terça-feira, 10 de setembro de 2013

UM LUGAR CHAMADO ESPERANCINA



– Atenção! Vamos dar início à nossa audiência com representan­tes dos três poderes, para discussão das mudanças em nosso município. Como é sabido, o povo de Esperancina, em protesto contra décadas de corrupção e impunidade, saiu às ruas para exigir mu­danças e ocupou os prédios públicos. O prefeito, o vice e seus secretários fugiram para os municípios vizinhos, para não ser caçados (com ç) pelos crimes de malversação de recursos pú­blicos, corrupção ativa e passiva, fraudes em licitação, evasão de divisas, enriquecimento ilícito, sonegação fiscal, extorsão, lavagem de dinheiro, falsidade ideológica, apropriação indébi­ta, prevaricação, estelionato, formação de quadrilha, associa­ção com o crime organizado, desvio de merenda escolar, tráfico de entorpe­centes, estupro e pedofilia. Pretendem reaver o poder através de ação de reintegração movida por seu advogado, Marcius Tomaso Bostus, que alega ilegalidade na obtenção das provas e ausência de flagrante. Solicita foro privilegiado e julgamento especial pelo STF. Responderão pelos crimes em liberdade.
... O presidente da Câmara e três dos nove vereadores, também pegos com a mão na massa, tiveram de renunciar para não ser cassados (com ss) pelo povo indignado. A Câ­mara Municipal teve que aprovar, em regime de urgência, sob pressão popular, um novo decreto que transfere o poder para o Conselho Municipal de Transição formado por munícipes escolhidos por consenso, sem nenhuma objeção, pelo povo concentrado na Praça da Matriz, na semana passada.
... Ofereceram-se como Conselheiros  e foram aprovados por aclamação, sem direito a qualquer remuneração salarial: o Sr. Ma­noel, dono do bar da Praça da Matriz; o Sr. Pedrão, o moto­rista de ônibus escolar mais idoso da cidade; a dona Adelaide, aposentada, que cuida voluntariamente dos jardins da praça; a Dona Gertrudes, que tem a lojinha de armarinhos na Rua Caminho da Roça; o Sr. Chicão, goleiro do time de várzea da cidade; o Sr. Nenê, técnico em informática, que fez o site da Prefeitura; a Sra. Maria José, professora primária da escola municipal; a Sra. Patrícia, dona do único ateliê da cidade; o Dr. João Batista, médico pedia­tra; e o padre Santelmo, recentemente empossado na paróquia central.
... Eu, vocês sabem, na ausência do prefeito, do vice e do presidente da Câmara, fui escolhido pelo Conselho. Sou o Aristides, o Tide, técnico em contabilidade, nomeado como prefeito inte­rino até novas eleições munici­pais, dentro de três meses.
... Vou, de início, fazer um protesto individual con­tra a escolha do goleiro Chicão para o Conselho. Depois do frango que ele tomou na partida contra aquele timeco de Ria­chão de Dentro, devia ter ficado em concentração treinando para não dar mais vexame. Falaí, Chicão! O que é isso, meu? Aquele chute de falta, com a bola vinda pelo alto, dava para ter socado para escanteio. Mas, no final, conseguimos empatar. Está perdoado! Estamos de olho, hein?
... Continuando... Ficou aprovado pelo colegiado e eu, na qualidade de prefeito, sanciono, que o orçamento para o próximo exercício vai ter a seguinte distribuição: à Câmara Municipal fica destinado 1% da receita total do município; à Procuradoria, tam­bém 1%; para os órgãos do município,  mais 1%. Os 97% restantes, vão ser aplicados em centros de saúde, escolas, creches, moradia, saneamento, praças de esporte e pagamento de salários de professor, médico, e outras profissões de primeira necessidade.
– Nobre prefeito interino, sou o representante dos ve­readores de Esperancina nessa audiência pública. Meu nome é Eneas. Sou suplente empossado do vereador Ausêncio Ro­balo. Tenho em mãos alguns números que, preocupado, submeto a V. Sa. A arrecadação do nosso município esperancinense nesse ano vai ser por volta de 100 milhões de reais. Nosso minguado salário é de 14 mil por mês. Vezes 15 que é o número de salários que recebemos anualmente, fruto da nossa incansável labuta em prol do labo­rioso povo desse promissor município, dá 210 mil anuais. Multiplicando-se por 9 vereadores que somos, resulta em 1,89 milhão. Mas não podemos esquecer das nossas mordom..., digo, da ajuda de custo para as necessidades bá­sicas: auxílio moradia, auxílio viagem, plano de saúde, correspondência, gráfica, revista Caras, linhas telefôni­cas, internet, TV a cabo, combustível, segurança, motorista, pedicura, engraxate, personal trainer. Mais a troca da frota que já tem 2 anos, para modelos mais novos, blindados, com airbag duplo, freios ABS, bancos de couro, ar refrigerado, TV, GPS, Bluetooth e computadores de bordo. E como fazer para que cada parlamentar abra mão de seus imprescindíveis assessores de confiança, pessoas de nossas dignas famílias, gente gabaritada, de respeitabilidade na comunidade? Todos cidadãos de bem, que dependem dos exíguos vencimentos para viver.
– Nobre vereador. Sou um mero empregado. Não tenho muito conhecimento desses assuntos legislativos. Só sei fazer balanço. De um lado, ativo, de outro, passivo. Contas a pagar, despesas diferidas, demonstrativo de resultados. Meu pa­pel aqui é repassar verba. Bom, não tenho todo o tempo do mundo para o senhor. Próximo!
– Sou representante dos procuradores, Sr. prefeito, e venho trazer nossa indignação ante essa medida descabi­da que carece de fundamento legal, não devendo prosperar. Permissa vênia, que história é essa de cortar nossos honoráveis honorários, nossa sagrada grana protegida por cláusula pétrea e nossos privilégios transitados em julgado?
– Digníssimo amigo, acho que o nobre doutor não en­tendeu. Agora quem manda por aqui é o povão, cansado de desvios e maracu­taias. O negócio é simples: eles que pagam as contas, eles que decidem e está decidido. Vocês ficam com 1%.  Qualquer objeção, entrem com um mandado de segurança com liminar e medida cautelar contra o povo de Esperancina.
Data vênia, isso é um ultraje doloso ao equilíbrio dos três poderes, ao estado de direito e à Constituição de 1988. Nosso salário é protegido por isonomia e privelegium immunitatis, pelo direito adquirido e pela coisa julgada. Iremos ajuizar com agravo e impetrar ação ad cautelum, com efeito suspensivo para homo­logar em última instância o acórdão do STF.
– Por mim, os senhores podem ir até ao Papa. Próxi­mo!
– Sr. prefeito, sou o representante das secretarias e autarquias municipais. Ficamos sabendo que agora nossos ór­gãos só receberão 1% da verba do município. Somando todo o dinheiro para despesas de pessoal e itens imprescindíveis como papel higiênico, tinta de impres­sora, cafezinho, incenso, jontex lubrificado, pipoca de micro­onda, vela de bolo, salame defumado, revista de sudoku, caipi­roska etc. já dá uns 50%.
– Pois é! Como chefe do Executivo, ordeno que se reúnam e estudem como fazer para cumprir as novas normas. As regras estabelecidas pelo populacho são claras. Vocês terão que cortar 98% de tudo o que estava previsto. Mãos à obra!
– Ilustríssimo prefeito, não podemos cortar salários nem colocar funcionário estável na rua. Não é possível mexer desta forma no orçamento!
– Sugiro fazer pagamentos em precatórios. Pa­guem as dívidas com títulos do município com vencimento para daqui a 50 anos, sem correção, quando as coisas já esta­rão assentadas e equilibradas... Quero lembrar que professores, médicos, lixeiros, guardas municipais e ou­tras funções essenciais entram como necessidade básica. Esses continuam ganhando o que ganhavam estando prevista uma correção salarial de 150%, a partir do mês que vem, para estas categorias, tão necessárias para nossos cidadãos.
... Bem, senhores, é isso. O sol está começando a ficar forte. Está chegando a hora do almoço. Não esqueçam que hoje à noite tem festa do milho na Praça da Matriz às 19:30. Tragam as crianças que vai ter também doce e bolo.
... Atenção! Acabo de receber uma notícia preocupan­te. Chegou há pouco uma notificação do Palácio do Planalto. Parece que Brasília está apreensiva ante o rumo dos acon­tecimentos aqui em Esperancina. A nota fala que a ordem institucional foi quebrada e nos ameaça com uma intervenção federal para reconduzir ao cargo os antigos salafr..., digo, mandatários para “restabelecer a vontade popular manifestada nas urnas e recompor a ordem democrática”. Tenho in­formações de que está sendo preparado um batalhão de cho­que para reintegrar à força os destituídos. Bom, gente. Enquanto durar esta fase, façamos o que o povo de nós espera.
...Esperancina não pode morrer




5 comentários:

claudio disse...

Bom dia Sr. Sérgio.

Recebi hoje 25.09 " Digníssimo Canalha ".
O que tenho a dizer ?
Parabéns pela escrita, crítica e coragem.
Todos queremos desabafar, mas, são poucos os que podem se defender de qualquer repreensão que possa vir caso façam o que fizestes ou dissestes.
Mais uma vez parabéns.

Claudio

marciobenito disse...

- Condomínio América -

Era uma vez um condomínio
onde morava um adolescente,
o adolescente era um país
e o condomínio o continente.

Ele tocava muito samba,
forró, sertanejo e axé.
Mas sua mamãe ficava brava:
"Hora de calar o moleque!"

Então a mamãe do menino
resolveu aprontar com ele,
foi conversar com seu vizinho,
que era um gringo falso, de cena.

E fizeram um plano safado
pra controlar o condomínio.
Inventaram uma espionagem:
" - Oh, estamos sendo invadidos"

E foi marcada a reunião
pra resolver "outros problemas".
" - Música aqui? Não tem mais, não!
Faremos o nosso sistema."

E o adolescente emburreceu
e viveu num conto de fadas.
O condomínio era um silêncio...
Ficou sem música, sem nada.

Marcio Benito

Regina disse...

VIVA ESPERANCINA!!!

BRONCAEFUSSATUDO disse...

Senhor Sayeg!
Meus cumprimentos pela coragem de rebelar-se contra este poder judiciário (em minúsculo, sim senhor), que só nos faz ficar mais enojados e revoltados com os poderes constituídos (minúsculo de novo)deste país. Talvez um dia, quando o povo tiver instrução, não for subserviente por troca de favores com políticos e menos afeitos a conhecida lei de Gerson, as coisas melhorem. Oremos.
Helio V. Schwantes
heliovaldez@gmail.com
Santos/SP

Maria José Nia disse...

Muito bom, criativo e verdadeiro. Parabéns!