Quando Flávio Dino tomou posse como ministro do STF, o que nele se sobressaiu não foi o currículo, a trajetória política ou as ideias jurídicas. Foi o tamanho.
Julgar os indivíduos pela primeira
impressão é um defeito do ser humano, especialmente do brasileiro, que, com sua
índole zombeteira, adora rotular os indivíduos por alguma característica que
lhe chama a atenção - careca, dentuço, narigudo, balofo, baixinho, gago,
crioulo, japa, baiano, gay, geninho, coroa. O apelido vem antes da pessoa e não
raro em tom desabonador. Quem se atreve a criticar essa postura corre o risco
de ser tachado de ‘woke’, patrulheiro dos costumes, censor do humor alheio.
Pessoas com sobrepeso carregam um
fardo que vai além da massa corporal: além de preocupações com a saúde e
limitações práticas, convivem com preconceitos que lhes são impostos antes
mesmo de serem devidamente conhecidos.
Quando foi indicado por Lula para uma
cadeira no STF, Dino despertou desconfiança entre os adversários. Além da hostilidade
da balança, pesava contra o fato de ser egresso do antigo PCdoB, partido tido
como radical. Além de gordo, comunista!
Confesso que quando o vi chegar ao
STF, carregava certa prevenção contra ele (e não pelos quilos a mais). Não
esperava grande coisa do homem. Seria mais um político a usurpar uma das suntuosas
cadeiras da Corte. Alguém cercado de ‘aspones’ e vantagens remuneratórias,
onerando a nós, contribuintes, que não entendemos bem qual utilidade nos
proporciona para justificar as mordomias que usufrui.
Apesar disso, havia algo nele que me inspirava
simpatia. Talvez porque homens ‘corpulentos’ transmitam frequentemente um
sentimento de afabilidade, alguns até chamados carinhosamente de ‘fofos’. Lembrava-me
ele o Stay Puft Marshmallow Man, o gigantesco boneco de marshmallow evocado
pelos Caça-Fantasmas. Um personagem improvável de aparência inofensiva e
bonachona capaz de provocar tumultos monumentais em Nova York.
Dino (não vou mais citar sua condição
corporal para não estigmatizar o coitado), tendo ocupado o posto de governador
do Maranhão, notabilizou-se por uma gestão bem avaliada. Seu jeito professoral
de se expressar ajudou. Em vez de mais um integrante do Supremo a se expressar com
excesso de rebuscados malabarismos léxicos, tínhamos alguém que fala a língua
que os analfabetos em ‘juridiquês’, como eu, entendem. O fato de ter sido um
bem sucedido político (foi também senador e deputado), facilitou, uma vez que,
para ser eleito, teve de aprender a arte de se comunicar com o cidadão comum.
O fato é que Dino tem se saído
(muito) melhor do que a encomenda. Quanto a minhas objeções, fui obrigado a admitir
que estava (com perdão da expressão) ‘redondamente’ enganado. Até mesmo os mais
extremados opositores tiveram que se render a suas evidentes qualidades.
Dino não hesitou em mexer em
vespeiros nem desafiar dogmas firmemente estabelecidos. Orçamento secreto,
penduricalhos, supersalários e aposentadoria compulsória a magistrados (vista
como prêmio a condutas desviadas) são alguns espinhosos temas que o homem encarou,
batendo de frente com poderosos interesses corporativos. Digno Dino voltou sua
atenção não apenas a malfeitores de organizações criminosas, mas aos que estão
encastelados nas diversas esferas do poder, mamando nas tetas do Estado.
Protegido pela estabilidade do cargo,
poderia simplesmente acomodar-se com as benesses que a função lhe assegura,
cumprindo diariamente o ritual de despachar, analisar processos e proferir
longos e sonolentos votos. Preferiu, no entanto, usar de suas prerrogativas
para sair da mesmice e moralizar o serviço público.
Se na silhueta carrega algo de Sancho
Pança, é de Don Quixote que herdou o espírito guerreiro, enfrentando os moinhos
da burocracia, dos privilégios e da inércia estatal.
Lamento apenas que muitas dessas
iniciativas não tenham tido a devida repercussão no polarizado debate público,
incapaz de enxergar, para além de ideologias, o valor das ações em benefício da
coletividade.
Por tudo isso, penitencio-me por ter
começado essa crônica preso às características físicas de Dino. Perdi um tempão
falando do peso do sujeito quando o que deveria importar é o peso de suas
ações.
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