segunda-feira, 6 de julho de 2026

ERA SÓ UMA BRINCADEIRA

Cara, na moral, foi só uma zoação. Olha o tamanho da confusão que armaram pra cima da gente, mano! Não dá pra entender esse povo fazendo essa zoeira toda. Dá um tempo! Parece que nunca tiveram 14 anos.

Era só para tirar um sarro da tia na sala de aula, meu. Essa chata que vive querendo enfiar um monte de caretice na cabeça da gente, uns papos de cidadania, respeito, sociedade, essas coisas. Uns troços nada a ver, que não dão futuro, não rolam grana, não dão engajamento nas redes.

A ideia bizarra surgiu do nada no recreio. Alguém lançou o desafio maneiro pra ver quem encarava botar os vidrinhos na garrafa de água da tia. O mais doidão assumiu a missão. Bora dar umas risadas.

A gente puxou o celular pra filmar e botar no Tik Tok. O vídeo ia bombar: sangue, gritaria, esse tipo de coisa sempre viraliza. Mais seguidores, mais visualizações, mais compartilhamentos. Os algoritmos iam pirar, kkkkk.

Pena que alguns deram pra trás e falaram pra ela que era melhor não beber da água abençoada. Arregaram bonito os traíras. A verdade é que ninguém tava nem aí no que ia dar pro lado da tia. Quando muito ela podia engasgar, sei lá, sangrava um pouco, nenhum drama. Tomava um belo susto pra ficar esperta e parar de encher o saco.

Podia dar coisa pior? Podia. Vai que a coroa empacotasse de vez. Azar dela. Fazer o quê? A gente não é coveiro.

Com o piti que a bruxa armou ao descobrir o lance, deixei cair o iPhone. Ainda bem que não detonou a filmagem. Quem ia pagar o preju, isso ninguém fala.

E ainda puseram a infeliz pra choramingar na internet, dizendo que não queria mais lecionar, ia precisar de tratamento, viajou na maionese. Esse lenga-lenga de vitimismo que a gente já tá por aqui. Vê se te enxerga, mulher! Vai cuidar de teu homem e para de bancar a coitada.

De qualquer jeito, não ia dar em nada. No máximo, um sermão sacal do diretor, uma suspensãozinha de uns dias, legal pra gente tirar uma folga em casa. E ficava por isso mesmo. No Brasil, ninguém fica na cadeia. Pra nós, menores então, a lei protege de qualquer punição.

Os otários falam como se a gente fosse bandido. Menos, né. E outra: o professor não é esse santo que vocês pintam. O cara que se mete a dar aula é um fracassado que não conseguiu trampo que dá grana, vive estressado, ganha um salário de merda e passa a sua vidinha miserável em cima de livros, achando que vai mudar o mundo. É um frustrado que só enche a gente de tarefa chata, manda guardar celular e ainda quer se meter em dar lição de moral.

O que não dá pra engolir é esse monte de trouxa fazendo discurso e caindo em cima. Do nada apareceu polícia, imprensa, quiseram envolver até nossos pais que não tão nem aí. Não tem a menor graça, meu. A gente ia lá saber que vidro cortava garganta e podia matar? Vamos dar um fim nessa tragédia, gente. Chega de mimimi!

E ainda tiraram do ar o vídeo antes de viralizar. Sacanagem...

Cadê a liberdade de expressão?

 

 

quarta-feira, 1 de julho de 2026

QUANDO JESUS ENCONTROU OS ORIXÁS

 

Certas manhãs nascem diferentes. Não porque o sol brilhe mais intenso, mas porque o mundo resolve cochichar histórias para quem tem ouvidos para escutar.

Numa dessas manhãs, Jesus caminhava descalço, sozinho, por uma estrada de terra vermelha. O chão ainda guardava o frescor do orvalho, e a poeira fina subia entre seus dedos a cada passo. Carregava ele um manto simples, um sorriso sereno e o hábito de saudar árvores e animais.

Ao chegar a uma velha encruzilhada, sob a poeira suspensa, o ar pareceu subitamente mais denso. Ali sentado sobre uma pedra pontiaguda, encontrou um homem vestindo vermelho e preto e um chapéu desabado que sombreava os olhos vivos. Girava uma bengala entre os dedos e exibia um sorriso enigmático. O silêncio que os cercava era quase palpável, como se o tempo hesitasse diante do cruzamento.

 Olá, viajante. O dia amanheceu largo para quem anda sozinho — disse o homem, voz rouca, cortando o silêncio com a precisão de uma lâmina afiada.

— A paz esteja convosco — respondeu Jesus.

O homem inclinou a cabeça, o sorriso expandindo-se em desafio.

— Paz é coisa que se procura no fim. Aqui no meio, o que manda é a escolha. E toda escolha cobra seu pedágio.

Era Exu. Não o das histórias mal contadas, personagem sombrio dos malfeitos que o preconceito inventou. Era o senhor das passagens, das escolhas, da palavra que abre caminhos e revela tropeços.

— Vai para onde? — perguntou Exu, tocando levemente a bengala ao solo, testando a firmeza do andarilho.

— Para onde houver alguém precisando de uma palavra de esperança, replicou Jesus sem recuar.

— Isso é o que não falta nesse mundinho.

Ambos sorriram. A tensão desfez-se no ar

Jesus e Exu continuaram caminhando juntos.

De repente, a calmaria foi interrompida. O vento começou a dançar de um jeito diferente, soprando em rápidas lufadas que ergueram a poeira e fizeram as folhas girar como se estivessem executando uma coreografia antiga. Envolta por tecidos claros que pareciam feitos do próprio ar, surgiu uma vistosa mulher, com os olhos faiscando como relâmpagos contidos.

— Bons ventos os trazem, forasteiros — disse ela, a voz vibrando como um trovão distante.

Era Iansã.

— As pessoas temem as tormentas, mas ignoram que é o vento quem limpa o céu. E leva embora o que insiste em ficar.

Jesus, segurando firme seus longos cabelos esvoaçantes e seu manto que se rebelava no corpo, respondeu:

— Às vezes, é preciso perder o que nos prende para encontrar o que nos chama.

Iansã sorriu satisfeita e o vento amainou, transformando-se numa brisa suave.

Enquanto Exu retornava à sua morada na encruzilhada, Jesus seguia em frente.

O calor do dia começou a apertar e surgiu o rumor de água corrente.

À margem de um riacho cristalino, onde o aroma de lírios e água fresca acalmavam os sentidos, emerge a silhueta cativante de Oxum. O reflexo do sol na água criava faíscas douradas ao redor de suas mãos. Observava ela os peixes bailarem entre as pedras.

Ao ver o andarilho exausto, ela prontamente lhe ofereceu água em uma cuia reluzente.

— Toda sede merece respeito.

Jesus, sentindo-se acolhido, aceitou de bom grado e agradeceu.

O contraste entre a urgência do mundo e a calmaria daquele córrego era profundo. Oxum olhou nos olhos dele e perguntou:

— Reconheço em você um sábio. Então, me esclareça, por favor, essa questão que me tortura: por que tanta gente acredita que a força necessita de barulho?

— Porque não lhes foi ensinado escutar o silêncio.

Ela sorriu com a mesma felicidade que invade um curso da água quando os raios do sol da manhã acariciam sua superfície.

Jesus continuou sua jornada de destino incerto, deixando o vale e subindo a serra. onde o vento uivava e a gravidade parecia confrontar a pequenez e a fragilidade humanas, quando avistou Xangô.

Recolhido em seu trono de pedra bruta, observava o horizonte como quem pesa as coisas do mundo numa balança invisível.

— Justiça... — balbuciou, a voz grave reverberando no paredão de pedra, como querendo concluir um pensamento inacabado. — Todos imploram por ela.

Ele olhou para Jesus, medindo a estatura espiritual daquele homem franzino. Fez uma pausa e completou:

— Mas o que os homens desejam é apenas vencer.

Jesus assentiu, sentindo o peso daquela verdade esmagadora.

— Amar a justiça exige coragem. Amar a vitória nem tanto.

Os dois trocaram um olhar de cumplicidade. abençoando o veredicto silencioso que compartilhavam.

Jesus prosseguiu. Ao descer a montanha, a vegetação fechou-se em uma mata densa. O ar tornou-se úmido, com cheiro de musgo, resina e folhas pisadas.

Na beira da mata, um homem de porte firme e olhar certeiro observava as copas das árvores, perfeitamente camuflado na proteção das sombras. Um pequeno pássaro pousou-lhe no ombro, sem medo.

Era Oxóssi. A imensidão da floresta parecia intimidar o intruso, mas Jesus avançou com reverência e sem temor. O caçador apresentou-se com as seguintes palavras:

— A floresta nunca fala alto — disse — Mesmo assim, nada do que acontece lhe escapa.

Jesus acercou-se com mais um passo e passou a mão sobre o tronco rugoso de uma árvore centenária, sentido a vida pulsar sob a casca grossa.

— Meu Pai também costuma ensinar usando sementes.

Oxóssi abriu um sorriso cordial, transformando a tensão da mata em hospitalidade.

— Sei disso. Ele é um excelente jardineiro. Formaríamos uma ótima dupla.

Jesus deixou-o, em direção a uma praia isolada, onde as ondas vinham e iam como se o mar, através delas, respirasse. O sal grudava-lhe na pele e o som rítmico do oceano quebrava na areia branca.

Ali avistou Iemanjá.

Vestida com as cores da espuma, ela observava o oceano com a serenidade de quem reconhece todas as lágrimas que nele desaguam. O horizonte infinito trazia uma melancolia profunda, quase dolorosa.

— Os seres humanos choram muito.

Jesus aproximou-se, parando onde a água borbulhante alcançava seus pés. Respondeu:

— Porque amam muito.

Ela concordou, com o olhar medindo a ida e a vinda das marés.

— E continuam amando, mesmo depois de sofrer.

— Talvez seja essa sua maior coragem.

Por um instante, ninguém disse nada. Nem precisava. As ondas falaram por ambos, engolindo a dor do mundo no balanço das águas.

Quando o sol começou a se esconder, tingindo o céu de tons de brasa e púrpura, Exu reapareceu, na margem da estrada.

— Engraçado..., comentou, surgindo da penumbra.

— O quê? — perguntou Jesus, sentando-se a seu lado.

— Estava aqui meditando: cada povo inventa um jeito diferente de procurar o sagrado.

Jesus, com olhar perdido no horizonte, retrucou:

— Verdade. E, quase sempre, se desentendem, achando que estão do lado da razão. Como se a razão tivesse um lado.

Exu deu uma sonora gargalhada que ecoou ao longe, afugentando os últimos pássaros do dia.

— Sendo que o caminho permanece lá. Indiferente às batalhas que se fazem em seu nome.

Como velhos amigos, os dois sentaram-se na mesma encruzilhada onde tudo havia começado, ensaiando um final para o encontro.

Alguns passantes estranharam a cena. Uns viram apenas dois homens comuns conversando. Outros juravam ter presenciado uma roda de luz que os cercava. Houve quem dissesse que eram conhecidos de longa data. Também apareceu quem garantisse que a cena não passava de miragem.

O certo é que ninguém escutou o que falavam. Talvez porque certas conversas não tenham sido feitas para ser reveladas.

Quando a noite caiu de vez, cobrindo a paisagem com um manto de estrelas, cada um retomou a direção que lhe cabia.

Antes de partir, Exu, ajeitando o chapéu, perguntou com respeito:

— Então, Mestre (permita-me chamá-lo assim?). Quando nos veremos de novo?

Jesus respondeu:

— Todo encontro sincero deixa uma porta aberta.

Exu bateu a ponta da bengala no chão e um estalo seco ecoou bem longe.

— Que os caminhos então permaneçam abertos.

—Os corações também.

Se tal encontro aconteceu de verdade, ninguém sabe com certeza. Mas quem relata costuma terminar sempre do mesmo jeito: dizendo que, naquela encruzilhada, ninguém saiu com a última palavra.

 


sexta-feira, 19 de junho de 2026

OPACA COPA

 

Em maio de 2018, escrevi uma matéria exaltando a Copa do Mundo que estava prestes a se iniciar, naquela oportunidade, na Rússia. Nela, enaltecia o espírito esportivo que se sobrepunha às divergências entre as nações. Todos se rendiam àquela saudável competição em que as delegações de cada país se submetiam às normas estabelecidas para ganharem o direito de colocar seus 11 melhores em campo.

A Copa, segundo o texto, era uma rara oportunidade que possibilitava o congraçamento universal. As diferenças eram deixadas de lado em nome da disputa esportiva. Países com regimes de governo tão distintos participavam em igualdade de condições e a FIFA, que a todos congrega, incumbia-se de fazer valer requisitos equânimes para os participantes cumprirem.

Transcrevo a seguir trechos da referida matéria:

“Parece surreal que nações com culturas e sistemas de governo tão díspares, com divergências aparentemente irreconciliáveis, (...), disponham-se, respeitosas, a participar de um evento coletivo, obedecendo obsequiosamente a suas estritas regras.”

“O país-sede empenha-se em receber de braços abertos os visitantes. Nenhum anfitrião nessa hora quer dar vexame e passar por troglodita intolerante. A adequada recepção de convidados garante uma boa imagem perante bilhões de espectadores grudados na telinha”.

Aos meus olhos crédulos, a Copa era um oásis de civilidade e convivência num deserto de intolerância e crueldade.

Decorridos meros 8 anos, o cenário mudou tão radicalmente que esse cândido artigo perdeu totalmente a validade, atropelado por inimagináveis circunstâncias.

Hoje, ao revisá-lo, não senti vergonha de tê-lo escrito. Senti saudade. Saudade de um tempo em que ainda se podia acreditar que um torneio de futebol era capaz de reunir diferenças sob um conjunto comum de regras. Talvez o mundo nunca tenha sido da maneira que idealmente concebi. Talvez eu fosse bocó ou apenas tenha envelhecido o suficiente para permitir que caísse a ficha da infame realidade.

Ao assistir ao que vem acontecendo no mundo nesses últimos tempos, verificamos que as mudanças da Copa de 2026 para a Copa de 2018 fazem parte de um pacote maior de perversidades que impactou as relações internacionais, muito além do futebol.

Um acontecimento em particular parece estar no centro desse tornado devastador: a ascensão ao poder em uma das nações-sede de um governante pouco afeito a patrocinar um ambiente de confraternização universal e pouco receptivo a receber visitantes indesejados. Seu lema: “America First”.

A primeira a se vergar a esse turbilhão de insensatez foi a FIFA, organização cuja seriedade e idoneidade antes pareciam um anteparo a interferências não provindas da arena esportiva. Aceitou calada as arbitrariedades, preocupada mais nos resultados financeiros do que na lisura dos procedimentos.

Ao sediar a Copa de 2026 (ao lado do México e do Canadá), os EUA, deixaram claro que os rituais previstos deveriam se submeter às novas diretrizes governamentais. Pipocaram episódios lamentáveis como as dificuldades impostas à entrada e ao trânsito de estrangeiros, não apenas torcedores, mas também árbitros, atletas e integrantes das equipes técnicas participantes do torneio, especialmente daqueles provenientes da África, da América Latina e do Oriente Médio, tratados como escória.

O mínimo a esperar para um país que se oferece como sede é proporcionar condições aceitáveis para o pleno exercício da atividade esportiva, bem como oferecer hospitalidade para os torcedores que se dispuseram a viajar de sua terra natal para incentivar sua equipe. Esse princípio básico de cortesia foi desconsiderado pelos negligentes anfitriões. Com anuência da FIFA.

Contraditoriamente, a mesma Copa que abriga um número recorde de seleções deverá passar para a história como a mais segregacionista de todas.

Nem mesmo em eventos esportivos equivalentes ocorridos em regimes autoritários como na Itália em 1934 (Copa do Mundo, sob Mussolini) ou na Alemanha em 1936 (Olimpíadas, sob Hitler), as delegações visitantes e os torcedores receberam tratamento tão humilhante e discriminatório. Ao contrário, os ditadores citados procuravam vender ao mundo a prevalência de uma atmosfera de tolerância e equidade para dar credibilidade ao evento sediado.

Para não perder o foco, voltemos nossa atenção ao velho esporte bretão. À Copa sem brilho, à Copa Opaca, a mesma que Mr. Trump e Mr. Infantino (presidente da FIFA) estão se empenhando em conspurcar.

O fato é que aos trancos e barrancos, o evento esportivo prossegue, cumprindo sua agenda de jogos. Os embates em campo continuam ocorrendo, afunilando o número de candidatos rumo à decisiva batalha final. As arquibancadas continuam a vibrar e os estádios permanecem cheios, apesar dos preços proibitivos dos ingressos, destinados a afastar os menos aquinhoados. Os mesmos que, nos campos de várzea, ajudaram a fazer do futebol o esporte mais popular do planeta e, com sua espontaneidade, geraram artistas em lidar com a pelota, como Pelé e Garrincha.

Não sei ainda quem vai ganhar essa Copa. O certo é que, ao final, a taça será erguida, haverá comemoração e uma bela festa de encerramento que procurará encobrir os podres do percurso.

Mas entre mortos, feridos, lesionados e barrados no baile, a verdade é que, seja quem for o campeão, sairemos todos um pouco derrotados.