Passadas as comemorações de fim de ano, quando
já cumprimos o aborrecido ritual de cumprimentar por educação o petista (ou o
bolsonarista) que mora ao lado, podemos voltar a odiá-lo como sempre e
desejar-lhe, sem remorsos, uma morte sofrida.
Após o congraçamento universal, quando somos
enlevados pelo 'espírito natalino' e pelo 'amor ao próximo', estamos libertos
para retomar nossa guerra contra o insidioso inimigo que nos assombra.
Agora é cada um por si. Se não ocuparmos o
espaço, um meritocrata em busca da prosperidade pessoal, vai passar à nossa
frente. Nesse mundo competitivo, só os filhos mais espertos e eficientes de
Deus estarão aptos a ingressar no paraíso da abundância material e da vida
luxuriante a que só os guerreiros cristãos fazem jus. Já que, nessa Cruzada, alguém vai se dar mal, antes
seja ele do que nós.
Após a enxurrada de whattsapps que entupiram a
tela dos nossos celulares com 'sinceros' votos de Feliz Natal e Próspero Ano
Novo, provindos de gente de que desconhecíamos a existência desde
31/12/24, já devidamente encaminhados à
lixeira do cancelamento, chegou a hora de afiar as garras e repassar para
divulgação massiva de legionários da nossa turma os torpedos com injúrias
inomináveis, mentiras inquestionáveis e fake news abomináveis contra a honra
dos bastardos políticos da turma contrária que, por certo, nesse exato
instante, estão fazendo o mesmo contra os que militam em nosso time.
Os deslumbrantes fogos de artificio que, por
10 minutos, nos encantaram, já podem ceder lugar à artilharia pesada que os
bravos governantes que nos protegem lançarão contra os maléficos adversários
que, nos anteriores 364 dias, abasteceram-se de armas de destruição em massa
para nos aniquilar.
Os espetáculos de drones coloridos que
rasgaram os céus de Sydney, Dubai e Copacabana remetem-nos com orgulho à
certeza de que, com a mesma precisão, tal tecnologia está sendo usada para
torrar corpos de homens, mulheres e crianças, livrando o mundo de potenciais
inimigos, que se preparavam para nos dominar com sua perversa ideologia.
O começo do ano nos enche de esperança de que
em 2026, afinal estaremos livres das forças malignas que nos rondam.
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Mal.
E um infeliz ano novo para todos.

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