quinta-feira, 8 de outubro de 2026

BRAZIL 2027

Em 2027, nosso país afinal encontrará sua vocação mercadológico-espiritual, tornando-nos oficialmente uma nação teocrática. À Constituição de 1988 será incorporada, como apêndice, uma versão revisada da Bíblia Sagrada prefaciada por Silas Malafaia. Inaugura-se assim o princípio basilar da Nação de Cristo, sob a égide da fé e do livre mercado.

O STF perde sua soberania jurisdicional. Suas decisões passarão a ser submetidas à apreciação do Grande Conselho Nacional de Pastores, presidido pelo Apóstolo Magno Malta, responsável por conceder a indispensável chancela espiritual à lei dos homens.

As religiões de ‘matriz africana’ - eufemismo para magia negra - serão tipificadas no Novo Código Penal Pentecostal como práticas ilegais de feitiçaria, sujeitando seus devotos a severas punições. Já os seguidores do Islã, considerados ameaça potencial à democracia, serão encaminhados a um procedimento de deportação preventiva, sob presunção de terrorismo. O novo ordenamento contemplará apenas as fés judaico-cristãs, previamente homologadas pela Autoridade Eclesiástica Superior, exigindo-se dos celebrantes terno, gravata e corte de cabelo apresentável.

A laicidade do Estado, antessala do ateísmo comunista, fica revogada em nome da Evangelização Universal Compulsória. Toda manifestação pública será obrigatoriamente precedida de uma oração de louvor ao Senhor. O pleno exercício da cidadania passa a ser condicionado ao pagamento em dia do Carnê da Prosperidade, taxa mensal de manutenção da bênção. A contribuição poderá ser quitada via PIX, cartão de débito ou criptomoedas lastreadas na fé, sendo também aceito o papel moeda, desde que emitido em cédulas com as novas estampas inspiradas em passagens bíblicas.

Será procedida uma faxina de imagens de gesso de santos e demais representações da igreja católica romana. Os ícones existentes serão reciclados como brita asfáltica para pavimentação do estacionamento de megatemplos de louvor a Jesus e para a construção de helipontos e pistas auxiliares para pouso dos jatinhos dos pastores.

A efígie intitulada Nossa Senhora, figura mítica feminina beatificada por católicos, será banida do território nacional, sendo extinto do calendário oficial o feriado de 12 de outubro em sua homenagem. Em seu lugar, será instituído o 7 de outubro como feriado cívico-militar em memória ao ataque palestino a Israel, convertido pela nova historiografia oficial em símbolo máximo da cruzada contra os infiéis. A bandeira nacional receberá também uma estrela de Davi em sua configuração.

No plano internacional, o ex-presidente Donald Trump, injustamente destituído do cargo por um processo de impeachment, receberá a comenda máxima de Protetor Perpétuo do Mundo Livre, sendo oficialmente elevado à condição de Patrono Honorário.

Entrarão no rol das cláusulas pétreas da Constituição Bíblica a proibição do aborto em quaisquer circunstâncias bem como da homossexualidade, da transexualidade e outras aberrações anatômicas ou desvios comportamentais que atentem contra a biologia da criação e os princípios cristãos.

As escolas cívico-militares administradas por oficiais aposentados tornam-se o novo modelo oficial de ensino, abolindo-se disciplinas reflexivas e potencialmente subversivas como Filosofia e Sociologia. A linha crítica dará lugar à Educação Motivacional, com introdução na grade curricular de novos tópicos de ensino como Manejo Técnico de Armas de Fogo e Defesa Patrimonial, Terraplanismo Geopolítico, Empreendedorismo, Formação de Influencers, Marketing da Prosperidade, Evangelização Algorítmica e Introdução à Meritocracia.

A Terapia de Reorientação Heterossexual (Cura Gay) será a única modalidade clínica gratuita oferecida pelo SUS. Quaisquer outros tratamentos de saúde, da unha encravada ao tratamento do HIV, serão redirecionados à iniciativa privada.  A vacinação passará a ser facultativa e custeada pelo paciente que assinará termo de responsabilidade por sua própria sobrevivência.

Serão implantadas a maioridade penal aos 10 anos, a castração química compulsória para a população em situação de rua e a pena de morte para crimes hediondos como o furto de aparelhos celulares e a inadimplência das taxas de segurança comunitária que cobrem a entrega de gás, a instalação de TV a cabo, postos de combustíveis e transportes por vans. Para abrigar os infratores, serão erguidas megaprisões privatizadas, ‘modelo Bukele’, sendo sua construção financiada com recursos redirecionados do ProUni, Farmácia Popular e Minha Casa Minha Vida.

O país será formalmente retirado da ONU e outros organismos globalistas. O Itamaraty será ocupado pelo chanceler Eduardo, vulgo ‘Dudu Bananinha’. Serão rompidas as relações comerciais com a China e o Irã, oferecendo-se aos EUA o usufruto exclusivo de Terras Raras por um período de 100 anos. O Palácio do Planalto será rebatizado como Palácio Olavo de Carvalho.

A Festa do Peão de Barretos será elevada à condição de data magna. A efeméride será celebrada através de uma grande churrascada patriótica, regada a pronunciamentos de lideranças do agronegócio, ao som de sertanejo universitário e pop gospel, únicas manifestações musicais merecedoras de incentivo oficial. Teatro, cinema, literatura e artes plásticas não mais contarão com financiamento público.

Será incentivado o turismo empresarial e antigas áreas de preservação ambiental serão transformadas em resorts de luxo. As reservas indígenas e quilombolas serão desativadas, cedendo espaço para modernos spas, campos de golfe e condomínios de veraneio para a elite corporativa. Serão abertas linhas de crédito para expansão de plantação de soja e da criação de gado com fundos oriundos do extinto Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.

Após anos de proselitismo esquerdista, nasce assim a nova historiografia oficial sob o signo do sagrado dízimo como valor universal intangível.

Bem-vindos ao Brazil 2027. Deus acima de todos - respeitada a primazia do mercado.

terça-feira, 29 de setembro de 2026

O BANQUETE DO FIM DO MUNDO

 

Um encontro histórico em Washington colocou frente a frente os mandatários das duas maiores potências mundiais, EUA e China. Toda a pompa em torno dessa reunião de titãs sugeria que o evento seria um divisor de águas para a humanidade, abrindo caminho para a esperança de um futuro de entendimento e harmonia.

A refinada decoração do ambiente que abrigava os dois homens mais poderosos do planeta combinava louças de prata com arranjos florais predominantemente vermelhos, tom que identifica tanto a tradição cultural milenar da China e seu Partido Comunista, como a identidade do Partido Republicano americano.

Lado a lado, os líderes aguardavam ansiosos os quitutes escolhidos a dedo para satisfazer o apetite do seleto grupo que incluía alguns dos maiores nomes da tecnologia e da inteligência artificial como Elon Musk (Tesla/SpaceX), Tim Cook (Apple), Jensen Huang (Nvidia) e Lisa Su (AMD).

Percebe-se pela composição da equipe que o assunto a ser tratado entre a ingestão de uma porção de velouté de abóbora com cogumelos e uma garfada de robalo grelhado com gergelim não era tratar de questões mundanas como a paz mundial ou a melhora de condições sociais dos excluídos. O encontro gastronômico na East Room da Casa Branca com os oligarcas do Vale do Silício e de Shenzhen não iria perder tempo tratando de mudanças climáticas, ameaças pandêmicas ou crises migratórias que afligem os oito bilhões de terráqueos não convidados para a festa. Essas questões não foram ventiladas sequer durante a sobremesa, um crémeux de baunilha com cereja ou o derradeiro café cultivado nas encostas vulcânicas do Havaí (no caso do líder chinês, um chá verde, originário da região de Longjing).

Discutiram-se assuntos de suma importância para a realidade dos africanos subnutridos tais como comércio de chips, segurança na cadeia de suprimentos, minerais críticos e a expansão da tecnologia, aquela que, nos prometeram, seria usada para nos libertar do trabalho degradante e democratizar o conhecimento e que agora nos torna um bando de escravos digitais alienados. A mesma que concentra um poder cada vez maior nas mãos de cada vez menos indivíduos, beneficiários dos lucros trilionários enquanto as massas definham.

A agenda do retumbante encontro, despida de qualquer pudor ou maquiagem filantrópica, operou sob o pragmatismo mais gélido. Para que perder tempo salvando o planeta quando estão em jogo questões cruciais como a soberania sobre a indústria de semicondutores de Taiwan e a ameaça à liberdade das Big Techs de instrumentalizar os usuários e difundir ideias extremistas?

O encontro entre os líderes e os ricaços da tecnologia não é um debate sobre o futuro; é o inventário de um planeta onde o ser humano perdeu o valor e a barbárie foi digitalizada.

Enquanto o restrito grupo esbaldava-se no faustoso jantar regado a Schramsberg Blanc de Noirs, não muito distante dali, em Nova York, reuniam-se a pão e água numa assembleia piegas, os participantes da desprestigiada ONU. Lá estavam os porta-vozes do mundo que sobrou, ou seja, das outras 191 nações - número que não inclui o Estado da Palestina, eternamente barrado pelo veto americano, a mando de Israel.

Pobre ONU, projeto nascido ironicamente por iniciativa dos próprios EUA para se buscar um consenso internacional e reduzir as tensões, mas que agora a considera uma organização inútil que não atende as necessidades do ‘America First’. Criada em 1945, à sombra do fim da II Guerra Mundial, o louvável projeto americano parecia ter como objetivo elaborar o desenho de uma nova era de cooperação global. Essa herança foi jogada às traças. Ao adotar desprezo pelas instituições internacionais, os EUA renunciaram à responsabilidade global. O isolacionismo de Trump é uma postura de abandono do resto do mundo à própria sorte, enquanto sabota ativamente a cooperação internacional para garantir que as corporações americanas mantenham sua hegemonia colonialista sobre os mercados estrangeiros.

O país que outrora se autoproclamava "farol da liberdade" despiu-se de qualquer verniz de liderança ética. A terra de Jefferson e Lincoln foi sequestrada pela aliança espúria entre o chauvinismo econômico e o cartel dos magnatas do Vale do Silício. A busca pelo bem-estar e pelos direitos inalienáveis dos cidadãos de todo o mundo deu lugar à desregulamentação predatória, à exploração irrestrita de dados e à invasão da privacidade. O ser humano passou a ser apenas um perfil anônimo a ser monetizado por monopólios tecnológicos que operam acima de qualquer norma regulatória. Na planilha de custos deles, a humanidade tornou-se um ativo obsoleto.

Eu me pergunto onde foi parar aquela sociedade ideal fundada no humanismo e na solidariedade. Morreu nos sonhos hippies da década de 1960. Ironicamente, desfez-se nas mesmas cabeças de cabeludos convertidos em profetas da internet, rede de computadores concebida originalmente como ferramenta de democratização do conhecimento e de formação de um mundo melhor. Agora os ideais juvenis desaguaram na ganância e no alinhamento a um autocrata cruel que massacra imigrantes e financia genocídios.

Enquanto os EUA expõem sua arrogância imperial, prometendo aniquilar a civilização milenar persa que não conseguiram dobrar, a China contemporânea robotiza sua sociedade em nome da estabilidade estatal, assistindo seu líder absoluto receber do anfitrião Trump, pretenso arqui-inimigo, a bajulação de estender-lhe um tapete vermelho.

O dragão tecnológico chinês personifica a maior traição cultural e filosófica da história do Oriente, tendo devorado seus próprios alicerces para assumir a vanguarda da Inteligência Artificial. Pequim amputou a própria alma, sepultando milênios de sabedoria sob o asfalto de suas megacidades e a infraestrutura de seus data centers. O país que outrora valorizou o despojamento material, o respeito à natureza e a retidão social, preconizados por Confúcio e Lao Tsé, transformou-se em um colosso plastificado e artificial, onde o ser humano foi reduzido a um pixel no painel de controle do Estado. O ritmo orgânico da existência foi substituído pelo compasso implacável dos algoritmos de reconhecimento facial, pela vigilância ubíqua e pela modificação artificial do comportamento humano, cenário em que a virtude deixou de ser uma escolha moral do indivíduo, para se tornar uma pontuação automatizada por uma IA que manipula cidadãos como ratos de laboratório.

O ideal socialista foi oficialmente rifado em favor de um capitalismo de Estado hipertecnológico. Marx foi armazenado no mesmo arquivo morto dos pensadores dinásticos. A utopia de uma sociedade igualitária deu lugar a uma distopia de bilionários da tecnologia alinhados ao todo poderoso Partido, que fizeram fortuna à custa de jornadas de trabalho acachapantes. O país tornou-se o desdobramento dos modelos corrompidos do Ocidente que ele tanto finge combater: uma engrenagem fria, artificial e desprovida de humanismo.

Unificados pela mesma ganância, o capitalismo predatório americano e a tecnocracia artificial chinesa esvaziaram os valores milenares da humanidade em prol de uma corrida cega pela primazia da Inteligência Artificial.

Curiosamente, na mesa que reúne a maior autoridade do Ocidente com o líder da potência máxima do Oriente deixou de haver oposição entre dois mundos diferentes que propalavam sua superioridade: um fundamentado em um sistema econômico aglutinador de massas a defender a democracia e a liberdade; o outro fundamentado na sabedoria milenar que priorizava a prevalência de valores espirituais. Ambos se renderam à mesma premissa utilitarista barata. Em vez de princípios éticos, passaram a ser guiados por valores algorítmicos. O materialismo substituiu os deuses da religião por um deus ‘ex machina’ computacional sob a falsa promessa de resgatar a humanidade da miséria e da desigualdade.

Encerrada a comilança, entre o inebriante aroma do café havaiano e o último gole morno de chá verde special reserve, os senhores do mundo levantam-se saciados. O banquete termina, a conta é repassada para os oito bilhões de ausentes, domesticados por telas e algoritmos, que seguem marchando em direção ao abismo.

 


quinta-feira, 24 de setembro de 2026

HAPPY END

 
Filmes com finais felizes, além de nos inundar a alma com uma sensação boa, fazem-nos acreditar que existe uma lógica subjacente à ordem das coisas, na qual a bondade sempre prevalece e os ruins serão punidos. Tais enredos, salpicados de tragédias transitórias, sofrem invariavelmente reviravoltas, até que o glorioso desfecho traga paz a nosso coração. Depois de duas horas de angústia cinematográfica, o alívio compensa a amargura. Podemos, então, dormir o sono dos justos e dos vingados, acreditando que a marcha do destino obedeça a essa lógica regeneradora.

No entanto, quando nos voltamos para a realidade cruel que nos cerca, constatamos que o roteiro da vida foi escrito por alguém com pouco senso de humor e as coisas não caminham para a catarse desejada. Quem tripudia sobre os outros é que alcança o triunfo; quem explora os necessitados é que usufrui da opulência.

E o justo? Qual o papel desse escultor ingênuo da utopia que se esmera em moldar o ser humano? Acumula decepções, esperando em vão que o destino dê uma guinada e faça com que a lógica hollywoodiana possa enfim vingar. Até que uma dúvida advém: e se o canalha com sua falta de escrúpulos, for aquele que goza da preferência dos deuses?

As crenças religiosas oferecem a promessa de que algum dia os bons serão recompensados e os maus castigados pelas entidades etéreas que, no conforto de seus assentos celestiais, assistem as desventuras da vida se desenrolarem.

Cadê o paraíso que premia os venturosos? Qual é mesmo o endereço do inferno, destino dos maus? Onde está o deus que assiste impassível a tantas maldades? Talvez não seja bem aquele que imaginamos e esteja se divertindo daqueles que se equivocaram sobre sua índole benevolente. Talvez seja ele um ser perverso que não se preocupa com o destino incerto que aguarda seu rebanho desamparado.

E, pior: e se não houver deus nenhum? Seja ele apenas uma criação fantasiosa dos homens para atender seu desejo íntimo de que, num outro plano, se aplique a justiça. Porque, se não existe uma justiça escondida atrás da cortina do mundo, então somos nós, apenas nós, os atores desse espetáculo macabro em que improvisamos a trama. Onde não há um roteirista nem um diretor cósmico. Não haverá um tribunal no fim dos tempos para devolver ao injustiçado aquilo que lhe foi tomado. Apenas esta vida finita e cruel.

O homem que tentou ser decente e correto olha para trás e vê pouco além de perdas e danos. Fez o que acreditava certo e, em troca, recebeu ingratidão. Agora, está cansado de não ter reconhecimento. Talvez essa seja a forma mais perversa de revolta: não bradar contra os céus, mas simplesmente deixar de acreditar que os céus se importam.

Apesar de todos os reveses que lhe são colocados, o legítimo justo não se abate. Mesmo depois de tudo, quando alguém cai na rua, ele estende a mão. Quando alguém chora, ele pergunta o motivo. Quando alguém é injustiçado, sua indignação aflora.

Ele não se conforma em ser desse jeito, mas tal sentimento nele está impregnado, não consegue evitar. Não se sente superior, pois não há escala a avaliar a qualidade de suas ações. Ele é apenas assim. Uma ovelha branca em meio a ovelhas negras.

Contra as mensagens que lhe são passadas, ele ainda acredita. É como uma pequena brasa que resiste, mantendo seu brilho sob toneladas de cinza. Uma centelha que ilumina tenuemente a esperança dos tolos. O mundo lhe mostra que a bondade é inútil, mas ele teima em ignorar essa evidência. Não porque lhe tenham prometido recompensas, nem porque acredita que o tal deus o observa, ou porque espere um lugar melhor após a morte. Sequer sabe se haverá esse ‘depois’. Continua porque, se abandonar também isso, talvez descubra que a pior injustiça não é sofrer num mundo sem justiça. É tornar-se semelhante àquilo que o fez sofrer.

Percebe que o ‘happy end’ não é ver as coisas terminarem bem como o céu cor de rosa das telas de cinema, mas saber que o final feliz vem daqueles que, mesmo com tanta coisa ruim rolando por aí, não desistem. E essa seja a sina mais cruel: continuar esperando por um mundo melhor quando os indícios são de que ele jamais virá.

E ele segue, vivendo a cada passo uma nova desilusão. Mais um patife vencerá. Mais um inocente sucumbirá. E os crédulos continuarão perguntando: “Onde estás, meu Deus?” enquanto do outro lado, haverá apenas o silêncio. Talvez seja esse o verdadeiro happy end: não esperar que seja feita a justiça, mas impedir que a injustiça nos transforme naquilo que não queremos ser.