segunda-feira, 7 de novembro de 2022

ROQUEIRO REAÇA

 

“O Rock Errou” (Lobão)

O sinal de alerta acendeu quando Roger Waters, em sua apresentação de 2018 em São Paulo e Curitiba, ao projetar no telão atrás do palco os dizeres “ELE NÃO”, em protesto contra o então candidato a presidente Bolsonaro, recebeu vaias por parte da plateia. Os pretensos fãs do Pink Floyd que hostilizaram o antigo membro do grupo devem desconhecer sua postura antifascista e o teor crítico imprimido em álbuns como em ‘The Wall’ (contra o ensino opressor) ou ‘Animals’ (inspirado na obra ‘A Revolução dos Bichos’ de George Orwell).

Lamentável que pessoas que se autointitulam roqueiros tomem as dores de um governante que viria a ser responsável pelo maior desmonte artístico e cultural que esse país já assistiu? O mesmo que escolheria para comandar a Funarte um sujeito que acusava o rock de ser fruto do ‘marxismo cultural’, ativar o satanismo, induzir ao aborto e promover a destruição da família.

‘Roqueiro bolsonarista’ é uma contradição em si já que não pode haver compatibilidade entre um gênero musical intrinsecamente libertário e arrojado e um político autoritário e obscurantista.

Apesar dessa contradição, o flerte entre rock e conservadorismo é antigo. O próprio ‘rei do rock’, Elvis Presley que, no início de carreira, inspirou-se em artistas negros marginalizados e escandalizou os puritanos com seus trejeitos sensuais (vide filme ‘Elvis’), nunca escondeu suas simpatias pelo nefasto presidente Nixon, o promotor da guerra do Vietnam e do escândalo de Watergate.

Depois de atingir o auge e conquistar a juventude nos anos 60 a 80, esse movimento musical perdeu sua veia transgressora, tornando-se um estilo apreciado majoritariamente por tiozões caretas e saudosistas. Gente que não aceita inovações e curte sempre os mesmos temas de cinquenta anos atrás.

A dolorosa verdade é que o rock, originalmente recheado de artistas negros como Chuck Berry, Little Richard, Fats Domino, Bo Didley e Jimi Hendrix, converteu-se para muitos num ritmo machista reverenciado por branquelos cervejeiros cultuadores de motos e esportes violentos.

Vários dos grupos de rock que emergem destacam-se mais pelo volume em decibéis que exalam suas guitarras do que pela qualidade musical e pela criatividade. As letras que antes afrontavam a hipocrisia do sistema, passaram a tratar de temas bíblicos, medievais, demoníacos e politicamente incorretos.

Hoje, não são poucos os apreciadores de rock que traíram o espírito rebelde que originou o gênero e passaram a se identificar com o conservadorismo político. Com isso, o rock perdeu seu vigor contestatório, que foi apropriado pelo rap surgido nas periferias, mais consciente das injustiças sociais.

Ex-roqueiros como Roger do Ultraje a Rigor, Digão dos Raimundos e Marcelo Nova do Camisa de Vênus, que se consagraram como porta-vozes do revigorado rock oitentista, agora assumiram abertamente um discurso bolsonarista. Lobão e Dinho Ouro Preto (Capital Inicial) também caíram na esparrela mas perceberam as inconsistências de suas opções, fizeram mea culpa e retomaram o lado certo.

No exterior, a onda conservadora fez ainda maiores estragos. Nomes como Ted Nugent, Kid Rock, Meat Loaf, Phil Anselmo (Pantera), Gene Simmons e Ace Frehley (ambos do Kiss) apoiaram o morfético ex-presidente Trump. Outros que têm posições semelhantes são Joe Perry (Aerosmith) e Dave Mustaine (Megadeth).

Morrissey, ex-líder dos Smiths, um dos próceres da renovação e da sofisticação do rock dos anos 80, ativista e vegano, tornou-se um propagador de ideias supremacistas e xenófobas. Phil Collins, conhecido por sucatear o histórico Genesis, sempre externou posições conservadoras e elitistas.

Até mesmo grupos de punk rock revelaram que sua conduta radical não passava de verniz. Johnny Rotten, ex-líder dos Sex Pistols, que pregava a anarquia e a destruição do capitalismo, foi flagrado com uma camiseta de apoio a Trump. Johnny Ramone dos Ramones, um dos grupos pioneiros do estilo, assumiu que por trás do fictício rebelde escondia-se um patriota eleitor do Partido Republicano.

Para mim, a dissensão mais sentida foi a de Eric Clapton. O deus da guitarra que se consagrou como artífice do blues, ritmo provindo dos negros explorados, cuspiu no prato que comeu e passou a fazer declarações racistas e negacionistas.

Como lídimo apreciador do rock’n’roll, envergonho-me da atitude deplorável desses roqueiros de araque. O rock é essencialmente revolucionário. Desde seu surgimento, representou uma ruptura nos padrões musicais e estéticos. Nada tem de conservador. Foi a trilha sonora que acompanhou as grandes mudanças sócio-políticas do século XX, a contracultura, o movimento hippie e promoveu festivais como o de Woodstock que embalaram o sonho de oferecer um mundo melhor para as futuras gerações

Bob Dylan, John Lennon, Stevie Wonder, Peter Gabriel, Paul Simon, Sting, The Clash, Jello Biafra (Dead Kennedys), MC-5, Bad Religion, Napalm Death, Bruce Springsteen, U2, Talking Heads, Rage Against the Machine, Green Day, Eddie Vedder (Pearl Jam), Serj Tankian (System of a Down), Living Colour, Manu Chao, Radiohead, Gang of Four (para ficar só nos mais engajados) são alguns dos nomes que eternamente farão jus a serem autênticos representantes do rock.

No Brasil, Raul Seixas, Os Mutantes, Secos e Molhados, Novos Baianos, Legião Urbana, Titãs, Paralamas, Barão Vermelho, Cazuza, RPM, Ratos do Porão, Ira!, Plebe Rude, Chico Science, O Rappa, Marcelo D2, Gabriel o Pensador, Otto, DJ Dolores, Mestre Ambrósio, Fernanda Abreu, Lulu Santos, Karnak, Mundo Livre S/A, Cordel do Fogo Encantado, Sepultura, Cólera, Os Inocentes, Detonautas, Pitty, Fresno mantiveram sua dignidade jamais se corrompendo ou se rendendo ao sistema.

Os reaças do rock brazuca têm como companhia artistas como Gusttavo Lima, Amado Batista, Latino e Netinho. Que melancólico fim!

 

 

quarta-feira, 2 de novembro de 2022

DAY AFTER

 

“A bruma leve das paixões que vêm de dentro, tu vens chegando pra brincar no meu quintal” (ANUNCIAÇÃO, Alceu Valença)


O dia amanheceu hoje com uma estranha leveza no ar. O céu dessa segunda-feira cinzenta confrontava minha sensação interior de que se tratava de um folgado domingo, acariciado por discretos raios de um sol outonal. As ameaçadoras nuvens escuras que vinham cobrindo nossa terra nos últimos anos ausentaram-se nesse dia delicadamente nublado.

O rádio insistia em reverberar notícias sobre estradas bloqueadas, resquícios de um passado que resiste em resignar-se ao presente.

O clima de alívio refletia-se no semblante sereno das pessoas que se assenhoreavam das ruas. Nem pareciam as mesmas que já portaram carrancas iradas e temerosas.

O onipresente verde-amarelo começou a desbotar-se ante a perspectiva de um amanhã onde todas as tonalidades poderão dar sua contribuição para um futuro multicolorido em que o arco-íris da diversidade possa reluzir.

As palavras de ordem e as ameaçadoras cantilenas religiosas parecem agora apenas longínquos ecos de tempos intolerantes onde o vizinho era o inimigo em potencial.  Onde, de tanto fazer ressoar palavras de guerra e ódio, abafamos nossa vocação para a paz e o amor. Que voltemos a falar de alegria, esperança e união e retomemos nossas amizades, apartadas pelo clima de divisionismo que se instalou.

Cansei de, em cada canto, ficar à espreita de perigosos bandidos, esquerdistas, viciados e depravados sexuais. Cansei de ver manifestações promovidas por respeitáveis senhoras brancas e alinhados rapazes armados, conclamando contra instituições. Hoje vi gente pobre, preta, esquálida, desmilinguida sorrir de esperança com seus dentes podres. Era o povo abandonado e marginalizado que voltava a protagonizar o enredo do drama de um país tão desigual e injusto para que a trama ganhe um final feliz.

 

 

terça-feira, 13 de setembro de 2022

O APAGÃO MENTAL DO SR. X

“Hoje eu sei que quem me deu a ideia de uma nova consciência e juventude, tá em casa guardado por Deus, contando o vil metal” (Belchior)

Esse texto trata das peculiaridades de uma figura de presença marcante na cena contemporânea a que designarei ‘sr. X’. Por extensão, inclui também seu equivalente feminino, a ‘sra. X’, à qual pedimos escusas por não nos referirmos a ela explicitamente.

O sr. X pertence a uma geração a que se convencionou chamar de ‘baby boomer’. Nascido não muito após o fim da Grande Guerra, incorporou a mudança radical de costumes ocorrida nos anos 60, com o afloramento do movimento hippie, do rock, da cultura libertária e contestatória. Clamava por justiça e cultivava paz e amor. O sr. X, à época apenas o ‘bicho grilo’ X, prometia abalar os alicerces de uma sociedade corrompida e enterrar a hipocrisia de uma geração que promoveu guerras e holocausto nuclear, e um modo de vida consumista e racista que explorava os povos originários e depredava a natureza.

Inspirada no modelo americano e europeu, a versão tupiniquim do sr. X ficou circunscrita às classes média e alta, cursava boas escolas e impregnou-se das mudanças revolucionárias no campo das artes e do conhecimento. Consciente e inovador, o sr. X foi um indivíduo privilegiado num país onde as grandes massas viviam em condições sub-humanas, cujas necessidades urgentes tornavam-nas alheias a tais pautas. Reunia o sr. X condições para, com base nos nobres ideais que trazia consigo, liderar um projeto reformista para levar o Brasil a cumprir seu desígnio de país do futuro, próspero e menos desigual.

Tendo frequentado os mesmos ambientes e sujeitando-me às mesmas influências, imaginei conhecer bem o sr. X. Assistindo a figura burlesca que se tornou, vejo que me enganei. Não reconheço na postura por ele hoje assumida aquele protagonista cheio de vigor e anseios que, há poucas décadas, queria transformar o mundo. Causa-me perplexidade, em especial, o apagão cultural de que o sr. X foi vítima ao chegar à “melhor idade”.

Constato que o tempo fez mal ao sr. X, cujo prazo de validade revelou-se não passar dos 50 anos. Tornou-se ele um ferrenho conservador (algo compreensível para alguém de valores estabelecidos que resiste a assimilar o novo). Mas foi além: renunciou aos valiosos princípios que, com orgulho, outrora defendia.

Ficou restrito a seu limitado mundinho burguês, empachado de bens supérfluos a que as legiões de miseráveis que padecem sem emprego nem perspectivas jamais terão acesso. Esgotou e deteriorou sem responsabilidade os recursos naturais que agora faltam aos sobreviventes da calamidade ambiental.  

Hoje, vejo com tristeza muitos respeitáveis srs. X repetindo gaiatices como ‘Deus, Pátria e Família Acima de Tudo’ e outros bordões fascistas que combatia quando era um rebelde idealista. O sr. X esqueceu-se de tudo o que lhe foi ensinado nos livros que deveria ter lido, nos filmes que deixou de assistir, nos museus que jamais frequentou, no teatro no qual nunca pisou, até cair na esparrela da ‘cloroquina’.  Abriu mão do pacifismo para encampar a campanha miliciana em prol de armas.

Parece que o sr. X desconectou-se das legítimas demandas juvenis. E não falo de temas polêmicos como drogas, identitarismo ou aborto. Mas de educação, cultura e meio-ambiente cuja defesa seu reacionarismo fez com que abrisse mão.  Faz jus à alcunha pejorativa de ‘coroa’ e ‘careta’ que as novas gerações lhe impingem.

Parte dos srs. X não está mais entre nós. Hoje, os remanescentes, que vêm driblando a morte e a senilidade, encontram-se aposentados e passam seus dias praguejando contra os novos tempos sem, porém, abrir mão do que as novas tecnologias têm de pior: fake news e mensagem de ódio contra tudo que ameace seu retrógrado conformismo, repassadas nos patéticos grupos de WhatsApp compostos por outros ‘tiozões’.

O maravilhoso mundo que o sr. X prometeu entregar a seus filhos e netos reverteu-se num planeta esfacelado em que as nações se engalfinham por maior poder bélico, os magnatas acumulam fortunas incalculáveis e bilhões de famintos perambulam como zumbis pelos continentes e mares em busca de um lugar menos aflitivo em que possam sobreviver.

Tchau, sr. X, seu esfrangalhado reino de mentiras e falsidades está chegando a um melancólico fim. E não deixará saudades.