Um grupo de renomados cientistas das
mais variadas áreas uniu-se para criar o ‘relógio do juízo final’ (‘doomsday
clock’), um instrumento que estima o tempo restante para o fim do mundo, a
ocorrer à meia-noite em ponto. Como num conto de Edgar Allan Poe, o soturno
soar das 12 badaladas anuncia a chegada da morte.
O escalar das horas, ao contrário dos
relógios convencionais, não ocorre em função do decorrer regular e inexorável
do tempo, mas do processo de deterioração das condições que mantêm o organismo
vivo.
Em 2026, os ponteiros desse
cronômetro macabro foram ajustados para o horário de 23:58:35, ou seja, míseros
85 segundos aquém do horário fatídico em que daremos adeus ao planeta azul que
nos abrigou por tantos milênios. A marcação que vinha oscilando para cima e
para baixo, nunca chegara tão perto do apocalipse final como agora. E nada
indica que vá reverter sua marcha funesta rumo ao precipício.
A maioria das pessoas é persuadida pelos
negacionistas que essa ameaça, mesmo que fundamentada em estudos gabaritados de
especialistas, não é para ser levada a sério. Esse relógio fictício não passaria
de obra fantasiosa de cientistas catastrofistas com intenções malévolas. Podemos
continuar agindo com irresponsabilidade, egoísmo e negligência que nada de ruim
vai acontecer. Nossa civilização, fundada na lógica otimizadora do mercado,
sempre ‘dará um jeito’ de manter tudo funcionando, não devemos nos preocupar.
Será? Um idôneo check-up revelaria
que a nossa idosa e judiada Terra apresenta um quadro clínico de degeneração
grave, prestes a ser levada à UTI. O diagnóstico é que infelizmente está vivenciando
os últimos suspiros de senilidade, açoitada pela corrida armamentista, guerras
sem fim, mudanças climáticas, pandemias, descontrole da tecnologia etc.
Um fator determinante que fez
disparar o temporizador fatal foi a ascensão ao poder de governantes de
qualidade deplorável que romperam os já frágeis acordos internacionais e deram
as costas para a destruição ambiental. Trump e Putin, os mais poderosos
estadistas em capacidade bélica da atualidade, lideram essa safra de maçãs
podres, a mando de Tânatos ou Lúcifer.
Os seres desprezíveis que estão
conduzindo nossa existência à derrocada ainda se dizem religiosos e representam
eleitores tementes a Deus que deturpam os ensinamentos dos grandes mestres espirituais
do passado. Para usar a parábola bíblica, transformaram a água límpida do amor
no vinho azedo do ódio.
Jesus que difundiu o perdão e o amor
ao próximo teria vergonha dos pastores evangélicos mercenários e de pregadores
racistas e supremacistas que se dizem seus adeptos. Maomé que propagou a
caridade e a justiça social deu cria a células jihadistas sanguinárias, tipo Estado
Islâmico. Moisés ensinou aos hebreus leis morais e sociais que redundaram no sionismo
e em genocidas como Netanyahu. Os preceitos de Buda, voltados à não-violência e
à compaixão, foram sucedidos no Extremo Oriente pelas tiranias de Pol Pot e Kim
Jong-un.
Nossa civilização tem produzido cada
vez menos pessoas de valor como Aristóteles, Confúcio, Lao Tsé, São Francisco
de Assis, Dalai Lama, Gandhi, Chico Xavier, Bezerra de Menezes, Mãe Menininha
de Gantois, Irmã Dulce, Madre Teresa de Calcutá, Rabino Sobel e Dom Paulo Evaristo
Arns.
Personalidades com visões diferentes,
mas que têm em comum o anseio por um mundo mais igualitário e maior
solidariedade entre seus habitantes, independente de suas crenças. Se pudessem
ser reunidas numa sala, esses seres abençoados deixariam suas divergências de
lado, dariam as mãos e subscreveriam um manifesto ecumênico pelo bem da
Humanidade.
Cada vez mais escasseiam cidadãos da estirpe
de Nelson Mandela, Martin Luther King, Malcolm X, Albert Einstein, José Mujica,
Papa Francisco, Ailton Krenak, Cacique Raoni, Malala e Greta Thunberg.
Como fazem falta brasileiros de
caráter como Ruy Barbosa, Joaquim Nabuco, Ulysses Guimarães, Teotônio Vilela,
Sobral Pinto, Hélio Bicudo, Oswaldo Cruz, Paulo Freyre, José Lutzenberger,
Roberto Burle Marx, Cândido Rondon, Dorothy Stang, Chico Mendes, Betinho,
Abdias do Nascimento!
Sem contar artistas e escritores que lutaram
ou continuam lutando pelo bem comum como: Charlie Chaplin, Hannah Arendt,
George Orwell , Ken Loach, John Lennon, Bob Marley, Bob Dylan, Bono, Peter
Gabriel, Nina Simone, Joan Baez, Villa Lobos, Portinari, Machado de Assis, Carlos
Drummond, Carolina de Jesus, Guarnieri,
Vinícius de Moraes, Renato Russo, Cazuza e tantas outras mentes iluminadas que fizeram
da arte instrumento para transformar o mundo.
Tanta gente que poderia fazer
diferença sucumbiu ante dirigentes abjetos que conduzem nossa civilização para
a desgraça, líderes que deveriam nos envergonhar, mas que continuam nos guiando
com nossa humilhante anuência.
Nossa civilização que foi capaz de
promover avanços inimagináveis na ciência e na qualidade de vida, falhou
miseravelmente na simples tarefa de conservar a Terra habitável.
Foram os povos primitivos, chamados
de atrasados, que mantiveram uma relação verdadeiramente sagrada com o planeta.
Nela, o tempo subordina-se aos ciclos naturais que fazem com que o relógio do
juízo final seja apenas uma inútil quinquilharia. Entre eles, a vida pode
seguir seu curso e ser gozada em sua plenitude.
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