Um encontro histórico em Washington colocou
frente a frente os mandatários das duas maiores potências mundiais, EUA e
China. Toda a pompa em torno dessa reunião de titãs sugeria que o evento seria
um divisor de águas para a humanidade, abrindo caminho para a esperança de um futuro
de entendimento e harmonia.
A refinada decoração do ambiente que
abrigava os dois homens mais poderosos do planeta combinava louças de prata com
arranjos florais predominantemente vermelhos, tom que identifica tanto a
tradição cultural milenar da China e seu Partido Comunista, como a identidade
do Partido Republicano americano.
Lado a lado, os líderes aguardavam
ansiosos os quitutes escolhidos a dedo para satisfazer o apetite do seleto
grupo que incluía alguns dos maiores nomes da tecnologia e da inteligência
artificial como Elon Musk (Tesla/SpaceX), Tim Cook (Apple), Jensen Huang
(Nvidia) e Lisa Su (AMD).
Percebe-se pela composição da equipe
que o assunto a ser tratado entre a ingestão de uma porção de velouté de
abóbora com cogumelos e uma garfada de robalo grelhado com gergelim não era tratar
de questões mundanas como a paz mundial ou a melhora de condições sociais dos excluídos.
O encontro gastronômico na East Room da Casa Branca com os oligarcas do Vale do
Silício e de Shenzhen não iria perder tempo tratando de mudanças climáticas, ameaças
pandêmicas ou crises migratórias que afligem os oito bilhões de terráqueos não
convidados para a festa. Essas questões não foram ventiladas sequer durante a
sobremesa, um crémeux de baunilha com cereja ou o derradeiro café cultivado nas
encostas vulcânicas do Havaí (no caso do líder chinês, um chá verde, originário
da região de Longjing).
Discutiram-se assuntos de suma
importância para a realidade dos africanos subnutridos tais como comércio de
chips, segurança na cadeia de suprimentos, minerais críticos e a expansão da
tecnologia, aquela que, nos prometeram, seria usada para nos libertar do
trabalho degradante e democratizar o conhecimento e que agora nos torna um
bando de escravos digitais alienados. A mesma que concentra um poder cada vez
maior nas mãos de cada vez menos indivíduos, beneficiários dos lucros
trilionários enquanto as massas definham.
A agenda do retumbante encontro,
despida de qualquer pudor ou maquiagem filantrópica, operou sob o pragmatismo
mais gélido. Para que perder tempo salvando o planeta quando estão em jogo
questões cruciais como a soberania sobre a indústria de semicondutores de
Taiwan e a ameaça à liberdade das Big Techs de instrumentalizar os usuários e difundir
ideias extremistas?
O encontro entre os líderes e os
ricaços da tecnologia não é um debate sobre o futuro; é o inventário de um
planeta onde o ser humano perdeu o valor e a barbárie foi digitalizada.
Enquanto o restrito grupo
esbaldava-se no faustoso jantar regado a Schramsberg Blanc de Noirs, não muito
distante dali, em Nova York, reuniam-se a pão e água numa assembleia piegas, os
participantes da desprestigiada ONU. Lá estavam os porta-vozes do mundo que
sobrou, ou seja, das outras 191 nações - número que não inclui o Estado da
Palestina, eternamente barrado pelo veto americano, a mando de Israel.
Pobre ONU, projeto nascido
ironicamente por iniciativa dos próprios EUA para se buscar um consenso
internacional e reduzir as tensões, mas que agora a considera uma organização inútil
que não atende as necessidades do ‘America First’. Criada em 1945, à sombra do
fim da II Guerra Mundial, o louvável projeto americano parecia ter como
objetivo elaborar o desenho de uma nova era de cooperação global. Essa herança
foi jogada às traças. Ao adotar desprezo pelas instituições internacionais, os
EUA renunciaram à responsabilidade global. O isolacionismo de Trump é uma
postura de abandono do resto do mundo à própria sorte, enquanto sabota
ativamente a cooperação internacional para garantir que as corporações
americanas mantenham sua hegemonia colonialista sobre os mercados estrangeiros.
O país que outrora se autoproclamava "farol
da liberdade" despiu-se de qualquer verniz de liderança ética. A terra de Jefferson e Lincoln foi sequestrada
pela aliança
espúria entre o chauvinismo econômico e o cartel dos magnatas do Vale do
Silício. A busca pelo bem-estar e pelos direitos inalienáveis dos cidadãos de
todo o mundo deu lugar à desregulamentação predatória, à exploração irrestrita
de dados e à invasão da privacidade. O ser humano passou a ser apenas um perfil
anônimo a ser monetizado por monopólios tecnológicos que operam acima de
qualquer norma regulatória. Na planilha de
custos deles, a humanidade tornou-se um ativo obsoleto.
Eu me pergunto onde foi parar aquela
sociedade ideal fundada no humanismo e na solidariedade. Morreu nos sonhos
hippies da década de 1960. Ironicamente, desfez-se nas mesmas cabeças de
cabeludos convertidos em profetas da internet, rede de computadores concebida
originalmente como ferramenta de democratização do conhecimento e de formação
de um mundo melhor. Agora os ideais juvenis desaguaram na ganância e no
alinhamento a um autocrata cruel que massacra imigrantes e financia genocídios.
Enquanto os EUA expõem sua arrogância
imperial, prometendo aniquilar a civilização milenar persa que não conseguiram
dobrar, a China contemporânea robotiza sua sociedade em nome da estabilidade
estatal, assistindo seu líder absoluto receber do anfitrião Trump, pretenso arqui-inimigo,
a bajulação de estender-lhe um tapete vermelho.
O dragão tecnológico chinês
personifica a maior traição cultural e filosófica da história do Oriente, tendo
devorado seus próprios alicerces para assumir a vanguarda da Inteligência
Artificial. Pequim amputou a própria alma, sepultando milênios de sabedoria sob
o asfalto de suas megacidades e a infraestrutura de seus data centers. O país
que outrora valorizou o despojamento material, o respeito à natureza e a
retidão social, preconizados por Confúcio e Lao Tsé, transformou-se em um
colosso plastificado e artificial, onde o ser humano foi reduzido a um pixel no
painel de controle do Estado. O ritmo orgânico da existência foi substituído
pelo compasso implacável dos algoritmos de reconhecimento facial, pela
vigilância ubíqua e pela modificação artificial do comportamento humano, cenário
em que a virtude deixou de ser uma escolha moral do indivíduo, para se tornar
uma pontuação automatizada por uma IA que manipula cidadãos como ratos de
laboratório.
O ideal socialista foi oficialmente rifado em favor de
um capitalismo de Estado hipertecnológico. Marx foi armazenado no mesmo arquivo
morto dos pensadores dinásticos. A utopia de uma sociedade igualitária deu
lugar a uma distopia de bilionários da tecnologia alinhados ao todo poderoso
Partido, que fizeram fortuna à custa de jornadas de trabalho acachapantes. O
país tornou-se o desdobramento dos modelos corrompidos do Ocidente que ele
tanto finge combater: uma engrenagem fria, artificial e desprovida de humanismo.
Unificados pela mesma ganância, o capitalismo
predatório americano e a tecnocracia artificial chinesa esvaziaram os valores milenares
da humanidade em prol de uma corrida cega pela primazia da Inteligência
Artificial.
Curiosamente, na mesa que reúne a
maior autoridade do Ocidente com o líder da potência máxima do Oriente deixou
de haver oposição entre dois mundos diferentes que propalavam sua superioridade:
um fundamentado em um sistema econômico aglutinador de massas a defender a
democracia e a liberdade; o outro fundamentado na sabedoria milenar que
priorizava a prevalência de valores espirituais. Ambos se renderam à mesma
premissa utilitarista barata. Em vez de princípios éticos, passaram a ser
guiados por valores algorítmicos. O materialismo substituiu os deuses da
religião por um deus ‘ex machina’ computacional sob a falsa promessa de
resgatar a humanidade da miséria e da desigualdade.
Encerrada a comilança, entre o inebriante
aroma do café havaiano e o último gole morno de chá verde special reserve,
os senhores do mundo levantam-se saciados. O banquete termina, a conta é repassada
para os oito bilhões de ausentes, domesticados por telas e algoritmos, que
seguem marchando em direção ao abismo.