quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

SANDÁLIAS DIVISIONISTAS

 

As notícias estão ficando cada vez mais surreais. A última é que estão acusando as outrora inocentes sandálias havaianas de estar a serviço do comunismo internacional. Nem me dei ao trabalho de entender a origem dessa estapafúrdia ideia, fruto de um ambiente social doentio.

Esclareço que embora não seja usuário dessas sandálias, reconheço nelas a virtude da perfeita adaptabilidade às necessidades das extremidades dos membros inferiores da perna, também chamadas de pés, que têm a função crucial de promover o equilíbrio e a sustentação do corpo.

São elas práticas, laváveis, arejadas, não usam costuras e seu formato anatômico proporciona bem estar ao referido órgão de apoio, com uma base homogênea de borracha em que se sobressai a famosa tira em Y, sua marca registrada.

 Além disso, são baratas e duradouras, sendo por isso acessíveis a pessoas de todas as classes sociais. A possibilidade de se adotar milhões de estampas com motivos e cores variadas permitiu que caíssem no gosto até de pessoas mais estilosas, sem perder o charme de sua estrutura básica.

Com isso, conquistaram corações e pés de todos. Há lojas de havaianas espalhadas mundo afora. Sim, é um item essencialmente brasileiro que alcançou sucesso internacional e colocou o mundo abaixo de nossos resguardados pés, o que deveria encher de orgulho esse país tão pobre em referências.

Então por que a implicância agora com esse artefato tão simpático que exporta a descontração e a maneira de ser do brasileiro?

Devo dizer que particularmente não sou fã das havaianas, ao contrário de minha esposa que se esbalda com os inúmeros modelos de estampas que parecem nunca se repetir, em exposição tanto nas vitrines produzidas dos shoppings como em araras improvisadas de mercadinhos populares.

Minha desavença com elas é de cunho estritamente pessoal. Não me dou bem com a sua peculiar tira que separa o dedão dos demais dedos. Por natureza, acho que os cinco dedos de cada pé, ainda que por natureza tenham autonomia, foram moldados para ficar perfilados uns ao lado dos outros sem barreiras. A tira da sandália que faz com que ela se sustente no pé deixa o dedão separado, o que me passa uma dolorosa sensação de ‘divisionismo podal’ que gera certo desconforto.

Mas para 99% dos humanos, homens e mulheres, adultos e crianças, essa característica parece não importar, tanto que as sandálias são um sucesso. Exceto para aquela parcela paranoica da sociedade que, por alguma razão, teima em achar que o divisionismo das havaianas vai muito além da questão do dedão.

 

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

TRILHAS DA MINHA VIDA – 5ª PARTE

 

Meu destino foi moldado pelos filmes que assisti. A música que os acompanhou faz a trilha sonora da minha vida. Segue a 5ª e última parte:

81) GREASE (Randal Kleiser), 1978

GREASE NOS TEMPOS DA BRILHANTINA, o musical adolescente estrelado por Olivia Newton John e John Travolta, dirigido pelo estreante Randal Kleiser, foi um dos mais bem sucedidos da história. As músicas trazem rock’n’roll cinquentista com uma pegada pop dos anos 70. O álbum foi um dos mais vendidos de 1978 (disputando liderança com outro musical de Travolta, OS EMBALOS DE SÁBADO À NOITE), com destaque para YOU’RE THE ONE THAT I AM e SUMMER NIGHTS, ambas interpretadas pelo casal de atores, além da música-tema com Frankie Valli de autoria de Barry Gibb (Bee Gees).

82) A SUMMER PLACE (Delmer Daves), 1959

O diretor Daves, especializado em faroestes, alcançou o pico do sucesso com um melodrama, A SUMMER PLACE (no Brasil, AMORES CLANDESTINOS), que se sobressaiu pelo tema musical composto por Max Steiner, estrondoso sucesso na interpretação da orquestra de Percy Faith, firmando-se como a canção instrumental que mais tempo permaneceu no top 1 da Billboard! O austríaco Steiner é um dos gigantes de Hollywood, assinando mais de 300 trilhas, 24 delas indicadas ao Oscar, destacando-se os clássicos CASABLANCA e E O VENTO LEVOU, além do primeiro (e melhor) KING KONG, o de 1933.

 83) AO MESTRE COM CARINHO (James Clavell), 1967

Esse filme britânico de orçamento modesto sobre um professor imigrante negro (Sidney Poitier), encarando uma turma de alunos rebeldes de uma escola do subúrbio de Londres, foi um fenômeno arrecadando na bilheteria 70 vezes o valor de seu custo. Mais surpreendente foi a música-tema interpretada pela cantora escocesa Lulu (uma das alunas) que, apesar de se tornar o single mais vendido do ano nos EUA (puxando as vendas da trilha sonora), sequer mereceu indicação ao Oscar. A canção se consagrou como homenagem ao Dia do Professor.

84) LISBELA E O PRISIONEIRO (Guel Arraes), 2003

A elogiada produção nacional protagonizada por Selton Mello e Débora Falabella recebeu uma trilha assumidamente kitsch e pouco convencional compilada pelo roqueiro André Matos. O músico trabalhou com o grupo Sepultura que participou de duas faixas, uma das quais ao lado de Zé Ramalho, numa insólita união, interpretando A DANÇA DAS BORBOLETAS de Alceu Valença. Outra pérola é VOCÊ NÃO ME ENSINOU A TE ESQUECER, canção brega de Fernando Mendes, lapidada por Caetano Veloso. Participam ainda Elza Soares, Los Hermanos e Yamandú Costa. Foi uma das trilhas de filmes nacionais mais vendidas de todos os tempos.

 85) A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO (Martin Scorsese), 1988

Scorsese é apaixonado por rock em especial pelos Rolling Stones, cujas canções comparecem com frequência em suas películas, como em OS BONS COMPANHEIROS, CASSINO e OS INFILTRADOS. Sem falar nos inúmeros documentários musicais (The Band, Stones, Dylan, George Harrison e uma série sobre blues). A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO se diferencia não apenas por se afastar dos recorrentes temas americanos e da Máfia, mas por contar com uma trilha de world music com sons étnicos, de autoria de Peter Gabriel, ex-vocalista do Genesis (registrada no álbum PASSION), com participação de músicos do Oriente Médio, Ásia e África, como o violinista indiano L Shankar, o paquistanês Nusrat Fateh Ali Khan e os senegaleses Youssou N’Dour e Baaba Maal.

86) BELEZA AMERICANA (Sam Mendes), 1999

Estreia do diretor do aclamado drama de guerra 1917 e de dois dos 007’s mais recentes, AMERICAN BEAUTY com Kevin Spacey valeu-lhe 3 Oscars, incluindo melhor filme. A trilha minimalista e introspectiva de Thomas Newman que usa instrumentos de percussão não convencionais também se notabilizou, com destaque para a bela e reflexiva ANY OTHER NAME, executada com um suave e emotivo piano. Thomas (que é filho do campeão das trilhas, Alfred Newman, 9 Oscars), musicou outras películas marcantes como UM SONHO DE LIBERDADE, À ESPERA DE UM MILAGRE e PROCURANDO NEMO,

87) BATMAN (Tim Burton), 1989

Tim Burton é um cineasta sui generis de terror gótico com uma dose de humor e visual caricatural. BATMAN, BATMAN RETURNS, A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATES, BEETLEJUICE, EDWARD MÃOS DE TESOURA, MARTE ATACA, PEIXE GRANDE, GRANDES OLHOS e as animações NOIVA CADÁVER e O ESTRANHO MUNDO DE JACK são algumas de suas principais obras. Grande parte de sua filmografia foi musicada por Danny Elfman, compositor proveniente do grupo new wave Oingo Boingo, que derivou do rock para o mundo das trilhas sonoras. BATMAN, estrelado por Michael Keaton e Jack Nicholson, ganhou de Elfman uma música-tema instrumental que se tornou famosa. Paralelamente, foi lançada uma segunda trilha com músicas de Prince que alcançou sucesso comercial.

 88) TOMMY (Ken Russell), 1975

A celebrada ópera-rock TOMMY do grupo The Who, lançada num álbum duplo em 1969, ganhou uma badalada versão cinematográfica. O enredo conta com o próprio vocalista Roger Daltrey, como um garoto cego que desenvolveu habilidade em jogar pinball. O elenco, traz também Ann Margareth e Oliver Reed, além de astros do rock como Elton John, Tina Turner e Eric Clapton que incrementaram a trilha sonora. Daltrey atuou como ator em outro filme do diretor, LISZTOMANIA, trilha do tecladista Rick Wakeman. Russell tem em seu currículo o provocativo MULHERES APAIXONADAS (1969) com cenas eróticas ousadas para a época.

89) BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS (Michel Gondry), 2004

Drama surrealista, uma das atuações mais elogiados de Jim Carrey que sai de seu estereótipo de fanfarrão, contracenando com seriedade com Kate Winslet. O casal se submete a um experimento para apagar a memória, gerando um conflito emocional com o procedimento. A trilha foi composta por Jon Brion, mais afeito ao pop alternativo. O grande diferencial fica por conta do cantor Beck que ‘roubou a cena’ com sua magistral interpretação de EVERYBODY’S GOTTA GET LEARN SOMETHING, único hit do grupo britânico The Korgis.

90)  I AM SAM, UMA LIÇÃO DE AMOR (Jessie Nelson), 2001

A sensível diretora Jessie Nelson aborda aqui um tema espinhoso: a relação entre um pai amoroso, mas intelectualmente deficiente, representado por Sean Penn, e sua esperta filha de 7 anos, Dakota Fanning. O personagem vivido por Penn era fã ardoroso dos Beatles, o que originou uma trilha sonora curiosa, que alcançou grande sucesso: canções do quarteto de Liverpool cantadas por uma nova geração de intérpretes (Aimee Mann, Eddie Vedder, Stereophonics, Sheryl Crow, Sarah McLachlan,  Black Crowes, Nick Cave etc.)

91) CORRA, LOLA, CORRA (Tom Tykwer), 1998

O cineasta alemão Tykwer, diretor da superprodução PERFUME A HISTÓRIA DE UM ASSASSINO, também assinou a direção desse singular drama, digno exemplar do cinema europeu contemporâneo, sobre uma frenética jovem que em 20 minutos necessita dispor de uma vultosa quantia em dinheiro para salvar seu namorado de ser assassinado devido a uma dívida contraída com traficantes. A história é contada diversas vezes com pequenas nuances nos detalhes. A aventura é embalada por uma pulsante trilha sonora techno, composta pelo próprio diretor mais colaboradores. Franka Potente, a principal atriz, interpreta diversas canções.

92) HELLO DOLLY (Gene Kelly), 1969

Gene Kelly, mais conhecido como ator e dançarino, dirigiu esta superprodução, adaptação para a telona do homônimo espetáculo da Broadway de 1964, mantendo-se as músicas compostas por Jerry Herman, com algumas adaptações. No filme, a personagem principal é vivida por Barbra Streisand que representa uma viúva à procura de novo marido. A canção-tema interpretada por Barbra já era bem conhecida na voz de Louis Armstrong, o maior hit da carreira do trompetista (seu single tornou-se célebre por ter derrubado a liderança dos Beatles que dominavam as paradas).

93) O GUARDA-COSTAS (Mick Jackson), 1992

Ainda que tenha recebido críticas desfavoráveis, esse suspense romântico estrelado por Kevin Costner e pela cantora Whitney Houston (em sua estreia no cinema) foi a segunda maior bilheteria de 1992. Fenômeno ainda maior foi a trilha sonora que alcançou impressionantes vendas de quase 50 milhões de cópias, o terceiro álbum mais vendido de todos os tempos. O êxito foi catapultado por I WILL ALWAYS LOVE YOU, interpretada por Whitney (original de 1973 com Dolly Parton). O tema instrumental é de Alan Silvestri que tem uma longa parceria com o diretor Robert Zemeckis (DE VOLTA PARA O FUTURO, FORREST GUMP, CONTATO, O NÁUFRAGO, A MORTE LHE CAI BEM), afora produções da Disney e da franquia Marvel.

 94) PICNIC (Joshua Longan), 1955

Intitulada no Brasil FÉRIAS DE AMOR, essa comédia romântica tornou-se famosa pela dança carregada de sensualidade (nada explícita, apenas sugerida pelos lentos movimentos), protagonizada pela dupla central William Holden / Kim Novak durante um piquenique numa pequena cidade do Texas, uma das cenas mais icônicas do cinema. A canção que embalou o par tornou-se hit, atingindo a liderança na Billboard numa versão orquestrada (coisa rara). Na verdade, tratava-se de um medley combinando uma composição de George Duning, responsável pela trilha do filme, com MOONGLOW, um standard de jazz dos anos 30.    

95) PHILADELPHIA (Jonathan Demme), 1993

Demme tem em seu currículo filmes de peso como O SILÊNCIO DOS INOCENTES e PHILADELPHIA. Esse último, interpretado por Tom Hanks, trata de um tema amargo: o preconceito contra portadores do vírus HIV e homofobia. Recebeu uma trilha marcante com intérpretes do quilate de Peter Gabriel, Neil Young e Maria Callas. A canção STREETS OF PHILADELPHIA interpretada por Bruce Springsteen (vencedora do Oscar), aclamada por crítica e público, teve seu videoclipe dirigido pelo próprio Demme. O cineasta teve forte conexão com a música pop, dirigindo também STOP MAKING SENSE (com canções do Talking Heads) e TOTALMENTE SELVAGEM (com uma seleção musical de primeira).

 96) DANÇANDO NO ESCURO (Lars Von Trier), 2000

O controverso diretor dinamarquês Lars Von Trier de filmes como DOGVILLE, MELANCOLIA, ANTICRISTO e NINFOMANÍACA (I e II) costuma utilizar em suas trilhas peças de música clássica ou rocks (Bowie, Deep Purple, Metallica). No caso do musical DANÇANDO NO ESCURO, a cantora Björk, além de atuar (surpreendendo com uma performance bastante elogiada no papel de uma imigrante tcheca), compôs e interpretou as músicas, agrupadas em seu álbum SELMASONGS. A mais conhecida é I’VE SEEN IT ALL, concorrente ao Oscar, contou (mas não na versão do filme) com a participação de Thom Yorke, vocalista do Radiohead.

97) HAWAII CINCO-0 (Leonard Freeman), 1968

A longeva série policial ambientada no Hawaii (o 50º estado dos EUA, daí o título), de grande sucesso, teve duas versões: a primeira com 12 temporadas durou de 1968 a 1980 e a segunda de 2010 a 2020 com 10 temporadas. A conhecidíssima música-tema instrumental, composta por Morton Stevens para a série inicial, foi mantida na continuação (reboot), com arranjo mais moderno. Lançada em single pelo grupo de surf rock The Ventures, alcançou o topo das paradas.

98) LOVE ME TENDER (Robert Webb), 1956

Temos aqui um caso incomum em que a música determinou a trajetória do filme (no Brasil intitulado AMA-ME COM TERNURA). A balada LOVE ME TENDER já havia sido lançada por Elvis Presley, com enorme sucesso, quando este faroeste estava sendo rodado com o título provisório de THE RENO BROTHERS, tendo sido rebatizado com o nome da canção para aproveitar sua exposição. O filme marca a estreia do ‘rei do rock’ no cinema, não como ator principal, embora, devido à sua condição de superastro, tenha roubado as atenções, especialmente quando interpretou as 4 músicas escaladas, lançadas num EP (que passou a ser informalmente a ‘soundtrack’ do filme).

99) BICHO DE SETE CABEÇAS (Laís Bodanzky), 2000

Protagonizado por Rodrigo Santoro, o premiado filme nacional narra o drama vivido por um jovem internado à força num hospital psiquiátrico após ser flagrado pelo pai com um baseado, passando por momentos de horror na instituição. Contando com diversas composições do ex-Titã Arnaldo Antunes, a trilha composta por André Abujamra (do grupo Karnak) fez mais sucesso do que o filme, com destaque para a canção homônima, composta por Geraldo Azevedo e Zé Ramalho interpretada por Zeca Baleiro.

100)                  ASSASSINOS POR NATUREZA (Oliver Stone), 1994

Oliver Stone é um dos diretores mais provocativos e politicamente engajados do cinema, com trabalhos relevantes como PLATOON, NASCIDO A 4 DE JULHO, WALL STREET e THE DOORS (com músicas da famosa banda capitaneada por Jim Morrison). No sanguinolento NATURAL BORN KILLERS, faixas de artistas como Leonard Cohen, L7 e Bob Dylan compiladas e arranjadas por Trent Reznor, líder do grupo de rock industrial NIN. Trent também compôs (sendo laureado com o Oscar) para a animação SOUL (Pixar/Disney) e REDE SOCIAL de David Fincher (CLUBE DA LUTA, SEVEN) com quem, aliás, estabeleceu exitosa parceria.

 

 

Confira 4ª parte:

https://oquedemimsoueu.blogspot.com/2025/10/trilhas-da-minha-vida-4-parte.html

 

 

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

TRILHAS DA MINHA VIDA – 4ª PARTE

Meu destino foi moldado pelos filmes que assisti. A música que os acompanhou faz a trilha sonora da minha vida. Segue a 4ª parte:

 61) SHAFT (Gordon Parks), 1971

O filme marca a ascensão de heróis negros no cinema americano (no caso, o durão detetive particular John Shaft) em oposição à prevalência de personagens centrais brancos. THEME FROM SHAFT, principal tema musical do filme, vencedor do Oscar, que combina funk, soul e jazz, composto pelo músico Isaac Hayes, tornou-se lendário. Foi lançado como faixa principal de um álbum duplo que alcançou um sucesso arrasador trazendo outros temas do filme (em boa parte, instrumentais). Em 2000, foi feito um remake com Samuel L Jackson no papel principal (como sobrinho do Shaft original) dirigido por John Singleton (BOYZ N THE HOOD), com nova versão do histórico tema original.

62) BLOW UP (Michelangelo Antonioni), 1966

O clássico do diretor italiano (mas rodado inteiramente em inglês), estrelado por David Hemmings e Vanessa Redgrave, trata de um suposto assassinato captado acidentalmente por um fotógrafo de moda, história baseada num conto do escritor argentino Julio Cortazar. A trilha foi composta pelo pianista Herbie Hancock sendo executada por uma trupe de primeira (Freddie Hubbard, Joe Henderson, Ron Carter, Jack DeJohnette, Jimmy Smith etc.). Todavia, o charme é o rock STROLL ON executada pelo grupo Yardbirds (com Jeff Beck e Jimmy Page) que aparece ao vivo tocando no filme. Antonioni tem outros filmes famosos como A NOITE, PROFISSÃO REPÓRTER (O PASSAGEIRO) e ZABRISKIE POINT, cuja trilha se tornou cultuada por conter canções inéditas do Pink Floyd.

63) A LIBERDADE É AZUL (Krzysztof Kieslowski), 1993

O compositor polonês Zbigniew Preisner distinguiu-se por criar e executar as trilhas da celebrada ‘trilogia da cores’ (TROIS COULEURS) do seu conterrâneo Kieslowski, a saber, A LIBERDADE É AZUL (BLEU), A IGUALDADE É BRANCA (BLANC) e A FRATERNIDADE É VERMELHA (ROUGE), com base na composição da bandeira francesa e nos ideais da Revolução Francesa. O primeiro e mais conhecido episódio, BLEU, é estrelado por Juliette Binoche. Priesner também musicou outro filme famoso do mesmo diretor, A VIDA DUPLA DE VÉRONIQUE, além de O JARDIM SECRETO, filme-fantasia com produção executiva de Francis Ford Coppola.

64) O HOMEM DE BRAÇO DE OURO (Otto Preminger), 1955

Diversos clássicos do diretor Otto Preminger tiveram trilhas marcantes como LAURA (cuja música tema de David Raskin tornou-se um concorrido standard de jazz), ANATOMIA DE UM CRIME (trilha assinada pelo mestre Duke Ellington) e EXODUS (com uma trilha épica condizente). A conhecida música de O HOMEM DE BRAÇO DE OURO, filme estrelado por Frank Sinatra, Kim Novak e Eleanor Parker, é assinada pelo afamado maestro Elmer Bernstein, responsável por outras grandes trilhas como a de OS SETE MAGNÍFICOS, O GRANDE MOTIM, MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA e (pasme!) da comédia sobrenatural GHOSTBUSTERS (OS CAÇA-FANTASMAS), cuja música tema tornou-se grande sucesso.

 65)  BIRD (Clint Eastwood), 1988

Clint Eastwood é um aficionado por jazz, como demonstra a música que acompanha boa parte dos filmes em que atuou como diretor, a maioria dos quais composta pelo próprio Clint. Esmerou-se nessa produção que trata da vida atribulada (vício em drogas e problemas financeiros e de racismo) e curta (faleceu aos 34 anos) de Charlie Parker, ou Bird, como era conhecido, na tela representado por Forrest Whitaker. A trilha apresenta 11 canções remixadas do saxofonista criador do bebop, sendo adicionados aos solos originais de Parker acompanhamentos de músicos contemporâneos.

 66)  FLASHDANCE (Adrian Lyne), 1983

Lyne é um bem sucedido cineasta com produções de grande bilheteria como 9 ½ SEMANAS DE AMOR (com sua trilha sensual), PROPOSTA INDECENTE e ATRAÇÃO FATAL. Maior sucesso da carreira de Jennifer Beals, FLASHDANCE foi comercialmente um arraso, assim como sua trilha. Apesar das críticas mal humoradas, poucos não se emocionam ao escutar WHAT A FEELING com Irene Cara (Oscar de canção original) ou MANIAC com Michael Sembello. As canções foram compiladas pelo DJ Giorgio Moroder, produtor de Donna Summer, e com vasta atuação durante a era disco. No cinema, assinou também as trilhas de EXPRESSO DA MEIA NOITE (ganhadora de Oscar), TOP GUN, GIGOLÔ AMERICANO, SCARFACE e A MARCA DA PANTERA.

67) MELODIA IMORTAL (George Sidney), 1956

THE EDDY DUCHIN STORY foi um filme biográfico estrelado por Tyrone Power e Kim Novak (no auge de sua beleza) sobre o pianista Eddy Duchin, sendo os números musicais tocados pelo consagrado Carmen Cavallaro. A trilha sonora, cujo álbum foi um dos campeões de vendas de 1956, inclui até uma versão de AQUARELA DO BRASIL de Ary Barroso. A música tema, TO LOVE AGAIN, é baseada num noturno de Chopin. Sidney é especializado em musicais, tendo trabalhado com Gene Kelly, Judy Garland, Frank Sinatra e até Elvis Presley. Destaque para ANCHORS AWEIGH em que Kelly dança com o ratinho Jerry (de Tom & Jerry), numa inédita integração com animação.

 68) THE WALL (Alan Parker), 1982

Os filmes do diretor britânico Alan Parker têm em comum trilhas relevantes que fizeram sucesso comercial, sendo difícil selecionar uma: FAME (sobre jovens talentos de uma escola de música), MIDNIGHT EXPRESS (música eletrônica de Giorgio Moroder), THE COMMITMENTS (jovens de Dublin querendo montar uma banda de soul), EVITA (de Andrew Lloyd Webber com Madonna), BIRDY (assinada por Peter Gabriel), MISSISSIPI EM CHAMAS (impactante trilha de Trevor Jones num contexto de racismo). No caso de THE WALL, o filme/animação se baseia no álbum homônimo do Pink Floyd de 1979 com roteiro do baixista/vocalista Roger Waters com críticas ao autoritarismo e ao belicismo.

69)  A PROFECIA (Richard Donner), 1976

Donner foi um cineasta versátil que dirigiu películas de gêneros diversos: ação, aventura, comédia, terror. Destacam-se SUPERMAN, O FEITIÇO DE ÁQUILA, OS GOONIES, MÁQUINA MORTÍFERA (1 a 4), TEORIA DA CONSPIRAÇÃO, MAVERICK. O aterrorizante A PROFECIA (OMEN) com Gregory Peck, é sobre um garoto que se revelou filho do demônio. Jerry Goldsmith caprichou na trilha que mescla música orquestral e elementos atonais, em especial a faixa AVE SATANI, com um coro cantado em latim que soa como uma missa negra. Com ela, Jerry, um dos mais famosos compositores de trilhas - STAR TREK, PLANETA DOS MACACOS (de 1968), CHINATOWN, ALIEN, PATTON, POLTERGEIST etc. - faturou seu único Oscar.

70) ROCKY III (Sylvester Stallone), 1982

A saga do fictício lutador Rocky Balboa é uma das mais bem sucedidas do cinema. A série iniciou-se em 1976, sendo o primeiro episódio dirigido por John Avildsen, o melhor avaliado pela crítica, contando com trilha de Bill Conti inclusive a música-tema, GONNA FLY NOW (indicada ao Oscar). Porém o personagem ficou vinculado à canção EYE OF THE TIGER interpretada pelo grupo Survivor, associada a garra e superação, presente no terceiro filme da franquia. Stallone agregou à trilha de Conti esse rock com a intenção de atrair um público mais jovem. EYE OF THE TIGER tornou-se um sucesso retumbante, tendo sido um dos singles mais vendidos do ano.

71) AMARGO PESADELO (John Boorman), 1972

Estrelado por Burt Reynolds e Jon Voight, esse polêmico filme, originalmente DELIVERANCE, cujo título em português dá uma ideia do tormento vivido por um grupo de 4 amigos que escalam um rio quando são atacados e seviciados por habitantes rudes da região. As cenas de violência sexual extrema foram suprimidas pela censura em sua primeira exibição no Brasil. O momento mais célebre ocorre quando um dos personagens faz um desafio musical com um banjo com um rapaz aparentemente deficiente mental da região (“DUELING BANJOS”). O duelo musical foi transposto para a trilha sonora do filme.  

72) ARQUIVO X (Chris Carter), 1993

A série televisiva, uma das mais duradouras da história, ficou no ar por nada menos do que 10 anos com 9 temporadas e mais de 200 episódios, dando origem também a um longa. Trata-se de uma temática insólita em que um casal de agentes do FBI investiga casos paranormais. O inconfundível tema de abertura foi composto por Mark Snow utilizando assobios, ecos e elementos eletrônicos.

73) HARRY & SALLY (Rob Reiner), 1989

Comédia romântica não precisa necessariamente ser piegas, como prova essa divertida e esmerada produção protagonizada por Meg Ryan e Billy Cristal, que passam o filme inteiro se estranhando até acabarem juntos. A cena do orgasmo no restaurante é emblemática.  A graciosa trilha sonora que fez tanto sucesso quanto o filme foi executada pelo estreante e promissor cantor e pianista Harry Connick, Jr, tido então como o futuro Sinatra e é composta por clássicos do jazz (irmãos Gershwin, Rodgers & Hart, Duke Ellington etc.) Ao fim, Connick Jr não se tornou um novo Sinatra nem emplacou novas trilhas, vindo a fazer alguns papéis como ator coadjuvante. O diretor Reiner teve outros filmes de importância como STAND BY ME (outra trilha memorável) e LOUCA OBSESSÃO (MISERY).

74) O FEITIÇO DA LUA (Norman Jewison), 1987

O diretor canadense Jewison carrega em sua bagagem filmes importantes como NO CALOR DA NOITE (trilha de Quincy Jones com tema de abertura de Ray Charles), O VIOLINISTA NO TELHADO (musical com temas tradicionais judaicos), THOMAS CROWN AFFAIR (trilha de Michel Legrand) e OS GLADIADORES DO FUTURO (André Previn). O FEITIÇO DA LUA (MOONSTRUCK) é uma comédia romântica que conferiu à cantora Cher o Oscar de melhor atriz, no papel de uma ítalo-americana que se apaixona pelo personagem vivido por Nicolas Cage. A trilha mescla canções populares italianas com trechos de ópera, com destaque para THAT´S AMORE interpretada por Dean Martin.

 75) BAGDAD CAFÉ (Percy Adlon), 1972

Essa curiosa comédia dramática que contrapõe uma turista alemã com aparência fora dos padrões de Hollywood e a dona de um decadente posto de estrada é uma produção germânica que se passa nos EUA com atores americanos (inclusive o veterano Jack Palance). A nostálgica trilha sonora capta a solidão dos personagens e o clima do deserto de Mojave na Califórnia, onde a trama se desenrola. Mas o grande destaque é a balada CALLING YOU (indicada ao Oscar), interpretada por Jevetta Steele, com um enxuto arranjo de piano e flauta que se tornou sucesso mundial. A interpretação da cantora gospel arrancou rasgados elogios da crítica que a compararam com Whitney Houston.

76) YELLOW SUBMARINE (George Dunning), 1968

Os Beatles, o grupo de pop-rock mais famoso da história, lançaram também alguns filmes (A HARD DAYS NIGHT, HELP!...). YELLOW SUBMARINE destaca-se por ser uma animação em que eles aparecem caricaturados numa aventura em que salvam a cidade de Pepperland, tomada por malignos homens azuis que detestam música. A trilha sonora original contém apenas 4 canções inéditas do grupo e não chegou a alcançar grande sucesso comercial. O lado B contém temas orquestrais compostos pelo produtor musical George Martin. Mais tarde, foi lançada uma nova versão com todas as canções executadas no filme, a maioria já presente em outros álbuns. Apesar de tais restrições, o filme ganhou o status de cult por seus traços psicodélicos que revolucionaram a estética dos desenhos animados.

 77)  DIÁRIOS DE MOTOCICLETA (Walter Salles), 2004

A saga de Che Guevara pela América Latina, sob a direção do cineasta de CENTRAL DO BRASIL, recebeu uma bela trilha composta pelo argentino Gustavo Santaolalla com a canção tema AL OTRO LADO DEL RIO de Jorge Drexler. Santaolalla compôs para 2 outros filmes do diretor brasileiro: LINHA DE PASSE e ON THE ROAD. O músico recebeu dois Oscars mas por outras trilhas, igualmente belas, BABEL e O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN. São dele também as trilhas dos mexicanos AMORES PEJOS e BIUTIFUL, do portenho RELATOS SELVAGENS e do americano 21 GRAMAS.

78) GÊNIO INDOMÁVEL (Gus Van Sant), 1997

Reconhecido como um dos mais talentosos diretores surgidos nos anos 90, em especial em temas que tocam a juventude, Gus tem em sua filmografia, obras-primas como O ELEFANTE, MILK A VOZ DA IGUALDADE, ENCONTRANDO FORRESTER, UM SONHO SEM LIMITES e PARANOID PARK. Nenhum deles alcançou a projeção de GÊNIO INDOMÁVEL com Matt Damon e Robin Williams (valendo-lhe um Oscar). A trilha foi assinada por Danny Elfman, mas o destaque ficou por conta das 6 canções do garoto-prodígio Elliott Smith que integraram o álbum, em especial MISS MISERY (indicada ao Oscar).

 79)  CORRIDA CONTRA O DESTINO (Richard Sarafian), 1971

CORRIDA CONTRA O DESTINO (VANISHING POINT) é um road movie que, apesar do baixo sucesso comercial, tornou-se cult em função das cenas de perseguição e das relações pessoais que o personagem estabelece pelo oeste dos EUA, misturando filosofia existencial e crítica social, bem ao gosto da contracultura dos anos 70. Nesse contexto, a trilha mescla rock psicodélico, country e blues refletindo o espírito de rebeldia e liberdade da época. Ficou famosa no Brasil por utilizar a magnífica FREEDOM OF EXPRESSION, canção executada pelo desconhecido conjunto J B Pickers (na verdade, um improvisado grupo de músicos que se reuniu para gravar essa faixa para o filme), que se tornou conhecida por ser utilizada na abertura do Globo Repórter.

 80) SINGLES, VIDA DE SOLTEIRO (Cameron Crowe), 1992

O filme estrelado por Bridget Fonda, Campbell Scott e Matt Dillon é uma simpática e descompromissada comédia romântica do mesmo diretor de JERRY MAGUIRE, QUASE FAMOSOS e VANILLA SKY (todos com trilhas sonoras pop rigorosamente selecionadas) que retrata a complicada relação de jovens à procura do par perfeito. A trama transcorre em Seattle, cidade em que emergia um efervescente movimento musical que se estendeu pelo planeta e revitalizou o rock. A trilha que se tornou referência reflete a atmosfera ‘grunge’, com bandas como Pearl Jam, Alice in Chains, Soundgarden, Screaming Trees etc.

  

 

 

Confira 3ª parte:

 https://oquedemimsoueu.blogspot.com/2025/10/trilhas-da-minha-vida-3-parte.html


Confira 5ª parte:

https://oquedemimsoueu.blogspot.com/2025/11/trilhas-da-minha-vida-5-parte.html