Sou comunista! Antes que essa escandalosa revelação afaste os leitores de minha repugnante companhia (tal qual acontecia com os leprosos e lazarentos da Idade Média), apresso-me em oferecer alguns esclarecimentos para tentar aplacar a aversão de meus detratores.
Aviso logo: não sou comunista tipo saudosista,
na acepção estrita do termo, o autêntico comunista que se espelhava nos antigos
regimes da URSS e da China. Dos tempos, em que para fazer jus ao título, o aspirante
a comunista tinha que ralar, adquirindo uma sólida formação intelectual com
base em leituras das obras clássicas de Engels, Gramsci, Rosa Luxemburgo,
Adorno, Sartre, Marcuse e outros autores marxistas chiques que faziam furor
entre a juventude rebelde dos anos 60. Pensadores esses cujos ensaios, vejo-me
obrigado a confessar, como comunista de meia tigela que sou, conheço muito
pouco.
Nos círculos mais sofisticados da
intelectualidade, era charmoso afirmar-se ‘de esquerda’, que significava ser
esclarecido, em oposição aos burgueses alienados, presos a ultrapassados dogmas,
desprezados por sua falta de conhecimento e de consciência social. Sim, caro
leitor, houve uma época em que as pessoas cultas é que eram admiradas e
valorizadas socialmente.
Mas os ventos mudaram de direção. Nesses
tempos de Inteligência Artificial e de bitcoins, quem é burro e rico é que tem prestígio.
Naufragaram socialistas, emergiram socialites. Ser instruído perdeu o charme e
o saber passou a ser mercadoria barata, acessível a um clique de mouse.
No mundo atual, ganharam status os
influencers que, com suas pregações vazias na internet, amealharam legiões de seguidores,
que passaram a pautar sua visão de mundo não pelos grandes compêndios da
literatura universal mas por curtas mensagens de WhatsApp. Assimilaram um entendimento
estereotipado de como se comportam as coisas, que pode ser identificado pelo
seu ideário: não acreditar na vacina, na ciência, nas escolas, no processo
eleitoral, no STF, ser negacionista do clima, acreditar na balela da
meritocracia, adotar a Bíblia como única fonte de informação confiável, ser avesso
à cultura e às artes, não assistir a Globolixo, acusar os artistas de rapinarem
dinheiro público pela Lei Rouanet e outros chavões que lhes foram impingidos
pelos formadores de opinião.
Caso não seja um desses pobres diabos
cujo conhecimento (ou a ausência dele) foi homogeneizado pelas redes sociais, o
leitor por certo tem algum parente ou algum (ex) amigo nessa condição. Trata-se
de um padrão que certamente já foi identificado pelo leitor, a cujo
comportamento bovino foi conferida a condição de ‘gado’. Perfeita descrição!
Os mais extremados marcham pelas ruas
pateticamente de verde amarelo, louvando o ‘mito’. Esses não têm mais jeito. Vivem
uma realidade paralela, converteram-se ao terraplanismo, adotaram a religião neopentecostal
rasa ou o ‘catolicismo’ medieval, rezam para pneus, pedem a intervenção de ETs
etc. Alguns acamparam nos quartéis pedindo a volta da ditadura e vandalizaram as
sedes dos 3 Poderes achando que estavam salvando o país do... comunismo. O
próximo estágio será serem presos pelo Xandão ou irem para um manicômio pois
perderam totalmente o senso.
Esses seres simplórios fizeram valer
para a palavra ‘comunista’ (ou seus congêneres, ‘esquerdopata’ e ‘petralha’) uma
conotação pejorativa, quase como um xingamento, referente a um ente maléfico
que devora criancinhas vivas e quer se apropriar dos modestos bens que possuímos
para financiar o regime de Cuba e da Venezuela.
Foram transformados em ‘comunistas’
todos aqueles que mantiveram ideias independentes, os críticos, os
inconformados, os contestadores, os que pensam com a própria cabeça, os
‘diferentões’, enfim todos aqueles que, por uma razão ou por outra, não foram
varridos pela maré pasteurizadora de imbecilidade que se apropriou dos corações
e mentes, recusando-se a tornar-se panacas robotizados.
Pela nova abrangente classificação, são
considerados comunistas, quase todos os jornalistas, estudantes de
universidades públicas, médicos do SUS, assistentes sociais, sociólogos,
intelectuais, professores, jornalistas, historiadores, poetas, músicos, atores,
cineastas, ambientalistas, naturalistas, veganos, esotéricos, umbandistas,
pais-de-santo, muçulmanos, zen-budistas, iogues, ateus, feministas, gays,
lésbicas, travestis, indígenas, quilombolas, ribeirinhos, capoeiristas,
homeopatas, antirracistas, afrodescendentes, imigrantes, indigentes, moradores
de rua, humanistas, excêntricos, democratas, defensores de minorias. Também se
enquadram nessa categoria políticos das mais variadas estirpes como Lula,
Simone Tebet, Marina Silva, FHC, Alckmin, Sarney, Doria, Kassab, ACM Neto,
Rodrigo Maia, Helder Barbalho, Rodrigo Pacheco. E artistas diversos como
Caetano, Gil, Maria Rita, Nando Reis, Daniela Mercury, Martinho da Vila, Zeca
Pagodinho, Emicida, Marcelo D2, João Gordo, Odair José, Ivete Sangalo, Xuxa,
Angélica, Fábio Porchat, Luciano Huck, Datena, Paolla Oliveira, Anitta, Pabblo
Vitar, Luiza Sonza, Ludmilla, Valesca Popozuda entre tantos. Todos comunistas.
Como pode ser deduzido, não sobrou
muito espaço para quem não se filiar a uma das duas facções em que a sociedade
ficou dividida: a dos comunistas e a dos babacas.
Nesse sentido, mesmo sem comungar das
ideias ortodoxas dos ‘comunas’ clássicos, mas ficando ao lado de todos aqueles
que mantiveram a lucidez e o discernimento, ante o mar de boçalidade
conservadora, posso proclamar com muito orgulho: SOU COMUNISTA!