quinta-feira, 29 de agosto de 2013

GONÇALVES DIAS REVISITADO


GONÇALVES DIAS REVISITADO 


Seu Gonçalves, peço um favor:
Facultar-me tua obra prima.
A Canção do Exílio me inspirou,
Pra eu tentar cá umas rimas.
Tu falavas em palmeiras,
Flores, campos, sabiás.
Belas coisas brasileiras,
Faziam a gente se emocionar.
De longe vias um Brasil
Que, de tão longe, ficou pra trás.
A terra que aqui se descobriu,
Agora nem com mil Cabrais.

Voltar pra cá era tua vontade.
Só que a volta não tem mais volta.
De fora, tu sentias saudade.
De dentro, eu sinto é revolta.
De olhar como o descaso
Desfez este belo país.
O que parecia ser atraso,
Tornava a gente mais feliz.
O governo não faz nada
E o brasileiro tudo engole.
Nossa gente é alienada.
Eta povo bunda mole!
No conformismo, fica imerso.
Não sai de cima, tampouco goza.
Então vou protestar em verso,
Que já me cansei de prosa.

Vamos parar de nhenhenhém,
E botar os pingos nesses i’s.
Prometo não poupar ninguém.
Não há inocentes nesse país.
Até os tons de nossa bandeira
Estão ficando desbotados:
O azul tá sujo, o ouro já era
E o verde tá c’os dias contados. 

Nossa terra tinha palmeiras
Onde cantava o sabiá.
A palmeira virou fogueira,
O sabiá virou jantar.
Nosso céu tinha estrelas,
Tantas, nem dava pra contar.
Hoje mal consigo vê-las,
Tanto enxofre tem no ar.
Nossas várzeas tinham flores,
Têm hoje esgoto clandestino.
É só ventar, vêm uns fedores.
Era pulmão, hoje é intestino.
Nossos bosques tinham vida,
Agora têm lixo hospitalar.
Jogaram lá droga vencida,
Nem urubu pra encarar.
As palmeiras tinham ninhos.
Hoje têm ninho de cupim.
Se estão faltando passarinhos,
Tem barata com asas a não ter fim.

Nossas verduras são coloridas,
Cada legume colossal.
O segredo: os herbicidas
E agrotóxico a dar com pau.
Nossa fruta tem mais venenos
Pra deixar de vir bichada.
Só que o sabor ficou de menos
E um asséptico gosto de nada.
Todas vêm com a mesma roupa:
Goiaba, manga, abacaxi.
Enquadraram tudo em polpa
Ou como suco Maguary.

Dizem que a gente é o que come.
Aí vieram os transgênicos.
Não acabarão com a fome,
Mas deixarão todos anêmicos.
Tantos bichos (mas que dó!)
Já se foram, não voltam mais.
Nossos filhos, em breve, só
Em fotos, vão ver animais.

Bichos, plantas em extinção,
A cada dia aumenta a lista.
Quem define a preservação
É a bancada ruralista.

“Tem pet shop de montão,
Pra nossa fauna abrigar.
Tem frango, porco, gato e cão.
Só falta a porra do sabiá"

O tal progresso do país
Deu, em alegria, quanto por cento?
Se não for pra ser feliz,
De que vale o crescimento?

Os tecnocratas fazem a conta:
A economia tá evoluindo.
Só que essa conta não leva em conta
Que a qualidade ta decaindo.
Dizem que o país cresceu,
Dobrou a renda e o produto.
Se aumentou não foi o meu,
Pois dessa grana não vi um puto.
O agregado interno bruto
As pessoas embrutece.
Quanto mais sobe o produto,
Mais vejo gente que padece.
O velho lema eu reviso
Para os tempos atuais:
“Produzir é que é preciso.
Navegar, viver, já não são mais”.
Culpa da globalização,
Tudo centrado no mercado.
Uns poucos ficam com o filão,
O resto, marginalizado.
Criou-se um oásis de riqueza
Num planeta que se esfrangalha.
Alguns banqueteiam-se à mesa,
O resto vive de migalhas.
Acabaram com o fiado
E a vendinha do Juvenal.
Foi todo mundo massacrado
Pelo poder do capital.

Encheram de supermercado.
O BNDES assim o quis.
A grana que ‘farta’ pros coitados,
É farta pro Abílio Diniz.
Esse progresso é macabro,
Na cidade deixa mazelas.
Pra cada shopping que eu abro,
Aparecem dez favelas.

E o governo baixa as taxas
Pra vender mais carro novo.
Multiplicar a grana em caixa
Ferrando a saúde do povo.

O governo não tem planos,
Sempre tudo sai às pressas.
O horizonte é quatro anos.
Depois disso, não interessa.
Hoje não tem repressão.
Reduziram os gastos bélicos.
A grana vai pro mensalão
E pra adular os evangélicos.
PT, PV ou PQP,
O partido não interessa.
Assim que chega ao poder,
O cara esquece as promessas.

Bons exemplos não vêm de cima
E a gente dança conforme a trilha.
Planalto com ‘mãos ao alto’ rima,
E Brasília rima com quadrilha.
É roubalheira à vontade.
No fim do túnel, luz não vemos.
Restaure-se a moralidade
Ou todos nos locupletemos.
Justiça é cega ou não quer ver
A onda de criminalidade.
Seguir a lei, quem vai querer,
Na terra da impunidade?
O presidente progressista
Investe em obras e energia.
Meio-ambiente? Fim da lista.
Deixa lá em banho-maria.

O popular governador
É dono de jornais e rádios.
Pagar melhor o professor?
Melhor fazer novos estádios.

Lá vem o prefeito ‘quebra-galho’
C’uma floresta de CNPJ
E muitos postos de trabalho.
Abaixo a árvore! Ela não vota.

Nossos fracos governantes
Seguem sempre na esteira
Dos que já erraram antes,
Ficamos sempre na rabeira.
Cá ainda pulsa a natureza,
Mesmo com os furos no ozônio.
De que vale gerar riqueza,
Dilapidando o patrimônio?
Parece até o esperto da lenda.
Ovos de ouro ele juntava.
Pra crescer logo sua fazenda,
Matou a galinha que os botava.
Feito o estrago, o responsável
No futuro não vai estar lá.
Pelo planeta inabitável,
Quem nossos filhos vão cobrar?


Um modelo que leve em conta
Nossa riqueza natural
Faria deste um país de ponta
Na nova ordem mundial.
Natureza exuberante,
Turismo em potencial.
E nossos broncos governantes
Só investem no Pré-Sal.
O programa nuclear
Vai trazer prosperidade.
Sua energia vai gerar
Tumores e eletricidade.
A medicina a morte adia,
Dando ao corpo sobrevida.
Se a vida hoje tem mais dias,
Os dias já não têm mais vida.

Bons dias os de Gonçalves Dias.
Os de hoje em dia já não são.
Se o inverno e o outono têm mais dias,
Primaveras não se verão.
Se o poeta estivesse vivo,
No exílio estaria mais feliz.
Não teria mais motivo
Pra tecer loas ao seu país.

O infeliz do sabiá
Era feliz e não sabia.
Ressabiado, foi gorjear
Em uma outra freguesia.
Palmeiras, flores, sabiás:
Coisa boa não se herda.
Meia volta, marchar pra trás!
Que o tal progresso deu em merda.




segunda-feira, 3 de junho de 2013

SILÊNCIO DOS CULPADOS

O murmurar conspirativo das folhas fustigadas pelo intrépido vento evoca a possibilidade assustadoramente se­dutora de perceber-se só, num mundo em processo acelerado de despovoamento, como acena o filme Fim dos Tempos, de M. Night Shyamalan.

A visão cósmica de um cenário desprovido do homo ta­garelus com sua peculiar pessoalidade matraqueadora, vulgar, invasiva e aborrecida, surge dramaticamente libertadora, apai­xonante.


Estar sozinho, qual partícula microscópica esquecida num canto galáctico, em meio a cometas e nebulosas interes­telares, assusta menos que fascina pela perspectiva de resgatar a primitiva paz ante-civilizatória perdida nos descaminhos da involutiva evolução humana a que a pobre Terra, desterrada, submete-se. Calada.


Tais imagens cósmicas e áridas do deserto apocalíptico são interrompidas pelo repentino voo de pássaros a se refugiar nas soberbas árvores que se arvoram em expandir sua copa para o alto e reabilitam a remanescente parcela bela e sã da vida terrena com seu arbóreo orgulho, a quase poder das nuvens arrancar, com seus galhos altivos, a alva irrealidade etérea. Ou, talvez, refugiarem-se desesperadamente do caldo efervescente e deletério que, ameaçador, rodeia suas raízes, subindo tão alto como se pudessem se desvencilhar da se­mente que as pariu, naquele ambiente degenerado e promís­cuo do solo. Como se tentassem, desprendendo-se de suas renegadas origens, atingir o céu redentor.


De olhos fechados, sentado no banco da praça, fazen­do mentalmente a posição de lótus, tento buscar um lugar longínquo para repousar a felicidade fugaz que inesperada­mente em mim aportou. Concentrado, procuro invocar o lago azul que, extraído de uma tela de Monet ou de alguma clareira interior, porventura exista entre os arquétipos ali assentados desde meus ancestrais.

Tento resgatar sons primitivos perdidos pela civilização que apôs sua marca sonora industrial estridente em nosso co­tidiano voraz e bizarro.


Talvez num plano mais profundo do meu ser, possa re­cuperar apriorísticos paradigmas e esquecidos sons angélicos ou evangélicos de harpas celestiais.


Abruptamente, um clamor vulcânico provindo das pro­fundezas do inferno brada arrebatador:
“Atenção, este veículo está sendo roubado e é monito­rado pela Car System”.


Espirrado de um ponto situado entre picos gelados do Tibete, paraísos idílicos e inóspitas paisagens lunares, deságuo no desaguado chafariz central da Praça da República, no co­ração infartado de São Paulo. Vejo-me sentado sobre cocôs de pombo, ao lado de onde deveria estar uma célebre estátua, surrupiada que foi, sem alarme e sem alarde, por moradores de rua e usuários de crack.


“Olha aí, olha aí freguesia, pamonhas fresquinhas, pa­monhas caseiras, é o puro creme do milho verde. Pamonhas! Pamonhas! Pamonhas!”


Sábias palavras que vaticinaram o martírio anunciado por megafones, alto falantes e toneladas de decibéis que cres­cem na velocidade da tecnologia eletrônica de áudio, da estu­pidez amplificada e da ausência de normas e de costumes não invasivos.

Ao lado da moto que anuncia histriônica e policialesca a todos, num raio de meio quilômetro, estar sendo roubada, pessoas passam indiferentes como se lá não houvesse mais do que um mendigo escalpelado ou um cadáver em decomposi­ção. Todos cúmplices, pamonhas, impotentes, surdos e silen­ciosos do barulho que desaba desagregador, paquidérmico.


Chamado a responder aos contínuos brados de alarmes falsos, sou sequestrado irreversivelmente do meu interior pro­tetor. O tranquilo e bucólico lago azul foi var­rido pelo tsunami cataclísmico que o extraiu permanentemen­te da agreste paisagem urbana e do imaginário corrompido do homem robotizado.


Meus ouvidos tornaram-se reféns indefesos de curaus, morangos de Atibaia, bancários arregimentados, sem-teto desalojados, professores espoliados, ciclistas atropelados, maconheiros encarcerados, afrodescendentes discriminados, gays empertigados, motoristas desrespeitados, pastores en­demoniados, pregadores exaltados, bêbados descontrolados, torcedores alucinados, vizinhos inadequados, pedreiros mal educados, motoqueiros turbinados, oradores encolerizados. São ambulâncias, sirenes, bombeiros, britadeiras, bate-estacas, baterias, celulares, cachorros, liquidificadores, aspiradores, aviões, rojões, raves. Todos concorrem para adentrar pelo gar­galo estreito da minha cavidade auricular, desprovida de filtro, para atingir brutalmente a delicada membrana timpânica que, em silêncio, só implora uma nota dissonante de Satie.


O espaço sonoro gratuito foi loteado pela freguesia alu­cinada. O silêncio original foi estuprado por bandos desor­deiros. Funkeiros e rappers tresloucados que, com seus alto falantes e sub woofers, requisitam o monopólio das ondas sonoras, embrutecendo nossa sensibilidade com a sua falta de, desconstruída silenciosamente em gerações de opressão e marginalização social. O pancadão dominou as periferias e à exclusão social seguiu-se a exclusão do sossego.


O silêncio tornou-se um conceito idílico, abstrato, sur­real, inalcançável na superfície deste esfacelado e estuprado planeta.


A natureza, em sua sapiência, criara o fundo musical bá­sico e delicado para nos acolher em seus domínios com ondas batendo, ventos sibilando, pingos gotejando, grilos trilando, pássaros gorjeando. A insatisfação e a arrogância do homem fizeram-no impor sua própria trilha sonora, amplificando os decibéis de sua insensatez até os píncaros da sua própria su­portabilidade, em detrimento do seu olvidado bem estar. Milênios de escabrosas práticas anticivilizatórias leva­ram-nos à mais absoluta barbárie estereofônica.
  
Sinal da chegada dos prenunciados tempos shyamala­nianos.

A pureza sonora foi irremediavelmente vilipendiada por hordas de hunos, hackers, hitlers, hulks, hooligans e hardco­res. Homens, enfim.



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