mais radical, substituindo o quilométrico ‘bora’ por ‘bó’.

A expressão 'vamos embora" significa sair, partir, dar o fora, escafeder-se, picar a mula, cair fora, puxar o carro, bater asas, sumir do mapa, tirar o time de campo. Mas quando dizemos 'bora pra casa’ não queremos dizer 'vamos embora pra casa', mas apenas 'vamos pra casa'.

Ou seja, o 'bora' (abreviatura de 'embora') na verdade não substituiu o 'vamos embora’, mas apenas o 'vamos'.

Então carece perguntar: qual é o problema de, ao invés do redundante 'bora', usar-se, como sempre fizemos, o consagrado "VAMOS", que por décadas cumpriu bravamente sua função semiótica? Não, os gostosões transgressores tinham de desenterrar o mequetrefe 'bora'.

Não bastasse tantas objeções, o advento do 'bora' criou uma dor de cabeça para os linguistas. Quando candidamente dizíamos ''vamos ao cinema", o 'vamos' representava na frase a conjugação do verbo ‘ir’ na 1a pessoa do plural no tempo presente, denotando ação. Gramaticamente perfeito! Quando dizemos "bora no cinema", o 'bora' é sintaticamente inclassificável, uma excrescência linguística que dispensa o indispensável verbo da oração, já que não existe verbo 'borar'.

Por essas e outras, no lugar do chinfrim 'bora', recomendo enfaticamente expressões mais amigáveis como 'vamos nessa', 'vamo lá', 'vamo que vamo', 'toca pra frente', 'fechou', 'manda ver’. Ou simplesmente o simpático 'simbora'.

Bora expurgar o 'bora' e bora sermos felizes.