terça-feira, 1 de abril de 2025

COMUNISTA

Sou comunista! Antes que essa escandalosa revelação afaste os leitores de minha repugnante companhia (tal qual acontecia com os leprosos e lazarentos da Idade Média), apresso-me em oferecer alguns esclarecimentos para tentar aplacar a aversão de meus detratores.

Aviso logo: não sou comunista tipo saudosista, na acepção estrita do termo, o autêntico comunista que se espelhava nos antigos regimes da URSS e da China. Dos tempos, em que para fazer jus ao título, o aspirante a comunista tinha que ralar, adquirindo uma sólida formação intelectual com base em leituras das obras clássicas de Engels, Gramsci, Rosa Luxemburgo, Adorno, Sartre, Marcuse e outros autores marxistas chiques que faziam furor entre a juventude rebelde dos anos 60. Pensadores esses cujos ensaios, vejo-me obrigado a confessar, como comunista de meia tigela que sou, conheço muito pouco.

Nos círculos mais sofisticados da intelectualidade, era charmoso afirmar-se ‘de esquerda’, que significava ser esclarecido, em oposição aos burgueses alienados, presos a ultrapassados dogmas, desprezados por sua falta de conhecimento e de consciência social. Sim, caro leitor, houve uma época em que as pessoas cultas é que eram admiradas e valorizadas socialmente.

 Mas os ventos mudaram de direção. Nesses tempos de Inteligência Artificial e de bitcoins, quem é burro e rico é que tem prestígio. Naufragaram socialistas, emergiram socialites. Ser instruído perdeu o charme e o saber passou a ser mercadoria barata, acessível a um clique de mouse.

No mundo atual, ganharam status os influencers que, com suas pregações vazias na internet, amealharam legiões de seguidores, que passaram a pautar sua visão de mundo não pelos grandes compêndios da literatura universal mas por curtas mensagens de WhatsApp. Assimilaram um entendimento estereotipado de como se comportam as coisas, que pode ser identificado pelo seu ideário: não acreditar na vacina, na ciência, nas escolas, no processo eleitoral, no STF, ser negacionista do clima, acreditar na balela da meritocracia, adotar a Bíblia como única fonte de informação confiável, ser avesso à cultura e às artes, não assistir a Globolixo, acusar os artistas de rapinarem dinheiro público pela Lei Rouanet e outros chavões que lhes foram impingidos pelos formadores de opinião.

Caso não seja um desses pobres diabos cujo conhecimento (ou a ausência dele) foi homogeneizado pelas redes sociais, o leitor por certo tem algum parente ou algum (ex) amigo nessa condição. Trata-se de um padrão que certamente já foi identificado pelo leitor, a cujo comportamento bovino foi conferida a condição de ‘gado’. Perfeita descrição!

Os mais extremados marcham pelas ruas pateticamente de verde amarelo, louvando o ‘mito’. Esses não têm mais jeito. Vivem uma realidade paralela, converteram-se ao terraplanismo, adotaram a religião neopentecostal rasa ou o ‘catolicismo’ medieval, rezam para pneus, pedem a intervenção de ETs etc. Alguns acamparam nos quartéis pedindo a volta da ditadura e vandalizaram as sedes dos 3 Poderes achando que estavam salvando o país do... comunismo. O próximo estágio será serem presos pelo Xandão ou irem para um manicômio pois perderam totalmente o senso.

Esses seres simplórios fizeram valer para a palavra ‘comunista’ (ou seus congêneres, ‘esquerdopata’ e ‘petralha’) uma conotação pejorativa, quase como um xingamento, referente a um ente maléfico que devora criancinhas vivas e quer se apropriar dos modestos bens que possuímos para financiar o regime de Cuba e da Venezuela.

Foram transformados em ‘comunistas’ todos aqueles que mantiveram ideias independentes, os críticos, os inconformados, os contestadores, os que pensam com a própria cabeça, os ‘diferentões’, enfim todos aqueles que, por uma razão ou por outra, não foram varridos pela maré pasteurizadora de imbecilidade que se apropriou dos corações e mentes, recusando-se a tornar-se panacas robotizados.

Pela nova abrangente classificação, são considerados comunistas, quase todos os jornalistas, estudantes de universidades públicas, médicos do SUS, assistentes sociais, sociólogos, intelectuais, professores, jornalistas, historiadores, poetas, músicos, atores, cineastas, ambientalistas, naturalistas, veganos, esotéricos, umbandistas, pais-de-santo, muçulmanos, zen-budistas, iogues, ateus, feministas, gays, lésbicas, travestis, indígenas, quilombolas, ribeirinhos, capoeiristas, homeopatas, antirracistas, afrodescendentes, imigrantes, indigentes, moradores de rua, humanistas, excêntricos, democratas, defensores de minorias. Também se enquadram nessa categoria políticos das mais variadas estirpes como Lula, Simone Tebet, Marina Silva, FHC, Alckmin, Sarney, Doria, Kassab, ACM Neto, Rodrigo Maia, Helder Barbalho, Rodrigo Pacheco. E artistas diversos como Caetano, Gil, Maria Rita, Nando Reis, Daniela Mercury, Martinho da Vila, Zeca Pagodinho, Emicida, Marcelo D2, João Gordo, Odair José, Ivete Sangalo, Xuxa, Angélica, Fábio Porchat, Luciano Huck, Datena, Paolla Oliveira, Anitta, Pabblo Vitar, Luiza Sonza, Ludmilla, Valesca Popozuda entre tantos. Todos comunistas.

Como pode ser deduzido, não sobrou muito espaço para quem não se filiar a uma das duas facções em que a sociedade ficou dividida: a dos comunistas e a dos babacas.

Nesse sentido, mesmo sem comungar das ideias ortodoxas dos ‘comunas’ clássicos, mas ficando ao lado de todos aqueles que mantiveram a lucidez e o discernimento, ante o mar de boçalidade conservadora, posso proclamar com muito orgulho: SOU COMUNISTA!

 

quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

ENTREVISTA EXCLUSIVA COM TRUMP (II)

 
Nosso blog publicou em 27 de novembro de 2020, com exclusividade, uma entrevista com o então presidente Trump que acabara de ser derrotado nas urnas por Joe Biden. Em vista da volta de Trump à presidência (e às manchetes), julgamos oportuno, como documento de valor histórico, republicar a entrevista que segue abaixo:

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- Pleased to meet you, Mr. Trump.

- Excuse me, I know you?

- I´m a blogger from Brazil. Can you say a few words to the brazilian people?

- Você brasileiro?

- O senhor fala minha língua!?

- Sure. Eu aprender brasileiro quando fazer curso on line de ‘marxismo cultural’ e ‘terraplanismo avançado’ com mestre Olavo de Carvalho. Amazing! Ele dizer eu ser popular in Brazil.

- Sim, o senhor tem muitos admiradores entre os seguidores de Bolsonaro?

- Who?

- Bolsonaro, brazilian president

- Oh, yes, Bolzonero, um leal servant. Eu brincar ser um ‘TRUMPolim’ para carreira dele. Hahaha. Em 2022, depois ele perder eleiçon to Lula, falar para ele non se preocupar com tribunal de Haia por ele destruir Pantanal, matar yanomamis e não fazer nada para acabar pandemia. Eu arrumar Green Card para ele morar in América, longe Xandão. Dar para ele emprego de capataz em minha fazenda no Oklahoma. Para filho Edward que ter know-how em fry hambúrgueres, eu conseguir trabalho no Trump Tower Grill em New York como ‘chapeiro’. Ele sempre querer ser meu ‘chapa’ hahaha. By the way, Edward me pedir para financiar international rede de brazilian barbecue.

- Churrascaria...

- Right! Ele indicar como partner ex-minister Richard Salles que fazer frigorífico em Xingu para produzir baby beef for exportation. Ele expulsar selvagens Amazônia,  tirar mato e colocar gado e soja. Eu também pensar em fazer in the jungle the largest campo de golfe of the world, o Tropical Trump Golf Club. Eu adotar prática social e ambiental: dar empregos seringueiros como gandulas e plantar muita grama verde.

- E o muro do México, presidente?

- Presidente Obrador, my left fellow in Latin America, me convencer: ‘no more muros’. Minha vitória on Flórida provar que hispânico agora aliado. Eu resolver consentir chicanos ilegales trabalhar para famílias americanas que non poder pagar previdência para employees. Melhor que fazer muro in México, fazer de México quintal do Texas. Criar novo slogan: ‘MAKE AMERICA EVEN GREATER: ATTACH MÉXICO’.

- Anexar o México aos States?

- Why not? ‘ATTACH’ México is better than ‘ATTACK’ México. Hahaha. México, estado 51: ‘una buena idea’, hahaha.

- E a eleição de Biden, presidente?

- É uma question para psychology.

- Psicologia?

- Yes. Vitória de Biden só Fraude explica.

- Mas ele teve mais votos?

- Eu presidente legítimo. Se contar votos de white men, eu ganhar.

- E as mulheres não contam?

- Mulher ficar em casa, non entender nada política e ser contra armas e guerras. Negócio de mulher is FFF.

- Força, foco & fé (force, focus & faith)?

- FILHOS, FOGÃO & FUCK. Hahaha.

- E os negros? Eles também são americanos.

- I don´t think so. Quando eu ser presidente again, eu exportar niggers para Canadá e Austrália. Mão-de-obra barata para trocar oil, carvon and fossile fuels para acelerar aquecimento global e enfurecer Greta e Greenpeace. Já ter até slogan: “VIDAS NEGRAS EXPORTAM”.

- E a história do vírus chinês?

- Bullshit! ‘Vírus chinês’ ser apenas fake news para engajar anticomunists internetters. Eu assinar tratado my great friend Xi Jinping: governo americano liberar 5G da Huawei e governo chinês abrir capital empresas chinesas na bolsa Nasdaq: Xing-Ling Holding Company. Produto baratinho com três meses garantia, sem nota fiscal. Chinese new comunism impulsionar american capitalism.

- E Putin?

- Putin maior líder europeu desde Goebbels. Ele comandar hackers que invadir celulares com ataques contra that disgusting Hillary em 2016. That man saber resolver problemas. Quando aparecer opositor, ele injetar cianureto no vinho dele e resolver queston quickly, sem vestígios. Ele usar arma química também para liquidar muçulmanos na Chechênia e crianças sírias em Alepo. Terrific! Eu ter muito aprender com ex-agent of KGB.  

- Uma palavra final para seus fãs no Brasil, presidente.

- Eu gostar Brazil, principalmente a capital, Rio de Janero. Eu combinar Bolzonero ajudar construir nova Cancun em Angra com dois big empreendimentos: ‘South America Trump Shore Resort’ e ‘Trump Carnival Casino’. Contratar nativos com sombreros e beautiful mulatas para dançar mambo, samba, bolero e chá-chá-chá. As brasileñas son calientes. Desde que perder Cuba, american tourists non ter lugar para gastar dólares. I’ll be there. Wait for me! Adiós, muchachos.

 

 

 

quinta-feira, 28 de novembro de 2024

URUGUAI

 

“Pobres no son los que tienen poco. Pobres son los que quieren mucho” (José Mujica)

Tivemos eleições no Uruguai. O país esteve em tal clima de tranquilidade que nem parece que se disputava a troca de comando. Sem turbulências, sem ameaças de rupturas, sem contestação de resultado das urnas.

Ganhou a esquerda. Ganhasse a direita, as coisas não seriam muito diferentes. Aliás, o revezamento do poder parece ser o combustível que mantém acesa a democracia por lá. O presidente Lacalle Pou não conseguiu eleger seu sucessor. Nem por isso fugiu para Miami, tramou golpe militar ou insuflou seus apoiadores a ocupar a Plaza Independencia, onde fica a sede da presidência. Civilizadamente parabenizou o vencedor e vai passar a faixa respeitando o ritual democrático, que há 4 décadas tem-se repetido religiosamente de 5 em 5 anos.

E a vida segue pulsando nesse estranho e admirável país em que, ao contrário do que acontece em certas repúblicas bananeiras, a direita e a esquerda são civilizadas e têm em comum o respeito às instituições que está acima de suas circunstanciais divergências ideológicas e que fazem do país um exemplo de estabilidade.

Os militares, depois que foram chutados do poder em 1985, não ousaram mais se intrometer na política. Mesmo porque o clima de belicismo entre as forças políticas se evaporou. Os temíveis tupamaros abandonaram as armas e participam da vida pública aceitando as regras do jogo democrático tradicional.

Também padres e pastores têm consciência da limitação de seu papel numa nação onde a laicidade do governo é levada a sério. O país tem por tradição impedir que membros das igrejas interfiram em assuntos de Estado. Sequer símbolos religiosos são permitidos em locais públicos. E cada cidadão pode exercer sua fé (ou falta dela) sem ser importunado pelos enxeridos e retrógrados Malafaias que atormentam nossa vida cá pra cima do Chuí.

Cercado por dois gigantes, Brasil e Argentina, que têm sofrido com tumultuados processos de polarização, o tranquilo povo uruguaio se vangloria em adotar em plena América Platina um modelo nórdico de civilização.

E as coisas não estão bem apenas na política mas também na economia. O país, quietinho, quietinho, já é o de maior renda per capita na região. A desigualdade social é baixa e a pobreza extrema foi erradicada, sem recorrer a revoluções armadas.

Não bastasse, tudo isso, nosso próspero vizinho sulista ainda está na linha de frente das conquistas sociais. Enquanto na república dos bolsominions e dos neopentecostais pleiteia-se a volta à Idade Média, o Uruguai orgulha-se em ter sido pioneiro em instituir o voto feminino e o divórcio, em reduzir a jornada de trabalho, em legalizar o aborto, em permitir a união homoafetiva.

Sem falar na política de combate às drogas, uma das mais avançadas do mundo. Lá todo mundo pode puxar um fuminho na rua sem provocar indignação dos ‘cidadãos de bem’. Liberada a cannabis, as autoridades notaram que não houve aumento de consumo entre os jovens e que o vício em álcool, droga aceita socialmente, é que era um problema bem maior. As gangues de narcotraficantes ficaram enfraquecidas e grande parte da grana que abastecia o crime organizado foi para o mercado legal.

Todos esses avanços foram chancelados por um povo progressista e bem informado. Não foi à toa que essa população agora elegeu para presidi-la não um militar, um policial, um pastor, um bilionário, um influencer ou um coach. E sim um professor de História!

E com tudo isso, os caras ainda se dão ao luxo de esnobar no futebol! Como pode um paiseco de 3,5 milhões de habitantes (menos gente do que a Zona Leste de São Paulo) ter conseguido faturar 2 copas do mundo? Desde que nos desbancou em pleno Maracanã em 1950, a Celeste nunca deixa de fazer bonito em torneios internacionais.  Os aguerridos hermanos são motivados pelo brio e pelo amor à camisa como já fomos há algumas décadas atrás, antes de ascender a geração de corpos moles comandada por Neymar, movida por grana e festanças.

Este é o Uruguai. E o perfeito retrato desse país responde pelo nome de José ‘Pepe’ Mujica. O ex-guerrilheiro que chegou ao poder pelo voto, teve a sabedoria de conduzir com serenidade as grandes mudanças que o país tem atravessado, firmando-se como modelo de governante no mesmo nível de Gandhi ou Mandela. Preso e torturado por 14 anos pelos militares, abdicou da vingança a seus algozes em nome de construir uma nação pacífica com instituições sólidas. Um homem único, um humanista, que abriu mão voluntariamente da fortuna e do prestígio que o cargo poderia lhe proporcionar para continuar vivendo humildemente no subúrbio de Montevidéu com seu fusca, seus vira-latas e sem celular. Este é o outsider que importa.

Hoje, gravemente enfermo, com 89 anos, teve a felicidade (talvez a última de sua existência exemplar) de entregar esse pequeno grande país para seu discípulo Orsi continuar sua obra de, sem alardes, fazer do Uruguai um exemplo para a América Latina e para o mundo.